(Continuação daqui)
534. Uma ironia jurídica
Pergunta:
No processo Almeida Arroja vs. Portugal, o economista Pedro Arroja queixou-se ao TEDH por lhe ter sido violado o direito à liberdade de expressão num acórdão do Tribunal da Relação do Porto assinado pelo juiz desembargador Francisco Marcolino, e o TEDH deu-lhe razão. No processo Marcolino de Jesus vs. Portugal é o juiz Francisco Marcolino que se queixa ao TEDH de lhe ter sido violado o direito à liberdade de expressão num processo disciplinar interposto pelo Conselho Superior da Magistratura, mas o TEDH não lhe deu razão. O juiz Francisco Marcolino quer (indevidamente, na opinião do TEDH) a liberdade de expressão para ele, mas nega-a (indevidamente, na opinião do TEDH) ao economista Pedro Arroja, em ambos os casos indevidamente?
Resposta da IA:
- O erro do juiz: Enquanto juiz desembargador no Tribunal da Relação do Porto, Francisco Marcolino de Jesus assinou o acórdão que agravou a condenação criminal do economista Pedro Arroja por difamação. Pedro Arroja tinha tecido críticas na televisão à relação entre a política e a administração pública (envolvendo o político Paulo Rangel e uma sociedade de advogados). [1, 2, 3, 4]
- A posição do TEDH: No processo Almeida Arroja v. Portugal (queixa n.º 47238/19), o tribunal europeu considerou, por unanimidade, que a decisão dos juízes portugueses violou indevidamente o artigo 10.º (liberdade de expressão) de Pedro Arroja. O TEDH sublinhou que os tribunais nacionais falharam no equilíbrio de direitos, aplicando uma sanção desproporcional que gerava um "efeito dissuasor" (chilling effect) no debate de interesse público. [1, 2, 3, 4]
- A pretensão do juiz: O próprio juiz Francisco Marcolino de Jesus recorreu para o TEDH (queixa n.º 2388/15) queixando-se de que o Conselho Superior da Magistratura (CSM) lhe tinha violado o direito à liberdade de expressão ao aplicar-lhe uma sanção disciplinar num processo motivado por quebras de deveres profissionais (como os deveres de lealdade, reserva ou discrição no âmbito de conflitos públicos na magistratura). [1, 2]
- A posição do TEDH: O tribunal europeu rejeitou a queixa do juiz, considerando-a inadmissível. O TEDH validou a atuação das instâncias disciplinares portuguesas, reforçando que os magistrados e juízes têm deveres específicos de reserva e restrições acrescidas à sua liberdade de expressão pública para salvaguardar a autoridade e a imparcialidade do poder judicial. [1]
- Como julgador: O juiz aplicou critérios excessivamente restritivos à liberdade de expressão de um cidadão comum num debate político de manifesto interesse público (o que o TEDH condenou).
- Como queixoso: Tentou invocar uma liberdade de expressão quase absoluta para si próprio no exercício das suas funções, esquecendo os deveres especiais de reserva impostos à magistratura (o que o TEDH recusou). [1, 2, 3]



