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28 dezembro 2025

Um homem de elite

 



Faz agora um ano, os candidatos ainda não eram conhecidos, escrevi uma série de 75 posts a defender a ideia de que o Almirante Gouveia e Melo seria um excelente Presidente da República para Portugal.

Se hoje reunisse em livro esses posts, que título lhe daria?

Daria o título que resume em três palavras as razões por que no próximo dia 18 de Janeiro vou votar no Almirante Gouveia e Melo: "Um homem de elite "

Portugal precisa desesperadamente de homens de elite na vida pública.

O final nem sempre é muito animador, mas tem uma explicação. O Almirante Gouveia e Melo é um homem de elite, mas antes de ser "de elite" já era homem. E os homens têm os seus defeitos.

1. Depois: cf. aqui

2. Valores: cf. aqui

3. Autoridade: cf. aqui

4. O espírito de comunidade: cf. aqui

5. Patriotismo: cf. aqui

6. Lealdade: cf. aqui

7. Responsabilidade e Justiça: cf. aqui

8. A Eficiência: cf. aqui

9. Assuntos sérios: cf. aqui

10. O Bem-comum: cf. aqui

11. Verdade: cf. aqui

12. Elite: cf. aqui

13. Ordem: cf. aqui

14. A Economia: cf. aqui

15. Realismo: cf. aqui

16. Chefe-de-Estado: cf. aqui

17. A democracia: cf. aqui

18. Liberdade vs. Autoridade: cf. aqui

19. Pode ou não pode?: cf. aqui

20. Uma cultura de meninos mimados: cf. aqui

21. A moldagem psicológica do campo de batalha: cf. aqui

22. Um libertador: cf. aqui

23. O Teorema do Menino Mimado: cf. aqui

24. Misterioso: cf. aqui

25. A liberdade católica: cf. aqui

26. Os profissionais da liberdade: cf. aqui

27. Na terra de Salazar: cf. aqui

28. A liberdade de derrubar governos: cf. aqui

29. Declaração de interesses: cf. aqui

30. A vantagem comparativa: cf. aqui

31. Mondego: cf. aqui

32. O inimigo vai ganhar: cf. aqui

33. Partidos políticos: cf. aqui

34. O maior erro: cf. aqui

35. Ideias liberais: cf. aqui

36. O Estado Subsidiário: cf. aqui

37. Milagres: cf. aqui

38. Um candidato anti-sistema: cf. aqui

39. Iniciativa privada: cf. aqui

40. A grande dificuldade: cf. aqui

41. Marinheiros e piratas: cf. aqui

42. O momento: cf. aqui

43. Vai ser preciso homem: cf. aqui

44. O sentido do futuro: cf. aqui

45. Parabéns ao Almirante: cf. aqui

46. Os Quatro e Meia: cf. aqui

47. Os despoderados: cf. aqui

48. Um Estado novo: cf. aqui

49. As capoeiras: cf. aqui

50. Os fuzileiros: cf. aqui

51. Pessoas, não Partidos: cf. aqui

52. Democracia à portuguesa: cf. aqui

53. O ocaso dos Partidos: cf. aqui

54. Sem sair de casa: cf. aqui

55. Antes que venha outra ditadura: cf. aqui

56. Confiança: cf. aqui

57. A Marinha: cf. aqui

58. A crise do Estado de Direito: cf. aqui

59. O primeiro: cf. aqui

60. A promiscuidade: cf. aqui

61. Armas ou manteiga: cf. aqui

62. Amigos: cf. aqui

63. Claramente de Direita: cf. aqui

64. Um caminho: cf. aqui

65. A cultura dos amigos: cf. aqui

66. O Muro da Vergonha: cf. aqui

67. Entre o socialismo e o socialismo: cf. aqui

68. Uma donzela desonrada: cf. aqui

69.  Decepção: cf. aqui

70. Muito manteigueiro: cf. aqui

71. O mesmo caminho: cf. aqui

72. O povo zangado: cf. aqui

73. O actual e o futuro: cf. aqui

74. Um ciclista sem bicicleta: cf. aqui

75. Um Almirante entalado: cf. aqui

25 abril 2025

CUATRECASAS - Uma Máfia Legal (7)

 (Continuação daqui)

Fonte: cf. aqui


7.  Como veio a acontecer


Afinal o que é que havia naquele Protocolo que me causou tanta indignação?

-Era profundamente ingrato e leonino. Senti-o como uma grande punhalada nas costas.

A administração do HSJ tinha-me pedido o favor de continuar o Projecto do Joãozinho, iniciado no Hospital uns anos antes. Mas quem lesse aquele Protocolo redigido pela Cuatrecasas iria concluir que era a administração do HSJ que me fazia o grande favor de permitir que eu fizesse a Obra e a pagasse.

Foi no final de Abril de 2015. Os trabalhos estavam a decorrer há quase dois meses, eu estava profundamente comprometido, tinha já assinado vários contratos por aquela Obra, incluindo contratos de mecenato e um contrato de empreitada no valor de 20,2 milhões de euros com um consórcio de construtoras.  Foi nessa altura que fui confrontado com o documento, ao mesmo tempo que a administração do HSJ mandou parar os trabalhos, até que eu o assinasse.

Os trabalhos só seriam recomeçados quando eu obtivesse a licença da Câmara Municipal do Porto para fazer a Obra, quando, na realidade, era sabido que obras destinadas a serviços de saúde nos terrenos do Hospital estavam isentas de licenciamento camarário. À parte a cedência do projecto de arquitectura e a disponibilização do espaço para fazer a obra (uma cláusula que o HSJ nunca viria a cumprir), o Protocolo só continha obrigações para a Associação Joãozinho e para mim próprio, e nenhumas para o Hospital, nem sequer um agradecimento aos mecenas.

Nenhuma das modalidades de cooperação que o Hospital prometera à Associação era mencionado no Protocolo, como o seu envolvimento na angariação de mecenas, a concessão de certos benefícios aos mecenas (v.g., estacionamento), a disponibilidade para colocar o nome dos mecenas no edifício da ala pediátrica. Se a obra fosse interrompida por qualquer motivo, o HSJ ficava com a prerrogativa de se apropriar dela e pôr a Associação Joãozinho dali para fora. Cúmulo dos cúmulos, se a Associação não conseguisse angariar junto dos mecenas todo o dinheiro necessário para pagar a obra, ficava eu pessoalmente responsável por a pagar. Por fim - a cereja em cima do bolo -, se eu ou a Associação Joãozinho não cumpríssemos qualquer destas múltiplas obrigações que o Protocolo nos impunha seríamos levados a tribunal. 

De mecenas por consentimento, se eu assinasse aquele documento, passaria a ser o autor da minha própria ruína e de todos aqueles que viviam à minha volta. O Protocolo estava feito para que eu o rejeitasse e a Obra fosse entregue a uma empresa amiga do PSD (como veio a acontecer, por um valor substancialmente superior).

