Nos últimos dias, o Chega tem estado sob escrutínio público por causa da sua posição acerca da reforma das leis laborais. Esta posição é duplamente socialista, e traduz-se no seguinte: o Chega só se dispóe a aprovar a reforma das leis laborais (que é um reforma liberalizante) se for aprovada uma antecipação da idade da reforma (que é uma medida muito socializante). O ex-primeiro-ministro Passos Coelho foi ao ponto de dizer que nem o Partido Socialista se atreveria a propor a antecipação da idade da reforma.
O Chega começou como um partido liberal na Economia e eu próprio redigi o programa económico do Partido às eleições de 2022, aquelas em que o Chega passou de um para 12 deputados. A partir daí o Chega tornou-se, em termos ideológicos, aquilo que eu mais recentemente chamei "um saco de batatas" (cf. aqui) (*). Porém, como também referi na mesma entrevista, o Chega continua a ter para mim o grande mérito de ter sido o Partido que abanou o sistema dominado pelo PS e PSD.
Em Junho de 2023, eu e o Miguel Corte Real (pai), que era então o presidente do Conselho Estratégico Distrital do Porto, escrevemos um documento estratégico, de incidência sobretudo económica, apontando um caminho para o Chega, que designámos por conservadorismo liberal. O documento foi mais tarde submetido à Comissão Política do Partido e, em seguida, chegou à Direcção.
O conservadorismo liberal é uma adaptação do liberalismo original, que é anglo-saxónico e protestante, à cultura católica e tradicional dos portugueses. O documento teve alguma receptividade entre alguns intelectuais do Partido, que são raros, mas ao nível da Direcção não teve qualquer seguimento, mesmo se o Programa do Partido em 2022, que ainda estava em vigor na altura, era essencialmente liberal.
Em termos ideológicos, o caminho que a Direcção decidiu seguir, se é que decidiu alguma coisa, foi o de fazer do Chega o "saco de batatas", que ele é agora.
Pedro Arroja/Miguel Corte Real
Conselho Estratégico Distrital do
Porto
Partido CHEGA
Junho 2023
Três Correntes
Uma Orientação Económica para o CHEGA
O presente texto tem como objectivo distinguir as três
principais correntes do pensamento político ocidental, com ênfase no campo da
Economia – o Socialismo (SOC), o Liberalismo (LIB) e o Conservadorismo Liberal
(COL).
Origem - As três correntes de pensamento referidas são produtos da
cultura cristã do Ocidente, o COL associado à cultura católica ou latina do sul
da Europa, que inclui Portugal, o SOC e o LIB associados ao protestantismo
cristão.
Liberalismo vs. Socialismo - O LIB está associado ao calvinismo e
teve a sua origem no Reino Unido e a sua maior expressão nos países
anglo-saxónicos, como os EUA. O SOC está associado ao luteranismo e teve a sua
origem na Alemanha (Prússia), encontrando hoje a sua maior expressão, em versão
democrática ou da social-democracia, nos países do norte da Europa.
O LIB é anterior ao SOC - O livro “A Riqueza das Nações” que
teoriza pela primeira vez o LIB na Economia foi publicado em 1776 por Adam
Smith, na Escócia. Adam Smith era um presbiteriano convicto (uma corrente do
calvinismo). O nascimento do SOC está geralmente associado à publicação do
“Manifesto Comunista” de Marx e Engels em 1848, dois autores oriundos da
Prússia, onde o luteranismo nasceu.
Moralidade - Pertencendo as três correntes de pensamento à tradição
ocidental e cristã, existem semelhanças e diferenças entre elas. Uma das
principais diferenças respeita à moralidade. A moralidade que enforma o COL é a
moralidade católica que é definida pela tradição; no LIB é a moralidade
calvinista que é uma moralidade definida por acordo ou contratual; no SOC é a
moralidade luterana que é uma moralidade definida por lei.
Personalismo vs. Igualitarismo – O COL é uma corrente de pensamento
personalista que acredita que cada ser humano é essencialmente diferente de
todos os outros, um ser único e irrepetível, dotado de uma personalidade
própria que o distingue de todos os demais.
O LIB e o SOC são correntes de pensamento igualitárias que acreditam que
cada ser humano é essencialmente igual a todos os outros. Mas enquanto o LIB é
individualista fazendo prevalecer o indivíduo sobre a sociedade, o SOC é
colectivista fazendo prevalecer a sociedade sobre o indivíduo.
Comunidade – O COL é a mais comunitária das três correntes de
pensamento, sendo que o seu sentido comunitário começa na família e se alarga
progressivamente à região, à nação, ao mundo. O SOC é a menos comunitária de
todas, sendo que o seu colectivismo se centra sobretudo em torno do
Estado. O LIB ocupa, nesta matéria, uma
posição intermédia entre as duas anteriores.
