27 julho 2026

A PESADA HERANÇA DO POMBAL

 


A PESADA HERANÇA

O Marquês de Pombal continua a ser uma das figuras mais influentes da história portuguesa. Durante décadas foi apresentado como o grande modernizador do país, mas talvez o seu verdadeiro legado tenha sido a criação de uma cultura política que continua presente no Estado português.

Antes de Pombal existiam a Coroa, tribunais, municípios e uma administração régia. O poder, porém, encontrava-se disperso por múltiplas jurisdições e corpos intermédios. Pombal rompeu com esse modelo. Reforçou as Secretarias de Estado, concentrou a administração, submeteu instituições concorrentes e criou um aparelho burocrático dependente do poder central.

Não reconstruiu o Estado; criou um Estado de natureza diferente.

A sua filosofia era simples: o interesse do Reino era definido pelo rei e executado pela administração. A autoridade não resultava da sociedade, descia sobre ela.

A supremacia do Estado

Em Portugal, o Estado raramente é visto apenas como árbitro. É frequentemente encarado como o principal agente da sociedade, responsável por orientar a economia, regular a educação, definir prioridades e resolver problemas.

Os regimes mudaram, mas a cultura administrativa permaneceu.

A monarquia absoluta, o liberalismo, a República, o Estado Novo e a democracia constitucional adoptaram ideologias diferentes, mas conservaram uma forte tradição centralizadora.

Não significa que Portugal continue a viver sob o pombalismo. Significa apenas que a ideia de um Estado dirigente atravessou sucessivos regimes políticos.

A lei como instrumento do Estado

Num Estado de direito, a lei deveria limitar igualmente cidadãos e poder público.

Na prática portuguesa, permanece muitas vezes a sensação de que a lei é sobretudo um instrumento da Administração. O cidadão responde rapidamente perante o Estado; o Estado responde muito mais lentamente perante o cidadão.

Prazos incumpridos, decisões adiadas durante anos e processos administrativos intermináveis raramente produzem consequências equivalentes às impostas aos particulares.

O problema não reside apenas nas leis, mas na relação entre quem as aplica e quem lhes está sujeito.

A centralização administrativa

Portugal continua entre os países mais centralizados da Europa Ocidental.

Os municípios dispõem de autonomia limitada e grande parte das decisões permanece concentrada na administração central. A uniformidade tornou-se um valor em si.

Este modelo garante igualdade formal, mas reduz frequentemente a capacidade de adaptação, experimentação e inovação local.

Pombal não criou sozinho esta tradição, mas estabeleceu a matriz que regimes posteriores reforçaram.

A educação subordinada ao Estado

A expulsão dos jesuítas é habitualmente apresentada como uma libertação da educação.

Foi também uma transferência de tutela. O ensino deixou de depender da Igreja para depender directamente do Estado.

Ainda hoje, mesmo as escolas privadas seguem programas, critérios de avaliação e regras definidos centralmente pelo Ministério da Educação. Existe liberdade de gestão, mas pouca liberdade curricular.

O Estado não apenas garante que se ensina, define o que deve ser ensinado.

A cultura judicial

Também na justiça existe uma forte tradição institucional.

Juízes e procuradores pertencem a magistraturas distintas, mas partilham formação, linguagem jurídica e uma cultura profissional comum. Não se trata de colocar em causa a independência judicial, mas de reconhecer a existência de um verdadeiro corpo de Estado.

A longa duração de muitos processos, o peso da investigação, o segredo de justiça e a forte autoridade institucional do Ministério Público alimentam uma percepção de desequilíbrio entre o poder do Estado e a posição do cidadão.

A justiça portuguesa está naturalmente distante da Inquisição. Mas conserva uma cultura em que a autoridade do investigador ocupa frequentemente um lugar central.

Um feudalismo centralizado

Pombal combateu a velha nobreza, mas não destruiu a lógica hierárquica.

Substituiu uma pluralidade de poderes por um único centro político. Pode dizer-se, em sentido metafórico, que nacionalizou o feudalismo.

O Estado passou a ocupar o lugar anteriormente distribuído por numerosos senhores, concentrando funções, autoridade e capacidade de intervenção.

O próprio Pombal nunca rejeitou os privilégios aristocráticos. Ambicionou-os e terminou a sua carreira como Marquês.

Uma herança que atravessou os séculos

Seria absurdo atribuir todos os problemas do Estado português ao Pombal. Quase três séculos de história transformaram profundamente o país, mas permanece uma continuidade difícil de ignorar.

