30 maio 2026

ESTÓNIA vs PORTUGAL

 


O gráfico acima pode parecer apenas mais uma comparação entre dois países europeus. Na realidade, conta uma história muito mais profunda. Conta a história de duas trajectórias civilizacionais que partiram de pontos radicalmente diferentes em 1991 e que, ao longo de trinta e cinco anos, convergiram de forma surpreendente.

Quando a União Soviética colapsou, a Estónia era um pequeno país recém-independente, com instituições frágeis, pouca riqueza acumulada, uma economia em transição e enormes incertezas quanto ao futuro. Portugal, pelo contrário, era já uma democracia consolidada, membro da NATO, beneficiário dos fundos europeus e integrado no mercado comum. Se alguém tivesse previsto, em 1991, que a Estónia viria a rivalizar com Portugal em rendimento per capita, inovação, governação e capacidade institucional, teria sido considerado optimista ou mesmo ingénuo.

Contudo, foi precisamente isso que aconteceu e o gráfico permite compreender por quê.

O eixo horizontal representa a Absorção de Incerteza (U), ou seja, a capacidade de uma sociedade manter ordem, previsibilidade, segurança e estabilidade institucional. O eixo vertical representa a Capacidade Emergente (E), isto é, a capacidade de gerar inovação, empreendedorismo, adaptação e criação de novas soluções.

Estas duas variáveis constituem a base do Civilizational Balancing Index (CBI).

A definição funcional de civilização é simples: uma civilização é uma camada social que absorve incerteza ao mesmo tempo que preserva um espaço controlado para fenómenos emergentes.

A maioria das análises políticas concentra-se apenas numa destas dimensões. Algumas valorizam sobretudo a estabilidade. Outras enfatizam a liberdade e a criatividade. Mas as sociedades mais bem-sucedidas não escolhem uma ou outra. Conseguem combinar ambas.

É precisamente isso que a trajectória da Estónia revela.

Em 1991, a Estónia encontrava-se numa posição muito distante do chamado "sweet spot" civilizacional, a zona superior direita do gráfico onde coexistem elevados níveis de U e E. Ao longo das décadas seguintes, porém, a sua trajectória foi quase diagonal. Melhorou simultaneamente a estabilidade institucional e a capacidade de inovação.

A digitalização da administração pública, a criação de uma identidade digital universal, a simplificação burocrática, a aposta na educação tecnológica e o desenvolvimento de um ecossistema empreendedor permitiram aumentar a emergência sem sacrificar a ordem. O resultado foi uma aproximação contínua à zona de equilíbrio óptimo.

Portugal seguiu uma trajectória diferente.

Partindo de uma posição muito mais favorável, Portugal conseguiu melhorar a sua capacidade institucional e consolidar a estabilidade. O eixo U evoluiu positivamente. Contudo, a evolução da capacidade emergente foi muito mais modesta. Em vez de uma trajectória diagonal, observamos um movimento predominantemente horizontal.

Em termos simples, Portugal tornou-se mais previsível do que inovador.

Durante algum tempo isso não constituiu um problema. A riqueza acumulada, os fundos estruturais europeus e a integração económica permitiram uma convergência significativa com os países mais desenvolvidos da Europa. Contudo, a partir da década de 2010 a trajectória começou a estagnar. O aumento da complexidade administrativa, a carga fiscal crescente, a dependência do Estado e uma menor dinâmica empresarial dificultaram novos avanços na capacidade emergente.

O resultado é visível no gráfico. Enquanto a Estónia continuou a aproximar-se do sweet spot, Portugal começou lentamente a afastar-se dele.

Este afastamento não significa colapso nem declínio absoluto. Portugal continua a ser uma sociedade estável, segura e funcional. Mas o gráfico sugere que a sua arquitectura civilizacional está a perder equilíbrio. O aumento da absorção de incerteza deixou de ser acompanhado por um aumento equivalente da emergência.

É precisamente aqui que o CBI oferece uma perspectiva diferente da análise económica tradicional.

O PIB per capita mede riqueza acumulada. O CBI procura medir a capacidade de continuar a gerar riqueza no futuro.

Uma analogia útil seria a diferença entre a velocidade actual de um automóvel e a potência do seu motor. O PIB mostra a velocidade. O CBI tenta medir a qualidade do motor.

