O menino-mimado ambiciona viver - e sente-se com direito a viver - à custa dos outros. Tal é, porém, impossível, numa sociedade onde todos são meninos-mimados, e enquanto as relações entre eles se mantiverem relações voluntárias. Sendo cada um deles um egoísta radical, nesta sociedade ninguém dá nada a ninguém - excepto se fôr forçado.18 dezembro 2007
Estado-Máximo
O menino-mimado ambiciona viver - e sente-se com direito a viver - à custa dos outros. Tal é, porém, impossível, numa sociedade onde todos são meninos-mimados, e enquanto as relações entre eles se mantiverem relações voluntárias. Sendo cada um deles um egoísta radical, nesta sociedade ninguém dá nada a ninguém - excepto se fôr forçado.15 novembro 2008
Mater Misericordiae
A relação entre os meninos-mimados e a sobrevivência da família alargada pode ser demonstrada de diversas maneiras. Ocorrem-me duas de imediato. Os filhos únicos, que os pais desejam manter por perto, são normalmente meninos-mimados. O mesmo se passa com os filhos mais novos de uma prole numerosa, para os terem como amparo de velhice, os pais (em particular a patroa) cortam-lhes as asas. Isto é, alimentam-lhes o complexo maternal, que referi no post anterior. Os filhos mais novos também costumam ser meninos-mimados.A minha tese portanto é que quanto maior for a importância da família e a coesão familiar mais meninos-mimados. Como nos países Católicos a família é mais valorizada há mais meninos-mimados.
15 dezembro 2024
Almirante Gouveia e Melo (XXII)
(Continuação daqui)
XXII. Um libertador
Foi o economista norte-americano Gary Becker (Prémio Nobel, 1992, cf. aqui) que introduziu o tema da Família no âmbito da investigação económica. Ele é também o autor do célebre Teorema do Menino Mimado ou, no original americano, The Rotten Kid Theorem (cf. aqui).
Proponho-me agora começar a responder à questão que coloquei no último post, a questão de saber como é uma família de meninos mimados quando os pais foram postos fora de de casa.
Noutro lugar, descrevi as características do menino mimado,
"O menino-mimado é um egoísta radical. Ele não gosta de ninguém, excepto de si próprio. Ele não mexe uma palha na vida, excepto se daí esperar retirar um benefício pessoal. Não existe nele uma ponta de altruísmo. Para ele, todos os meios justificam os fins, desde que conduzam à gratificação do seu ego. Ele invoca as leis básicas da moralidade quando elas o beneficiam, mas recusa-se a cumpri-las quando elas beneficiam os outros. Na sua visão, a vida é uma rua de um só sentido. Os motivos que o gratificam são frequentemente irracionais, meros caprichos, devaneios e fantasias. Quando contrariado, ele reage sempre de forma intempestiva - esperneia, faz birras, insulta, vinga-se" (cf. aqui).
Mas a principal característica do menino mimado, e aquela que resume todas as outras, é o seu gosto e o seu hábito de viver à custa dos outros.
Por isso, no momento em que os pais são postos fora de casa, os meninos mimados a primeira coisa que fazem é envolverem-se numa grande luta pelo poder afim de controlar o património da família que eles passarão a distribuir em substituição dos pais, cada um na expectativa de reservar uma fatia maior para si.
Na ausência do pai, que garantia a autoridade, e da mãe, que assegurava o sentido de comunidade, esta luta não conhece regras, vale tudo, e em breve os manos se vão organizar em grupos concorrentes (as "capoeiras", nas palavras do Almirante Gouveia e Melo), que acabarão a odiar-se entre si, para mais eficazmente deitarem a mão ao pote.
É uma guerra sem quartel onde a força e a esperteza acabarão por prevalecer sobre a justiça e a honestidade: os mais velhos a submeterem os mais novos, os rapazes a humilharem as raparigas, os mais fortes a vergarem os mais fracos, o chico-esperto a enganar o irmão honesto.
