"Eu, se me fizessem uma coisas dessas, eu vingava-me até à segunda ou terceira geração" (cf. aqui)
Também eu!
(Disponível neste link amanhã a partir das 21:00)
"Eu, se me fizessem uma coisas dessas, eu vingava-me até à segunda ou terceira geração" (cf. aqui)
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A ideia de Singularidade tornou-se uma das promessas mais poderosas — e mais vagas — do nosso tempo. Apresenta-se como um ponto de ruptura: o momento em que a inteligência artificial ultrapassa a inteligência humana e entra num ciclo de auto-melhoria ilimitada. A partir daí, diz-se, o futuro torna-se imprevisível.
Mas esta narrativa assenta numa premissa raramente questionada.
A Singularidade é, antes de mais, a amplificação de uma ideia. Ou, talvez com mais rigor, a amplificação de uma fantasia: a de que a inteligência pode ser reduzida à razão, e a razão ao cálculo. Uma linha de pensamento que encontra a sua formulação clássica em René Descartes e que a inteligência artificial veio tornar operacional.
Se a inteligência é cálculo, então pode ser aumentada. Se pode ser aumentada, pode ser amplificada. E se pode ser amplificada sem limite aparente, então a Singularidade surge como horizonte lógico.
Mas este raciocínio depende de uma redução prévia.
No texto anterior, vimos que a inteligência, na sua forma mais robusta, não é apenas cálculo. É compreensão. Implica conhecer o mundo e agir nele, interpretar situações, tomar decisões sob incerteza. Como mostrou António Damásio, até aquilo que chamamos racionalidade depende de emoções e sentimentos. Não são acessórios; são condições.
A Singularidade ignora este ponto.
Parte do princípio de que, ao aumentar indefinidamente a capacidade de cálculo, estaremos a aumentar indefinidamente a inteligência. Mas isto só é verdadeiro se aceitarmos que inteligência e cálculo são equivalentes. Se não o forem, então a amplificação pode estar a ocorrer numa dimensão errada.
Pode o cálculo tornar-se mais rápido, mais eficiente, mais abrangente? Sem dúvida. Mas pode tornar-se compreensão?
Aqui reside a dificuldade.
A Singularidade não é apenas uma previsão tecnológica. É uma narrativa construída a partir de uma definição limitada de inteligência. Confunde crescimento quantitativo com transformação qualitativa. Extrapola curvas de desempenho e assume que, em algum ponto, essas curvas se transformarão em algo diferente — sem explicar como.
Mais ainda: pressupõe que um sistema baseado em cálculo, desprovido de compreensão, julgamento e responsabilidade, possa evoluir até ao ponto de governar um mundo que depende precisamente dessas qualidades.
Mas governar não é optimizar.
Governar implica:
– interpretar contextos ambíguos
– ponderar valores em conflito
– assumir consequências irreversíveis
Não é evidente que estas capacidades possam emergir de uma simples amplificação de processos formais.
A promessa da Singularidade revela, assim, uma tensão interna. Por um lado, baseia-se em tendências reais — o aumento de capacidade computacional, o progresso dos modelos, a expansão das aplicações. Por outro, projecta sobre essas tendências uma conclusão que não decorre necessariamente delas.
A Singularidade não é inevitável. É uma hipótese.
E talvez o seu maior poder não esteja naquilo que descreve, mas naquilo que revela: a nossa tendência para confundir cálculo com inteligência, desempenho com compreensão, e velocidade com sentido.
Se o erro cartesiano foi reduzir a inteligência à razão, o erro contemporâneo pode ser amplificar essa redução até ao infinito — e chamar-lhe futuro.
A ideia de AGI — Artificial General Intelligence — é frequentemente apresentada como o próximo passo da inteligência artificial: uma máquina capaz de desempenhar qualquer tarefa cognitiva a nível humano. Uma inteligência geral, versátil, aplicável a qualquer domínio. Um canivete suíço in silico.
Mas esta formulação, bastante sugestiva, esconde uma fragilidade fundamental. Não é a inteligência que está mal definida. É a generalidade que se pretende alcançar que necessita de ser qualificada.