Vista por essa lente, a história da Estónia torna-se particularmente interessante. O país ainda não atingiu os níveis de riqueza da Suíça ou da Dinamarca, mas a sua posição no espaço U/E sugere um potencial de convergência adicional. A arquitectura institucional que construiu aproxima-se da encontrada em algumas das sociedades mais bem-sucedidas do mundo.

Portugal enfrenta um desafio diferente. Não precisa de reconstruir instituições nem de criar estabilidade. Precisa de recuperar capacidade emergente. Precisa de criar condições para que mais inovação, mais empreendedorismo e mais experimentação possam florescer sem comprometer a ordem já alcançada.

A principal lição deste gráfico é que a prosperidade não depende apenas da estabilidade nem apenas da liberdade. Depende do equilíbrio entre ambas.

Em 1991, Portugal possuía uma vantagem esmagadora sobre a Estónia. Em 2026, essa vantagem desapareceu. A explicação não reside na geografia, nos recursos naturais ou na dimensão do país. Reside na trajectória civilizacional.

A Estónia aproximou-se do sweet spot. Portugal estagnou e começou a afastar-se dele.

Se o Civilizational Balancing Index estiver a captar algo real sobre o funcionamento das sociedades, então este gráfico não descreve apenas o passado. Pode também conter uma pista importante sobre o futuro.

Portugal e a IA


 

Durante décadas habituámo-nos a avaliar os países através de indicadores económicos e sociais relativamente simples. O PIB media a produção, o HDI media o desenvolvimento humano e outros índices avaliavam competitividade, educação, inovação ou estabilidade institucional. Todos eles continuam úteis. Mas nenhum responde verdadeiramente à questão que começa agora a dominar o século XXI: estará uma sociedade preparada para absorver o impacto civilizacional da inteligência artificial?

A revolução da IA não é apenas uma mudança tecnológica. É uma transformação estrutural da forma como produzimos valor, organizamos instituições, distribuímos conhecimento e gerimos a incerteza. Alguns países adaptar-se-ão rapidamente, enquanto outros poderão entrar numa longa fase de estagnação, dependência ou fragmentação social. Os índices convencionais têm dificuldade em captar esta diferença porque são sobretudo descritivos. Dizem-nos como uma sociedade funciona hoje, mas pouco dizem sobre a sua capacidade de adaptação perante choques sistémicos profundos.

Foi precisamente dessa limitação que nasceu o “Civilizational Balancing Index” (CBI), um modelo funcional desenvolvido para avaliar a resiliência e a capacidade adaptativa das sociedades na era da IA.

O ponto de partida é uma redefinição funcional da própria ideia de civilização. Em vez de olhar para a civilização como um conjunto de atributos culturais, ideológicos ou históricos, o CBI propõe uma definição operacional: uma civilização é uma camada social capaz de absorver a incerteza enquanto mantém um espaço controlado para fenómenos emergentes.

A partir desta definição, o modelo mede duas variáveis fundamentais.

A primeira é a capacidade de absorver a incerteza (Uncertainty Absorption — U): estabilidade institucional, segurança, previsibilidade jurídica, capacidade do Estado, confiança social e resiliência perante crises.

A segunda é a capacidade de emergência (Emergence Capacity — E): inovação, dinamismo económico, empreendedorismo, experimentação social, mobilidade e criação de novas soluções.

O índice final resulta da relação entre ambas as variáveis. Não basta ter ordem sem inovação. Também não basta ter criatividade sem estabilidade. O CBI valoriza precisamente o equilíbrio entre U e E — aquilo que podemos designar por “corredor de equilíbrio civilizacional”.

Quando aplicamos este modelo à Europa, Portugal apresenta um perfil relativamente claro. O país obtém resultados razoáveis na absorção da incerteza. Existe segurança, continuidade institucional, estabilidade democrática e uma qualidade de vida que se reflecte num HDI elevado. Mas o problema surge do outro lado da equação.

Portugal continua a revelar uma capacidade limitada de emergência. O peso burocrático, a dependência do Estado, a reduzida escala empresarial, a dificuldade em transformar conhecimento em inovação económica e a baixa mobilidade social acabam por sufocar a criação de valor. O sistema tende a proteger mais do que a transformar.

O resultado é um país relativamente estável, mas afastado do quadrante superior direito do diagrama U/E — a zona das civilizações adaptativas de alta performance. Países como a Holanda, Dinamarca, Suíça ou Singapura combinam elevada capacidade de absorção de incerteza com forte capacidade de emergência. Conseguem inovar sem entrar em caos e mantêm a estabilidade sem cair em estagnação.

