26 maio 2026

e eles em primeiro lugar

 

Fonte: cf. aqui

Revolta na SIC. Trabalhadores contestam aumentos milionários na administração

Fonte: cf. aqui


Comentário: A SIC é bem o exemplo do célebre dictum de Arthur Seldon, um dos fundadores do Institute of Economic Affairs de Londres: "Os socialistas prometem a abundância para todos, desde que seja um de cada vez, e eles em primeiro lugar".

A utopia liberal

 


O lançamento foi ontem na Associação Comercial do Porto


20 maio 2026

EXPLOIT or EXPLORE


A dificuldade em traduzir “Exploit vs. Explore” para português talvez seja mais reveladora do que parece.

Em inglês, a distinção é relativamente clara. To exploit significa optimizar, extrair valor do que já existe, tornar eficiente um recurso conhecido. To explore significa procurar o desconhecido, experimentar, descobrir novas possibilidades. O dilema clássico das organizações modernas consiste precisamente nisso: continuar a explorar aquilo que já funciona ou aventurar-se em território desconhecido.

Mas em português surge imediatamente um problema quase cómico.

Explorar… ou explorar?

A língua parece recusar-se a colaborar com a teoria.

Tentamos fugir pela tangente. “Explorar vs. descobrir.” Melhor, mas também não resolve completamente o problema. Afinal, os Descobridores portugueses eram chamados exploradores. E não apenas porque navegavam por mares desconhecidos. Exploravam rotas, oportunidades, recursos, comércio, especiarias, ouro, posições estratégicas. Descobrir e explorar estavam profundamente ligados.

Nenhum marinheiro do século XV atravessava oceanos apenas por curiosidade intelectual. Havia sempre um elemento de oportunidade, risco, lucro ou expansão. O explorador descobria porque queria explorar. E explorava porque descobrira.

A confusão semântica talvez não seja acidental.

Hoje, porém, a palavra “explorador” adquiriu um tom quase exclusivamente moral e negativo. Um empresário que cria riqueza ao identificar oportunidades pode rapidamente ser descrito como “um explorador”. O termo já não sugere aventura ou descoberta. Sugere alguém sentado num gabinete a subpagar trabalhadores enquanto bebe café importado da Guatemala.

Curiosamente, ninguém considera negativo “explorar oportunidades existentes” quando se trata de um investimento imobiliário, de uma optimização fiscal ou de uma promoção de supermercado. A exploração deixa de ser moralmente suspeita quando é burocrática, previsível ou socialmente aceite. Mas torna-se imediatamente problemática quando envolve risco, lucro visível ou inovação disruptiva.

Talvez isto revele um pequeno bloqueio mental contemporâneo.

As sociedades modernas gostam muito dos resultados da descoberta, mas tornaram-se desconfortáveis com o acto de explorar. Gostam de tecnologia, medicamentos novos, inteligência artificial, vacinas, satélites, plataformas digitais e carros eléctricos. Mas olham frequentemente com suspeita para os indivíduos ou empresas que assumem os riscos necessários para produzir essas descobertas.

Queremos emergência sem exploradores. Queremos inovação sem aventureiros. Queremos progresso sem perturbação.

É possível que esta confusão linguística acabe por influenciar subtilmente a própria forma como pensamos. Quando a linguagem funde descoberta com exploração predatória, o espírito exploratório começa lentamente a adquirir uma tonalidade moral ambígua. O explorador deixa de ser Fernão de Magalhães e passa a ser o vilão de uma assembleia sindical.

No fundo, talvez o problema seja civilizacional.

As sociedades mais dinâmicas conseguem tolerar uma certa ambiguidade moral associada à exploração do desconhecido. Aceitam que descobrir implica risco, tentativa, fracasso, desigualdade temporária e até algum oportunismo. As sociedades mais rígidas preferem frequentemente optimizar o que já conhecem. Tornam-se excelentes a administrar o existente, mas perdem progressivamente capacidade de descoberta.

E assim acabamos numa situação deliciosa do ponto de vista linguístico: uma civilização que quer continuar a descobrir o futuro, mas que já não sabe muito bem como falar dos exploradores sem franzir o sobrolho.