No texto anterior, vimos que a inteligência, ao longo da tradição filosófica, foi entendida como a capacidade de conhecer e agir no mundo. Uma forma de compreensão, no sentido forte do termo: interpretar, escolher, decidir. Não apenas computar/ calcular.
Ora, quando falamos de AGI, pressupomos que esta capacidade pode ser capturada numa função única, abstracta, transferível entre domínios. Como se a inteligência fosse uma ferramenta universal, aplicável indiferentemente a qualquer problema.
Mas esta imagem não resiste a uma análise mais aprofundada.
A inteligência humana não é um instrumento unitário. É um ecossistema. Um conjunto de processos interdependentes — percepção, memória, linguagem, intuição, julgamento — profundamente enraizados no corpo e na experiência. E, como mostrou António Damásio, as emoções e os sentimentos não são um ruído a eliminar, mas uma condição da própria racionalidade. Não decidimos apesar das emoções, mas através delas.
Isto levanta uma questão simples, mas decisiva.
Pode uma AGI decidir, por exemplo, se alguém deve casar? Ou ter filhos?
Não se trata aqui de capacidade de cálculo. Uma máquina pode, em princípio, integrar milhares de variáveis: idade, contexto económico, compatibilidade psicológica, probabilidades estatísticas de sucesso. Pode optimizar cenários, prever consequências, gerar recomendações.
Mas decidir não é optimizar.
Decidir implica:
– atribuir significado
– assumir risco
– incorporar valores
– aceitar consequências irreversíveis
E, sobretudo, implica estar situado no mundo — ter uma vida, um corpo, uma história.
Sem isto, o que chamamos “decisão” reduz-se a selecção entre opções segundo critérios definidos externamente. Não é escolha, é execução.
É aqui que a noção de AGI revela a sua fragilidade. Antes de perguntar se é possível construir uma inteligência geral artificial, seria necessário definir o que essa significa o G. Generalidade de quê? De tarefas? De domínios? De contextos? De compreensão?
Enquanto esta questão não for clarificada, AGI não é um conceito científico no sentido exigente do termo. É uma ideia, sustentada por analogias com a inteligência humana e que não foi devidamente examinada.
A ambição pode ser legítima, mas o conceito não tem fundações.
Talvez a inteligência artificial continue a expandir-se, integrando capacidades cada vez mais diversas. Talvez atinja níveis de desempenho impressionantes em múltiplos domínios. Mas isso não implica que se torne “geral” no sentido humano.
Se a inteligência humana é um ecossistema, a tentativa de a reduzir a um canivete suíço pode ser mais uma simplificação do que um avanço.
E talvez o verdadeiro desafio não seja construir uma AGI, mas compreender porque insistimos em imaginá-la.
Durante milénios, a inteligência não foi entendida como a capacidade de resolver problemas, mas como algo mais exigente: perceber a estrutura da realidade. À primeira vista, isto pode parecer apenas um problema mais complexo — talvez o mais difícil de todos. Mas há uma diferença essencial. Os problemas modernos têm solução; a realidade, não. Para os antigos, ser inteligente não era optimizar decisões dentro do mundo, mas situar-se nele. Era compreender o que é uma decisão, antes mesmo de a tomar.
É neste pano de fundo que surge a ruptura de René Descartes. O que Descartes faz não é simplesmente separar razão de inteligência. Faz algo mais radical: reduz a inteligência à razão e, ao fazê-lo, redefine o que conta como inteligência. Ao privilegiar apenas o que é claro e distinto, retira ao corpo, à experiência e à ambiguidade qualquer papel na produção do conhecimento. A inteligência deixa de ser uma relação com o real e passa a ser uma operação da mente sobre ideias. Descorporalizada, formalizada, metodizada — torna-se, em princípio, transmissível, reproduzível, automatizável.
Séculos mais tarde, William James oferece um contraponto decisivo. Para James, a inteligência não é uma operação abstracta, mas uma função prática: é aquilo que nos permite escolher entre diferentes acções possíveis. O pensamento não existe para contemplar o mundo, mas para nele agir. A inteligência regressa assim ao seu terreno original — o da incerteza, da adaptação, da consequência. Não é apenas cálculo; é compreensão em movimento.
