(Continuação daqui)
Fonte: cf. aqui551. O momento
Eu fui condenado pelo Tribunal de Matosinhos em Junho de 2018. Nove meses depois, em Março de 2019, tive um enfarte do miocárdio e fui submetido a uma intervenção cirúrgica de urgência, conhecida por by-pass coronário.
Eu não vou dizer que o stress causado pelo julgamento, que durou quatro meses, o facto de a obra do Joãozinho estar, por essa altura, bloqueada há três anos pelo governo da geringonça, e outras malfeitorias diversas (v.g. esta: cf. aqui), foi a única causa do acidente coronário. Não. Mas foi um factor, e um factor importante.
A cirurgia teve lugar no dia 14 de Março, o dia do aniversário do meu falecido irmão, o cartoonista Fernando Arroja. Quando acordei da anestesia, quase 24 horas depois de ter adormecido, tinha as duas metades do peito unidas por sólidos agrafes metálicos.
O desconforto era grande. Havia certos movimentos do corpo que provocavam dores lancinantes - como tossir, espirrar ou meramente encher o peito de ar - e uma sensação ainda mais horrorosa, a de que os agrafes iriam romper e o peito se iria abrir de novo em duas metades, como tinha estado durante horas na operação.
Foi neste estado que, dias depois, ao princípio da tarde, recebi um telefonema de um jornalista da Lusa a comunicar-me o teor do acórdão do Tribunal da Relação do Porto, que agravava a decisão de primeira instância, e a pedir-me um comentário, mas não sem antes acrescentar: "Olhe que, no seu caso, a decisão foi política".
Foi nesse momento que, ao fazer menção de responder, enchi o peito de ar na atitude própria de quem se prepara para reagir e lutar contra uma grande agressão. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, fui traído por aquela dor lancinante e aquela sensação ainda mais monstruosa de que o peito se iria abrir ao meio.
Não me recordo o que disse ao jornalista, mas recordo-me perfeitamente até hoje do sentimento de impotência acompanhado de uma sensação de total inferioridade física e anímica para reagir perante o que quer que fosse.
Terá sido nesse momento, mais do que em qualquer outro deste longo processo que dura há onze anos e meio, que ficou gravada no meu espírito a promessa: "Um dia irão pagá-las!". Esse dia acabaria por chegar a 19 de Março de 2024, o Dia do Pai, com a Decisão do TEDH que dá o título a esta série de posts.
Eu achei que deveria escrever isto para tentar explicar perante mim próprio por que é que, ainda hoje, depois de escrever certos posts, me pergunto se os deveria ter escrito, como é notoriamente o caso do post anterior (cf. aqui). Como é que passados sete anos eu ainda perco tempo a ofender aquele parvalhão?