Por outro lado, o processo estava já demasiadamente adiantado, e com múltiplos compromissos assumidos, para que eu pudesse desistir facilmente. Durante um tempo, eu e a minha colaboradora Fátima Pereira, que é jurista, procurámos negociar uma versão aceitável do Protocolo com a administração do HSJ e com a Cuatrecasas, onde agora dava a cara o sub-director do escritório do Porto, Filipe Avides Moreira, o típico "Betinho da Foz" - uma casta que só existe no Porto, são filhos-família, meninos mimados que vivem do nome de família, casam-se uns com os outros, falam com trejeitos, gostam de salamaleques, mas não valem grande coisa. Até que de um lado e do outro os telefones deixaram de ser atendidos.

Foi então que decidi adoptar a única solução que me restava e que tinha grandes probabilidades de êxito numa cidade fortemente comunitária como é a cidade do Porto - o escândalo público. O comentário no Porto Canal saiu fulminante e certeiro. O eurodeputado Paulo Rangel foi literalmente apanhado de calças na mão, numa situação de conflito de interesses que a partir de 2019 viria a ser proibida pelas leis anti-corrupção -  um eurodeputado  aproveitava as suas funções públicas para promover interesses privados, acumulando com a direcção da Cuatrecasas.

O comentário foi altamente eficaz. Em Julho, uma versão aceitável do Protocolo estava a ser assinada entre o HSJ, a Associação Joãozinho e o consórcio Lucios-Somague. Porém, uns meses depois, recebi uma notificação do Ministério Público de Matosinhos para comparecer na qualidade de denunciado.

(Continua acolá)

18 abril 2025

Uma cultura

Uma cultura de meninos mimados (cf. aqui)
 

05 janeiro 2025

Almirante Gouveia e Melo (XLV)

(Continuação daqui)


 


XLV. Parabéns ao Almirante


Passaram agora dez anos sobre a data em que publiquei um livro com o subtítulo "Portugal é uma Figura de Mulher".

A Mulher concluiu agora que não consegue governar a casa sozinha. Não admira, ainda por cima uma casa de meninos mimados (cf. aqui).

E decidiu chamar um homem. Coube a sorte ao Almirante Gouveia e Melo, fardas altas, olhos verdes...

Parabéns ao Almirante.

Mas eu não lhe invejo a sorte.

(Continua acolá)

02 janeiro 2025

Almirante Gouveia e Melo (XLIV)

(Continuação daqui)




XLIV. O sentido do futuro


Certo dia, numa conferência em que defendi a tese de que a cultura portuguesa é uma cultura feminina, no final, um senhor levantou-se muito indignado comigo acusando-me de sugerir que os portugueses eram homossexuais.

Estive para cair para o lado, mas aguentei-me e expliquei que não, antes pelo contrário. Que Portugal possui uma cultura feminina eu não tinha dúvidas nenhumas e já outros tinham chegado à mesma conclusão, embora por outros caminhos (cf. aqui).

O meu caminho tomava por base a cultura católica do povo português que tem no centro a figura de uma Mulher, Maria, a Mãe, por oposição  à cultura protestante que tem no centro a figura de um Homem, Cristo.

Na cultura católica dos portugueses a Mãe é o centro da comunidade (família) e a principal educadora. Ora, um rapaz educado sobretudo pela mãe sabe muito melhor, mais tarde, como agradar às mulheres do que um rapaz educado sobretudo pelo pai. Conclusão, o homem de cultura católica é muito mais sedutor para as mulheres do que o homem da cultura protestante.

Os valores, as capacidades e os talentos humanos existem igualmente em homens e mulheres, sendo raríssimos aqueles que existem exclusivamente no homem ou exclusivamente na mulher (v.g., a capacidade para dar à luz). A diferença está no grau, uns existem com maior intensidade nos homens do que nas mulheres e outros são mais intensos nas mulheres do que nos homens.

Eis alguns valores mais masculinos do que femininos (reproduzidos largamente de um post de 2011: cf. aqui):  racionalidade, imparcialidade, capacidade de julgamento, sentido de justiça, autoridade, objectividade (realismo), espírito público, capacidade de pensamento abstrato, sentido de futuro.

Eis agora alguns valores mais femininos que masculinos: emotividade, parcialidade, tolerância, compaixão, espírito privado, imaginação, capacidade para valorizar o concreto e o presente e para conservar o passado.

Num povo de cultura católica predominam os valores femininos, sendo que os valores masculinos  são típicos de uma pequena elite desta cultura. Esta elite é predominantemente constituída por homens (tendo como referência os cardeais da Igreja Católica) que são o oposto dos meninos mimados tão característicos desta cultura (cf. aqui). Em certo sentido, a elite de um país de tradição católica encontra-se entre  aqueles rapazes que, um dia, conseguiram sair debaixo das saias da mãe. 

Um dos valores desta elite, como referi acima, mas que é raramente mencionado, é o seu sentido de futuro. É esse sentido de futuro que está patente na entrevista que o Almirante Gouveia e Melo deu ao Podcast Bitalk (cf. aqui)  quando visiona um futuro para Portugal orientado para o mar e para a economia do mar, um futuro que está perfeitamente pensado e estruturado no seu pensamento (cf. aqui).

(Continua acolá)

16 dezembro 2024

Almirante Gouveia e Melo (XXV)

 (Continuação daqui)




XXV. A liberdade católica


Em poucos meses, entre Setembro de 1973 e Abril de 1974, aconteceram duas revoluções de sentido inverso em dois países católicos. Portugal substituiu um regime de inspiração militar por um regime socialista. Meses antes, o Chile substituiu um regime socialista por um regime militar. O crescimento económico baixou drasticamente em Portugal e subiu em flecha no Chile.

A eleição do Almirante Gouveia e Melo para a Presidência da República não vai tornar Portugal um regime militar ao estilo do Chile do General Pinochet. Mas a sua formação e postura de militar podem certamente influenciar a sociedade e a economia portuguesa no mesmo sentido que o General Pinochet, com muito mais poderes, conseguiu definir para o Chile.

Como já tinha acontecido no Portugal de Salazar que, à sua morte, deixou um Estado pequeno a pesar somente 16% no PIB (contra os cerca de 50% actuais) e na Espanha de Franco, o Chile de Pinochet foi uma economia fortemente liberal, que veio substituir a economia socialista de Salvador Allende.

Na realidade, Pinochet chamou os famosos Chicago Boys (economistas chilenos formados na Universidade de Chicago, a meca do liberalismo económico, onde pontificavam  Milton Friedman e Friedrich Hayek) para restaurarem a economia do país, e convidou mesmo Friedman e Hayek para visitarem o Chile e aconselharem sobre o caminho a seguir.

