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17 novembro 2008

a importância da tribo


Depois de ter defendido que a cultura portuguesa (católica) envolve a censura como um dos seus elementos essenciais e estruturantes, afirmei neste post que os partidos políticos são os principais agentes da censura em democracia, prometendo voltar mais tarde ao assunto. Também afirmei que, na nossa cultura, a opinião independente tende a ser censurada e, no limite, banida do espaço público pelos partidos políticos.

Eu tinha agora aqui duas teses para provar, mas um dilema. Se eu estivesse num país Prot desenvolvia um argumento abstracto, respeitando as regras da racionalidade e da lógica e despachava o assunto num instante. Mas eu estou em Portugal e, como norma, tudo o que seja argumento abstracto passa ao lado dos portugueses. Não só não lhes diz nada - literalmente, não os excita -, mas também, como é próprio da incompreensão, até se riem só da menção da palavra (Veja neste post como o EPC se divertiu sobretudo quando mencionei a capacidade do pensamento abstracto. Veja também aqui como o Joaquim exprimiu, em termos abstractos, vinte princípios que lhe guiam a vida, e ninguém lhe ligou nenhuma).

Então, e em Portugal como é que se faz, se se pretende provar um argumento? Tem de se começar com casos concretos, histórias de preferência altamente pessoalizadas, se possível metendo sangue, nem que seja por palavras. É assim que os portugueses ficam excitados e agarrados ao argumento. Foi isso que eu decidi fazer aqui, aqui e aqui e resultou em cheio. Nada de pensamento abstracto, nada de Kant (o principal cultor moderno do pensamento abstracto), nada de cultura Prot. Não dá em Portugal.
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Numa cultura como a nossa que privilegia o poder, que espera do poder a chuva e o bom tempo, o regime democrático leva os partidos a ocuparem todas as instituições que influenciam a opinião pública, que, por assim dizer, fazem a cabeça às pessoas. As principais são os media (jornais, radio, televisão) e as instituições de ensino (universidades, escolas). Com a democracia e o decorrer do tempo estas instituições ficam solidamente partidarizadas.

Suponha agora que, numa destas instituições, vg., os media, aparece um homem a emitir opiniões em público que desagradam a um certo partido político. Este homem vai ganhar uma tribo de adversários - o partido político visado, pronto a disparar sobre ele e, no limite, a silenciá-lo.

Duas situações são agora possíveis. Na primeira, o autor das novidades (para usar a linguagem da Inquisição) é ele próprio membro de um partido político. Neste caso, ele possui uma tribo para o defender na redacção do jornal, rádio ou televisão e nos media em geral. Assim sendo, o partido visado vai reagir de forma contida - se é que vai desferir algum ataque de todo - porque qualquer ataque ao autor das novidades pode desembocar numa guerra interpartidária. O desfecho mais provável, excepto em situações extremas, é, pois, o de que não aconteça nada ao autor das novidades.

Na segunda situação é diferente. O autor das novidades é um cidadão independente e não pertence a nenhum partido político. Neste caso, as suas opiniões, as quais desagradam a um certo partido político, fazem-no ganhar uma tribo de adversários, sem que ele tenha, ao mesmo tempo, uma tribo de amigos - um partido - para o proteger e defender nas redacções dos jornais, das rádios e das televisões, e na opinião pública em geral. Ele vai ser atacado pela certa e no limite vai ser eliminado. É uma questão de tempo.

Um homem ou grupo de homens possuindo ligações a um partido político tem alguma liberdade de opinião em Portugal, sob o regime democrático - embora uma liberdade relativa e sujeita à ortodoxia do partido. Se não possuir tais ligações, a prazo será calado. A democracia promove o acesso à ribalta pública apenas a homens dependentes das ligações partidárias. E tira de lá todos os independentes. Ou acha que algum destes episódios me teria acontecido se eu fosse membro de um partido político (aqui, aqui, aqui e aqui)? Foi a multiplicidade de episódios como este, o desgaste que eles causam, e as consequências que inevitavelmente tinham na minha vida pessoal, profissional e familiar que me levaram a abandonar toda a intervenção pública regular. E eu até era muito bem pago, como acontece com qualquer avis rara.

21 fevereiro 2009

Ouvi dizer ...


"I read an article which says that ...". Ele leu um artigo que diz ... É assim que um americano, um inglês, um canadiano comunica aos outros uma novidade que acaba de conhecer.

"Ouvi dizer que ...". É assim que faz um português. O americano leu, o português ouviu dizer.

Num país de tradição protestante, como os EUA, as pessoas tomam conhecimento das coisas, lendo (em primeiro lugar as Escrituras). Num país de tradição católica, as pessoas tomam conhecimento das coisas, ouvindo (em primeiro lugar, o padre a explicar as Escrituras).

