26 agosto 2026

O Regresso da Barbárie

 

O regresso da barbárie e o caso do Rolex

Num Estado liberal, a Justiça desempenha uma função muito mais importante do que punir quem comete crimes. Deve estabelecer um quadro previsível de comportamento, proteger a vida, a liberdade e a propriedade e garantir ao cidadão que os conflitos serão resolvidos por instituições independentes, de acordo com regras conhecidas e aplicadas em tempo útil.

Um sistema de Justiça eficaz não precisa de ser excessivamente severo. Precisa de ser previsível. Quem cumpre a lei deve poder confiar que será protegido; quem a viola deve saber que existe uma probabilidade elevada de ser identificado, julgado e, quando for caso disso, condenado. Entre o crime e a consequência não podem decorrer tantos anos que a relação entre ambos praticamente desapareça.

Em termos do Civilizational Balancing Index (CBI), esta é uma das funções essenciais da absorção da incerteza. Uma sociedade não elimina a incerteza, mas pode criar instituições capazes de a conter dentro de limites razoáveis. A Justiça, a segurança e a estabilidade das regras permitem às pessoas fazer planos, investir, criar empresas, circular nas ruas e estabelecer relações com desconhecidos sem terem de construir mecanismos privados de defesa para cada risco que enfrentam.

Esta previsibilidade não é apenas uma questão de segurança. É uma das condições da prosperidade.

Uma economia de mercado funciona porque milhões de pessoas fazem diariamente transacções com outras pessoas que não conhecem. Compram, vendem, emprestam, investem, contratam trabalhadores e celebram contratos porque partem do princípio de que existe uma ordem jurídica que continuará a funcionar se alguma coisa correr mal.

É esta combinação de ordem institucional e liberdade de iniciativa que permite uma sociedade simultaneamente estável e dinâmica. O Estado absorve uma parte da incerteza e deixa aos cidadãos espaço suficiente para experimentar, investir, criar e correr riscos.

O problema começa quando o Estado mantém formalmente o monopólio da Justiça, mas deixa de conseguir administrá-la de maneira eficaz. Nesse momento não desaparece a necessidade de Justiça — Emerge a justiça popular.

O recente caso do roubo de um relógio em Lisboa é interessante precisamente por aquilo que revela. Segundo as informações disponíveis, um homem foi assaltado por indivíduos que circulavam de mota. Depois do assalto, a vítima decidiu persegui-los no seu automóvel. Durante a perseguição ocorreu uma colisão com uma das motas e um dos suspeitos morreu.

Não sabemos, neste momento, se a colisão foi intencional ou acidental. Essa distinção é importante e deverá ser estabelecida pela investigação. Mas há uma pergunta anterior que merece atenção: por que razão uma pessoa que acaba de ser assaltada decide perseguir os assaltantes?

Podem existir várias explicações, incluindo a reacção emocional do momento. Mas existe também uma hipótese difícil de ignorar: a convicção de que, se os deixar fugir, provavelmente nunca mais verá o relógio. É precisamente para evitar esta situação que existe o Estado.

O cidadão deveria telefonar à polícia, fornecer os elementos disponíveis e confiar que as instituições fariam o resto. Quando essa confiança desaparece, aumenta a tentação de substituir a acção do Estado pela acção individual.

Mais perturbadora do que a perseguição foi, talvez, a reacção pública ao seu desfecho.

Nas redes sociais, muitas pessoas rejubilaram com a morte do suspeito. Algumas trataram o episódio como uma espécie de justiça finalmente realizada. A vítima foi transformada em herói e a morte do alegado assaltante em castigo merecido, apesar de não se conhecerem ainda as circunstâncias exactas do acidente.

A justiça popular não possui os mecanismos que séculos de construção do Estado de Direito criaram precisamente para controlar os nossos impulsos. Não investiga adequadamente, não garante defesa, não distingue suspeita de culpa e não estabelece a pena segundo critérios previamente definidos. É, regra geral, emocional, desproporcional e vingativa.

Um relógio roubado não é punível com a morte. Mesmo um assalto cometido com violência não confere à vítima, terminado o perigo imediato, o direito de decidir a pena e executá-la.

Esta distinção não representa nenhuma simpatia pelo criminoso. Representa simplesmente a diferença entre civilização e barbárie.

O problema torna-se particularmente grave quando uma parte da população começa a considerar a segunda alternativa mais eficaz do que a primeira.

Nesse momento, o aplauso à justiça popular deve ser entendido também como um sinal de alarme dirigido às instituições.

Em Portugal, a reforma mais importante do Estado é provavelmente a reforma da Justiça. Pedro Arroja tem insistido neste problema, ao longo dos anos, no Portugal Contemporâneo: uma ordem liberal não pode funcionar adequadamente quando a administração da Justiça é lenta, imprevisível ou incapaz de produzir consequências em tempo razoável.

