07 abril 2026

Os novos proletários


 

A falta de profundidade não é apenas um problema académico — é um problema estrutural. E as suas consequências começam a tornar-se visíveis para lá da universidade.

Quando a formação perde densidade e amplitude, compromete-se algo essencial: a autonomia real do profissional. Não a autonomia formal — que pode continuar a existir no papel — mas a autonomia efectiva, aquela que permite decidir em condições de incerteza, reinterpretar situações e assumir responsabilidade.

Sem essa base, o exercício liberal torna-se mais difícil. E, como vimos, não é necessário que alguém imponha uma mudança: o próprio profissional, de forma racional, procura contextos mais seguros. O assalariamento surge assim não como uma imposição, mas como uma consequência natural.

O fenómeno não é exclusivo da medicina.

No direito, as grandes sociedades absorveram uma parte crescente do mercado. Estruturas como Clifford Chance ou Linklaters não são apenas agregações de talento — são sistemas altamente organizados, com processos, especialização extrema e forte controlo interno. O jovem advogado aprende rapidamente a operar dentro dessa lógica.

Na engenharia, o mesmo padrão repete-se. Grandes grupos como Siemens ou Bouygues concentram projetos, capital e conhecimento. O engenheiro individual torna-se uma peça qualificada dentro de uma máquina maior.

Na medicina, a tendência é talvez mais sensível.

O crescimento de grandes unidades privadas, grupos hospitalares e modelos organizacionais como as Health Maintenance Organization nos Estados Unidos ilustra bem esta evolução. Nestes contextos, o médico mantém frequentemente uma aparência de autonomia: consulta, prescreve, decide. Mas essa decisão está enquadrada por protocolos, métricas de desempenho, restrições de custo e sistemas de auditoria.

A autonomia não desaparece — é delimitada.

E essa delimitação torna-se tanto mais aceitável quanto menor for a estrutura interna do médico. Um profissional com formação profunda pode sentir esses limites como constrangimentos. Um profissional com formação mais operacional pode vivê-los como apoio.

Aqui regressamos ao ponto central:

— A forma como se educa o profissional condiciona a forma como ele se integra no sistema.

Se a formação privilegia estrutura, julgamento e responsabilidade, o exercício liberal continua a ser viável — ainda que exigente.
Se privilegia adaptação, eficiência e conformidade, o sistema hierárquico torna-se o habitat natural.

Não se trata de uma decadência simples, nem de uma conspiração. Trata-se de uma mudança de equilíbrio.

As sociedades modernas tornaram-se mais complexas, mais reguladas e mais dependentes de sistemas de larga escala. Esses sistemas exigem previsibilidade. E a previsibilidade, por definição, é mais fácil de obter com profissionais que operam em quadros bem definidos.

O risco é que, ao optimizar para a previsibilidade, se perca a capacidade de lidar com o imprevisível.

E é precisamente aí que as profissões liberais encontravam a sua razão de ser.

Talvez estejamos, silenciosamente, a assistir a uma transformação profunda: não ao desaparecimento dessas profissões, mas à sua integração em estruturas onde a autonomia deixa de ser o princípio organizador.

E quando a autonomia deixa de organizar a profissão, deixa também — inevitavelmente — de a definir.

Uma Desigualdade Silenciosa

 


Quando as universidades deixaram de exigir livros, não tornaram o ensino mais fácil — tornaram-no hereditário.

Durante décadas, o livro foi o eixo invisível do ensino superior. Não era apenas uma fonte de informação; era uma estrutura. Um bom manual organizava um campo do saber, impunha uma hierarquia de conceitos, exigia tempo, concentração e esforço. Ler um livro era, no fundo, aprender a pensar dentro de uma disciplina.

Hoje, esse eixo dissolveu-se. Em muitos cursos, o manual desapareceu do centro e foi substituído por slides, resumos, vídeos curtos e bancos de perguntas. O conhecimento tornou-se fragmentado, modular, adaptado à lógica da avaliação. Aprende-se o suficiente para responder — não necessariamente para compreender.

À primeira vista, isto parece uma democratização. Menos exigência formal, mais acessibilidade, menos barreiras. Mas a realidade é mais ambígua.

Nas universidades de elite, como Harvard University ou Princeton University, a cultura do livro não desapareceu — tornou-se implícita. Os estudantes chegam já treinados para ler textos exigentes, muitas vezes por influência familiar, escolar ou social. Mesmo que o curso não o imponha, eles procuram naturalmente essa profundidade. O livro continua presente, mas deixou de ser visível.