A forma como se propagam as novidades ou notícias é, assim, muito diferente numa sociedade e na outra. Na primeira, a sociedade protestante, a novidade nunca é desligada da fonte e qualquer pessoa pode confirmar, de forma independente, a exactidão daquilo em que consiste a novidade, ou a exactidão da forma como ela lhe foi transmitida, lendo a fonte.

Diferente é a situação num país de tradição católica. A confirmação quanto à exactidão daquilo em que consiste a novidade ou quanto à forma como ela é transmitida exigiria que todos entrassem em contacto com a pessoa que a proclamou e esta se dispusesse a ser inquirida por todos - uma impossibilidade prática, tanto mais que o autor-fonte da novidade é frequentemente desconhecido ou até anónimo. Neste país, então, as novidades tendem a ser propagadas de boca- em-boca, desligadas da sua fonte, e sem qualquer preocupação de saber, se elas são ou não fieis à fonte.

As notícias ou novidades em Portugal ganham, assim, uma vida própria neste processo de passagem sucessiva de boca-em-boca, de diz que disse, onde cada pessoa lhe junta uma pequena nuance, omite um detalhe, ou acrescenta um pormenor, de tal maneira que, no final do processo, a novidade não tem mais correspondência, nem mesmo longínqua, com a realidade da fonte que lhe deu origem.

É esta característica da cultura católica que confere aos portugueses a sua merecida fama de boateiros e caluniadores incorrigíveis. Ponha uma pequena novidade maliciosa a circular acerca de uma certa pessoa. Deixe passar o tempo e, em breve, os portugueses olharão para essa pessoa como tendo cometido um crime gravíssimo. E saltar-lhe-ão todos em cima , e merecidamente, porque é assim que se trata quem comete crimes graves. Nesta cultura, o boato e a calúnia são armas letais.

16 novembro 2008

amigo de novidades


Nasceu em 1500, faleceu em 1545. Gonçalo Anes - de alcunha O Bandarra - era sapateiro em Trancoso e também poeta. Foi, porém, a sua veia profética que o tornou conhecido em todo o país, uma espécie de Nostradamus português.
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O Bandarra não tinha linhagem nem ligações ao poder real ou eclesiástico. Era um homem independente, tanto quanto um sapateiro de Trancoso pode ser independente. A sua fama chegou a Lisboa e ele acabou também por vir à capital, primeiro em 1531, depois em 1538, altura em que, segundo um seu biógrafo "as cópias das suas profecias surgiam já por toda a parte. Na capital, a população judaica alvoroçava-se com a vinda do Messias e, à sua maneira, interpretava as coplas do profeta" (*)

Um homem independente a influenciar a opinião pública em Portugal? Vai acabar mal, profetizaria eu - profecia que o Bandarra nunca fez, para seu mal.

No auto-de-fé que lhe foi lido em 23 de Outubro de 1541, nos paços reais da Ribeira, em Lisboa, acusavam-no, ainda segundo o seu biógrafo, de "ser amigo de novidades e com elas causar alvoroço em cristãos novos" (*)

(*) Fernando J. S. Costa (ed.), As Profecias do Bandarra, Trancoso: Trancoso Eventos, 2007
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Nota: Acerca do Bandarra escreveu Fernando Pessoa: "O verdadeiro patrono do nosso país é esse sapateiro Bandarra ... O futuro de Portugal - que não calculo mas sei -está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra ... O Bandarra símbolo eterno do que o povo pensa de Portugal".

24 agosto 2010

liderar pelo exemplo (ou falta dele)