Parecia mais um paradoxo  daqueles em que a cultura católica é tão fértil (cf. aqui), e um paradoxo até hoje nunca resolvido - um regime autoritário a promover o liberalismo económico. Friedman e Hayek  nunca conseguiram explicar o paradoxo (que ocorreu também no Portugal de Salazar e na Espanha de Franco) e morreram sem nunca compreender exactamente aquilo de que eles próprios tinham sido parte.

É isso que me proponho fazer agora, e que se pode resumir assim: 

Enquanto na cultura protestante (que é a cultura dos economistas, cuja ciência nasceu na muito protestante Escócia pela mão do muito protestante-calvinista Adam Smith), a liberdade exige que se tire a autoridade do caminho, na cultura católica a liberdade exige que se ponha a autoridade no caminho. Por outras palavras, na cultura protestante a liberdade exclui a autoridade, ao passo que na cultura católica a autoridade é a condição sine qua non da liberdade.

A Reforma Protestante tirou do caminho a autoridade e o monopólio da Igreja Católica na interpretação das Escrituras deixando o caminho aberto para que cada um interpretasse as Escrituras livremente e escolhesse individualmente o seu caminho para Deus e, mais geralmente, o seu destino de vida. É esta a liberdade protestante, uma liberdade de escolha, que tira a autoridade do caminho.

É diferente na cultura católica. O caminho é comum, e cada pessoa é cooptada para o caminho comum pelo sacramento do baptismo. Ao contrário do protestantismo, no catolicismo não se dá a cada um a liberdade de escolher o seu caminho. Pelo contrário, o caminho é dado a cada um logo após o nascimento, é definido pela comunidade [ecclesia] e imposto pela tradição.

Não custa agora imaginar uma multidão católica - uma cultura que tem uma grande propensão para produzir meninos-mimados, a maioria conseguindo morrer sem nunca deixar de o ser - a percorrer o mesmo caminho em direccão a Deus e ao seu destino comum.

Não vai ser uma caminhada pacífica. Há um mais forte que, pelo caminho, bate no mais fraco, o espertalhão que engana o crédulo, o rapaz que assedia a rapariga, o invejoso que não deixa o inteligente seguir em frente, o safado que passa uma rasteira ao que segue na dianteira. Nada disto acontece entre os protestantes porque a caminhada é feita a solo. Ninguém incomoda ninguém.

Na caminhada da comunidade católica é necessária uma autoridade que proteja os mais fracos e vulneráveis da opressão dos mais fortes e poderosos. Sem essa autoridade, a liberdade é uma fonte de opressão de uns sobre os outros. 

Na Igreja Católica, essa autoridade pertence, em última instância, ao Papa, uma palavra que significa Pai. É essa também a função do pai de família. É a autoridade do pai de família que assegura a liberdade de todos os seus filhos, caso contrário, os mais velhos passariam o tempo a bater nos mais novos.

Resulta daqui que, se a liberdade protestante tem o sentido de liberdade de escolha, a liberdade católica tem o sentido de libertação (da opressão), e essa liberdade da opressão só a autoridade consegue assegurar.

O paradoxo está, portanto, explicado. Na cultura católica só existe liberdade sob a autoridade, e é por isso que os regimes de Salazar, Franco e Pinochet, com a sua autoridade e o seu liberalismo, produziram verdadeiros milagres económicos nos seus respectivos países. 

O Almirante Gouveia e Melo na Presidência da República pode ser a inspiração para que o milagre se repita de novo em Portugal, depois dos últimos 25 anos de um autêntico marasmo económico.

(Continua acolá)

15 dezembro 2024

Almirante Gouveia e Melo (XXIII)

 (Continuação daqui)


SIC: "Presidenciais 2026: Líder do PS descarta apoio a Gouveia e Melo" (cf. aqui)


XXIII. O Teorema do Menino-Mimado

Foi logo num dos seus primeiros discursos como primeiro-ministro, enquanto procurava ainda encontrar um caminho para reconstruir o Estado e a sociedade portuguesa em novas bases, que Salazar, invocando uma característica típica do menino-mimado, escreveu que o socialismo não era bom para Portugal porque "os portugueses, comodistas como são" (sic), iriam acabar todos a viver à custa do Estado.

Não se enganou por muito. Aquilo que ele não podia antever na altura é que cerca de cinquenta anos depois, essa sua intuição receberia uma fundamentação científica no famoso Teorema do Menino-Mimado do economista Gary Becker (The Rotten Kid Theorem: cf. aqui).

 O Teorema do Menino-Mimado vem explicar por que é que os meninos-mimados são geralmente socialistas e às vezes até parecem, aos olhos dos outros, boas pessoas, e verdadeiros altruístas. E vem também esclarecer como é que num período de crise da família como é o actual - em que existem cada vez menos famílias, as famílias são menos permanentes e, portanto, cada vez é menor a sua capacidade para sustentar meninos-mimados - eles se mudam, de armas e bagagens, da família para o Estado.

Na sua formulação mais simples - que ilustrei noutro lugar (cf. aqui) -, o Teorema do Menino-Mimado afirma que, embora o menino-mimado seja um egoísta radical, existem certas situações em que ele está pronto a sacrificar o seu egoísmo, e até a dar a aparência de que é um altruísta. Essas situações ocorrem se o seu sacrifício pessoal fôr mais do que compensado pelos benefícios que ele espera receber do seu benfeitor (família, padrinho, Estado) em resultado do seu sacrifício.

Suponhamos que o Estado anuncia um grande programa social destinado a apoiar quem não trabalha, que custa 800 milhões de euros ao ano e, ao mesmo tempo, anuncia um aumento de impostos para o financiar.

O menino-mimado, depois de fazer as contas, chega à conclusão que vai pagar mais 100 euros por ano de IRS para financiar este programa, mas que, ao mesmo tempo, o programa lhe vai proporcional dois mil euros em novos subsídios para continuar a viver à pala do Estado. 

Claro que ele vai ser favorável a este programa. Ele até virá para os jornais apoiar fortemente o programa destinado a ajudar os pobrezinhos, coitadinhos, que não têm dinheiro para comer; e até menciona orgulhosa e altruisticamente que ele será o primeiro a pagar os impostos necessários para o financiar. Aquilo que esconde é que, ele próprio, será um dos principais beneficiários do programa. No fim, o povo acaba a pagar a grande fatia do programa e uma pequena minoria, que inclui o menino-mimado, é que goza dele.

É assim que o Estado socialista vai engordando, ora para ajudar os pobrezinhos, ora para vacinar os animais, ora para estudar cientificamente a solidão das cobras nas Ilhas Berlengas, ora para alfabetizar as velhinhas em Trás-os-Montes, ora para financiar os partidos que são o coração da democracia. Sob uma vasta gama de pretextos, o povo é chamado a pagar cada vez mais impostos para financiar cada vez mais projectos do Estado enquanto o menino-mimado português que, até aos 35 anos de idade vivia à conta dos pais (cf. aqui), a partir daí passa a viver comodamente à conta dos contribuintes.