19 maio 2026

anormalidades

 



O ministro da Economia e da Coesão Territorial, Castro Almeida, defendeu hoje, em Lisboa, que o Plano de Recuperação e Resiliência vai ser 100% executado se, até ao final do ano, "não houver anormalidades".

Fonte: cf. aqui


Comentário. Claro que vai haver anormalidades. A principal é o ministro. O que faz um burocrata a ministro da Economia?

17 maio 2026

Os "democratas"

 




Como diz o nosso muito democrático jornal Público,

"Sempre a falar da paz, Trump atacou seis países desde o início do mandato
Sempre com justificações diferentes, Trump encara o uso da força como um elemento central da sua presidência. Irão, Venezuela, Nigéria, Síria, Iémen e Somália foram os seus alvos.


Fonte: cf. aqui

O ponto é que nenhum desses países é democrático.

Trump não ataca países democráticos.

Os "democratas" é que atacam Trump. 

15 maio 2026

escritórios de advogados


 


"Leitão Machado e mais três são arguidos após buscas no negócio de meios de combate a fogos
Em causa estão suspeitas de corrupção em concursos de aluguer ao Estado de helicópteros e cunhado de Leitão Amaro é o principal visado. Operação chegou a escritórios de advogados e empresas".

Fonte: cf. aqui


Comentário: Quando os jornalistas reportam investigações do Ministério Público ou da Polícia Judiciária sobre pessoas e empresas referem-se a elas pelos seus respectivos nomes.

Mas quando as investigações envolvem  sociedades de advogados os seus nomes nunca são divulgados.

É uma tradição muito má e provavelmente ditada pelo medo. É que há sociedades de advogados que se comportam como verdadeiras corporações de facínoras, como é notoriamente o caso da Cuatrecasas (cf. aqui), e os jornalistas temem retaliação.

Ora, no caso em apreço, teria sido muito importante divulgar o nome dos "escritórios de advogados" envolvidos.  É que o ministro Leitão Amaro foi sócio da Cuatrecasas.

Será que ele aconselhou a Cuatrecasas ao cunhado para tratar do negócio dos helicópteros?

Eu não ficaria surpreendido. Mas para ter a certeza precisava que os jornalistas portugueses abandonassem a tradição cobarde de omitir os nomes das sociedades de advogados criminosas, ou alegadamente assim.


14 maio 2026

originalmente

 


“Nenhum juiz, muito menos num Estado de Direito como é Portugal, poderá ser ameaçado ou perseguido criminalmente pelo simples facto de o MP não ter ficado satisfeito com as decisões judiciais por si proferidas. Para além disso, nenhum juiz, quando está no processo de decisão e de aplicação do direito aos factos, jamais poderá ter receio ou medo quanto ao sentido da decisão que irá proferir”, argumentou Ivo Rosa.

Fonte: cf. aqui


Comentário: É aquilo a que eu originalmente chamei terrorismo judicial (cf. aqui e aqui).


(Pergunta: Quando é que se põem estes patifes na prisão?)

O ENIGMA CHINÊS

 


Robert Pape observou recentemente que muitos visitantes que regressam da China não estão apenas impressionados — estão perplexos. O país que esperavam encontrar não corresponde à imagem ideológica que traziam consigo. Em vez de estagnação, encontram gigantescos projectos de infra-estruturas, sistemas de transporte sofisticados, ecossistemas industriais em rápida expansão, pólos avançados de manufactura e cidades que funcionam com uma coerência extraordinária. A reacção é frequentemente a mesma: como pode um país comunista estar a desenvolver-se a esta escala enquanto muitas sociedades ocidentais parecem cada vez mais fragmentadas?

O problema pode não estar na própria China, mas nas lentes através das quais continuamos a analisar as civilizações.

Durante décadas, avaliámos as sociedades através de quadros ideológicos herdados do século XX. As democracias liberais deveriam inovar e prosperar. Os sistemas centralizados deveriam tornar-se rígidos, ineficientes e eventualmente colapsar sob o seu próprio peso. Contudo, a realidade tornou-se mais difícil de encaixar nessas categorias.

A China não colapsou.

Pelo contrário, tornou-se um dos maiores sistemas industriais, tecnológicos e infra-estruturais alguma vez construídos na história humana.