O Diário Económico chama hoje a atenção para uma das mais aguardadas novidades legislativas do ano: o pagamento de juros de mora, por parte do Estado, às entidades privadas a quem os organismos públicos devem dinheiro.
Num Estado de direito tem de se exigir à Administração Pública as mesmas regras que esta exige aos demais no sector privado. Ora, em Portugal, os atrasos de pagamento do Estado e das empresas públicas são recorrentes e têm decorrido num regime de total impunidade, em comparação com o tratamento leonino que as Finanças têm em relação a contribuintes em mora. Em Fevereiro passado, foi aprovada uma lei que, a partir de Setembro, obrigará o sector público a honrar os seus compromissos financeiros dentro dos prazos normais, ou seja, até 60 dias (de acordo com as Finanças, o prazo médio de pagamento no Estado é de 80 dias). Na altura, a medida foi apresentada, com alguma fanfarronice, como uma medida de "estímulo orçamental", quando, na verdade, corresponde apenas à reposição de alguma moralidade na vida pública portuguesa.
O problema é que, entretanto, estamos quase em Setembro e ninguém se atreve a arriscar o valor que o Estado poderá ter de pagar ao abrigo da nova lei. Pior ainda, à boa maneira portuguesa, ainda se discute se a lei terá efeito retroactivo, sobre as dívidas pendentes, ou se é apenas para cumprir nos novos contratos (já agora, assinados desde Fevereiro ou só a partir de Setembro?!?). Alheio a tudo isto está, aparentemente, o Ministério das Finanças que, citado pelo DE, afirma não saber quanto pagará em juros de mora e que nem tem nada que saber! Mas, de acordo com o mesmo jornal, só os hospitais públicos devem 850 milhões de euros a fornecedores. E a administração local tem uma dívida estimada de outro tanto às empresas de construção. Em conjunto, representa um valor equivalente a metade da consolidação orçamental ambicionada para este ano. Ora, regressando ao último relatório de execução orçamental da Direcção Geral do Orçamento - que só agora foi descoberto pela generalidade das cabecinhas pensadoras deste país -, não há evidência de que a dívida do Sistema Nacional de Saúde e da administração local tenha sido amortizada neste primeiro semestre do ano. Em ambos os casos, houve até uma melhoria da sua situação orçamental face a igual período do ano passado, indicando que a dívida pendente não foi paga e que, provavelmente - assumindo que os velhos hábitos não foram reformados - até terá aumentado.
Enfim, oxalá eu esteja enganado na extrapolação dos números, mas a evidência factual parece irrefutável. Ou seja, a liderança deste país continua a não primar pelo exemplo, constituindo incentivo para que todos os outros façam tábua rasa das regras de boa convivência. O exemplo tem de vir de cima e tem de começar com coisas como esta, que para alguns políticos poderão ser "comezinhas", mas que são pequenos passos essenciais rumo àquilo que devia ser a democracia neste país.
Ps: Já agora, dado que, nos últimos dias, tanta gente se dedicou à leitura do relatório da Direcção Geral do Orçamento, conviria que alguém perguntasse ao Dr. Jaime Gama por que é que a Assembleia da República figura na lista de "organismos públicos em incumprimento na prestação de informação" (página 12)...

12 março 2016

as duas coisas

Um dos maiores erros que se pode cometer acerca do cristianismo é o de olhar para Cristo como sendo somente Deus. Porque ele não era somente Deus. Ele também era homem.

Ele era as duas coisas. Ele era ao mesmo tempo homem e Deus.

Nunca nenhuma comunidade humana existiu sem Deus, e algumas até tiveram vários. Nuns casos eram homens, como na Grécia ou na Roma antigas (mas também havia mulheres). Mas mesmo esses deuses que eram homens, nunca ninguém os viu em concreto, nunca ninguém viveu com eles ou falou com eles, e nunca ninguém lhes tocou. Deus era um figura remota, um homem que nunca ninguém tinha visto ou tocado. E o Deus do judaísmo é também assim, um legislador remoto.

Uma das grandes novidades do cristianismo é que Deus é um homem concreto, com quem se convive, com quem se fala, em quem se toca, como fez S. Tomé. É uma figura histórica, um homem concreto que existiu de verdade, em carne e osso. A tal ponto concreto que durante os primeiros 30 anos da sua vida nunca ninguém deu por ele.

Em Cristo existiam características que eram  humanas e outras que eram divinas. É muito interessante o exercício de ler os Evangelhos olhando para Cristo somente como homem. As suas falhas ou pecados humanos são numerosos.

Então não é que aquele patife proclama alto e bom som o princípio segundo o qual quando nos derem uma bofetada numa face, devemos oferecer a outra face, e ele próprio, quando lhe dão uma bofetada numa face (durante o seu julgamento, por um guarda) em lugar de oferecer a outra face, protesta?

E o que dizer daquele episódio, em que estando ele com os discípulos, o vêm avisar que lá fora está a sua mãe, e ele pergunta insolente "Mas quem é a minha mãe?" de modo que, parece, a própria mãe ouviu?. Que ofensa à mãe. Eu estou a imaginar-me na situação. A minha mãe avançaria para mim, zangada, e dir-me-ia:

-Perguntaste quem era a tua mãe?...

-A tua mãe sou eu!,

e eu ficaria calado que nem um rato.

E aquela cena do templo, em que ele entra e vira as mesas dos cambistas espalhando a mercadoria toda pelo chão? Se eu estivesse de lado a observar, não lhas pouparia: "Eh pá, tinhas alguma necessidade de fazer isso? Os homens estão aí a governar a sua vida e das suas famílias. Bastava que lhes tivesses dito: 'Ponham-se lá fora, que aqui não é lugar para negócio'".

E aquela rajada de insultos que ele dispara sobre os fariseus e os escribas em Mateus:23? Para quem proclamava que devíamos sempre amar o próximo...

Quanto ao sexo, sendo homem, ele tinha tanta necessidade de ter uma mulher como qualquer outro homem. Mas, depois, havia também a característica divina nele - e essa era a sua capacidade de contenção.

A ideia moderna de que Cristo é somente Deus é uma ideia protestante, que decorre do princípio Solo Christus. Se Cristo é somente Deus, e eu sou homem, então ele é totalmente diferente de mim e largamente irrelevante para a minha vida. Daqui a fechar Cristo no armário e viver como se Deus não existisse vai um passo.

