Ilustração de IA - pessoas sem rosto, sem personalidade.
A Destruição do Carácter
Personalidade, reputação e as consequências culturais da incoerência narrativa
A personalidade é o conjunto relativamente estável de características psicológicas, valores e padrões de comportamento que torna um indivíduo reconhecível e o seu comportamento razoavelmente previsível. O carácter, entendido como parte integrante da personalidade, não é necessariamente bom ou mau. Uma pessoa pode ser honesta e leal, implacável e vingativa, generosa ou egoísta. O que importa, do ponto de vista social, é a consistência dessas características ao longo do tempo.
A personalidade desenvolve-se através da interacção entre predisposições genéticas, educação e experiência social. Ao atingir a idade adulta, os indivíduos fazem mais do que simplesmente manifestar a sua personalidade: cultivam-na activamente. Tomam decisões, por vezes com custos pessoais consideráveis, para preservar uma identidade que levaram décadas a construir.
Esta identidade acumulada transforma-se em capital reputacional. A reputação não é popularidade nem uma primeira impressão favorável, é o reconhecimento social de um comportamento consistente ao longo do tempo. Permite aos outros antecipar decisões, estabelecer relações de confiança e atribuir responsabilidades. Um administrador contratado para reestruturar uma empresa em dificuldades deverá possuir um perfil de personalidade diferente do de um empreendedor que lança uma startup. Nenhum é necessariamente melhor. Cada um cultivou características valorizadas em determinadas circunstâncias.
O capital reputacional tem uma importância civilizacional considerável. Nas pequenas comunidades anteriores à formação dos Estados, o parentesco e o conhecimento pessoal organizavam grande parte da cooperação, embora a reputação individual também desempenhasse um papel importante. As civilizações complexas exigem cooperação entre desconhecidos. O comércio, a especialização profissional, a liderança e os compromissos de longo prazo dependem, em parte, da capacidade de antecipar o comportamento de pessoas que não conhecemos intimamente. Personalidades estáveis e reputações consolidadas reduzem a incerteza e os custos das interacções sociais.
Ao longo dos séculos, a grande literatura reconheceu esta realidade. Hamlet, Otelo, Macbeth e Anna Karenina permanecem na nossa memória porque as suas personalidades conferem coerência às suas acções. Em Romeu e Julieta, Shakespeare revela o desenlace trágico logo no prólogo. O público sabe o que vai acontecer; o drama reside em compreender como personalidades reconhecíveis, interagindo em determinadas circunstâncias, produzem aquele resultado.
Uma abordagem diferente tornou-se particularmente visível na televisão contemporânea. Personagens que, durante numerosos episódios, revelaram personalidades reconhecíveis começam subitamente a comportar-se de formas incompatíveis com tudo o que anteriormente sabíamos sobre elas. Uma pessoa honesta transforma-se num criminoso, um pai responsável num assassino, ou um amigo leal num traidor, sem que exista uma transformação psicológica credível.
A distinção é fundamental. Na ficção coerente, os acontecimentos resultam das personalidades e das suas interacções. Em formas cada vez mais comuns de ficção televisiva, as personalidades são modificadas para produzir acontecimentos surpreendentes.
A atracção comercial desta abordagem é evidente. Traições inesperadas, revelações chocantes, violência e reviravoltas abruptas mantêm o público interessado. Mas surpresa não é sinónimo de complexidade psicológica. Quando as personagens podem comportar-se de qualquer maneira, em qualquer momento, o espectador deixa de acompanhar seres humanos reconhecíveis. A experiência transforma-se numa sucessão de estímulos emocionais e sensoriais.
Isto levanta uma questão cultural. A ficção fornece modelos de comportamento humano. Se o público se habituar a personalidades que podem ser arbitrariamente reconstruídas, não poderá também tornar-se menos sensível ao valor da consistência na vida real? Por que razão investir décadas a cultivar o carácter, se a continuidade da personalidade deixar de ser considerada importante?
Esta preocupação insere-se numa transformação mais ampla das narrativas culturais do Ocidente. A nação, a família e as instituições educativas têm sido cada vez mais retratadas através das suas falhas e contradições. A crítica a estas instituições é frequentemente justificada. Contudo, foram também elas que asseguraram a continuidade entre gerações, transmitiram valores e incentivaram compromissos que ultrapassam os interesses pessoais imediatos.
A possível etapa final deste processo é a desconstrução do próprio indivíduo. Quando a personalidade se torna intercambiável, a pessoa deixa de ser entendida como alguém cuja história, escolhas e compromissos estabelecem uma identidade reconhecível. O indivíduo transforma-se numa sucessão de respostas às circunstâncias do momento.
Não existem provas conclusivas de que o entretenimento contemporâneo esteja a produzir esta transformação. A ficção tanto reflecte as mudanças culturais como as influencia. Ainda assim, a representação repetida de determinados comportamentos humanos pode moldar as expectativas sobre aquilo que é normal e desejável.
A civilização depende, em parte, de pessoas cujo comportamento pode ser antecipado, cujos compromissos merecem confiança e cuja reputação foi conquistada ao longo do tempo.
Qual será a influência final de uma cultura que substitui progressivamente a continuidade do carácter humano pela procura da surpresa e da estimulação imediata?