Não deve ser surpresa para o Almirante Gouveia e Melo que os seus principais adversários - eu diria mesmo, inimigos - na campanha para as Presidenciais que se desenha, se encontrem à esquerda, com destaque para a chamada esquerda-caviar porque é aí que estão, em primeiro lugar, os meninos-mimados, aqueles que nunca fizeram nada na vida, excepto política.

(Continua acolá)

Almirante Gouveia e Melo (XXII)

 (Continuação daqui)




XXII. Um libertador


Foi o economista norte-americano Gary Becker (Prémio Nobel, 1992, cf. aqui) que introduziu o tema da Família no âmbito da investigação económica. Ele é também o autor do célebre Teorema do Menino Mimado ou, no original americano, The Rotten Kid Theorem (cf. aqui).

Proponho-me agora começar a responder à questão que coloquei no último post, a questão de saber como é uma família de meninos  mimados quando os pais foram postos fora de de casa.

Noutro lugar, descrevi as características do menino mimado,  

"O menino-mimado é um egoísta radical. Ele não gosta de ninguém, excepto de si próprio. Ele não mexe uma palha na vida, excepto se daí esperar retirar um benefício pessoal. Não existe nele uma ponta de altruísmo. Para ele, todos os meios justificam os fins, desde que conduzam à gratificação do seu ego. Ele invoca as leis básicas da moralidade quando elas o beneficiam, mas recusa-se a cumpri-las quando elas beneficiam os outros. Na sua visão, a vida é uma rua de um só sentido. Os motivos que o gratificam são frequentemente irracionais, meros caprichos, devaneios e fantasias. Quando contrariado, ele reage sempre de forma intempestiva - esperneia, faz birras, insulta, vinga-se" (cf. aqui).

Mas a principal característica do menino mimado, e aquela que resume todas as outras, é o seu gosto e o seu hábito de viver à custa dos outros.  

Por isso, no momento em que os pais são postos fora de casa, os meninos mimados a primeira coisa que fazem é envolverem-se numa grande luta pelo poder afim de controlar o património da família que eles passarão a distribuir em substituição dos pais, cada um na expectativa de reservar uma fatia maior para si.

Na ausência do pai, que garantia a autoridade, e da mãe, que assegurava o sentido de comunidade, esta luta não conhece regras, vale tudo, e em breve os manos se vão organizar em grupos concorrentes (as "capoeiras", nas palavras do Almirante Gouveia e Melo), que acabarão a odiar-se entre si, para mais eficazmente deitarem a mão ao pote. 

É uma guerra sem quartel onde a força e a esperteza acabarão por prevalecer sobre a justiça e a honestidade: os mais velhos a submeterem os mais novos, os rapazes a humilharem as raparigas, os mais fortes a vergarem os mais fracos, o chico-esperto a enganar o irmão honesto.

Habituados a tudo irem buscar ao frigorífico sem nunca se preocuparem em pôr lá alguma coisa, em breve o património familiar começa a diminuir e a família a empobrecer, o que só torna a luta pelo poder  - que é, em última instância, uma luta pelo controlo do património comum - ainda mais feroz

No fim, uma casta de meninos mimados que nunca fez nada na vida excepto política, que é nisso que consiste a luta pelo poder, domina a família e controla o património familiar. Apropria-se de um quinhão desmesurado da riqueza comum, faz regras que a beneficiam a si própria, serve-se a si própria em lugar de servir a família, despreza os irmãos que não têm poder, agora obrigados a trabalhar como quaisquer pessoas decentes para se sustentarem a si próprios e à casta (*).

O sentimento de opressão vai inevitavelmente surgir nesta família e partirá daqueles que só contribuem para o património comum,  e nada recebem. São estes que vão clamar por um Pai que venha restabelecer a autoridade e repôr a justiça na família.

Esta figura de autoridade aparecerá como um libertador. Será ele que libertará a família da opressão que sobre ela é exercida pela casta dos meninos mimados, pondo em evidência uma diferença essencial entre a concepção protestante de liberdade e a concepção católica.

Para os protestantes, a liberdade é uma liberdade de escolha, em primeiro lugar dos caminhos para chegar a Deus. Na tradição católica só existe um caminho para Deus, que é definido pela Igreja (comunidade), imposto pela tradição e igual para todos.

Para o povo católico a liberdade tem um significado diferente. É libertação da opressão, é liberdade em relação àqueles que o abusam e o oprimem.

É isso que o povo português espera do Almirante Gouveia e Melo.

_____________________________________

(*) "a casta" é o título do post que internacionalizou este blogue levando-o até ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem em Estrasburgo: cf. aqui


(Continua acolá)

14 dezembro 2024

Almirante Gouveia e Melo (XXI)

 (Continuação daqui)




XXI. A moldagem psicológica do campo de batalha

Não existe, nem nunca existiu, sociedade humana, país ou civilização sem Deus. Algumas civilizações tiveram vários deuses, outras tiveram só um, como a cristã, mas aquilo que não se conhece é uma civilização ateia.

Por isso, a ideia que as pessoas fazem de Deus e do caminho para chegar a Ele é o factor mais determinante da cultura de um povo. Por duas vezes, na sua palestra recente na Gulbenkian, o Almirante Gouveia e Melo se refere a Deus (cf. aqui) parecendo óbvio que se está a referir ao Deus cristão e católico.

No catolicismo chega-se a Deus através da autoridade (da Igreja), por isso o valor da autoridade é sagrado nesta cultura. Pelo contrário, no protestantismo chega-se a Deus através da liberdade (de interpretação das Escrituras), pelo que a liberdade é um valor sagrado para o protestantismo.

Aquilo que a Revolução de Abril veio fazer foi substituir a autoridade do Estado Novo, personalizada em Salazar e depois em Marcelo Caetano, pela liberdade que é característica de um regime de democracia liberal.

Mas além desta ruptura, a Revolução de Abril produziu outras rupturas, como a que descrevo a seguir.

Na religião católica chega-se a Deus em comunhão, através da Igreja (do grego ecclesia: comunidade), o caminho é comum e igual para todos. Daí que o comunitarismo, ou sentimento de comunidade,  seja um valor também sagrado para o catolicismo. No protestantismo é diferente, os protestantes chegam a Deus individualmente. O correspondente valor sagrado para o protestantismo é o individualismo.  

No Estado Novo, o sentimento de comunidade que unia os portugueses era largamente assegurado pela Igreja Católica, a figura teológica de Maria, a Mulher e a Mãe. Como enfatizou o próprio Salazar:

A adesão da generalidade das consciências aos princípios de uma única religião e aos ditames de uma única moral (a Católica) foi, através dos séculos, um dos mais poderosos factores de unidade e coesão da Nação Portuguesa”.