A verdade pertence ao catolicismo - Cristo é, ao mesmo tempo, Deus e homem. Este Cristo é relevante para a vida, e para a vida de todos os dias. Eu também sou homem como ele. A próxima questão é a seguinte: o que é que me falta, então, para ser também Deus como ele? Ele passa a ser o padrão, o guia da minha vida.

Ele não sugere nada aos homens que sejam castos. Pelo contrário, ele encoraja a procriação - crescei e multiplicai-vos. Mas através daquela característica divina da castidade, ele passa uma outra, e grandiosa, mensagem: "Olha que uma mulher não é só para sexo, nem, em primeiro lugar, para isso".

Nunca os homens tinham recebido esta mensagem através do exemplo de um homem como eles. Se a tinham recebido antes, era só de conversa fiada. Cristo possuía também essa caraterística divina. Ele não dizia apenas. Ele fazia, dava o exemplo.

Que tipo mais extraordinário!

20 abril 2009

Terrorismo de Estado


As notícias da semana passada a propósito das novidades legislativas relativas ao sigilo bancário e enriquecimento ilícito são preocupantes. Como disse, e muito bem, o dr. Paulo Rangel, trata-se de "terrorismo fiscal" praticado pelo Estado, que constitui uma manifesta fuga para a frente por parte de um Estado cada vez menos democrático que governa a nossa pobre República. Porque a ideia de inverter o ónus da prova sempre que se descubra alguém com 100 mil euros (enriquecimento?!) a mais, do que aquilo que a sua declaração de rendimentos permite justificar, é apenas mais um atropelo aos já depauperados direitos dos contribuintes, que serve de pretexto a mais umas quantas cobranças coercivas. E que procura esconder os dois verdadeiros dramas da economia portuguesa: a incapacidade da Justiça, que não zela pela integridade dos contratos, e a enormidade do Estado, cuja despesa primária, ano após ano, teima em crescer muito acima do crescimento médio do PIB (ver http://www.dgo.pt/) - apesar da propaganda socialista. Ao mesmo tempo, a ideia de taxar, genericamente, os prémios dos executivos em 75% é outra medida extraordinária, que apenas conduzirá à emigração dos nossos melhores executivos e das nossas melhores empresas.

Enfim, como aqui tenho repetido várias vezes, neste rumo, neste estado actual de coisas, Portugal não tem qualquer futuro. A nossa falta de competitividade externa, exacerbada pelas políticas orçamentais expansionistas e pelo endividamento que a nossa frágil economia não sustentará, é o nosso ponto de partida e, infelizmente, de chegada. Hoje, amanhã ou daqui a 10 anos. Desgraçadamente, os nossos políticos ainda não o perceberam. Ou então, fazem de conta. Porque não é através da perseguição fiscal que se conseguirá enriquecer Portugal. A prazo, as pessoas não são estúpidas e perceberão que, em Portugal, não existe qualquer incentivo à criação de riqueza. É isto que irá acontecer. Sobretudo agora, em que, cada vez mais, se percebe que as medidas aprovadas na semana passada representam apenas o preâmbulo do que aí vem: a subida de impostos, ainda para mais, quando historica e politicamente há margem para o fazer!

13 março 2021

daqui a 20 anos

"Casos Marquês e BES podem não estar concluídos daqui a 20 anos" (cf. aqui)

Esta semana, os procuradores-gerais adjuntos - a categoria mais alta do Ministério Público, onde se ganha mais que a primeiro-ministro - Euclides Dâmaso e Maria José Morgado participaram num debate sobre corrupção organizado pelo jornal Observador. 

É preciso salientar, desde já, e como se torna claro desde o início no áudio, que os procuradores Dâmaso e Morgado estão jubilados. A questão prévia e importante aqui é que os membros da casta a que eles pertencem não se reformam como as pessoas comuns. Eles jubilam-se.

E uma das novidades que eles vieram revelar à Nação é que os casos Marquês e BES podem não estar resolvidos nem dentro dos próximos 20 anos (2041).

Ora, o principal arguido do processo Marquês (que já leva 8 anos) - José Sócrates - terá em 2041 a idade de 84 anos e, tendo em conta a esperança de vida do homem português, é mais provável que nesse ano esteja morto do que vivo.

Quanto ao principal arguido do processo BES (que já leva 7 anos) - Ricardo Salgado - é praticamente certo que estará morto em 2041. Se estiver vivo, fará 97 anos.

A questão que se põe é, pois, a seguinte. Como é que magistrados do MP experimentados, que são supostos conhecerem o sistema de justiça do país, que são altamente pagos pela função que desempenham, elaboram processos judiciais intermináveis que têm todas as probabilidades de não estarem concluídos antes da morte dos principais arguidos?