Este ponto torna-se particularmente importante na era da IA.

A inteligência artificial tenderá a concentrar valor em sociedades capazes de reorganizar rapidamente instituições, mercados, educação e produção científica. Países demasiado rígidos poderão preservar estabilidade durante algum tempo, mas perderão progressivamente relevância económica e tecnológica. Outros, com elevada emergência mas baixa absorção da incerteza, poderão entrar em ciclos de fragmentação social e instabilidade política.

O maior risco talvez recaia sobre aquilo que o modelo designa como “quadrante da fragilidade civilizacional”: sociedades com baixa capacidade de absorção da incerteza e reduzida capacidade de emergência. São sistemas que não conseguem adaptar-se rapidamente nem criar valor suficiente na nova economia. A pressão exercida pela IA poderá ser brutal sobre estes países.

Portugal ainda está longe desse cenário extremo. Mas também está longe do corredor de balanço necessário para competir no novo ambiente tecnológico.

A questão central talvez já não seja saber se teremos acesso à inteligência artificial, porque todos teremos. A verdadeira questão é outra: teremos instituições suficientemente flexíveis para a integrar? Teremos uma economia capaz de criar valor à sua volta? Teremos uma cultura que premie iniciativa, competência e adaptação?

A resposta a estas perguntas poderá definir a posição relativa dos países nas próximas décadas.

O projecto CBI pode ser consultado em:
Civilization Balancing Index Project


27 maio 2026

sem saber

 



- (...) a pessoa sem saber vive como no tempo da PIDE...

- Claro... isso é possível... no meu caso isso é possível... (cf. aqui, min. 8:20)


Claro que é possível. Há muito tempo que venho chamando ao Ministério Público a PIDE da democracia (cf. aqui



Obviamente que fui espiado

 



"Obviamente que fui expiado: Ivo Rosa fala sobre inquéritos de que foi alvo em entrevista exclusiva" (cf. aqui)

A entrevista do juiz Ivo Rosa à CNN versa um tema que tenho tratado amplamente neste blogue e que se resume na questão: "O que é que distingue uma simples corporação de criminosos de uma corporação oficial de criminosos"?

É que na corporação oficial de criminosos os criminosos são todos funcionários do Estado usando corporativa e criminosamente as suas funções públicas (cf. aqui). A mais chocante de todas é aquela que usa criminosamente as funções públicas de Justiça. 


26 maio 2026

e eles em primeiro lugar

 

Fonte: cf. aqui

Revolta na SIC. Trabalhadores contestam aumentos milionários na administração

Fonte: cf. aqui


Comentário: A SIC é bem o exemplo do célebre dictum de Arthur Seldon, um dos fundadores do Institute of Economic Affairs de Londres: "Os socialistas prometem a abundância para todos, desde que seja um de cada vez, e eles em primeiro lugar".

A utopia liberal

 


O lançamento foi ontem na Associação Comercial do Porto


20 maio 2026

EXPLOIT or EXPLORE


A dificuldade em traduzir “Exploit vs. Explore” para português talvez seja mais reveladora do que parece.

Em inglês, a distinção é relativamente clara. To exploit significa optimizar, extrair valor do que já existe, tornar eficiente um recurso conhecido. To explore significa procurar o desconhecido, experimentar, descobrir novas possibilidades. O dilema clássico das organizações modernas consiste precisamente nisso: continuar a explorar aquilo que já funciona ou aventurar-se em território desconhecido.

Mas em português surge imediatamente um problema quase cómico.

Explorar… ou explorar?

A língua parece recusar-se a colaborar com a teoria.

Tentamos fugir pela tangente. “Explorar vs. descobrir.” Melhor, mas também não resolve completamente o problema. Afinal, os Descobridores portugueses eram chamados exploradores. E não apenas porque navegavam por mares desconhecidos. Exploravam rotas, oportunidades, recursos, comércio, especiarias, ouro, posições estratégicas. Descobrir e explorar estavam profundamente ligados.

Nenhum marinheiro do século XV atravessava oceanos apenas por curiosidade intelectual. Havia sempre um elemento de oportunidade, risco, lucro ou expansão. O explorador descobria porque queria explorar. E explorava porque descobrira.

A confusão semântica talvez não seja acidental.