Isto não significa que a China desminta o valor da liberdade, nem que os sistemas autoritários sejam inerentemente superiores. Significa apenas que os antigos paradigmas já não são suficientes para explicar o que está a acontecer.

O Civilizational Balancing Index (CBI) tenta abordar a questão de outro ângulo. Em vez de julgar as civilizações ideologicamente, avalia-as funcionalmente através de duas variáveis: Absorção da Incerteza (U) e Capacidade de Emergência (E).

A Absorção da Incerteza mede a capacidade de uma civilização manter previsibilidade, coordenação, continuidade, segurança e coerência institucional. A Capacidade de Emergência mede a sua capacidade para gerar novidade, inovação, empreendedorismo, adaptação e criatividade descentralizada.

As civilizações que melhor desempenham não são necessariamente as mais livres nem as mais controladas. São aquelas capazes de equilibrar ambas as dimensões.

Vista através desta lente, a China torna-se muito menos misteriosa.

A China desenvolveu uma capacidade extraordinária para absorver incerteza à escala nacional. Os projectos de infra-estruturas são executados rapidamente. O planeamento industrial opera ao longo de décadas, e não de ciclos eleitorais. Os sectores estratégicos são coordenados nacionalmente. Universidades, sistemas energéticos, logística, portos, caminhos-de-ferro, desenvolvimento de IA e ecossistemas industriais funcionam cada vez mais como camadas integradas da mesma máquina civilizacional.

Mais importante ainda, a China não sufocou a emergência.

É aqui que muitos observadores ocidentais permanecem presos a pressupostos ultrapassados. Imaginam a China como uma estrutura de comando rígida, incapaz de inovar. Contudo, a China moderna permite níveis significativos de emergência dentro de corredores estrategicamente tolerados. Existe competição. Existe empreendedorismo. Existe experimentação tecnológica. Os ecossistemas industriais evoluem rapidamente. Regiões inteiras funcionam como laboratórios adaptativos em grande escala.

O resultado é uma civilização que combina elevada absorção da incerteza com uma substancial capacidade de emergência — uma combinação que o modelo CBI identifica como particularmente poderosa em períodos de transformação tecnológica sistémica.

Entretanto, os Estados Unidos continuam a preservar uma enorme capacidade de emergência. Permanecem uma das sociedades mais criativas da história humana. Universidades americanas, centros de investigação, redes de capital de risco e cultura empreendedora continuam a gerar inovação extraordinária.

Mas algo mais tem enfraquecido.

A previsibilidade.

A confiança institucional diminui. A polarização política intensifica-se. A coerência regulatória oscila fortemente entre administrações. A continuidade estratégica torna-se difícil. A execução de infra-estruturas abranda. O discurso público torna-se cada vez mais instável. A capacidade de absorver incerteza — a variável “U” — parece progressivamente mais frágil.

O paradoxo é impressionante.

A China tornou-se economicamente mais aberta enquanto preservava elevada coordenação sistémica. Os Estados Unidos preservaram uma abertura extraordinária, mas enfraqueceram gradualmente a sua coerência civilizacional.

Este é o verdadeiro dilema chinês.

Os observadores ocidentais continuam a interpretar a China sobretudo através de categorias morais ou ideológicas herdadas da Guerra Fria. Mas a era da IA poderá recompensar cada vez mais as civilizações não em função da ideologia, mas da funcionalidade.

A questão central já não é simplesmente:
“Qual é o sistema mais livre?”

Poderá tornar-se cada vez mais:
“Que civilização consegue manter previsibilidade suficiente para integrar transformações tecnológicas massivas sem colapsar social ou institucionalmente?”

Isto não garante a supremacia chinesa. A China enfrenta enormes riscos estruturais: demografia, dívida, centralização, rigidez informacional e a possibilidade de o excesso de controlo acabar por sufocar a própria emergência.

Mas significa que a velha suposição — segundo a qual civilizações centralizadas estão automaticamente condenadas à estagnação — já não corresponde à realidade.

O mundo está a entrar numa fase em que o equilíbrio entre absorção da incerteza e emergência poderá tornar-se o factor decisivo do sucesso civilizacional.

E sob essa lente, a China torna-se subitamente muito mais fácil de compreender.