Certamente que não é para fazer justiça. Manter uma pessoa sob suspeita até à morte, sem lhe dar a possibilidade de limpar o seu nome das acusações (frequentemente falsas) que o MP lhe faz, com os seus bens arrestados, muitas vezes tendo sofrido pelo caminho penas preventivas, como a prisão, não é justiça nenhuma.

É crime. E é um crime de uma crueldade refinada, condenando prematuramente os arguidos à morte social.

É um crime perpetrado por quem faz a instrução dos processos -  procuradores do MP em conluio com "juízes" de instrução. Os processos já são instruídos sabendo de antemão, e com o propósito explícito, de que não vão terminar antes da morte do arguido, para que ele nunca se possa reabilitar.

A questão passa, então, a ser a seguinte: "O que é que move estes criminosos?".

Fazer justiça, não é. "Então, é o quê?"

Descubra a resposta nos próximos posts da série "Um grande bando de ladrões", a tese agostiniana acerca do Estado donde desapareceu a justiça e que, na versão que lhe deu o Papa Bento XVI, se poderia chamar igualmente "Uma associação de malfeitores".

10 setembro 2017

chumbado

A cerimónia comemorativa do Dia Mundial da Criança teve lugar no dia 1 de Junho no Hospital de S. João. O Ministro não esteve presente, mas estiveram presentes os dois Secretários de Estado da Saúde, Manuel Delgado e Fernando Araújo. Serviu de tema a construção da ala pediátrica do HSJ.

Eu chamava agora a estas sessões as "sessões do salamaleque" e a ala pediátrica do S. João, ao longo dos anos, já tinha servido de mote para sessões desta natureza um grande número de vezes. Eram sessões em que as entidades oficias se mostravam para prometer uma coisa que não tinham a mínima intenção de fazer. Era puro espectáculo para a comunicação social.

Três entidades - o Ministério da Saúde, a ARS-Norte e o Hospital de S. João - juntavam-se nesse dia, mediante a assinatura de um protocolo, para construírem em conjunto a nova ala pediátrica do Hospital. Não passaria despercebido ao observador mais atento que, destas três entidades, uma mandava nas outras duas.

Eu estava já equipado no Bar da Praia da Sãozinha para iniciar a minha sessão de jogging quando vi a  notícia na RTP à hora do almoço, e sentei-me dois minutos. Não me parecia haver muita gente e, para além da estação oficial e da Lusa, poucos órgãos de comunicação deram relevo ao assunto. No dia seguinte, li a notícia no Diário de Notícias. Tinha o título "Hospital de S. João com nova ala pediátrica concluída em 2020"

Na fila da frente, vi o Bispo do Porto, D. António Francisco dos Santos e pensei:

-Pobre Bispo...

Ele já tinha estado na cerimónia do lançamento da primeira pedra em 3 de Março de 2015 - a única "sessão de salamaleque" que tinha conduzido ao início efectivo da obra - e agora estava ali, outra vez, mais de dois anos depois, exactamente para o mesmo efeito.

Devia custar-lhe. Mas ele é uma pessoa muito bondosa. Daria um excelente Papa - já eu tinha pensado - e o nosso país, sempre tão fiel à Igreja Católica, há muitos séculos que não tinha um Papa.

Nas imagens, viam-se as entidades oficiais a assinarem o protocolo e a visitarem depois o barracão metálico onde as crianças estão presentemente internadas. O objectivo da sessão era claramente o de anunciar o início da construção da nova ala pediátrica do HSJ:

-Só se fôr no ar... e paga com vento...,

pensei eu enquanto, já de pé, fazia estiramentos em antecipação da correria que me preparava para iniciar.

Dias depois, o presidente do Hospital quis de novo falar comigo. E, desta vez, tinha verdadeiramente novidades para me dar. Duas.

Primeira, a condição 1) que eu estabelecera, tinha sido aceite.

Finalmente, o HSJ encontrara um local para deslocar o Serviço de Sangue e eu imaginei logo para breve as máquinas da Lucios e da Somague a entrarem por ali dentro e arrasarem com raiva aquele velho edifício térreo que tinha atrasado a obra durante  mais de ano e meio.

Segunda, vinha dar-me a conhecer o protocolo que tinha sido assinado no dia 1 de Junho e que, segundo ele, satisfazia a minha condição 3).

Li o documento com atenção. Continha o escalonamento da obra em três anos e os pagamentos que eram devidos em cada um deles. O financiamento pelo Estado iria fazer-se através de um aumento de capital do Centro Hospitalar de S. João, EPE, e isso pareceu-me um elemento de credibilidade - não contava para o défice.

O pior foi quando cheguei ao fim e olhei para quem assinava o documento. Pelo HSJ assinava o seu presidente. Pela ARS-Norte também assinava o seu presidente. Mas pelo Ministério da Saúde, não assinava nenhum Secretário de Estado - embora tivessem estado dois presentes na sessão - e muito menos o Ministro. Assinava uma funcionária.

Resultado: chumbado.