Quer dizer, na comunidade ou família portuguesa, muito propensa a produzir meninos mimados (cf. aqui), que tinha uma autoridade, um Pai ou um "Papa", na figura de Salazar e depois Marcelo Caetano, a Revolução de Abril veio acabar com a autoridade do Pai, substituindo-a pela liberdade, e afugentar a mãe, a Igreja Católica.

A questão importante para a "moldagem psicológica do campo de batalha" que o Almirante Gouveia e Melo vai ter de enfrentar é, portanto, a seguinte.

-Como é que se comporta uma família de meninos mimados em que o pai (a figura de autoridade) e a mãe (a figura de comunidade) foram postos fora de casa?

(Continua acolá)

Almirante Gouveia e Melo (XX)

 (Continuação daqui)




XX. Uma cultura de meninos mimados

O Almirante Gouveia e Melo virá trazer autoridade ao Estado português, em primeiro lugar e, pelo exemplo, à sociedade portuguesa em geral, uma autoridade que corrija e impeça os desmandos da liberdade.

Mas, numa espécie de "moldagem psicológica do campo de batalha", para utilizar uma linguagem que  é cara ao Almirante, a primeira questão a colocar é a seguinte: 

-Qual é o perfil dos portugueses a quem ele vai ter de impôr autoridade e, em certo sentido, coartar a liberdade?

A estatística que mencionei anteriormente (cf. aqui), segundo a qual nos países protestantes os jovens saem de casa dos pais por volta dos 20 anos, enquanto nos países católicos, como Portugal, ficam lá até bem acima dos trinta, ajuda a construir esse perfil.

Existe algo de infantil, acriançado ou adolescente no homem e na mulher portuguesa (segundo as mesmas estatísticas, mais nele do que nela), que o leva até bastante tarde a acomodar-se na casa da família, entregue aos cuidados da mãe e à autoridade do pai, que lhe garantem a satisfação das necessidades básicas - cama, mesa e roupa lavada - sem que ele tenha de se mexer.

O jovem protestante faz-se cedo à vida, tem um grande sentido de independência e de liberdade em relação à família, começa a trabalhar cedo para se sustentar e pagar os estudos, ao passo que o jovem católico fica comodamente instalado na casa dos pais à espera que tudo lhe caia do céu. 

Não será necessário acrescentar mais nada para explicar por que é que nos últimos séculos a produtividade, a inovação, a propensão ao risco e a criação de riqueza têm estado sobretudo nos países protestantes do norte da Europa e nos seus descendentes na América do Norte, e não nos países católicos do sul da Europa e seus descendentes da América Latina. A ética do trabalho - o próprio trabalho como modo de realização pessoal - não são comparáveis entre uns e outros.

Além daquela estatística, existe uma outra que ajuda a tornar mais preciso o retrato das pessoas que o Almirante vai ter de pôr na ordem para cumprir a sua missão de Presidente da República. Refiro-me a uma estatística publicada pelo The Economist relativa à maneira como as crianças são tratadas nos diversos países do mundo (actualmente, cerca de 200).

 Portugal encontra-se no Top-10%, sendo o 17º país do mundo que melhor trata as crianças. Mas existe uma subcategoria onde Portugal tem ainda maior destaque, é aquela relativa à maneira como as crianças são tratadas no seio da família e do grupo de amigos. Portugal é segundo no mundo, logo a seguir à Itália (cf. aquiaqui). 

Conclusão: Portugal é o segundo país do mundo onde as crianças são mais mimadas pela família e pelos amigos. A principal responsável por este resultado é, evidentemente, em termos culturais, a Mãe, quer dizer, a Igreja Católica, que é a figura teológica de Maria. Em concreto, é a mamã portuguesa que só é superada pela célebre mamma italiana. Não há como elas para mimar crianças.

Juntando os diversos elementos, começa a emergir o perfil das pessoas com quem o Almirante vai ter de lidar e pôr na ordem. Ele vai ter de lidar com uma cultura de meninos mimados (mais eles do que elas).

(Continua acolá)

10 outubro 2023

uma instituição socialista

 


O Papa Francisco vai deixar uma herança muito pesada na Igreja Católica. 

Talvez nunca tenha existido um Papa que politizasse tanto a Igreja como ele.

Depois do Papa Francisco, a Igreja deixou de ser uma instituição comunitária - que é o significado próprio da palavra igreja (ecclesia, comunidade) - para passar a ser uma instituição sectária.

O Papa Francisco deixa a Igreja com a imagem de uma instituição socialista. A elevação recente do bispo Américo Aguiar a cardeal é apenas mais um passo nesse sentido.

Naquela que é talvez a mais falada das suas encíclicas - a Encíclica Fratelli Tutti (cf. aqui) - fica claro que a única maneira de extirpar a pobreza do mundo é acabar com os ricos.

Não surpreende que meninos mimados que andam por aí, revolucionários de vão-de-escada deste país profundamente católico, lhe sigam a doutrina.

13 maio 2023

à procura do próximo

 


Seria uma injustiça atribuir ao Marquês de Pombal (cf. aqui), ou aos políticos modernos, a sua ambição de gerir Portugal como se fosse uma quinta, da qual cada um deles ambiciona ser o capataz.

São necessários dois para dançar o tango, e ao lado do político ambicioso para se tornar um capataz, existe um povo que, perante cada problema ou adversidade da vida, constantemente clama por uma figura de autoridade, que lhe resolva os problemas, pela força se necessário fôr, que é isso precisamente que faz o capataz.

A estatística que mais me embaraça acerca de Portugal não tem nada que ver com economia. É a estatística que põe Portugal no topo dos países da União Europeia onde os filhos saem mais tarde de casa dos pais (cf. aqui). O português médio sai de casa dos pais aos 34 anos de idade. Esta é a idade média, significando que muitos saem de casa dos pais com 40 anos e mais. Eu não consigo imaginar uma mamã a fazer a comida e a cama, e a lavar a roupa de um menino de 40 anos, e muito menos de uma menina, e ainda a pôr-lhe o despertador de manhã para ele não chegar atrasado ao emprego. 

Quem olhar para o gráfico acima rapidamente conclui que os países onde os filhos saem mais tarde de casa dos pais são países de influência predominantemente católica, como Portugal ou a Croácia, e os países onde os filhos saem mais cedo de casa dos pais são países de influência predominantemente protestante, como a Suécia ou a Dinamarca. 

(Em todos os casos as mulheres saem mais cedo do que os homens porque é sabido que as mulheres são mais independentes do que os homens. A figura do "menino da mamã" é muito mais corrente do que a figura da "menina da mamã (ou do papá)")

Houve já quem escrevesse que, nos países protestantes, as crianças parecem, às vezes, adultos. Faltou-lhe acrescentar que nos países católicos os adultos parecem, às vezes, crianças.