A supremacia do Estado sobre a sociedade, a centralização administrativa, a uniformização da educação, uma cultura jurídica orientada para o interesse público definido pela Administração e a existência de corpos permanentes de funcionários constituem traços recorrentes da vida política portuguesa.

Talvez o verdadeiro legado de Pombal não seja uma instituição concreta, mas uma forma de governar.

Uma cultura política onde o Estado tende a ocupar o centro da vida nacional, onde a administração adquire uma legitimidade própria e onde os direitos individuais continuam subordinados ao interesse superior definido pelo próprio Estado.

Essa poderá ser a mais pesada herança do século XVIII.

21 julho 2026

às sortes

Não pode ser bom um sistema de avaliação onde uma decisão importante na vida de um jovem (se entra ou não em certo curso superior, se entra ou não em certa faculdade) se decide às centésimas.

O cagagésimo de diferença que pode alterar o futuro do jovem, ao contrário de precisão, que é aquilo que o sistema visa aparentar, reflecte exactamente o contrário - aleatoriedade.

A diferença entre 16,37 valores e 16,88 que diferencia dois estudantes no acesso ao ensino superior, não diz que o segundo é melhor que o primeiro. É inconclusiva acerca do ranking entre os dois.

Se um deles entra numa Faculdade ou num Curso que exclui o outro, nada permite concluir que um é melhor que o outro. Permite sim concluir que um teve sorte e o outro teve azar (v.g., este encontrou no caminho professores mais exigentes que o outro ou teve uma dôr de barriga no dia de um exame que o outro não teve).

Em lugar de certeza ou precisão, existe aleatoriedade. Tanto trabalho, tanta canseira, tanta polémica em relação aos exames nacionais para no fim, para um grande número de estudantes, tudo se jogar às sortes.


18 julho 2026

de caminho

Os exames nacionais são uma instituição uniformizadora do pensamento que, como outras existentes na tradição portuguesa e católica (a pior foi a Inquisição, agora Ministério Público) muito tem contribuído para fazer de Portugal e dos portugueses, intelectualmente, um país de caceteiros. 

É por isso que não existe uma ideia original saída de Portugal nos últimos séculos (a única provável excepção é a arquitectura política do Estado Novo imaginada por Salazar) 

Aquilo que se está a passar com os exames nacionais seria uma excelente oportunidade para acabar com eles. E, de caminho, com o Ministério da Educação também.

16 julho 2026

Compreender a China


Why Ideology Is the Wrong Lens for Understanding China

Os portugueses copiam tudo do estrangeiro e talvez seja por isso que perspectivas inovadoras têm de fazer o seu percurso lá fora antes de terem eco em Portugal.
‹‹O que vem da estranja é que é bom››.

15 julho 2026

SHENZHEN: Um Sonho Hayekiano

 



Poucos associam Friedrich Hayek à China moderna. Contudo, se Hayek tivesse sido convidado a conceber um laboratório para a descoberta institucional, Shenzhen provavelmente aproximar-se-ia muito daquilo que imaginaria.

Quando Deng Xiaoping designou Shenzhen como a primeira Zona Económica Especial da China, em 1980, não criou apenas um enclave de baixos impostos. Criou um território dotado de uma autonomia económica extraordinária, permitindo às autoridades locais experimentar instituições profundamente diferentes das que vigoravam no restante país.

O contraste com a China da época era notável.

Enquanto o resto da China permanecia sujeito ao planeamento central, Shenzhen podia aprovar investimentos estrangeiros sem esperar pela autorização de Pequim e negociar directamente com empresas internacionais.

Enquanto o sistema fiscal era praticamente uniforme em todo o país, Shenzhen introduziu impostos sobre as empresas significativamente mais baixos e generosos períodos de isenção fiscal para atrair investimento.

Enquanto a terra continuava a ser administrativamente atribuída no restante território, Shenzhen criou direitos de utilização de longa duração, passíveis de serem arrendados, transferidos e vendidos, estabelecendo, na prática, um verdadeiro mercado fundiário.

Enquanto os trabalhadores chineses beneficiavam do “tacho de ferro” — o emprego garantido para toda a vida —, as empresas de Shenzhen podiam contratar e despedir trabalhadores em função das necessidades do mercado.

Enquanto os salários eram fixados administrativamente na maior parte da China, Shenzhen permitia que fossem determinados pelas forças do mercado.