30 dezembro 2008

memórias do nosso tempo

O segundo volume das memórias políticas de Diogo Freitas do Amaral (A Transição para a Democracia: 1976-1982) reveste-se de natural interesse, não só por ser da autoria de quem é, mas sobretudo pelo período da nossa história que abrange, do qual o autor foi um protagonista de inegável relevo. O livro está escrito numa linguagem muito simples, por vezes fazendo lembrar um bloco de apontamentos, e devora-se em duas noites.

Já neste blog tive ocasião de manifestar o meu apreço pela figura política de Freitas do Amaral, ao invés do que dele pensava – erradamente – nos anos em que foi líder do CDS. Freitas tem, se comparado com a classe política do nosso tempo, a enorme vantagem de ser uma pessoa respeitável, muito civilizada, culta e educada, predicados cada vez menos comuns no que por aí anda. O tempo revelou que, para além disso, Freitas do Amaral tinha razão no essencial do seu comportamento político: dar à direita portuguesa a oportunidade de ser democrática, europeia e defensora das regras essenciais do livre mercado. Toda a sua acção política até 1982, muito bem relatada ao longo do livro, foi nesse sentido, o que lhe mereceu críticas e incompreensões de muita gente, sobretudo da dita direita portuguesa. A verdade é que ele, com pouco mais de trinta anos de idade, levou essa direita para o governo, muito pouco tempo depois de uma revolução socialista e de várias tentativas golpistas de implantar o comunismo em Portugal. Fê-lo com a Aliança Democrática, em parceria firme com o PSD, que foi uma fórmula política que, se não tem sido a tragédia de Camarate, bem podia ter dado um rumo muito distinto ao que o nosso país conheceu.

O livro não traz grandes novidades nem revelações, e gira em torno de duas personagens: a do próprio autor, como não poderia deixar de ser, e a de Francisco Sá Carneiro.

Em relação a si mesmo, Freitas do Amaral esclarece, provavelmente de modo involuntário, uma antiga dúvida sobre quem, de facto, nesses anos liderava e decidia no CDS, se ele, se Adelino Amaro da Costa. Ao longo de todo o livro, revelando uma amizade profunda por Amaro da Costa, a quem considera um verdadeiro irmão, Freitas do Amaral deixa inequívoco que ele era o seu número dois e não o contrário. Na verdade, a serem fidedignas estas Memórias, e nada leva a crer que o não sejam, pelo contrário, o papel de Adelino Amaro da Costa nas grandes decisões do CDS daquele tempo foi muito mais secundário do que se poderia pensar, se comparado com o de Freitas do Amaral.

Sobre Francisco Sá Carneiro, o tom do livro é de permanente tristeza e mágoa profunda. Na verdade, o livro lê-se como aqueles romances policiais dos quais se conhece, logo no começo, o crime e a vítima, ainda que se não se saiba quem foi o criminoso. A sensação que o perpassa é a da iminente tragédia que todos conhecemos, e que vitimou um homem que, viesse a ser o que viesse na História do nosso país, seguramente não faria dela aquilo que ela veio a ser. A possibilidade revelada de, caso Eanes ganhasse as eleições presidenciais, o que sucedeu, Sá Carneiro e Freitas do Amaral fundarem um novo partido de direita é, de facto, merecedora de reflexão. Esse teria sido o caminho natural para os dois partidos da direita portuguesa, que nunca se reencontraram depois da morte do fundador de um e do afastamento do fundador do outro. Todos teríamos certamente ganho com isso.

O que restou foram duas agremiações anódinas, sem qualquer vestígio programático ou ideológico, que se limitam a aguardar que o poder venha ter com elas de tempos a tempos, quando o eleitorado se maça com o PS. Se o projecto de Francisco Sá Carneiro tivesse prosseguido por diante, a direita portuguesa seria hoje seguramente muito diferente daquilo que julga que é.

20 maio 2012

Governar e executar

O post anterior do Joaquim, citando o Peter Drucker, ilustra uma conclusão que tenho vindo a amadurecer e que cada vez mais tomo como firme. É a seguinte.

A Reforma protestante cortou radicalmente com a  Igreja Católica (e,  nesse movimento, teve o apoio da comunidade judaica; a este respeito, que é secundário para o meu própósito presente, a expulsão dos judeus da Península Ibérica deve ser vista como uma reacção católica de defesa contra o facto de os judeus se terem associado ao "inimigo").

A partir de então, a comunidade judaico-protestante, no norte da Europa e, mais tarde,  na América do Norte também, passou a ignorar por completo tudo o que era católico - a Igreja, a doutrina católica, os países católicos, os autores católicos.

E dedicou-se a descobrir verdades, às vezes apresentadas como grandes novidades, que, passado um tempo, se verifica, afinal, serem as verdades que o catolicismo sempre ensinou, quer pela palavra quer pelo exemplo.