Nacionalismo vs. Internacionalismo - O COL é a mais nacionalista
das três correntes de pensamento, sendo que as outras duas são
internacionalistas. O internacionalismo do LIB é essencialmente de carácter
económico, ao passo que o internacionalismo do SOC é sobretudo de carácter
político.
Economia – A Economia procura resolver, entre outros, o problema
chamado da afectação dos recursos, que se pode formular assim: “Como é que as pessoas se relacionam para
satisfazerem as suas necessidades materiais (alimentação, habitação, etc.)”? Existem
três formas de relacionamento humano – pelo amor (no sentido lato de bem-querer
ao outro), pelo interesse próprio e pelo poder.
Instrumentos de afectação dos
recursos – A cada uma das formas anteriores de relacionamento humano
corresponde um mecanismo de afectação dos recursos – ao amor corresponde a
dádiva, ao interesse próprio corresponde a troca, ao poder corresponde a força.
Principais instituições e sectores da Economia – A cada um dos
instrumentos anteriores de afectação dos recursos corresponde uma instituição
que o tipifica. A família é o locus da dádiva, a empresa privada é o locus da troca e o Estado é o locus da força. Mais amplamente, o
sector social ou solidário é o locus
da dádiva; o sector privado ou de mercado o locus
da troca; o sector público ou estatal o locus da força.
Família – Como instituição económica, o COL dá primazia à família
(e ao sector solidário), olhando a actividade económica como uma extensão dos
laços e das relações familiares e de amizade. O LIB dá primazia à empresa
privada (e ao sector privado) e o SOC dá primazia ao Estado (e ao sector
público).
Empresas e Empresariado. A empresa típica do COL é a empresa
familiar, a do LIB a sociedade anónima e a do SOC a empresa pública. O SOC desencoraja o
empresariado privado, o COL é o mundo do pequeno empresariado e o LIB o mundo
do grande empresariado (big business).
Estado - O Estado típico do LIB é o Estado Mínimo que se limita às
funções da defesa, ordem interna, justiça e negócios estrangeiros, e não tem
funções económicas. O Estado típico do SOC é o Estado-Providência (introduzido
por Bismarck na Prússia) que é uma Estado todo-poderoso em termos económicos. O
Estado típico do COL é o Estado Subsidiário que realiza as funções económicas
que a iniciativa privada não consegue preencher.
Sectores da Saúde e da Educação – Dois importantes sectores da
actividade económica onde a distinção entre as diferentes visões do Estado pode
ser exposta com toda a clareza são a saúde e a educação. Para o SOC estes
sectores são dominados directamente pelo Estado ou por entidades públicas,
sendo a actividade privada residual. O LIB inverte esta ordem, dando primazia à
actividade privada nestes sectores, sendo a actividade pública residual. O
COL dá também primazia à actividade
privada, sendo a actividade pública subsidiária, fornecendo o Estado estes
serviços onde os privados não o fazem e aos consumidores que não podem pagar o
preço cobrado pelos privados
Propriedade – O SOC favorece a propriedade pública, que é vista
como um meio para atingir o seu objectivo colectivo de igualdade entre os
indivíduos. O LIB favorece a propriedade privada que é vista como um meio para
cada indivíduo atingir os fins que se propõe na vida. O COL também favorece a
propriedade privada, que é vista como um elemento constitutivo da personalidade
de cada um, mas exige que ela, ao mesmo tempo, esteja ao serviço do bem comum,
podendo o Estado ser chamado a regular o equilíbrio entre o fim privado e o fim
público da propriedade.
Mercado - O LIB maximiza a esfera do mercado (ou universo das
trocas) na sociedade, o qual constitui o principal mecanismo de afectação dos
recursos. O SOC entrega esta função ao Estado, favorecendo a política sobre a
economia e minimizando a esfera de acção
do mercado. O COL tem uma posição intermédia, favorecendo a pessoalidade dos
mercados de âmbito geográfico restrito (v.g., locais, regionais nacionais) contra
a impessoalidade dos mercados globalizados, sendo o Estado regulador e árbitro
da actividade económica.
Impostos sobre o rendimento – O SOC é favorável à tributação
progressiva sobre o rendimento como instrumento para a realização do seu ideal
de igualdade. O LIB e o COL favorecem a tributação proporcional sobre o
rendimento. Quanto aos impostos indirectos, o SOC é o menos favorável (excepto
para produtos de luxo) devido à sua regressividade, enquanto o LIB e o COL
tendem a ser mais favoráveis, enfatizando
a “anestesia fiscal” que lhes é reconhecida.