Habituados a tudo irem buscar ao frigorífico sem nunca se preocuparem em pôr lá alguma coisa, em breve o património familiar começa a diminuir e a família a empobrecer, o que só torna a luta pelo poder - que é, em última instância, uma luta pelo controlo do património comum - ainda mais feroz
No fim, uma casta de meninos mimados que nunca fez nada na vida excepto política, que é nisso que consiste a luta pelo poder, domina a família e controla o património familiar. Apropria-se de um quinhão desmesurado da riqueza comum, faz regras que a beneficiam a si própria, serve-se a si própria em lugar de servir a família, despreza os irmãos que não têm poder, agora obrigados a trabalhar como quaisquer pessoas decentes para se sustentarem a si próprios e à casta (*).
O sentimento de opressão vai inevitavelmente surgir nesta família e partirá daqueles que só contribuem para o património comum, e nada recebem. São estes que vão clamar por um Pai que venha restabelecer a autoridade e repôr a justiça na família.
Esta figura de autoridade aparecerá como um libertador. Será ele que libertará a família da opressão que sobre ela é exercida pela casta dos meninos mimados, pondo em evidência uma diferença essencial entre a concepção protestante de liberdade e a concepção católica.
Para os protestantes, a liberdade é uma liberdade de escolha, em primeiro lugar dos caminhos para chegar a Deus. Na tradição católica só existe um caminho para Deus, que é definido pela Igreja (comunidade), imposto pela tradição e igual para todos.
Para o povo católico a liberdade tem um significado diferente. É libertação da opressão, é liberdade em relação àqueles que o abusam e o oprimem.
É isso que o povo português espera do Almirante Gouveia e Melo.
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(*) "a casta" é o título do post que internacionalizou este blogue levando-o até ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem em Estrasburgo: cf. aqui
(Continua acolá)
09 novembro 2008
ao mesmo tempo que bate com os pés no chão

Assim, Edward Banfield, ao estudar a comunidade de Montegranesi no sul da Itália, conclui: "A indulgência dos pais permitindo aos filhos comportarem-se de modo egoísta e irresponsável ... (conduz a que) ... as pessoas, uma vez tornada adultas, se comportem como meninos mimados porque foram educadas como meninos mimados".
Uma das características dos meninos mimados são os caprichos, isto é, o direito que eles próprios se atribuem a viver nas condições que eles próprios determinam, irrespectivamente de tudo o resto e de todos os outros: Estou aqui, quero estar aqui e daqui ninguém me tira. Este comportamento tem uma expressão peculiar nas relações de trabalho e que é notado aqui (no antepenúltimo parágrafo) por observadores dinamarqueses, a saber: o português típico quando está insatisfeito com o seu emprego e o seu empregador, em lugar de se vir embora e procurar vida noutro lado, fica lá a vida inteira a aborrecer todos quantos o rodeiam, a começar pelo seu empregador, que é quem lhe paga o salário.
A esmagadora maioria dos professores que ontem se manifestaram em Lisboa não tiveram comportamento diferente. Não gostam do empregador que têm ao ponto de pedirem a sua demissão, não concordam com as regras do trabalho, não se sentem bem no emprego. A questão pertinente a colocar é então: "O que é que lá estão a fazer? O que é que esperam para se virem embora e deixarem de chatear quem vos dá o sustento?"
A única resposta plausível é a do menino-mimado: "Estou aqui, fico aqui, daqui ninguém me tira! Têm de me sustentar e têm de me aturar!", ao mesmo tempo que bate com os pés no chão.
10 novembro 2008
A hipótese

Gostaria, portanto, de prosseguir, postulando, em primeiro lugar, as características do menino mimado, e em seguida fazendo um exercício de abstracção, comparando uma família de meninos mimados (Portugal) alternativamente sob dois regimes de governo da casa (autoritário e democrático).
Primeiro os postulados: o menino mimado é radicalmente
1) egoísta - só pensa nele;
2) individualista - nunca participa em nenhuma actividade comum da família, excepto quando dela espera receber um benefício directo;
3) invejoso - não tolera que algum irmão tenha mais do que ele ou seja mais do que ele; (corolário: ele possui um espírito destrutivo, tendendo a destruir tudo aquilo que de positivo os irmãos façam e que os possa fazer parecer melhor do que ele);
4) caprichoso - ele acha-se com direito a viver como ele quer e nas condições que ele quer, irrespectivamente das condições da família e de todos os outros membros da família. (corolário: quando contrariado, ele faz birras, bate o pé e, se puder, parte a loiça toda).