O catolicismo venera a figura de Maria - a Mãe -, ao passo que o protestantismo não venera a figura de Maria (nem dos santos), mas apenas a de Cristo (o princípio protestante "Solo Christus"). A própria Igreja Católica - a Santa Madre Igreja - é a figura teológica de Maria ao passo que nenhuma das igrejas protestantes reclama tal estatuto - são todas igrejas de Cristo. 

A figura da Mãe, e mais geralmente a figura da Mulher, tanto pode ser uma figura extraordinariamente inspiradora como uma figura extraordinariamente protectora, e até as duas coisas ao mesmo tempo.

Houve um tempo em que a Igreja Católica - a figura teológica da Mãe e da Mulher - foi uma figura extraordinariamente inspiradora, como sucedeu em Portugal na época dos Descobrimentos, em que intrépidos (cf. aqui) portugueses desbravaram oceanos desconhecidos, correndo os mais impressionantes riscos, e pagando-os frequentemente com a vida.

Hoje parece que a Igreja Católica - e a cultura feminina que ela criou em Portugal -,  é uma figura sobretudo protectora em que meninos mimados passam o tempo a chamar pela mãe (e pelo pai) para lhes resolver os problemas e, quando estes não o conseguem fazer, chamam por uma figura de autoridade política que o faça, que é a figura do capataz.

Portugal tem tido vários capatazes ao longo da sua história. E eu estou cada vez mais convencido que anda à procura do próximo. 

11 junho 2022

em casa com a mamã

Quando Portugal aderiu à Convenção Europeia dos Direitos do Homem (CEDH) em 1978, comprometeu-se, não apenas a aplicar as decisões do TEDH na ordem interna, mas também a seguir a jurisprudência do TEDH nas questões sujeitas à jurisdição deste Tribunal

No post anterior, eu julgo ter exposto de forma clara o ponto mais importante da jurisprudência do TEDH sobre o conflito entre o direito à liberdade de expressão e o direito à honra. 

O artigo 10º da CEDH no seu nº 1 afirma o direito à liberdade de expressão (cf. aqui). O nº 2 deste artigo, enumera as restrições a este direito, e entre essas restrições encontra-se a proteção da honra. Porém, existem duas situações em que estas restrições não se aplicam - o discurso político e a discussão de questões de interesse geral. Nestas situações, o direito à liberdade de expressão prevalece de forma absoluta sobre todas estas restrições, incluindo a proteção da honra.

A esta luz, o que pensar dos seguintes casos recentes da justiça portuguesa?

-O Ministério Público pede o levantamento da imunidade parlamentar do deputado André Ventura para dar seguimento a uma queixa da deputada Mariana Mortágua por ofensas  à sua honra (cf. aqui).

-O deputado Pedro Frazão é condenado em primeira instância e a condenação é confirmada pela Relação de Lisboa, por ofensas à honra do conselheiro de Estado e militante do BE, Francisco Louçã (cf. aqui).

-O candidato a PR,  André Ventura, é condenado por ofensa à honra de uma família que aparece numa fotografia na companhia do outro candidato a PR durante um debate televisivo entre os dois. E a sentença é confirmada pela Relação de Lisboa (cf. aqui).

-O Presidente da Câmara do Porto põe em tribunal uma ex-vereadora do PSD porque esta ofendeu a sua honra, chamando-lhe uns nomes feios nas redes sociais (cf. aqui).

Tudo isto são palhaçadas judiciais à portuguesa. Nada disto é crime, nada disto configura qualquer ilícito. Nada disto viola a jurisprudência do TEDH, a qual Portugal se comprometeu a seguir.

Estas palhaçadas servem para mostrar a corrupção da justiça que se deixa prostituir pelo poder político. Servem também para enriquecer advogados (frequentemente à custa do erário público) e para dar a entender à população que os magistrados do MP e juízes trabalham muito e, por isso, não têm tempo para se ocupar de questões judiciais a sério que se arrastam anos nos tribunais.

Nada disto tem valor, é puro lixo judicial. Imaginar o presidente da Câmara do Porto ou o conselheiro Louçã a queixarem-se à justiça como dois meninos mimados se queixam à mãezinha porque outro menino (num caso, uma menina) lhes chamou uns nomes feios, desafiaria toda a imaginação, se não fosse mesmo verdade.

É claro que isto só acontece e é aceite no país porque a cultura permite. A jurisprudência democrática do TEDH passa a seguinte mensagem aos ofendidos nestas situações: "Portem-se como homens, defendam-se!" porque a democracia - não é popular dizê-lo, mas é verdade - é um regime político que releva de uma cultura masculina (protestante).

A democracia não foi feita para meninos mimados. Muito menos para meninas. Numa democracia, meninos mimados e meninas não devem vir para o espaço público, e muito menos exercer funções públicas para não se exporem à ofensa. Devem ficar em casa com a mamã. É esta a mensagem principal da jurisprudência do TEDH.

27 julho 2018

peste

Isto de a miudagem gostar de dizer (e fazer) umas maldades, e depois não aguentar em troca com umas nalgadas verbais, e ir queixar-se para o tribunal como meninos mimados, está a tornar-se uma peste. (cf. aqui)

07 junho 2017

essa figura tutelar


O Salazar fez do lema "tornar o Estado uma pessoa de bem" o principal lema dos seus primeiros anos de governação. E conseguiu.

Os países que acompanham Portugal nesta estatística são reveladores da sua cultura comum.

Precisam de um Pai que lhes dê o exemplo e que os ponha na ordem quando transgridem.

Sem essa figura tutelar, nunca se tornarão adultos pelos seus próprios meios.

Comportam-se como uns irresponsáveis e uns meninos mimados, que querem tudo para eles e nada para os outros.

10 janeiro 2016

um pai de família

Se eu fosse criança e ficasse sem pai, e fosse necessário escolher um pai adoptivo para mim, eu gostaria que ele fosse escolhido de acordo com os critérios que o Vaticano utiliza para escolher o  chefe de estado, e não de acordo com os critérios que Portugal utiliza para escolher o seu.

O meu pai adoptivo seria um homem, e não indistintamente um homem ou uma mulher; seria um homem de elite, e não um homem qualquer; seria um homem responsável, e não um qualquer  egoísta; ficaria ligado à minha mãe para sempre, e não por um tempo limitado; seria uma figura de unidade na família, e não uma figura de divisão; e, acima de tudo, seria escolhido pela minha mãe, e não imposto à minha mãe.

O povo raciocina no concreto, por analogia e também por imagens. Foi assim também que Cristo se exprimiu através das suas célebres parábolas. É também o modo de pensamento das mulheres, muito mais do que dos homens. Pelo contrário, a massa raciocina à homem, de forma abstracta, por dialogia e argumento intelectual.