Nas restantes instituições, o sistema adapta-se ao mínimo necessário para cumprir os objetivos formais. Se é possível passar com slides, então os slides tornam-se o currículo real. E muitos estudantes — especialmente os que não trazem esse capital cultural de origem — nunca chegam a desenvolver a capacidade de leitura profunda e estruturada.

O resultado é uma desigualdade silenciosa.

Dois estudantes podem obter o mesmo diploma, mas não a mesma formação. Um internalizou uma estrutura de pensamento; o outro acumulou fragmentos de informação. A diferença não está no conteúdo explícito, mas na forma como o conhecimento foi assimilado.

Aqui, a intuição de Pierre Bourdieu mantém-se atual: os sistemas educativos não reproduzem desigualdades apenas pelo que ensinam, mas pelo que pressupõem. Quando a universidade deixa de exigir leitura exigente, não elimina a necessidade dessa competência — apenas a desloca para fora do sistema formal.

O livro tinha uma função niveladora. Era exigente, mas universal. Estava disponível para todos os que estivessem dispostos a fazer o esforço. Ao desaparecer, a profundidade deixa de ser uma exigência comum e passa a ser uma escolha individual — frequentemente condicionada pela origem.

Há ainda uma consequência mais profunda. Profissões como a medicina, o direito ou a engenharia não dependem apenas de informação, mas de julgamento. E o julgamento constrói-se sobre estruturas mentais sólidas, não sobre fragmentos. Quando essas estruturas enfraquecem, cresce a dependência de protocolos, algoritmos e autoridades externas.

A ironia é clara: num tempo em que o conhecimento está mais acessível do que nunca, a capacidade de o integrar pode estar a tornar-se mais rara.

Não se trata de nostalgia pelos livros, mas de compreender o que eles representavam. Sem essa exigência comum, a universidade arrisca-se a deixar de ser um instrumento de mobilidade — e a tornar-se, discretamente, um mecanismo de reprodução.

Não tornou o ensino mais fácil. Tornou-o hereditário.

05 abril 2026

A doutrina Católica da guerra

 


A guerra é sempre um mal? A resposta honesta — e talvez desconfortável — é: sim, mas nem sempre evitável. É precisamente por isso que, ao longo dos séculos, o pensamento cristão procurou distinguir entre guerras justas e injustas, e entre as condições para iniciar uma guerra (jus ad bellum) e os limites morais na sua condução (jus in bello). Num momento em que atravessamos um conflito com impacto global, esta distinção não é académica. É uma ferramenta para pensar — e julgar.

A tradição mais estruturada neste domínio é a católica. Desde Santo Agostinho até São Tomás de Aquino, a Igreja desenvolveu uma doutrina que não legitima a guerra, mas a tolera em condições extremamente restritas. A ideia central é simples: a guerra pode ser moralmente admissível apenas quando visa restaurar a paz, é conduzida por autoridade legítima, como último recurso, com proporcionalidade e com intenção reta. Mesmo assim, permanece um fracasso moral.

A tradição católica: limitar a guerra

É neste quadro que se compreende a posição recente do Vaticano ao classificar a guerra no Irão como injusta. Do ponto de vista católico, vários critérios parecem falhar:

  • Dúvidas sobre causa justa clara e imediata
  • Questionamento da proporcionalidade, dado o potencial de escalada regional
  • Falta de esgotamento de alternativas diplomáticas
  • Risco elevado para populações civis

Não se trata de tomar partido geopolítico, mas de aplicar um padrão moral. E aqui surge um ponto decisivo: a independência institucional do Vaticano. Não sendo um actor nacional, o Vaticano pode criticar decisões de qualquer Estado sem se confundir com os seus interesses estratégicos.

Esse distanciamento ficou simbolicamente evidente quando o Pentágono afastou representações católicas de celebrações da Páscoa em certos contextos institucionais — um sinal de fricção entre autoridade moral e poder político. A Igreja pode perder acesso, mas preserva algo mais importante: capacidade de dizer “não”.

Luteranos: a responsabilidade do Estado

A tradição luterana, fundada por Martinho Lutero, segue um caminho diferente. Em vez de desenvolver uma teoria detalhada da guerra justa, propõe a doutrina dos “dois reinos”: o espiritual, regido pelo Evangelho, e o temporal, regido pela lei e pela autoridade.

Aqui, a guerra surge como uma responsabilidade do Estado num mundo imperfeito. O cristão, enquanto cidadão, pode ser chamado a participar nela. Não há sacralização da guerra — mas também não há um sistema normativo tão exigente como no catolicismo.