Admitamos uma família de 25 meninos mimados (Portugal) vivendo alternativamente sob dois regimes de governo:
(i) um governo autoritário: o governo da casa é assegurado por uma autoridade (o pai, a mãe ou os dois);
(ii) os pais morreram e o governo da casa passa a democrático: dentre os 25 meninos mimados, três são eleitos periodicamente pelos outros para governarem a casa.
Procure agora responder às seguintes questões. Sob qual dos regimes, (i) ou (ii),
(a) existe mais ordem na família, no sentido de responsabilidade, disciplina e justiça?
(b) existe maior probabilidade de que a família se torne um caos?
(c) se gasta mais dinheiro a governar a família?
(d) os manos andam mais frequentemente à pancada uns com os outros?
(e) os sentimentos de inveja serão mais expressivos?
(f) haverá mais actos de corrupção na família?
(g) os manos têm mais liberdade para dizer e fazer todas as asneiras que lhes vêm à cabeça?
(h) os manos de maior mérito têm maior probabilidade de ascender na hierarquia da família?
(i) os manos mais velhacos têm maior probabilidade de ascender na hierarquia da família?
(j) será mais necessário um papão exterior à família para manter a família na ordem?
(k) será maior a probabilidade de espatifar o património da família?
(l) haverá mais actividades na família que beneficiam todos (vg., cuidar do jardim)?
20 junho 2009
como crianças

15 dezembro 2024
Almirante Gouveia e Melo (XXIII)
(Continuação daqui)
XXIII. O Teorema do Menino-Mimado
Foi logo num dos seus primeiros discursos como primeiro-ministro, enquanto procurava ainda encontrar um caminho para reconstruir o Estado e a sociedade portuguesa em novas bases, que Salazar, invocando uma característica típica do menino-mimado, escreveu que o socialismo não era bom para Portugal porque "os portugueses, comodistas como são" (sic), iriam acabar todos a viver à custa do Estado.
Não se enganou por muito. Aquilo que ele não podia antever na altura é que cerca de cinquenta anos depois, essa sua intuição receberia uma fundamentação científica no famoso Teorema do Menino-Mimado do economista Gary Becker (The Rotten Kid Theorem: cf. aqui).
O Teorema do Menino-Mimado vem explicar por que é que os meninos-mimados são geralmente socialistas e às vezes até parecem, aos olhos dos outros, boas pessoas, e verdadeiros altruístas. E vem também esclarecer como é que num período de crise da família como é o actual - em que existem cada vez menos famílias, as famílias são menos permanentes e, portanto, cada vez é menor a sua capacidade para sustentar meninos-mimados - eles se mudam, de armas e bagagens, da família para o Estado.
Na sua formulação mais simples - que ilustrei noutro lugar (cf. aqui) -, o Teorema do Menino-Mimado afirma que, embora o menino-mimado seja um egoísta radical, existem certas situações em que ele está pronto a sacrificar o seu egoísmo, e até a dar a aparência de que é um altruísta. Essas situações ocorrem se o seu sacrifício pessoal fôr mais do que compensado pelos benefícios que ele espera receber do seu benfeitor (família, padrinho, Estado) em resultado do seu sacrifício.
Suponhamos que o Estado anuncia um grande programa social destinado a apoiar quem não trabalha, que custa 800 milhões de euros ao ano e, ao mesmo tempo, anuncia um aumento de impostos para o financiar.
O menino-mimado, depois de fazer as contas, chega à conclusão que vai pagar mais 100 euros por ano de IRS para financiar este programa, mas que, ao mesmo tempo, o programa lhe vai proporcional dois mil euros em novos subsídios para continuar a viver à pala do Estado.
Claro que ele vai ser favorável a este programa. Ele até virá para os jornais apoiar fortemente o programa destinado a ajudar os pobrezinhos, coitadinhos, que não têm dinheiro para comer; e até menciona orgulhosa e altruisticamente que ele será o primeiro a pagar os impostos necessários para o financiar. Aquilo que esconde é que, ele próprio, será um dos principais beneficiários do programa. No fim, o povo acaba a pagar a grande fatia do programa e uma pequena minoria, que inclui o menino-mimado, é que goza dele.
