A falta de profundidade não é apenas um problema académico — é um problema estrutural. E as suas consequências começam a tornar-se visíveis para lá da universidade.
Quando a formação perde densidade e amplitude, compromete-se algo essencial: a autonomia real do profissional. Não a autonomia formal — que pode continuar a existir no papel — mas a autonomia efectiva, aquela que permite decidir em condições de incerteza, reinterpretar situações e assumir responsabilidade.
Sem essa base, o exercício liberal torna-se mais difícil. E, como vimos, não é necessário que alguém imponha uma mudança: o próprio profissional, de forma racional, procura contextos mais seguros. O assalariamento surge assim não como uma imposição, mas como uma consequência natural.
O fenómeno não é exclusivo da medicina.
No direito, as grandes sociedades absorveram uma parte crescente do mercado. Estruturas como Clifford Chance ou Linklaters não são apenas agregações de talento — são sistemas altamente organizados, com processos, especialização extrema e forte controlo interno. O jovem advogado aprende rapidamente a operar dentro dessa lógica.
Na engenharia, o mesmo padrão repete-se. Grandes grupos como Siemens ou Bouygues concentram projetos, capital e conhecimento. O engenheiro individual torna-se uma peça qualificada dentro de uma máquina maior.
Na medicina, a tendência é talvez mais sensível.
O crescimento de grandes unidades privadas, grupos hospitalares e modelos organizacionais como as Health Maintenance Organization nos Estados Unidos ilustra bem esta evolução. Nestes contextos, o médico mantém frequentemente uma aparência de autonomia: consulta, prescreve, decide. Mas essa decisão está enquadrada por protocolos, métricas de desempenho, restrições de custo e sistemas de auditoria.
A autonomia não desaparece — é delimitada.
E essa delimitação torna-se tanto mais aceitável quanto menor for a estrutura interna do médico. Um profissional com formação profunda pode sentir esses limites como constrangimentos. Um profissional com formação mais operacional pode vivê-los como apoio.
Aqui regressamos ao ponto central:
— A forma como se educa o profissional condiciona a forma como ele se integra no sistema.
Se a formação privilegia estrutura, julgamento e responsabilidade, o exercício liberal continua a ser viável — ainda que exigente.
Se privilegia adaptação, eficiência e conformidade, o sistema hierárquico torna-se o habitat natural.
Não se trata de uma decadência simples, nem de uma conspiração. Trata-se de uma mudança de equilíbrio.
As sociedades modernas tornaram-se mais complexas, mais reguladas e mais dependentes de sistemas de larga escala. Esses sistemas exigem previsibilidade. E a previsibilidade, por definição, é mais fácil de obter com profissionais que operam em quadros bem definidos.
O risco é que, ao optimizar para a previsibilidade, se perca a capacidade de lidar com o imprevisível.
E é precisamente aí que as profissões liberais encontravam a sua razão de ser.
Talvez estejamos, silenciosamente, a assistir a uma transformação profunda: não ao desaparecimento dessas profissões, mas à sua integração em estruturas onde a autonomia deixa de ser o princípio organizador.
E quando a autonomia deixa de organizar a profissão, deixa também — inevitavelmente — de a definir.