No fundo, apesar das diferenças, há um fio comum que atravessa estas tradições: a inteligência como capacidade de conhecer o mundo e de reagir no mundo. Uma palavra pode sintetizar esta ideia — compreensão. Não no sentido fraco de acumular informação, mas no sentido forte de interpretar, escolher e agir.
É aqui que entra a inteligência artificial. O seu aparecimento não redefine a inteligência; antes adopta uma definição específica — a que nasce com Descartes. Uma inteligência sem corpo, baseada em representações formais, operando segundo regras. Exactamente o tipo de inteligência que podemos tentar construir numa máquina. O encaixe não é acidental. É estrutural.
A inteligência artificial calcula, optimiza, prevê. Faz tudo isto com uma eficácia crescente. Mas fá-lo dentro de um enquadramento dado. Não questiona o que é um problema, nem porque deve ser resolvido. Não se situa no mundo; opera sobre modelos do mundo.
A diferença torna-se então evidente. A inteligência clássica — aquela que encontramos, de formas distintas, nos antigos e em William James — está enraizada na experiência, na acção e na incerteza. A inteligência artificial está enraizada no cálculo. Partilham o nome, mas não a natureza.
Talvez o verdadeiro equívoco do nosso tempo não seja sobre o que a inteligência artificial pode fazer, mas sobre o que entendemos por inteligência. Ao chamar inteligência àquilo que a máquina faz, estamos, sem o dizer, a adoptar uma definição que a máquina consegue satisfazer. E, ao fazê-lo, podemos estar a esquecer tudo aquilo que, durante séculos, fez da inteligência algo profundamente humano.
(Continuação daqui)
8. Magistrado X
"Eram cinco da tarde do dia 23 de Fevereiro. Ao abandonar a sala de audiências, o meu irmão Fernando comentou comigo:
-Os réus estão a ser eles...
"Tudo cortesia do magistrado X. Ele era meu acusador e, portanto, formalmente, meu inimigo. Mas com inimigos destes, eu não precisava de amigos".
Fonte: cf. aqui.
O magistrado X, José Manuel Ferreira da Rocha, foi de longe a figura com quem o cartoonista Fernando Arroja mais simpatizou. Mas a simpatia não durou até ao fim. Na sessão em que se esperava que ele acusasse os acusadores, faltou e, no regresso, vinha completamente mudado.
Teve oportunidade de fazer justiça e começou por fazê-la. Mas não se aguentou e acabou como um cobarde corrupto.
(Continuação daqui)
7. Faleceu
Faleceu esta manhã o cartoonista Fernando Arroja. Era o mais novo dos intrépidos Throw Brothers que derrotaram conclusivamente a Armada da Cuatrecasas (cf. aqui).
(Continua acolá)
(Continuação daqui)
6. Papá Encarnação
O advogado Adriano Encarnação, também conhecido por Papá Encarnação, um comerciante de crimes em segunda mão (cf. aqui), visto pelo cartoonista Fernando Arroja.
(Continua acolá)
(Continuação daqui)
5. A Quequé
É uma das obras-primas do cartoonista Fernando Arroja - a Quequé.
O cartoon capta o momento mais comovente de todo o julgamento.
Aconteceu quando o magistrado do Ministério Público perguntou à advogada Raquel Freitas da Cuatrecasas o que é que um advogado sente quando chamam ao seu trabalho uma palhaçada jurídica.
A Quequé desfez-se em lágrimas:
-Sente que há interesses obscuros... até podia levar ao encerramento da sociedade... sente que não há diferenças... senti-me insultada na TV...
Diz quem viu que até o arguido fez menção de saltar do banco dos réus para ir consolar a Quequé.
(Continua acolá)
(Continuação daqui)
Os crimes de ofensas à Cuatrecasas e ao ministro Rangel, sobretudo este, podiam dar até três anos de prisão. Em Portugal, ofender advogados (e há alguns que são autênticas florzinhas) é crime muito sério, é difamação agravada.