A história mostrou os riscos desta abordagem. Durante o nazismo, sectores significativos da Igreja protestante alemã acomodaram-se ao poder, enquanto outros — como Dietrich Bonhoeffer — resistiram. A lição é clara: quando a religião se aproxima demasiado do Estado, a sua capacidade crítica pode enfraquecer.

Evangélicos: entre a moral e o poder

O mundo evangélico — particularmente nos Estados Unidos — é mais heterogéneo. Não existe uma doutrina unificada da guerra. Em vez disso, encontramos diferentes correntes.

Algumas, associadas a figuras como Billy Graham ou Franklin Graham, tendem a enquadrar a guerra numa lógica moral e civilizacional: o uso da força pode ser necessário para defender a liberdade ou a ordem.

Outras, ligadas ao chamado cristianismo sionista (influenciado por John Nelson Darby), interpretam os conflitos do Médio Oriente à luz de um plano teológico da história, onde Israel ocupa um papel central.

Apesar das diferenças, há um traço comum em certos sectores: uma maior proximidade ao poder político. Essa proximidade confere influência — mas levanta uma questão crucial:

consegue a religião julgar o poder quando está demasiado próxima dele?

Religião e guerra: uma questão de distância

No fundo, a diferença entre estas tradições não é apenas teológica. É também institucional.

  • A Igreja Católica desenvolveu uma doutrina estruturada e mantém uma posição relativamente externa ao poder político
  • O luteranismo historicamente integrou-se mais no Estado
  • Certos meios evangélicos contemporâneos aproximam-se do poder e influenciam-no diretamente

E isso tem consequências.

Quando existe distância, a religião pode limitar a guerra.
Quando essa distância desaparece, arrisca-se a justificá-la.

Conclusão

A guerra continuará a existir. Nenhuma tradição religiosa conseguiu eliminá-la. Mas algumas conseguiram algo talvez mais importante: impor-lhe limites.

A distinção entre guerras justas e injustas, entre jus ad bellum e jus in bello, não resolve o problema — mas impede que a violência se torne moralmente banal.

E talvez essa seja a verdadeira linha de separação:

Não entre religiões que aceitam ou rejeitam a guerra, mas entre aquelas que a questionam e aquelas que aprendem a viver com ela.

 

02 abril 2026

consequências imprevistas

 


Há hoje um consenso tranquilo entre os historiadores: a maior intervenção de saúde pública do século XXI não foi uma vacina, nem uma campanha de prevenção, nem sequer uma reforma dos sistemas de saúde, foi uma guerra.

Sim, a chamada Guerra do Estreito, iniciada por Donald Trump em 2026, continua a ser descrita nos manuais escolares como um exemplo clássico de consequências não intencionais ou como a prova de que o acaso continua a ser o motor do futuro da humanidade.

À época, Trump era amplamente retratado como um narciso delirante, movido por impulsos erráticos e por uma relação particularmente flexível com a realidade. A decisão de atacar o Irão foi interpretada, quase unanimemente, como mais um episódio de imprudência estratégica. Comentadores falaram de escalada desnecessária, de riscos sistémicos, de desestabilização global. Tudo isso, como sabemos hoje, estava profundamente errado.

Porque ninguém antecipou o colapso da cadeia global de produção de preservativos e as respectivas “unintended consequences”.

Como ficou demonstrado em investigações posteriores, a indústria de preservativos dependia criticamente de insumos petroquímicos — silicone para lubrificação e amónia para estabilização do látex — cuja produção foi severamente afectada pelos chamados “lockdowns energéticos” que se seguiram ao conflito. O petróleo não desapareceu, mas a sua distribuição tornou-se errática.

Durante meses, o mundo ocidental enfrentou uma escassez silenciosa de preservativos. Não houve protestos de rua, nem conferências de imprensa dramáticas. Houve apenas prateleiras vazias e um ligeiro encolher de ombros colectivo.

O resto é, literalmente, biologia.

Nove meses depois do cessar-fogo, começou a surgir um fenómeno que inicialmente foi atribuído a flutuações estatísticas. Pequenos aumentos nas taxas de natalidade em várias cidades europeias, seguidos de aumentos maiores e de uma curva que nenhum modelo demográfico conseguia explicar sem recorrer a termos como “evento exógeno massivo” ou “anomalia reprodutiva”.

Em dois anos, a natalidade no Ocidente triplicara.