Política económica e intervencionismo – O intervencionismo do
Estado, em termos de política económica, é máximo no SOC onde o Estado assume a
direcção da economia; é mínimo no LIB que privilegia os arranjos espontâneos
livremente estabelecidos entre os agentes económicos; e somente o necessário no
COL onde o Estado tem um papel subsidiário na economia.
Comércio internacional – O LIB é o mais favorável ao comércio
internacional; o COL tem uma propensão para o proteccionismo selectivo; o SOC é
favorável ao comércio internacional entre blocos de países da mesma ideologia.
Corrupção – A corrupção é a consequência normal da estatização.
Tende a ser maior no SOC onde o Estado é maior, menor no LIB onde o Estado é
mínimo, ocupando o COL uma posição intermédia com o seu Estado subsidiário.
O Partido CHEGA
O Chega no seu programa assume-se claramente como um Partido
Democrático, Patriota, Conservador e Liberal. Nele destaca e valoriza as suas
raízes históricas e civilizacionais judaico-cristãs e, entre elas, a sua
cultura universalista e tolerante, predominantemente católica e latina.
Integra-se, por isso mesmo, na
corrente do Conservadorismo Liberal.
Elege como seu principal adversário político o Socialismo. Mas recusa também os excessos do Liberalismo radical de raiz protestante e calvinista que não tem
adaptação prática aos valores conservadores de um país de raiz católica do sul
da Europa, como é Portugal.
O Chega defende “Menos Estado, melhor Estado”. Mais concretamente,
defende um Estado Subsidiário que realize
de forma competente e exemplar as funções que não competem à iniciativa privada
ou que esta não consegue preencher de forma satisfatória.
Está, por isso, em oposição clara
e assumida ao omnipresente a castrador Estado
Socialista, que aniquilando e inviabilizando com impostos uma classe média
próspera e dinâmica, não consegue criar muito mais do que pobreza e
dependência, potenciando enormemente a corrupção.
Mas opõe-se igualmente ao Estado
reduzido e limitado a funções básicas - o Estado
Mínimo proposto pelo Liberalismo anglo-saxónico - que, sendo
particularmente favorável a ideias globalistas, é dificilmente compatível com
uma defesa eficaz do interesse nacional.
Para um partido político, a
coerência ideológica e programática é, do ponto de vista reputacional, muito
importante. Mesmo aceitando que, por vezes, é necessário transigir a fim de
crescer e captar votos que lhe permitam atingir uma dimensão relevante e útil,
a partir de certo ponto ou patamar eleitoral um partido dificilmente terá credibilidade
se defender certos princípios e propuser medidas concretas que os contradizem.
Existe o risco de o partido projectar uma imagem de incoerência, oportunismo ou
mesmo ignorância. Para além do chamado “voto de protesto”, serão poucos os
eleitores que confiariam num partido assim para governar o país.
Na área económica, um partido como
o Chega, pertencendo à corrente do Conservadorismo Liberal, deveria ter
sempre presente as dez ideias seguintes nas suas intervenções públicas e nas
suas propostas legislativas:
1. Privilegiar
sempre o sector privado sobre o sector público da economia.
2. Reduzir drasticamente o peso do Estado na
economia e promovê-lo como regulador e árbitro imparcial da actividade
económica através de serviços de justiça eficientes.
3. Pugnar
pela existência de uma classe média forte e dinâmica, defendendo a redução
drástica dos impostos directos, como o IRS e o IRC, e acabando com a
progressividade do primeiro.
4. Dar
prioridade absoluta às Pequenas e Médias Empresas (PME) e, dentre estas, às
empresas familiares.
5. Simplificar
drasticamente o Código do IVA e acabar com a obrigatoriedade de as empresas
entregarem ao Estado o IVA correspondente a facturas que ainda não receberam.
6. Reduzir
drasticamente a regulamentação sobre as PME e as coimas, por vezes ruinosas,
que lhe estão associadas.
7. Encorajar
sempre, em pé de igualdade, a complementaridade entre o ensino privado e o
ensino público.
8. Defender
sempre a complementaridade entre hospitais privados e hospitais públicos, bem
como as parcerias público-privadas.
9. Encorajar
fortemente o sector solidário ou social, especialmente nas áreas do ensino, da
educação e da assistência aos necessitados.
10. Defender
e promover todas as tradições portuguesas, incluindo as actividades e as
indústrias tradicionais do país.
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(*) A metáfora do "saco de batatas" é uma famosa analogia utilizada por Karl Marx no livro O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1852) para descrever a classe camponesa francesa da época. Marx argumentava que, embora os camponeses partilhassem condições de vida semelhantes, a falta de organização política e união nacional os impedia de agir como uma classe coesa, comparando-os a batatas num saco: juntas fisicamente, mas sem conexão interna.