Foi assim que o cartoonista Fernando Arroja imaginou o réu após o julgamento.
(Continua acolá)
(Continuação daqui)
3. Mohamed Atta
O cartoonista Fernando Arroja capta o momento em que o réu, qual Mohamed Atta de Lady of the Hour, acelera o seu Porsche para o despenhar contra o edifício da Cuatrecasas no Porto, provocando o seu colapso.
(Continua acolá)
(Continuação daqui)
2. O advogado José de Freitas
Dificilmente o cartoonista Fernando Arroja voltará a fazer cartoons. De todos os que fez, o meu preferido é o que está em cima.
A cena passa-se no Tribunal da Senhora da Hora (Lady of the Hour, em americano) em Matosinhos, na primavera de 2018.
O protagonista é o advogado José de Freitas, sócio fundador do escritório da sociedade de advogados Cuatrecasas no Porto, que depunha contra o réu.
O depoimento teve lugar depois do almoço.
A voz entaramelada, a tez rosada, as pálpebras ligeiramente descaídas, o advogado José de Freitas começou por informar o juiz que o réu se passeava de Porsche na cidade do Porto, tinha um palacete na Foz e passava férias na Grécia, tudo informações altamente relevantes para o processo de difamação em julgamento.
Em seguida, descreveu uma cenário dantesco na Cuatrecasas em resultado do comentário televisivo que o réu fez sobre a Cuatrecasas na Fox News (Notícias Raposa, em português), perante uma audiência de 300 milhões de telespectadores, perdão, no Oporto Channel perante uma audiência de meia dúzia de milhares de pessoas.
O comentário teve repercussões internacionais, chegou à sede da Cuatrecasas em Barcelona, e quase deitou abaixo a sociedade. O presidente Emílio Cuatrecasas, acabado de ser condenado a dois anos de prisão por fuga ao fisco, deitou as mãos à cabeça (cf. aqui). Os traficantes de droga na Colômbia entraram em pânico, quem é que agora lhes iria lavar o dinheiro na Europa. A máfia russa regressou a casa por falta de quem a defendesse em Espanha (cf. aqui). O futebolista Leonel Messi teve uma apoplexia, quem é que agora lhe iria fazer os esquemas para fugir ao fisco, enquanto as crianças respiravam de alívio (cf. aqui). O escritor português José Saramago deu voltas na cova pela mesma razão (cf. aqui).
O cartoon descreve o momento em que o advogado José de Freitas tira a mão do bolso esquerdo do casaco para explicar ao juiz, com as duas mãos, como é que o réu conduziu o seu Porsche contra o edifício da Cuatrecasas, deitando abaixo a sociedade, numa espécie de 11 de Setembro de Lady of the Hour.
(Continua acolá)
1. O cartoonista Fernando Arroja
O cartoonista Fernando Arroja foi uma fonte de humor e de inspiração. Assistiu a todas as sessões do julgamento no Tribunal de Matosinhos, vindo do Montijo onde vive.
Quando se apercebeu que aquilo não era propriamente um julgamento mas uma palhaçada judicial, começou a desenhar as principais figuras da farsa naquele seu estilo naif quando, ainda criança, retratava os membros da família, em especial um dos seus irmãos mais velhos.
Um cartoon do princípio dos anos 60 ficou célebre com o título "Excesso de Personalidade". O irmão, então com 13 ou 14 anos, tinha-se metido em trabalhos alegadamente por ter "excesso de personalidade", o mesmo defeito que, segundo ele, 50 anos mais tarde o levaria ao banco dos réus.
O irmão acabaria condenado no Tribunal de Matosinhos e a sentença seria agravada no Tribunal da Relação do Porto por aquele especimen de juiz retratado em baixo - um juiz do de um tribunal superior que também é dirigente da Igreja Católica, chefe de redacção de uma revista religiosa, colunista de jornal, presidente da AG de uma IPSS, membro de tribunais eclesiásticos e de comissões que investigam crimes de pedofilia na Igreja, e só não é astronauta porque não lhe sobra tempo.