Hoje, porém, a palavra “explorador” adquiriu um tom quase exclusivamente moral e negativo. Um empresário que cria riqueza ao identificar oportunidades pode rapidamente ser descrito como “um explorador”. O termo já não sugere aventura ou descoberta. Sugere alguém sentado num gabinete a subpagar trabalhadores enquanto bebe café importado da Guatemala.

Curiosamente, ninguém considera negativo “explorar oportunidades existentes” quando se trata de um investimento imobiliário, de uma optimização fiscal ou de uma promoção de supermercado. A exploração deixa de ser moralmente suspeita quando é burocrática, previsível ou socialmente aceite. Mas torna-se imediatamente problemática quando envolve risco, lucro visível ou inovação disruptiva.

Talvez isto revele um pequeno bloqueio mental contemporâneo.

As sociedades modernas gostam muito dos resultados da descoberta, mas tornaram-se desconfortáveis com o acto de explorar. Gostam de tecnologia, medicamentos novos, inteligência artificial, vacinas, satélites, plataformas digitais e carros eléctricos. Mas olham frequentemente com suspeita para os indivíduos ou empresas que assumem os riscos necessários para produzir essas descobertas.

Queremos emergência sem exploradores. Queremos inovação sem aventureiros. Queremos progresso sem perturbação.

É possível que esta confusão linguística acabe por influenciar subtilmente a própria forma como pensamos. Quando a linguagem funde descoberta com exploração predatória, o espírito exploratório começa lentamente a adquirir uma tonalidade moral ambígua. O explorador deixa de ser Fernão de Magalhães e passa a ser o vilão de uma assembleia sindical.

No fundo, talvez o problema seja civilizacional.

As sociedades mais dinâmicas conseguem tolerar uma certa ambiguidade moral associada à exploração do desconhecido. Aceitam que descobrir implica risco, tentativa, fracasso, desigualdade temporária e até algum oportunismo. As sociedades mais rígidas preferem frequentemente optimizar o que já conhecem. Tornam-se excelentes a administrar o existente, mas perdem progressivamente capacidade de descoberta.

E assim acabamos numa situação deliciosa do ponto de vista linguístico: uma civilização que quer continuar a descobrir o futuro, mas que já não sabe muito bem como falar dos exploradores sem franzir o sobrolho.

19 maio 2026

anormalidades

 



O ministro da Economia e da Coesão Territorial, Castro Almeida, defendeu hoje, em Lisboa, que o Plano de Recuperação e Resiliência vai ser 100% executado se, até ao final do ano, "não houver anormalidades".

Fonte: cf. aqui


Comentário. Claro que vai haver anormalidades. A principal é o ministro. O que faz um burocrata a ministro da Economia?

17 maio 2026

Os "democratas"

 




Como diz o nosso muito democrático jornal Público,

"Sempre a falar da paz, Trump atacou seis países desde o início do mandato
Sempre com justificações diferentes, Trump encara o uso da força como um elemento central da sua presidência. Irão, Venezuela, Nigéria, Síria, Iémen e Somália foram os seus alvos.


Fonte: cf. aqui

O ponto é que nenhum desses países é democrático.

Trump não ataca países democráticos.

Os "democratas" é que atacam Trump. 

15 maio 2026

escritórios de advogados


 


"Leitão Machado e mais três são arguidos após buscas no negócio de meios de combate a fogos
Em causa estão suspeitas de corrupção em concursos de aluguer ao Estado de helicópteros e cunhado de Leitão Amaro é o principal visado. Operação chegou a escritórios de advogados e empresas".

Fonte: cf. aqui


Comentário: Quando os jornalistas reportam investigações do Ministério Público ou da Polícia Judiciária sobre pessoas e empresas referem-se a elas pelos seus respectivos nomes.

Mas quando as investigações envolvem  sociedades de advogados os seus nomes nunca são divulgados.

É uma tradição muito má e provavelmente ditada pelo medo. É que há sociedades de advogados que se comportam como verdadeiras corporações de facínoras, como é notoriamente o caso da Cuatrecasas (cf. aqui), e os jornalistas temem retaliação.

Ora, no caso em apreço, teria sido muito importante divulgar o nome dos "escritórios de advogados" envolvidos.  É que o ministro Leitão Amaro foi sócio da Cuatrecasas.

Será que ele aconselhou a Cuatrecasas ao cunhado para tratar do negócio dos helicópteros?

Eu não ficaria surpreendido. Mas para ter a certeza precisava que os jornalistas portugueses abandonassem a tradição cobarde de omitir os nomes das sociedades de advogados criminosas, ou alegadamente assim.