É assim que o Estado socialista vai engordando, ora para ajudar os pobrezinhos, ora para vacinar os animais, ora para estudar cientificamente a solidão das cobras nas Ilhas Berlengas, ora para alfabetizar as velhinhas em Trás-os-Montes, ora para financiar os partidos que são o coração da democracia. Sob uma vasta gama de pretextos, o povo é chamado a pagar cada vez mais impostos para financiar cada vez mais projectos do Estado enquanto o menino-mimado português que, até aos 35 anos de idade vivia à conta dos pais (cf. aqui), a partir daí passa a viver comodamente à conta dos contribuintes.
Não deve ser surpresa para o Almirante Gouveia e Melo que os seus principais adversários - eu diria mesmo, inimigos - na campanha para as Presidenciais que se desenha, se encontrem à esquerda, com destaque para a chamada esquerda-caviar porque é aí que estão, em primeiro lugar, os meninos-mimados, aqueles que nunca fizeram nada na vida, excepto política.
(Continua acolá)
22 dezembro 2007
no rabo

11 junho 2022
em casa com a mamã
Quando Portugal aderiu à Convenção Europeia dos Direitos do Homem (CEDH) em 1978, comprometeu-se, não apenas a aplicar as decisões do TEDH na ordem interna, mas também a seguir a jurisprudência do TEDH nas questões sujeitas à jurisdição deste Tribunal
No post anterior, eu julgo ter exposto de forma clara o ponto mais importante da jurisprudência do TEDH sobre o conflito entre o direito à liberdade de expressão e o direito à honra.
O artigo 10º da CEDH no seu nº 1 afirma o direito à liberdade de expressão (cf. aqui). O nº 2 deste artigo, enumera as restrições a este direito, e entre essas restrições encontra-se a proteção da honra. Porém, existem duas situações em que estas restrições não se aplicam - o discurso político e a discussão de questões de interesse geral. Nestas situações, o direito à liberdade de expressão prevalece de forma absoluta sobre todas estas restrições, incluindo a proteção da honra.
A esta luz, o que pensar dos seguintes casos recentes da justiça portuguesa?
-O Ministério Público pede o levantamento da imunidade parlamentar do deputado André Ventura para dar seguimento a uma queixa da deputada Mariana Mortágua por ofensas à sua honra (cf. aqui).
-O deputado Pedro Frazão é condenado em primeira instância e a condenação é confirmada pela Relação de Lisboa, por ofensas à honra do conselheiro de Estado e militante do BE, Francisco Louçã (cf. aqui).
-O candidato a PR, André Ventura, é condenado por ofensa à honra de uma família que aparece numa fotografia na companhia do outro candidato a PR durante um debate televisivo entre os dois. E a sentença é confirmada pela Relação de Lisboa (cf. aqui).
-O Presidente da Câmara do Porto põe em tribunal uma ex-vereadora do PSD porque esta ofendeu a sua honra, chamando-lhe uns nomes feios nas redes sociais (cf. aqui).
Tudo isto são palhaçadas judiciais à portuguesa. Nada disto é crime, nada disto configura qualquer ilícito. Nada disto viola a jurisprudência do TEDH, a qual Portugal se comprometeu a seguir.
Estas palhaçadas servem para mostrar a corrupção da justiça que se deixa prostituir pelo poder político. Servem também para enriquecer advogados (frequentemente à custa do erário público) e para dar a entender à população que os magistrados do MP e juízes trabalham muito e, por isso, não têm tempo para se ocupar de questões judiciais a sério que se arrastam anos nos tribunais.
Nada disto tem valor, é puro lixo judicial. Imaginar o presidente da Câmara do Porto ou o conselheiro Louçã a queixarem-se à justiça como dois meninos mimados se queixam à mãezinha porque outro menino (num caso, uma menina) lhes chamou uns nomes feios, desafiaria toda a imaginação, se não fosse mesmo verdade.
É claro que isto só acontece e é aceite no país porque a cultura permite. A jurisprudência democrática do TEDH passa a seguinte mensagem aos ofendidos nestas situações: "Portem-se como homens, defendam-se!" porque a democracia - não é popular dizê-lo, mas é verdade - é um regime político que releva de uma cultura masculina (protestante).