É claro que, depois, os acórdãos que escreve têm de ser uma merda (shit em inglês), e o juiz passa a ser um juiz-de-merda.
(Continua acolá)
"Pedro Vaz Patto, juiz da Relação do Porto e um dos membros da Comissão de Fixação das Compensações – que acabou o seu mandato (1) com as decisões da CEP – disse ao 7MARGENS que, mesmo na área criminal, o valor das indemnizações neste tipo de casos varia muito. “A referência é muitas vezes a do dano da morte ou do sofrimento de familiares”, cujo valor pode ir aos 100 mil euros.
"Escusando-se a comentar a questão concreta que foi noticiada pelo Expresso, o juiz acrescentou que os valores não devem ser apenas “simbólicos”, mas também “não há um valor para eliminar o sofrimento”. E destacou a importância de a hierarquia católica ter assumido esta posição, já que, se os casos fossem a tribunal, dificilmente haveria qualquer compensação, tendo em conta que muitos deles já teriam prescrito (2).
(...)
"Sobre a sua experiência na fase anterior, da comissão de instrução, Vaz Patto, que é também presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica (3), diz que ouviu onze pessoas e não sentiu que ninguém se sentisse desconfortável com a situação (4), ao contrário do que dizem algumas vozes que ultimamente apareceram a público".
Fonte: cf. aqui
Comentários:
(1) Nunca o deveria ter começado porque está numa situação de conflito de interesses e de violação do seu código deontológico que desafia toda a imaginação.
(2) Enfim, uma benesse que as vítima receberam da Igreja, de que o juiz é dirigente (3).
(4) As vítimas até gostaram e ainda receberam dinheiro por cima. Ser abusado por padre é uma honra. O juiz dá muita importância à honra (cf. aqui e aqui)
A falta de profundidade não é apenas um problema académico — é um problema estrutural. E as suas consequências começam a tornar-se visíveis para lá da universidade.
Quando a formação perde densidade e amplitude, compromete-se algo essencial: a autonomia real do profissional. Não a autonomia formal — que pode continuar a existir no papel — mas a autonomia efectiva, aquela que permite decidir em condições de incerteza, reinterpretar situações e assumir responsabilidade.
Sem essa base, o exercício liberal torna-se mais difícil. E, como vimos, não é necessário que alguém imponha uma mudança: o próprio profissional, de forma racional, procura contextos mais seguros. O assalariamento surge assim não como uma imposição, mas como uma consequência natural.
O fenómeno não é exclusivo da medicina.
No direito, as grandes sociedades absorveram uma parte crescente do mercado. Estruturas como Clifford Chance ou Linklaters não são apenas agregações de talento — são sistemas altamente organizados, com processos, especialização extrema e forte controlo interno. O jovem advogado aprende rapidamente a operar dentro dessa lógica.
Na engenharia, o mesmo padrão repete-se. Grandes grupos como Siemens ou Bouygues concentram projetos, capital e conhecimento. O engenheiro individual torna-se uma peça qualificada dentro de uma máquina maior.
Na medicina, a tendência é talvez mais sensível.
O crescimento de grandes unidades privadas, grupos hospitalares e modelos organizacionais como as Health Maintenance Organization nos Estados Unidos ilustra bem esta evolução. Nestes contextos, o médico mantém frequentemente uma aparência de autonomia: consulta, prescreve, decide. Mas essa decisão está enquadrada por protocolos, métricas de desempenho, restrições de custo e sistemas de auditoria.
A autonomia não desaparece — é delimitada.
E essa delimitação torna-se tanto mais aceitável quanto menor for a estrutura interna do médico. Um profissional com formação profunda pode sentir esses limites como constrangimentos. Um profissional com formação mais operacional pode vivê-los como apoio.
Aqui regressamos ao ponto central:
— A forma como se educa o profissional condiciona a forma como ele se integra no sistema.
Se a formação privilegia estrutura, julgamento e responsabilidade, o exercício liberal continua a ser viável — ainda que exigente.
Se privilegia adaptação, eficiência e conformidade, o sistema hierárquico torna-se o habitat natural.