Os nascidos desse período ficaram conhecidos como os Strait Kids — uma referência irónica ao Estreito de Ormuz, cuja instabilidade energética desencadeou toda a sequência de eventos. Hoje, são estudados não apenas por demógrafos, mas também por sociólogos, economistas e estrategas militares.

A ironia não passou despercebida. Décadas de políticas públicas falharam em inverter o declínio demográfico: incentivos fiscais, licenças parentais, campanhas de sensibilização. Tudo cuidadosamente desenhado, tudo meticulosamente implementado e tudo largamente ineficaz.

Foi precisa uma disrupção brutal, não planeada para alterar o curso da história.

Em 2030, numa decisão que ainda hoje divide a comunidade científica, Trump foi distinguido com o Prémio Nobel da Fisiologia e Medicina. A justificação oficial referia-se à “resolução da crise demográfica ocidental por mecanismos sistémicos não convencionais”. A formulação, deliberadamente vaga, tentava acomodar o desconforto de premiar uma guerra com um galardão médico.

Pouco depois, o seu rosto foi esculpido ao lado de George Washington, Thomas Jefferson e Abraham Lincoln no Monte Rushmore. A inscrição é simples: Short-term pain for long-term gain.

Hoje, com o benefício da distância, talvez possamos admitir uma verdade desconfortável: o mundo não foi salvo por um plano brilhante, mas por uma cadeia improvável de erros, dependências ocultas e de reacções humanas previsivelmente imprevisíveis e por um génio político incompreendido na sua época.

Ou, dito de forma mais simples, por falta de preservativos.

29 março 2026

Ele ri-se

 


Ministro Castro Almeida diz que apenas 10% das 30 mil candidaturas a apoios foram aprovadas (cf. aqui)


Comentário: Esta abécula nem dinheiro consegue entregar a horas.

27 março 2026

um ministro da candonga

 




"Casas ilegais com condições para serem legais devem ser legalizadas" - ministro

Fonte: cf. aqui


Esta afirmação do nosso pretenso ministro da Economia diz tudo acerca dele e da tradição socialista que se implantou em Portugal desde há 50 anos. Nada se faz sem o selo do Estado, nada avança sem que um burocrata, que é normalmente um jurista como ele, dê o seu OK. Tudo fica nas mãos desta tropa de burocratas que não fazem nem deixam fazer, e o ministro da Economia torna-se uma espécie de capataz da Fazenda.

A pergunta é: Se as casas têm condições para ser legais porque é que têm de ser legalizadas? O que é que o burocrata da legalização vem acrescentar às casas que têm condições para ser legais?  Nada, vem paralisar, provocar demora  e, em certos casos, receber algum por debaixo da mesa para certificar o óbvio - a saber, que é legal aquilo que tem condições para ser legal.

Eu pergunto se o paizinho e a mãezinha do senhor ministro, quando o conceberam, também se perguntaram se o acto tinha condições para ser legal e, caso afirmativo, se terão chamado um burocrata para o legalizar.

No fim de contas, toda a fornicação precisa de ser legalizada, não são só as casas. Caso contrário, é fornicação  clandestina,  fornicação que não vale, fornicação da candonga. Pode lá existir fornicação sem um burocrata do Estado vir certificar que todas as leis da fornicação foram cumpridas...

Sem fornicação legalizada andava para aí toda a gente a fornicar por todos os cantos e em todas as posições, na posição do "missionário" ofendendo os padres, na posição  "quatro patas", ofendendo cães e gatos. Está bem, está... seria o equivalente do capitalismo selvagem, uma fornicação selvagem. Pode lá ser...

Pelo seu desempenho como ministro da Economia eu desconfio que o senhor ministro é um ministro da candonga.  

26 março 2026

não é dificil

 



Jornal de Negócios:

"Cuatrecasas atinge facturação record de 447 milhões de euros em 2025"

Fonte: cf. aqui


Comentário: A roubar os contribuintes portugueses (de forma legal, bem entendido, porque  a Cuatrecasas só rouba de forma legal), a comprar juízes e magistrados do MP (cf. aqui) e a fazer aquilo que a gente sabe nos países onde se encontra estabelecida (v,g., Colômbia, México), não é difícil atingir estes números (cf. aqui). 

17 março 2026

Perguntas ao ministro da Economia (5)

 (Continuação daqui)



5. Usurpação de funções


Senhor ministro,

Um advogado pode fazer de ministro da Economia, ou é crime de usurpação de funções (como quando um economista faz de advogado)? (cf. aqui)