O povo é uma figura de mulher, e essa é também a figura da Igreja (Maria). Pouco antes de morrer, Cristo, falando para Maria e apontando para João (o seu discípulo mais novo e também o seu preferido) disse-lhe: "Mulher, tens aqui o teu filho". E, depois, falando para João e apontando para Maria: "Tens aqui a tua mãe". Sem laços originais de consanguinidade, João e Maria ficaram unidos numa comunidade cujo centro é Maria, a mãe. A Igreja (ekklesia, comunidade) é precisamente a figura de Maria. É neste sentido que se diz que o povo é uma figura feminina.

Toda a família gira em torno da mãe, sem a qual não há laços de comunidade, que são laços de amor. É assim na família nuclear e é assim numa comunidade mais alargada, como a Igreja ou uma Nação, como Portugal. A função principal do homem é servir a família - a mulher e os filhos -, uma função sem a qual dificilmente alguma família consegue sobreviver.

Parece irónico que sejam homens (os cardeais) a escolher o homem ideal para a mulher, Maria, que é a Igreja. A ironia desaparece quando nos damos conta que esses homens - o colégio dos cardeais, sendo a elite da comunidade ou povo católico - são precisamente a melhor expressão da figura de mulher em que consiste a Igreja. No fim, o homem é escolhido pela própria mulher, pela comunidade.

Não há homem que mais deseje conhecer uma mulher, e lhe agradar, do que aquele que está impedido de ter relações íntimas com ela. É o caso de cada um dos cardeais, que passaram uma vida impedidos de as ter. Estes são os homens que melhor conhecem a natureza feminina e que mais desejosos estão de a satisfazer, e portanto os mais capazes de escolher um esposo para a mulher, que é Maria, a Igreja.

No fim, o Vaticano elege como chefe de estado um esposo e um pai de família. E Portugal elege o quê?

Veja a seguir.


PS. Não sei se reparou que nos últimos anos do Pontificado de Bento XVI todas as semanas apareciam na comunicação social escândalos sobre a Igreja Católica (sexuais, políticos, económicos, etc.) vindos dos países tradicionalmente opostos a ela, como a Alemanha, o Reino Unido ou os EUA, e subscritos por autores  politicamente mais à esquerda e radicais. Com a eleição do Papa Francisco, há cerca de dois anos, como que por milagre, esses escândalos eclipsaram-se, e deixou de se falar neles. Porquê? Porque a Igreja deu aos contestatários um Pai de que eles gostam mais e no qual eles próprios se revêem. Com Francisco a Papa, qual é o esquerdista que se atreve a criticar a Igreja? Nenhum. A esses contestatários e adversários da Igreja, como a quaisquer meninos mimados, dá-se-lhes aquilo que eles querem e eles calam-se. A Mãe conhece  bem os seus filhos, mesmo aqueles que se encontram extraviados.

22 setembro 2014

os irmãos católicos

A cultura católica integra tudo e desde a origem que a cultura católica está sedenta de integrar o protestantismo, sobretudo naquilo que ele tem de bom - e são muitas as coisas que ele tem de bom.

O que foi, afinal, que o protestantismo trouxe de novo e que o catolicismo procura integrar (imitar), às vezes sem o conseguir?

Respondo com base na analogia que tenho vindo a seguir, envolvendo o grupo de irmãos separados da família e em conflito com ela - os cidadãos dos países de cultura protestante - e a família católica, composta por Pai (Papa), Mãe (Igreja) e os irmãos que ficaram com ela (os cidadãos dos países de cultura católica).

O que é que os irmãos protestantes trouxeram de novo?

A reforma da família católica porque muitas das suas críticas eram justas.

Um sentimento de igualdade entre irmãos, ao passo que na família católica existe hierarquia, estando o Pai e a Mãe acima.

Um sentimento de independência pessoal (self-reliance) próprio de quem vive separado dos pais e sem a protecção deles, por oposição à dependência dos irmãos católicos que vivem sob a protecção da família.

Uma atitude mais enérgica ou agressiva e de assumpção de riscos perante a vida, que é própria de jovens desprotegidos, por oposição ao rame-rame dos irmãos católicos que vivem no conforto e na segurança que a família lhes dá.

Uma cultura de auto-governo (self-government) própria de quem não tem um Pai e uma Mãe para os governar, por oposição aos irmãos católicos que são governados pelos Pais e que, na ausência deles,  desatam à zaragata uns com os outros e não conseguem governar-se.

Uma religiosidade que, embora não tendo o Pai e a Mãe em casa, é em muitos aspectos mais verdadeira e genuína, praticada diariamente e nos pequenos actos da vida corrente, do que a dos irmãos católicos que só se lembram do Pai e da Mãe quando estão aflitos.

Uma atitude mais racional perante os problemas da vida, que eles têm de resolver por si próprios, e que são resolvidos para os irmãos católicos pelo amor e a experiência do Pai e da Mãe.

O gosto e o empenho pelo estudo, ao passo que os irmãos católicos têm em casa os Pais para os ensinar.

Uma atitude de responsabilidade pessoal, que os faz pagar pelos seus erros, ao passo que os irmãos católicos podem cometer todas as irresponsabilidades porque têm os Pais por trás a servir de rede.

Um gosto pela acção, que é próprio de jovens não-tutelados, por oposição aos irmãos católicos, que falam muito e agem pouco, não vão os Pais castigá-los.

Uma atitude de seriedade e de apego ao trabalho, a sua única fonte de sobrevivência, ao contrário dos irmãos católicos que podem contar com a herança da família.

Uma certa atitude de sobranceria e de desprezo em relação aos irmãos católicos que, aos seus olhos, são verdadeiros meninos-mimados (vivem bem  no conforto e na segurança da família, trabalham pouco, pedincham muito e estão-se sempre a queixar)

26 abril 2014

profético

“Em poucas décadas estaremos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade de outras nações, pelo que é ridículo continuar a falar de independência nacional. Para uma nação que estava a caminho de se transformar numa Suiça, o golpe de Estado foi o princípio do fim. Resta o Sol, o Turismo e o servilismo de bandeja, a pobreza crónica e a emigração em massa.” “Veremos alçados ao Poder analfabetos, meninos mimados, escroques de toda a espécie que conhecemos de longa data. A maioria não servia para criados de quarto e chegam a presidentes de câmara, deputados, administradores, ministros e até presidentes de República.”