A democracia não foi feita para meninos mimados. Muito menos para meninas. Numa democracia, meninos mimados e meninas não devem vir para o espaço público, e muito menos exercer funções públicas para não se exporem à ofensa. Devem ficar em casa com a mamã. É esta a mensagem principal da jurisprudência do TEDH.
18 dezembro 2007
bad mouthing

15 novembro 2008
Jung to the rescue
O complexo maternal é um arquétipo descrito por Jung que corresponde ao potencial regressivo que nos arrasta para a dependência materna e para a infantilidade (numa linguagem leiga será a criança dentro de nós).Num adulto, este complexo encerra “uma atracção pelo falhanço, pela derrota, um fascínio secreto pela morte ou por acidentes, um desejo de ser amparado”. É um complexo destrutivo que Jung considerava um “verdadeiro veneno”.
Se o indivíduo permitir que o complexo maternal contamine a imagem da mãe “vai fazer exigências ridículas à verdadeira mãe e esperar do mundo (mãe natureza) que o sustentem, preferivelmente sem esforço da sua parte”.
Nos países Católicos, a família parece explorar as fragilidades do complexo maternal para criar dependência e laços profundos e duradouros entre os seus membros.
Os meninos-mimados talvez representem o preço a pagar pela sobrevivência da família alargada.
PS: Contributo para o debate sobre os meninos-mimados.
14 dezembro 2024
Almirante Gouveia e Melo (XX)
(Continuação daqui)
XX. Uma cultura de meninos mimados
O Almirante Gouveia e Melo virá trazer autoridade ao Estado português, em primeiro lugar e, pelo exemplo, à sociedade portuguesa em geral, uma autoridade que corrija e impeça os desmandos da liberdade.
Mas, numa espécie de "moldagem psicológica do campo de batalha", para utilizar uma linguagem que é cara ao Almirante, a primeira questão a colocar é a seguinte:
-Qual é o perfil dos portugueses a quem ele vai ter de impôr autoridade e, em certo sentido, coartar a liberdade?
A estatística que mencionei anteriormente (cf. aqui), segundo a qual nos países protestantes os jovens saem de casa dos pais por volta dos 20 anos, enquanto nos países católicos, como Portugal, ficam lá até bem acima dos trinta, ajuda a construir esse perfil.
Existe algo de infantil, acriançado ou adolescente no homem e na mulher portuguesa (segundo as mesmas estatísticas, mais nele do que nela), que o leva até bastante tarde a acomodar-se na casa da família, entregue aos cuidados da mãe e à autoridade do pai, que lhe garantem a satisfação das necessidades básicas - cama, mesa e roupa lavada - sem que ele tenha de se mexer.
O jovem protestante faz-se cedo à vida, tem um grande sentido de independência e de liberdade em relação à família, começa a trabalhar cedo para se sustentar e pagar os estudos, ao passo que o jovem católico fica comodamente instalado na casa dos pais à espera que tudo lhe caia do céu.
Não será necessário acrescentar mais nada para explicar por que é que nos últimos séculos a produtividade, a inovação, a propensão ao risco e a criação de riqueza têm estado sobretudo nos países protestantes do norte da Europa e nos seus descendentes na América do Norte, e não nos países católicos do sul da Europa e seus descendentes da América Latina. A ética do trabalho - o próprio trabalho como modo de realização pessoal - não são comparáveis entre uns e outros.
Além daquela estatística, existe uma outra que ajuda a tornar mais preciso o retrato das pessoas que o Almirante vai ter de pôr na ordem para cumprir a sua missão de Presidente da República. Refiro-me a uma estatística publicada pelo The Economist relativa à maneira como as crianças são tratadas nos diversos países do mundo (actualmente, cerca de 200).
Portugal encontra-se no Top-10%, sendo o 17º país do mundo que melhor trata as crianças. Mas existe uma subcategoria onde Portugal tem ainda maior destaque, é aquela relativa à maneira como as crianças são tratadas no seio da família e do grupo de amigos. Portugal é segundo no mundo, logo a seguir à Itália (cf. aqui e aqui).