Podemos discutir as soluções concretas. Podemos discordar sobre organização dos tribunais, processo penal, recursos, poderes dos magistrados, funcionamento do Ministério Público ou responsabilidade dos diferentes intervenientes. Mas é cada vez mais difícil ignorar o problema central.

Uma Justiça que chega demasiado tarde deixa progressivamente de ser Justiça. E existe uma consequência política que merece ser considerada. A reforma da Justiça pode ocorrer dentro das instituições constitucionais, de maneira ponderada, preservando simultaneamente a segurança e as garantias individuais. Essa seria a solução desejável.

Mas a ausência de reforma não significa necessariamente a conservação do sistema existente, pode significar que a reforma acaba por ocorrer fora dele.

Quando os cidadãos deixam de acreditar que o Estado os protege, começam primeiro por proteger-se a si próprios. Depois aceitam comportamentos que anteriormente considerariam excessivos. Finalmente podem apoiar soluções políticas que prometam restaurar rapidamente a ordem, mesmo sacrificando algumas das garantias que caracterizam uma sociedade liberal.

É assim que a incapacidade do Estado pode produzir, paradoxalmente, a procura de um Estado mais autoritário.

Costuma dizer-se que o povo português é manso. A expressão contém algum fundo de verdade: Portugal é uma sociedade pacífica, com reduzida tradição de violência quotidiana e onde a generalidade dos conflitos continua a ser resolvida sem recurso à força. Mas ser pacífico não significa aceitar indefinidamente a desordem.

A reacção ao episódio do chamado «gangue do Rolex» merece por isso ser observada com atenção. O aspecto mais importante talvez não seja saber quantas pessoas ficaram satisfeitas com a morte de um assaltante. É perceber por que razão tantos cidadãos parecem considerar esse resultado uma forma aceitável de Justiça.

Uma sociedade liberal só consegue permanecer liberal enquanto as suas instituições forem suficientemente eficazes para que os cidadãos não sintam necessidade de fazer justiça pelas próprias mãos.

O Estado de Direito retirou a vingança das ruas e entregou a Justiça às instituições. Foi uma das grandes conquistas da civilização, mas se essas instituições deixarem de cumprir a sua função, a Justiça não desaparece.

Regressa à rua.

E quando a Justiça regressa à rua, regressa com ela a barbárie.

25 agosto 2026

foram só dois

 



História e Direito atraem dois dos melhores alunos do país

Fonte: cf. aqui

Em Outubro de 2013 dediquei um livro à minha neta F., a primeira dos meus 10 netos, com o título "F. - Portugal é uma figura de mulher". A F. tinha na altura quatro anos.

Agora, com 17, a F. acaba de entrar no curso de Engenharia Aeroespacial da Universidade do Minho, revelando-se uma estudante de elite, e deixando o avô encantado, porque o avô acredita em elites.

Acontece, porém, que mesmo os melhores estudantes do país - os estudantes de elite -, tomam decisões malucas. Felizmente foram só dois.

12 agosto 2026

Um País de ciência

 


Portugal, um país de ciência

Há quem diga, com a maledicência própria das almas angustiadas, que o ensino em Portugal se tem deteriorado. Falam de jovens que chegam ao fim do liceu sem compreenderem inteiramente o que leem, que tropeçam numa regra de três e que encaram uma percentagem como quem contempla uma inscrição cuneiforme. Calúnias! Bastou anunciar um eclipse solar para a verdade vir ao de cima: Portugal é um país de ciência.

Os óculos próprios para observar o fenómeno esgotaram-se. O português, que até ontem não distinguia a órbita da Lua da rotunda do Marquês, descobriu dentro de si um astrónomo. Quer contemplar o cosmos e assistir a esse magnífico bailado entre o Sol, a Lua e a Terra. Se Galileu cá estivesse, teria dificuldade em arranjar óculos.

Não é novidade. A grande explosão científica portuguesa deu-se durante a pandemia. Foi então que descobrimos que vivíamos entre epidemiologistas, virologistas e imunologistas. Taxas de incidência, imunidade de grupo, variantes, anticorpos, ARN mensageiro e tratamentos genéticos entraram naturalmente na conversa de café. O homem que momentos antes discutia se o Benfica devia jogar em 4-3-3 explicava, com notável segurança, a dinâmica de transmissão dos vírus respiratórios.

Sublinhemos, também, que esta paixão pelo conhecimento não afastou o português dos grandes problemas do mundo. A mesma população que de manhã fala do eclipse, à tarde discute vacinas e à noite reorganiza a frente ucraniana. Portugal dispõe hoje de milhões de generais de reserva, profundos conhecedores de drones, mísseis, defesa aérea e estratégia nuclear. Ultimamente acrescentou-se o Irão, alargando a especialização ao enriquecimento de urânio e ao equilíbrio de forças no Médio Oriente.