Marcello Caetano, sobre o 25 de Abril

Via Porta da Loja, citado também pelo lusitanea1

21 fevereiro 2011

educa Deolindas

Tenho uma filha de 20 anos que estuda em Londres, desde os 18. Logo no primeiro ano, ao regressar a casa para as férias do Natal, disse-me que, quando voltasse a Londres em Janeiro, iria arranjar um emprego a part-time. Perguntei-lhe porquê.
Ela explicou-me que as colegas inglesas da Universidade a criticavam constantemente por ela viver à custa dos pais, ao passo que elas, com a mesma idade, já tinham saído de casa e eram independentes, custeavam os seus próprios estudos trabalhando em part-time (em restaurantes, caixas de supermercados, armazens, etc.) ou através de empréstimos bancários que pagariam quando terminassem os estudos. A ajuda financeira dos pais, quando existia, era marginal.
Disse à minha filha que conhecia muito bem essa cultura, que, como ela sabia, eu tinha vivido no Canadá, e lá também era assim. Os estudantes saíam de casa cedo, aos 18 anos, no momento em que entravam para a universidade. Normalmente iam estudar para uma universidade localizada em cidade diferente daquela em que vivia a família, e isso era encorajado pela própria família, de modo a torná-los independentes. Trabalhavam em part-time e nas férias, às vezes em bombas de gasolina ou servindo às mesas de restaurantes, e contraíam empréstimos para estudarem. Desde muito cedo, a vida era uma coisa séria para os jovens nesses países. Era uma cultura que encorajava as pessoas a viverem pelos seus próprios meios desde muito jovens, a tornarem-se autónomas. E era uma cultura responsável, porque libertava os pais do fardo de sustentarem os filhos numa idade em que eles ainda podiam gozar alguma coisa da vida.
A nossa cultura era diferente. Os pais sustentavam os filhos até tarde, às vezes a vida inteira. Era uma cultura de meninos-mimados que fomentava a irresponsabilidade e a dependência, e constituía um abuso sobre os pais - e esta devia ser a principal lição que ela devia extraír da questão. Ela que explicasse às colegas que se tratava de uma diferença cultural - embora as probabilidades de entendimento não me parecessem grandes -, mas a minha opinião era a de que ela devia continuar somente a estudar, e abandonar a ideia do emprego a part-time. Cá em casa, a política era de que os pais sustentavam os filhos até eles acabarem o curso. Nem mais um ano. Depois esperavam - mas esperavam seriamente - que eles voassem pelas suas próprias asas. Tinha sido assim com os três irmãos mais velhos, e todos tinham voado, seria assim com ela, que é a mais nova.
Ela propôs-me, então, um compromisso. A Universidade aceitava que, ao 3º ano, os estudantes fizessem, opcionalmente, o chamado "extra-mural year", um ano que contava curricularmente e em que os estudantes trabalhavam com remuneração numa instituição protocolada pela Universidade - um estágio profissional integrado no plano de estudos. O curso passaria a demorar quatro anos, em lugar de três. Aceitei o compromisso e é esse ano que ela está agora a fazer, trabalhando num instituto de investigação farmacológica e recebendo uma remuneração.
O ponto importante desta questão é que não é possível a Portugal competir economicamente com outros países, ou sequer ambicionar uma sociedade liberal - cuja primeira característica é o sentimento de independência dos seus cidadãos - quando, apesar de 25 anos de abertura à Europa, em lugar de educar pessoas independentes, educa Deolindas. E isto é um fenómeno novo, que não vem do tempo do Salazar - que tem as costas largas -, porque no tempo do Salazar todos os rapazes de 2o anos saíam obrigatoriamente de casa dos pais. Iam para a tropa.

28 fevereiro 2010

fatherless

O Vasco Pulido Valente hoje no Público prevê que Portugal está a caminho do presidencialismo e em busca de um valor essencial - a autoridade. E faz uma prece, a de que, oxalá, tudo se passe dentro da legalidade. Eu não poderia estar mais de acordo (cf. aqui), a sociedade portuguesa anda à procura de um Pai, embora esteja céptico quanto à questão da legalidade.
A religião Católica é uma religião complexa e essa é uma das críticas que, desde o princípio, lhe foi apontada pelos protestantes - e existe certamente uma elevada complexidade na sua teologia, na sua liturgia, como até na sua doutrina social. Porém, como notou Chesterton, uma religião simples não sobrevive porque é uma religião falsa:
"Durante os últimos séculos assistimos à aparição de um punhado de religiões extremamente simples; de facto, cada nova religião procurou ser mais simples do que a anterior. A prova evidente de que isto é assim, reside não tanto no facto de essas religiões, em última instância, se terem mostrado estéreis, como no facto de demorarem tão pouco tempo a desaparecer" (cf. exemplos recentes aqui).
E acrescenta:
"Existe algo que liberalmente partilham todas as escolas de pensamento consideradas liberais: e é que a sua eloquência conduz sempre a uma forma de silêncio não muito distinta da modorra ... E essa tónica é o embotamento do espírito. Em termos simples, são religiões demasiado simples para serem verdadeiras". (*)
Dizer que o catolicismo é complexo é dizer apenas metade da verdade, correndo o risco de tirar conclusões falsas baseadas numa meia-verdade. O catolicismo é também simplicidade, na realidade, o catolicismo é o equilíbrio possível e delicado entre a complexidade e a simplicidade. Quem tiver a estamina e a curiosidade para passar por entre a complexidade da sua teologia, da sua liturgia e até da sua doutrina social, até se fazer luz, chega no fim a uma mensagem, que é também um apelo, e que é de uma simplicidade desconcertante: "Comportem-se como uma família, tratem-se como irmãos, respeitem o vosso pai e a vossa mãe!".
Todo o pensamento católico e toda a sua verdade - pretendo eu - pode ser entendido, em última instância, à luz desta mensagem simples cujo paradigma é a família, e é isso que pretendo agora ilustrar. Hans Kelsen, o pai do positivismo jurídico moderno, definiu a sociedade democrática como a fatherless society, uma sociedade sem pai.
E o que é uma família sem pai? É uma família sem ordem, uma família onde os filhos, uma vez chegados à adolescência, possuem o ambiente ideal para se comportarem como meninos-mimados, para fazerem tudo aquilo que querem e lhes dá na real gana, todas as maroteiras e tropelias, fomentarem toda a indisciplina e quebrarem todas as regras porque a mãe não tem o poder (físico) para os conter. Esta é família onde os mais velhos e mais fortes podem bater nos mais novos e mais fracos, e bater-se entre si, e onde não existe ninguém capaz de os pôr na ordem. Este é o ambiente propício para realizar o ideal moderno de liberdade, em que cada um quer ser livre para fazer o que lhe apetece, incluindo restringir a liberdade aos outros. (Qualquer semelhança com a sociedade portuguesa actual pode ser entendida como mera coincidência)
Como é que um pai ausente durante muitos anos, e que subitamente regressa a casa e observa este espectáculo, vai restaurar a ordem, a disciplina, as boas maneiras e o respeito? Pela persuasão e o exemplo? Talvez. O mais provável, porém, é que tenha de desatar à bofetada.
(*) Chesterton, En Defensa de la Complejidad, in Por Qué Soy Católico, op. cit., pp. 45-46