Não se trata de uma decadência simples, nem de uma conspiração. Trata-se de uma mudança de equilíbrio.
As sociedades modernas tornaram-se mais complexas, mais reguladas e mais dependentes de sistemas de larga escala. Esses sistemas exigem previsibilidade. E a previsibilidade, por definição, é mais fácil de obter com profissionais que operam em quadros bem definidos.
O risco é que, ao optimizar para a previsibilidade, se perca a capacidade de lidar com o imprevisível.
E é precisamente aí que as profissões liberais encontravam a sua razão de ser.
Talvez estejamos, silenciosamente, a assistir a uma transformação profunda: não ao desaparecimento dessas profissões, mas à sua integração em estruturas onde a autonomia deixa de ser o princípio organizador.
E quando a autonomia deixa de organizar a profissão, deixa também — inevitavelmente — de a definir.
Quando as universidades deixaram de exigir livros, não tornaram o ensino mais fácil — tornaram-no hereditário.
Durante décadas, o livro foi o eixo invisível do ensino superior. Não era apenas uma fonte de informação; era uma estrutura. Um bom manual organizava um campo do saber, impunha uma hierarquia de conceitos, exigia tempo, concentração e esforço. Ler um livro era, no fundo, aprender a pensar dentro de uma disciplina.
Hoje, esse eixo dissolveu-se. Em muitos cursos, o manual desapareceu do centro e foi substituído por slides, resumos, vídeos curtos e bancos de perguntas. O conhecimento tornou-se fragmentado, modular, adaptado à lógica da avaliação. Aprende-se o suficiente para responder — não necessariamente para compreender.
À primeira vista, isto parece uma democratização. Menos exigência formal, mais acessibilidade, menos barreiras. Mas a realidade é mais ambígua.
Nas universidades de elite, como Harvard University ou Princeton University, a cultura do livro não desapareceu — tornou-se implícita. Os estudantes chegam já treinados para ler textos exigentes, muitas vezes por influência familiar, escolar ou social. Mesmo que o curso não o imponha, eles procuram naturalmente essa profundidade. O livro continua presente, mas deixou de ser visível.
Nas restantes instituições, o sistema adapta-se ao mínimo necessário para cumprir os objetivos formais. Se é possível passar com slides, então os slides tornam-se o currículo real. E muitos estudantes — especialmente os que não trazem esse capital cultural de origem — nunca chegam a desenvolver a capacidade de leitura profunda e estruturada.
O resultado é uma desigualdade silenciosa.
Dois estudantes podem obter o mesmo diploma, mas não a mesma formação. Um internalizou uma estrutura de pensamento; o outro acumulou fragmentos de informação. A diferença não está no conteúdo explícito, mas na forma como o conhecimento foi assimilado.
Aqui, a intuição de Pierre Bourdieu mantém-se atual: os sistemas educativos não reproduzem desigualdades apenas pelo que ensinam, mas pelo que pressupõem. Quando a universidade deixa de exigir leitura exigente, não elimina a necessidade dessa competência — apenas a desloca para fora do sistema formal.
O livro tinha uma função niveladora. Era exigente, mas universal. Estava disponível para todos os que estivessem dispostos a fazer o esforço. Ao desaparecer, a profundidade deixa de ser uma exigência comum e passa a ser uma escolha individual — frequentemente condicionada pela origem.
Há ainda uma consequência mais profunda. Profissões como a medicina, o direito ou a engenharia não dependem apenas de informação, mas de julgamento. E o julgamento constrói-se sobre estruturas mentais sólidas, não sobre fragmentos. Quando essas estruturas enfraquecem, cresce a dependência de protocolos, algoritmos e autoridades externas.
A ironia é clara: num tempo em que o conhecimento está mais acessível do que nunca, a capacidade de o integrar pode estar a tornar-se mais rara.
Não se trata de nostalgia pelos livros, mas de compreender o que eles representavam. Sem essa exigência comum, a universidade arrisca-se a deixar de ser um instrumento de mobilidade — e a tornar-se, discretamente, um mecanismo de reprodução.
Não tornou o ensino mais fácil. Tornou-o hereditário.