O Papa (e mais geralmente a Cúria Romana) há muito que pratica aquilo que o Drucker vem agora dizer como se fosse uma grande descoberta. O Papa (ou mais geralmente, a Cúria Romana) toma decisões, mas não as executa.

Porquê? Porque corre o risco de se "queimar", de desvalorizar a sua autoridade, não sendo capaz de executar as decisões que ele próprio toma. Bastava um caso destes, para que a sua autoridade como tomador de decisões ficasse aniquilada. Governar e executar são tarefas muito distintas e que devem ser rigorosamente separadas.  

Existe mais ao tema para além da conclusão do Peter Drucker. As pessoas que exercem a governação (ao contrário daquelas que fazem a execução) devem ser praticamente inacessíveis aos governados.

Eu não pretendo com estas observações desvalorizar o Peter Drucker. O que pretendo é incentivar os portugueses que se dedicam a estas questões do intelecto a pensarem que aquilo que andam à procura lá fora está mesmo aqui dentro de casa.

21 fevereiro 2007

coisas humanas

Do animado «Prós e Contras» de ontem saíram duas novidades com interesse: uma nova categoria biológica enunciada pela talentosa escritora Lídia Jorge, a «coisa humana» que vive no útero das mulheres até às dez semanas de gravidez, e um aviso sério de Vital Moreira, feito aos dois partidos centrais do nosso regime, para que digam aos portugueses como irão regulamentar, se estiverem no poder, a autorização legislativa que a vitória do «sim» representará. A isto acrescentou que acharia «muito mal» se o não fizerem até ao dia do referendo. Inquirido pela entrevistadora sobre as razões dessa opinião, esquivou-se a responder. Porquê? Pela simples razão de que essas explicações, sobretudo da parte do governo em exercício de funções, podem fazer toda a diferença e decidir o sentido de voto de milhares de cidadãos. Como é por demais evidente.

18 setembro 2013

só falta a Oceania

Não apenas Portugal seria capaz de viver completamente isolado do mundo, como, ao mesmo tempo, os portugueses seriam capazes de saber tudo aquilo que se passa no mundo - porque sem as novidades acerca do que se passa no mundo é que nós não seríamos capazes de passar. A razão é que existem portugueses em todos os  sítios do mundo.

Existe na nossa história recente um episódio que comprova esta tese. A partir dos anos 60, Portugal ficou crescentemente isolado da comunidade internacional por causa da guerra colonial. E que consequências teve isso para a economia nacional? Praticamente nenhumas. Na realidade, nós continuámos a crescer a taxas muito superiores às daqueles que cortaram relações connosco, e com pleno emprego.

Fechar, ainda que parcialmente, a economia portuguesa, é uma condição sine qua non para sairmos da situação em que nos encontramos. Por fecho, eu significo restringir as importações, neste país cuja cultura torna os portugueses ávidos de importações e admiradores irreformáveis de tudo aquilo que é estrangeiro.
Ainda agora, no post anterior, falando eu da capacidade dos portugueses para imitar, a nossa comentadora zazie foi à caixa de comentários dizer que os chineses é que são os melhores a imitar. Eu não podia estar mais de acordo. Porquê? Porque os chineses são estrangeiros.

Existem várias maneiras de restringir as importações, mas as mais óbvias são a desvalorização cambial, que implicaria o desmembramento da zona Euro, e as tarifas aduaneiras, o que implicaria o desmembramento do Mercado Único ou um regime de excepção para Portugal. E é isso que vai ter de acontecer, ou ainda alguém tem esperanças que, pelo presente caminho, sairemos da situação em que nos encontramos? Eu não tenho, desde há muito.

Eu tenho uma filha que é economista e que trabalha na Suíça. Numa das suas recentes viagens a Portugal disse-me que achava curioso que os suíços gostavam de passar férias era na Suíça. Expliquei-lhe que a cultura protestante, de que a Suíça foi um dos principais centros, é uma cultura paroquial. Eles gostam em primeiro lugar das suas coisas e daquilo que é deles, ao contrário de nós que gostamos em primeiro lugar daquilo que é estrangeiro.

E acrescentei: "Os suíços gostam é de passar férias na Suíca. Agora, olha para ti. Estás há três anos na Suíça. E já foste passar férias ao Brasil, ao Egipto, à Tailândia, ao Dubai, a Malta e várias vezes em Portugal. Em três anos já correste os quatro continentes do mundo, só te falta a Oceania".

O exemplo acabado do provincianismo da cultura protestante é o Kant, apropriadamente, e sob vários pontos de vista,  chamado o filósofo do protestantismo. Nunca saiu da sua parvónia e, no entanto, teve a pretensão de emitir sentenças com carácter universal. Mas quem é que vai convencer um intelectual português de que o Kant era um pacóvio?

02 março 2017

The Truth

Eu estou encantado por a Verdade se ter tornado um tema de discussão pública. E a última contribuição a esta discussão  foi o anúncio do New York Times durante a cerimónia de apresentação dos Oscars. Tinha o título The Truth.