08 maio 2026

Passamos no PEST mas Tropeçamos no CBI Index

Durante décadas, empresas, fundos de investimento e multinacionais recorreram ao modelo PEST para avaliar a atractividade de um país. O método tornou-se quase universal pela sua simplicidade e utilidade prática. Analisa quatro dimensões fundamentais: Política, Economia, Sociedade e Tecnologia. A pergunta implícita é simples: “Este país oferece condições suficientemente estáveis e previsíveis para investir?”

Nesse aspecto, países como Portugal costumam passar com facilidade. Existe estabilidade política, integração europeia, infraestruturas modernas, baixa criminalidade violenta, uma população relativamente educada e uma boa qualidade de vida. O país parece seguro, civilizado e funcional. Passa no teste.

Mas o problema do PEST é que descreve o estado aparente do sistema sem medir a sua vitalidade estrutural.

É aqui que o CBI — Civilizational Balancing Index — introduz uma dimensão paralela e, em muitos aspectos, mais profunda.

O CBI parte de uma definição funcional de civilização:

Civilização é uma camada social que absorve a incerteza enquanto mantém um espaço controlado para fenómenos emergentes.

Esta definição introduz duas variáveis fundamentais:

  • U — Uncertainty Absorption: capacidade de absorver caos, instabilidade, violência, crise e imprevisibilidade.

  • E — Emergence Capacity: capacidade de gerar inovação, adaptação, empreendedorismo, mobilidade e novidade.

O ponto essencial é que uma civilização saudável necessita das duas.

Sem absorção da incerteza, a sociedade colapsa no caos. Sem emergência, sufoca na rigidez.

E é precisamente aqui que o CBI se distingue do PEST. Enquanto o PEST olha para componentes isolados, o CBI observa o metabolismo do sistema.

Um país pode parecer estável, funcional e atractivo no presente, mas estar lentamente a consumir a sua própria capacidade de adaptação futura.

Portugal ilustra bem esta possibilidade.

O país possui uma absorção da incerteza relativamente elevada:

  • estabilidade institucional,

  • Estado funcional,

  • integração europeia,

  • ordem pública,

  • sistemas sociais abrangentes,

  • forte regulamentação administrativa.

Mas o custo dessa estabilização parece crescer continuamente.

Ao mesmo tempo, observam-se fragilidades ao nível da emergência:

  • crescimento económico modesto,

  • produtividade baixa,

  • burocracia pesada,

  • dificuldade em escalar empresas,

  • fuga de jovens qualificados,

  • envelhecimento demográfico,

  • dependência do turismo e do imobiliário,

  • fraca densidade tecnológica comparada com centros mais dinâmicos.

O resultado é um paradoxo muito português:
uma sociedade simultaneamente confortável e frustrada.

Segura, mas estagnada.
Civilizada, mas pouco dinâmica.
Ordenada, mas com mobilidade limitada.

O PEST tende a interpretar estas características como aceitáveis ou até positivas. Afinal, a estabilidade conta a favor.

O CBI, porém, levanta uma questão mais inquietante:
o sistema continua capaz de produzir futuro?

É aqui que surge o valor preditivo do índice.

O CBI não mede apenas condições presentes. Mede trajectórias civilizacionais.

Uma sociedade pode manter estabilidade durante muitos anos enquanto a sua capacidade de emergência enfraquece silenciosamente. O declínio raramente começa com colapso. Normalmente começa com desaceleração:

  • menor inovação,

  • menor ambição,

  • menor mobilidade,

  • menor capacidade adaptativa,

  • maior dependência institucional.

Com o tempo, a civilização continua organizada, mas perde energia.

Na era da Inteligência Artificial, esta distinção torna-se ainda mais importante. O futuro pertencerá provavelmente às sociedades capazes de equilibrar simultaneamente:

  • ordem,

  • flexibilidade,

  • inovação,

  • confiança institucional,

  • liberdade de experimentação.

Nem Estados gigantescos nem ausência de Estado parecem resolver o problema. O desafio é encontrar o equilíbrio funcional entre absorção da incerteza e emergência.

É precisamente isso que o CBI procura medir.

O PEST diz-nos se um país parece estável hoje.

O CBI tenta perceber se essa estabilidade ainda consegue gerar amanhã.