Conclusão: Portugal é o segundo país do mundo onde as crianças são mais mimadas pela família e pelos amigos. A principal responsável por este resultado é, evidentemente, em termos culturais, a Mãe, quer dizer, a Igreja Católica, que é a figura teológica de Maria. Em concreto, é a mamã portuguesa que só é superada pela célebre mamma italiana. Não há como elas para mimar crianças.
Juntando os diversos elementos, começa a emergir o perfil das pessoas com quem o Almirante vai ter de lidar e pôr na ordem. Ele vai ter de lidar com uma cultura de meninos mimados (mais eles do que elas).
(Continua acolá)
Almirante Gouveia e Melo (XXI)
(Continuação daqui)
XXI. A moldagem psicológica do campo de batalha
Não existe, nem nunca existiu, sociedade humana, país ou civilização sem Deus. Algumas civilizações tiveram vários deuses, outras tiveram só um, como a cristã, mas aquilo que não se conhece é uma civilização ateia.
Por isso, a ideia que as pessoas fazem de Deus e do caminho para chegar a Ele é o factor mais determinante da cultura de um povo. Por duas vezes, na sua palestra recente na Gulbenkian, o Almirante Gouveia e Melo se refere a Deus (cf. aqui) parecendo óbvio que se está a referir ao Deus cristão e católico.
No catolicismo chega-se a Deus através da autoridade (da Igreja), por isso o valor da autoridade é sagrado nesta cultura. Pelo contrário, no protestantismo chega-se a Deus através da liberdade (de interpretação das Escrituras), pelo que a liberdade é um valor sagrado para o protestantismo.
Aquilo que a Revolução de Abril veio fazer foi substituir a autoridade do Estado Novo, personalizada em Salazar e depois em Marcelo Caetano, pela liberdade que é característica de um regime de democracia liberal.
Mas além desta ruptura, a Revolução de Abril produziu outras rupturas, como a que descrevo a seguir.
Na religião católica chega-se a Deus em comunhão, através da Igreja (do grego ecclesia: comunidade), o caminho é comum e igual para todos. Daí que o comunitarismo, ou sentimento de comunidade, seja um valor também sagrado para o catolicismo. No protestantismo é diferente, os protestantes chegam a Deus individualmente. O correspondente valor sagrado para o protestantismo é o individualismo.
No Estado Novo, o sentimento de comunidade que unia os portugueses era largamente assegurado pela Igreja Católica, a figura teológica de Maria, a Mulher e a Mãe. Como enfatizou o próprio Salazar:
“A adesão da generalidade das consciências aos princípios de uma única religião e aos ditames de uma única moral (a Católica) foi, através dos séculos, um dos mais poderosos factores de unidade e coesão da Nação Portuguesa”.
Quer dizer, na comunidade ou família portuguesa, muito propensa a produzir meninos mimados (cf. aqui), que tinha uma autoridade, um Pai ou um "Papa", na figura de Salazar e depois Marcelo Caetano, a Revolução de Abril veio acabar com a autoridade do Pai, substituindo-a pela liberdade, e afugentar a mãe, a Igreja Católica.
A questão importante para a "moldagem psicológica do campo de batalha" que o Almirante Gouveia e Melo vai ter de enfrentar é, portanto, a seguinte.
-Como é que se comporta uma família de meninos mimados em que o pai (a figura de autoridade) e a mãe (a figura de comunidade) foram postos fora de casa?
(Continua acolá)
29 outubro 2008
analogia

19 novembro 2008
mamismo
O complexo maternal, já aqui expliquei, é uma das tendências mais negativas que transportamos. Negativas para um adulto, porque nunca teríamos sobrevivido à infância sem essa atracção pelo colo e pela dependência materna. Contudo, quando essa tendência se arrasta para lá da infância, transformamo-nos em meninos-mimados e tornamo-nos incapazes de desfrutar plenamente da vida.Que forças contribuem para a disfunção do complexo maternol. Gostaria de destacar duas: a acção das mães e mais tarde a das esposas.
