05 agosto 2026

Homenagem à Polícia Judiciária

 - "... uma polícia com tradição e pergaminho..." (cf. aqui)

-  "...  Até lhe chamam Judite..." (cf. aqui).

- "... (como acontece com a Polícia Judiciária)." (cf. aqui)

- "...no quarto andar da Polícia Judiciária..." (cf. aqui)

- "... (equivalente da nossa Polícia Judiciária)..." (cf. aqui)

- "...a PJ investiga verdadeiros crimes..." (cf. aqui)

-"...Um grande cumprimento..." (cf. aqui)

-"... deixa para a Polícia Judiciária..." (cf. aqui) 

- "...a rainha do sistema judicial português ..." (cf. aqui)

- "...a Polícia Judiciária investiga e arranja as provas..." (cf. aqui)


31 julho 2026

a guia

 




Não sou adepto de ver um polícia - ainda por cima um chefe de polícia criminal - a ministro (cf. aqui).

Mas daquilo que tem sido assacado ao ministro Luís Neves nada me parece substancial. Os jornalistas chamam-lhe investigação, mas é mais devassa da vida privada, uma matéria em que os portugueses são especialistas.

Aquele episódio em que o material químico que foi transportado para o armazém do empresário João Carvalho, escoltado por dois agentes da PJ, e que devia ter sido acompanhado de uma guia (cf. aqui), é próprio daquilo a que Salazar chamava o delírio burocrático dos portugueses (cf. aqui).

E o caso do tanque que afinal é piscina? Quando alguém precisa de fazer obras em casa, chama um empreiteiro amigo ou acha que é melhor lançar um concurso público? 

Luís Neves está a ser alvo de um ataque pessoal e político dirigido a um ministro como não há memória na democracia portuguesa.

29 julho 2026

há milagres (a dobrar)

Eu devo ser insuspeito porque há muito que defendo neste blogue que há milagres (cf. aqui).

Um tanque que se transformou em piscina, ainda por cima contra a vontade do seu proprietário, só prova aquilo que afirmo: há milagres. E o milagre, neste caso, é a dobrar porque  a piscina voltará a ser tanque (cf. aqui)

27 julho 2026

A PESADA HERANÇA DO POMBAL

 


A PESADA HERANÇA

O Marquês de Pombal continua a ser uma das figuras mais influentes da história portuguesa. Durante décadas foi apresentado como o grande modernizador do país, mas talvez o seu verdadeiro legado tenha sido a criação de uma cultura política que continua presente no Estado português.

Antes de Pombal existiam a Coroa, tribunais, municípios e uma administração régia. O poder, porém, encontrava-se disperso por múltiplas jurisdições e corpos intermédios. Pombal rompeu com esse modelo. Reforçou as Secretarias de Estado, concentrou a administração, submeteu instituições concorrentes e criou um aparelho burocrático dependente do poder central.

Não reconstruiu o Estado; criou um Estado de natureza diferente.

A sua filosofia era simples: o interesse do Reino era definido pelo rei e executado pela administração. A autoridade não resultava da sociedade, descia sobre ela.

A supremacia do Estado

Em Portugal, o Estado raramente é visto apenas como árbitro. É frequentemente encarado como o principal agente da sociedade, responsável por orientar a economia, regular a educação, definir prioridades e resolver problemas.

Os regimes mudaram, mas a cultura administrativa permaneceu.

A monarquia absoluta, o liberalismo, a República, o Estado Novo e a democracia constitucional adoptaram ideologias diferentes, mas conservaram uma forte tradição centralizadora.

Não significa que Portugal continue a viver sob o pombalismo. Significa apenas que a ideia de um Estado dirigente atravessou sucessivos regimes políticos.

A lei como instrumento do Estado

Num Estado de direito, a lei deveria limitar igualmente cidadãos e poder público.

Na prática portuguesa, permanece muitas vezes a sensação de que a lei é sobretudo um instrumento da Administração. O cidadão responde rapidamente perante o Estado; o Estado responde muito mais lentamente perante o cidadão.

Prazos incumpridos, decisões adiadas durante anos e processos administrativos intermináveis raramente produzem consequências equivalentes às impostas aos particulares.

O problema não reside apenas nas leis, mas na relação entre quem as aplica e quem lhes está sujeito.

A centralização administrativa

Portugal continua entre os países mais centralizados da Europa Ocidental.

Os municípios dispõem de autonomia limitada e grande parte das decisões permanece concentrada na administração central. A uniformidade tornou-se um valor em si.

Este modelo garante igualdade formal, mas reduz frequentemente a capacidade de adaptação, experimentação e inovação local.

Pombal não criou sozinho esta tradição, mas estabeleceu a matriz que regimes posteriores reforçaram.