Persistem, é certo, algumas almas conservadoras a lamentar o ensino de antigamente, quando os alunos tinham de decorar a tabuada, escrever sem erros e localizar rios num mapa. Não compreenderam Abril nem a extraordinária democratização do conhecimento que se lhe seguiu.

Que importa tropeçar numa percentagem quando se domina uma pandemia? Para quê estudar astronomia durante anos quando bastam uns óculos de cartão e olhar para o céu?

Portugal pode ter perdido alguns lugares nos testes internacionais, mas ganhou milhões de cientistas e generais. Só há neste momento uma verdadeira emergência nacional: esgotaram os óculos para o eclipse.

Não se preocupem - vai ficar tudo bem.

11 agosto 2026

Por outras palavras


“Num país decente, as pessoas e as entidades não têm que ser forçadas a viver num lamaçal sem ética, sem valores, em que as pessoas são ofendidas, em que é posto em causa o seu bom nome, só porque o Chega inaugura a moda e depois os outros têm que lhe seguir o critério. Peço desculpa, mas comigo não”.

Fonte: cf. aqui

Comentário: Há cada prima dona a governar Portugal...

Este Governo junta dois em um. O ministro Nuno Melo faz-me lembrar o estado em que ficou o seu colega Paulo Rangel depois de um comentário televisivo feito por um futuro simpatizante do Chega (cf. aqui). 

(A democracia é um regime político inventado na cultura protestante, que é uma cultura masculina, que tem no centro a figura de Cristo. A democracia não é propriamente o regime político adequado à cultura católica, que é uma cultura feminina, que tem no centro a figura de Maria. Por outras palavras, a democracia não é para donzelas, que se ofendem facilmente)

Defendam-se sem se queixarem ao Papá Estado! (Ai, ai ... aquele menino ofendeu-me...).

Enfim, democratas de vão-de-escada.

08 agosto 2026

julgamento público


Nos países de tradição católica, como Portugal, a democracia morre pelo sistema de justiça (cf. aqui e aqui).

Nós podemos estar a caminho de desferir um golpe fatal na democracia portuguesa expondo a julgamento público aquela que é, na minha opinião, a rainha das instituições de justiça em Portugal - a Polícia Judiciária.

A razão é que, nestes países, o julgamento público é muito mau. Um dos grandes defeitos dos países de cultura católica, como Portugal, é a má qualidade de julgamento do povo em assuntos públicos. 

Quando acabar a confiança na justiça, adeus democracia.

De cabo de esquadra

 


Um ministro manda auditar o organismo de outro (cf. aqui)


07 agosto 2026

essa grande investigadora



Na minha opinião, o próximo director-nacional da Polícia Judiciária não deve ser um homem.

Deve ser uma mulher.

Quem?

-A Sandra Felgueiras, essa grande investigadora (cf. aqui).

(Ela já não se lembra daquilo que grandes investigadores criminais como ela fizeram à sua própria mãe)

Aquilo que é imputado ao ministro Luís Neves não tem substância nenhuma. Na maioria das imputações que lhe são feitas, ele é acusado de não cumprir formalidades, não satisfazendo por isso, aquilo que Salazar chamou o delírio burocrático dos (jornalistas) portugueses.

Se a Polícia Judiciária fosse uma burocracia do Estado como as outras, cumprindo estritamente todas as regras e procedimentos, e não trabalhasse com uma larguíssima margem de informalidade, não conseguia prender a maior parte dos criminosos.

A jornalista Sandra Felgueiras, como a maior parte dos jornalistas que andam a "investigar" o ministro Luís Neves, à procura de crimes, ou de simples falhas éticas, são investigadores criminais de microfone, e muitos dos comentadores são autênticos  padrecas falhados.

Assassínio político e de carácter - é o que andam a fazer.

05 agosto 2026

Homenagem à Polícia Judiciária

 - "... uma polícia com tradição e pergaminho..." (cf. aqui)

-  "...  Até lhe chamam Judite..." (cf. aqui).

- "... (como acontece com a Polícia Judiciária)." (cf. aqui)

- "...no quarto andar da Polícia Judiciária..." (cf. aqui)

- "... (equivalente da nossa Polícia Judiciária)..." (cf. aqui)

- "...a PJ investiga verdadeiros crimes..." (cf. aqui)

-"...Um grande cumprimento..." (cf. aqui)

-"... deixa para a Polícia Judiciária..." (cf. aqui) 

- "...a rainha do sistema judicial português ..." (cf. aqui)

- "...a Polícia Judiciária investiga e arranja as provas..." (cf. aqui)