Vamos começar pelas mães e no próximos posts falaremos das esposas. A tarefa das mães é tornarem os filhos independentes, capazes de abandonarem o ninho e de constituírem as suas próprias famílias. Por vezes, porém, privilegiam a família própria e o trono matriarcal em detrimento da independência dos filhos.
Penso que isto acontece mais nos países Católicos do que nos países protestantes e concordo com o PA que por cá temos mais meninos-mimados. Ora como procedem as mães que querem infantilizar os filhos?
Apaparicam-nos com atenções. Recompensam os gestos de dependência e castram qualquer autonomia. Desautorizam os pais, símbolo da racionalidade e da autoridade. Concentram-se nas emoções das crianças. Fazem das crianças o centro do lar. Alimentam a hipocondria infantil, tornando-as débeis. Desincentivam a competição e o sentido da propriedade. Por fim, não lhes desenvolvem a resistência à frustração e o espírito de sacrifício.
Depois de anos deste tipo de dedicação as crianças tornam-se uns inúteis, um peso para a comunidade que tem que os alimentar e entreter como se o País fosse um gigantesco “kindergarten”.
19 fevereiro 2009
diabinhos

(1) Os portugueses, como todos os povos católicos, não lêem a Bíblia. Para quê, se está lá o padre para o fazer por eles e lhes dizer como é?
(2) Católico significa, do grego, universal.
18 novembro 2008
chimpanzé-mimado
As chimpanzés têm filhotes durante toda a vida, mas o último nem sempre se torna independente e fica, por assim dizer um chimpanzé-mimado.Esta observação, para quem gosta de etologia como eu, é muito importante para compreendermos a origem do fenómeno dos meninos-mimados que o PA aqui tem vindo a abordar. O que se passa então?
Os chimpanzés tornam-se autónomos por volta dos 5 anos e atingem a puberdade entre os 10 (fêmeas) e os 16 anos (machos). A sua esperança de vida, na selva, é de 40 anos. Quando as fêmeas têm os últimos filhotes já estão na velhice e não têm a mesma energia da juventude. Assim, permitem que essas crias mantenham uma ligação e uma dependência delas mais exagerada do que seria desejável. Não têm energia para as disciplinar, para as repelir e para as obrigar a "fazer-se ao mundo" (à selva...).
Estas últimas crias tornam-se chimpanzés-mimados. E o que acontece quando as mães morrem? Normalmente, os chimpazés-mimados, na selva, não sobrevivem .
22 dezembro 2008
festas de natal
As tradicionais festas de Natal estão a descambar para a ordinarice. Os animadores culturais pensam que estão na queima das fitas a aquecer os meninos-mimados, já etilizados, e vai daí pimba!Esta tendência, que eu próprio constatei e que me foi confirmada por diversos amigos, é deplorável, especialmente porque as festas de Natal são ocasiões familiares que arrastam sempre a criançada.
Exemplo: Meninos e meninas, as sardinhas são femininas ou masculinas? Masculinas porque diz na caixa que vêm com tomates! Tanta piada... Mas o resto não fica atrás: bananas, Viagra e até uma Capuchinho Vermelho grávida de três meses. É de morrer a rir... Lá no bairro vocês debem ser do carago pá!
Por este andar, é preferível deixar estas reuniões para a populaça. Levem umas becas para preparar os meninos para a universidade.
02 dezembro 2007
teaching
Uma verdadeira lição vinda da genuína tradição protestante.Em Portugal, a liberdade de expressão entregue à canalhada dá nisto: intelectuais de vão-de-escada, meninos-mimados que não têm a mais remota ideia sobre o que é o debate das ideias, valentões da palavra e do insulto, universitários e jornalistas de favela, fazedores de opinião boçais e alarves, meninos atrevidos e malcriados a merecerem dois açoites no rabo, fodilhões das pampas e verdadeiros napoleões de hospício.
14 novembro 2008
umas valentes nalgadas

O governo regional da Madeira, sob a sua presidência, acaba de publicar em decreto a avaliação dos professores, atribuindo a todos a classificação de Bom. João Jardim age como uma pai de família de meninos-mimados. Em público, passa a imagem de que todos são iguais aos seus olhos, e igualmente bons (*). Mas, depois, em privado, acerta umas valentes nalgadas naqueles que se portam mal.