Enquanto o comércio externo permanecia dominado por monopólios estatais, as empresas de Shenzhen passaram a poder importar e exportar directamente.

Enquanto o sistema financeiro chinês continuava fortemente centralizado, Shenzhen incentivou a banca comercial, autorizou bancos estrangeiros e viria mesmo a criar a Bolsa de Valores de Shenzhen, em 1990.

Enquanto o desenvolvimento urbano noutras regiões obedecia aos planos nacionais, o governo municipal de Shenzhen passou a dispor de amplos poderes sobre infra-estruturas, ordenamento do território, transportes e política industrial.

Enquanto abrir uma empresa noutras partes da China implicava um pesado processo burocrático, Shenzhen simplificou drasticamente o registo de empresas, o licenciamento e os procedimentos administrativos.

Enquanto a política tecnológica permanecia largamente definida pelo centro, Shenzhen criou os seus próprios incentivos para empresas de alta tecnologia, universidades e incubadoras.

Enquanto a habitação continuava maioritariamente distribuída pelo Estado, Shenzhen desenvolveu progressivamente um mercado imobiliário.

Até a mobilidade da população foi tratada de forma diferente. Embora o sistema de hukou permanecesse formalmente em vigor, Shenzhen gozava de uma flexibilidade muito superior para atrair milhões de trabalhadores provenientes de todo o país.

Consideradas isoladamente, nenhuma destas medidas parece revolucionária. Em conjunto, porém, constituíram algo verdadeiramente extraordinário: um universo institucional paralelo a funcionar no interior de um Estado comunista.

Não era a ordem espontânea de Hayek na sua forma pura. Pequim conservava o controlo da estratégia nacional, da política monetária, da política externa e do poder político. Mas, dentro desses limites, Shenzhen transformou-se num autêntico processo de descoberta. As instituições competiam entre si. As experiências bem-sucedidas eram replicadas. As que falhavam eram abandonadas. As políticas evoluíam pela experiência, e não pela ideologia.

Hayek defendia que nenhum planeador central possui conhecimento suficiente para organizar eficazmente uma economia complexa. O conhecimento encontra-se disperso por milhões de indivíduos e apenas pode ser revelado através da experimentação. Shenzhen tornou-se uma demonstração prática desse princípio. Em vez de presumir que Pequim conhecia antecipadamente o melhor modelo económico, Deng permitiu que uma cidade procurasse respostas melhores.

A grande ironia histórica é que uma das mais impressionantes demonstrações práticas das ideias de Hayek não surgiu em Viena, Londres ou Washington. Surgiu no sul da China.

Shenzhen nunca representou uma rejeição do Estado chinês. Representou antes o reconhecimento de que até um Estado forte não pode saber tudo. Por vezes, a decisão mais inteligente de um governo consiste em permitir que outros descubram aquilo que realmente funciona.

Talvez essa tenha sido a maior inovação política de Deng Xiaoping — e uma que o próprio Hayek dificilmente deixaria de admirar.

11 julho 2026

No Opus Dei

A cultura católica (uma palavra que, do grego, significa universal) para se manter universal precisa de conter tudo aquilo que há no mundo.

-Sendo assim, existe calvinismo dentro da Igreja Católica, quer dizer uma cultura religiosa semelhante ao calvinismo, que seria capaz de tornar Portugal economicamente tão próspero como os EUA, mas com um maior sentido de comunidade (que é o significado da palavra igreja, do grego ecclesia: comunidade)?

-Sim, existe.

-E onde está?

-No Opus Dei (cf. aqui).

10 julho 2026

o calvinismo

No curto espaço de 50 anos, entre 1775 e 1825, praticamente todos os países da América se tornaram independentes dos seus colonizadores europeus: EUA (1776), México (1821), Brasil (1822), Argentina (1816), Paraguai (1821), Chile (1818), Peru (1821), Haiti (1804), Venezuela (1821), Colômbia (1810).

Como explicar então que, passados 200 a 250 anos, os EUA se tenham tornado o país mais rico e poderoso do mundo enquanto os outros na generalidade permaneceram pobres?

Existem vários factores que contribuíram para este resultado, mas o principal é religioso. O calvinismo dos pais fundadores dos EUA não considera a pobreza uma virtude e muito menos um motivo de santificação, ao contrário do catolicismo prevalecente nos outros países (cf. aqui). 

Para o catolicismo, Deus abençoa e, nalguns casos, santifica quem vive na favela.