A educação subordinada ao Estado

A expulsão dos jesuítas é habitualmente apresentada como uma libertação da educação.

Foi também uma transferência de tutela. O ensino deixou de depender da Igreja para depender directamente do Estado.

Ainda hoje, mesmo as escolas privadas seguem programas, critérios de avaliação e regras definidos centralmente pelo Ministério da Educação. Existe liberdade de gestão, mas pouca liberdade curricular.

O Estado não apenas garante que se ensina, define o que deve ser ensinado.

A cultura judicial

Também na justiça existe uma forte tradição institucional.

Juízes e procuradores pertencem a magistraturas distintas, mas partilham formação, linguagem jurídica e uma cultura profissional comum. Não se trata de colocar em causa a independência judicial, mas de reconhecer a existência de um verdadeiro corpo de Estado.

A longa duração de muitos processos, o peso da investigação, o segredo de justiça e a forte autoridade institucional do Ministério Público alimentam uma percepção de desequilíbrio entre o poder do Estado e a posição do cidadão.

A justiça portuguesa está naturalmente distante da Inquisição. Mas conserva uma cultura em que a autoridade do investigador ocupa frequentemente um lugar central.

Um feudalismo centralizado

Pombal combateu a velha nobreza, mas não destruiu a lógica hierárquica.

Substituiu uma pluralidade de poderes por um único centro político. Pode dizer-se, em sentido metafórico, que nacionalizou o feudalismo.

O Estado passou a ocupar o lugar anteriormente distribuído por numerosos senhores, concentrando funções, autoridade e capacidade de intervenção.

O próprio Pombal nunca rejeitou os privilégios aristocráticos. Ambicionou-os e terminou a sua carreira como Marquês.

Uma herança que atravessou os séculos

Seria absurdo atribuir todos os problemas do Estado português ao Pombal. Quase três séculos de história transformaram profundamente o país, mas permanece uma continuidade difícil de ignorar.

A supremacia do Estado sobre a sociedade, a centralização administrativa, a uniformização da educação, uma cultura jurídica orientada para o interesse público definido pela Administração e a existência de corpos permanentes de funcionários constituem traços recorrentes da vida política portuguesa.

Talvez o verdadeiro legado de Pombal não seja uma instituição concreta, mas uma forma de governar.

Uma cultura política onde o Estado tende a ocupar o centro da vida nacional, onde a administração adquire uma legitimidade própria e onde os direitos individuais continuam subordinados ao interesse superior definido pelo próprio Estado.

Essa poderá ser a mais pesada herança do século XVIII.

21 julho 2026

às sortes

Não pode ser bom um sistema de avaliação onde uma decisão importante na vida de um jovem (se entra ou não em certo curso superior, se entra ou não em certa faculdade) se decide às centésimas.

O cagagésimo de diferença que pode alterar o futuro do jovem, ao contrário de precisão, que é aquilo que o sistema visa aparentar, reflecte exactamente o contrário - aleatoriedade.

A diferença entre 16,37 valores e 16,88 que diferencia dois estudantes no acesso ao ensino superior, não diz que o segundo é melhor que o primeiro. É inconclusiva acerca do ranking entre os dois.

Se um deles entra numa Faculdade ou num Curso que exclui o outro, nada permite concluir que um é melhor que o outro. Permite sim concluir que um teve sorte e o outro teve azar (v.g., este encontrou no caminho professores mais exigentes que o outro ou teve uma dôr de barriga no dia de um exame que o outro não teve).

Em lugar de certeza ou precisão, existe aleatoriedade. Tanto trabalho, tanta canseira, tanta polémica em relação aos exames nacionais para no fim, para um grande número de estudantes, tudo se jogar às sortes.


18 julho 2026

de caminho

Os exames nacionais são uma instituição uniformizadora do pensamento que, como outras existentes na tradição portuguesa e católica (a pior foi a Inquisição, agora Ministério Público) muito tem contribuído para fazer de Portugal e dos portugueses, intelectualmente, um país de caceteiros. 

É por isso que não existe uma ideia original saída de Portugal nos últimos séculos (a única provável excepção é a arquitectura política do Estado Novo imaginada por Salazar) 

Aquilo que se está a passar com os exames nacionais seria uma excelente oportunidade para acabar com eles. E, de caminho, com o Ministério da Educação também.

16 julho 2026

Compreender a China


Why Ideology Is the Wrong Lens for Understanding China

Os portugueses copiam tudo do estrangeiro e talvez seja por isso que perspectivas inovadoras têm de fazer o seu percurso lá fora antes de terem eco em Portugal.
‹‹O que vem da estranja é que é bom››.