Tem de ser dar, em boa parte, a Trump o mérito por trazer o tema da Verdade para as páginas dos jornais. O tema até já gerou neologismos, como post-verdade. Mas o meu interesse pelo assunto resulta do seguinte. A ser mantido no centro do debate público, o tema da Verdade é o prenúncio do fim da democracia partidária. É o fim das ideologias.

E é também o triunfo de uma antiga reivindicação do catolicismo sobre o protestantismo, que é a de que Cristo veio ao mundo, em primeiro lugar,  para dizer a Verdade, e não, como pretendem os protestantes, para fazer Justiça (é difícil compreender como é que se pode fazer Justiça sem antes conhecer a Verdade).

A democracia partidária tem sido adequadamente descrita como o sistema de governo por opinião. A opinião é uma visão pessoal sobre a realidade, e não é necessariamente coincidente com a Verdade. É na congregação de opiniões semelhantes sobre a realidade que se formam os partidos políticos, exactamente da mesma maneira que é na congregação de opiniões semelhantes sobre a realidade que se formam as seitas protestantes.

A Verdade, escreveu S. Tomás de Aquino, é a adequação do espírito à realidade, mas é um pouco mais do que isso. É também uma convicção íntima sobre a realidade e é isso que a torna particularmente difícil de propagar. Ao contrário da opinião que, sendo uma convicção exterior sobre a realidade, é mais fácil de transmitir. É fácil proselitar sobre a opinião, é muito difícil fazê-lo sobre a Verdade.

Um exemplo ajudará a esclarecer a situação e o ponto a que quero chegar.

É uma verdade absoluta para mim que uma criança precisa de um pai e de uma mãe para ser convenientemente educada. Aos vinte anos de idade, eu nunca teria afirmado isto como verdade e muito menos como verdade absoluta.  O que é que me leva a fazê-lo hoje, e não naquela altura?

Uma convicção íntima resultante da experiência que tenho hoje, mas não tinha na altura, resultante de educar os meus filhos (agora acrescida - e confirmada - por ver os meus filhos a educarem os deles) . Fazendo o balanço, há imensas coisas que eu lhes pude dar  - muitas delas aparentemente insignificantes e que, cada uma de per se,  não faria a diferença, mas que em conjunto são de uma relevância extraordinária - e que a mãe, só por si, não lhes poderia dar. E há ainda mais coisas que a mãe lhes pôde dar e que eu seria incompetente para o fazer.

Se ao meu lado, por exemplo, num debate televisivo, está alguém a contestar, dizendo que não senhor, um casal de homossexuais pode educar tão bem uma criança como um casal heterossexual, que os homossexuais em casal são pessoas tão boas e tão competentes para educar uma criança como um homem e uma mulher, eu acredito que essa pessoa vai ser mais popular do que eu. Primeiro, porque está a apresentar uma novidade e as pessoas gostam de novidades - e na nossa cultura católica, que é uma cultura feminina, nem se fala... Segundo, porque está a apelar ao sentimento de quem nos ouve,  defendendo os homossexuais enquanto eu pareço desmerecê-los.

Vale a pena fazer aqui um parêntesis para dizer que os defensores das causas fracturantes são sempre uns sentimentalões. Aquilo que lhes sobra em sentimento falta-lhes em cabeça. A arma deles é o sentimento, não a razão. Coitadinhos dos homossexuais... vamos permitir que eles também se casem e adoptem crianças. Coitadinhos dos doentes terminais...vamos permitir que eles se matem. Coitadinhas das mulheres que engravidam sem querer...vamos permitir que elas abortem. Não vale a pena pretender ter um debate racional com estas pessoas. Não existe razão nelas,  apenas sentimento.

Qualquer pessoa que tenha vivido o suficiente - não é preciso sequer que tenha criado filhos, basta ter observado o que viu à sua volta durante a vida - depois de me ouvir, vai dizer de si para si: "Claro que uma criança precisa de um pai e de uma mãe". Mas esta convicção íntima não é excitante, nem original, não causa furor anunciá-la ao mundo. A outra é que é excitante e original e produz um imenso impacto anunciá-la nos jornais e na televisão. E o autor torna-se um herói, um protector dos coitadinhos, um franciscano dos homossexuais, dos doentes terminais e das mulheres indesejadamente grávidas.

No fim, porém, uma coisa é verdade e a outra é mentira.

Entretanto, noto que já me desviei muito do meu tópico principal ou que ele é longo de mais para ser tratado num só texto (a Verdade é que a minha mulher me chama para jantar). Continua no próximo capitulo.


20 novembro 2008

nem que seja à martelada


Alguns comentadores deste blogue têm vindo a acusar-me de eu não me prestar ao debate na blogosfera - o mais recente, suponho, foi o Luís Lavoura. É verdade que não o faço, embora não pelas razões que frequentemente me atribuem. Eu já expliquei mas gostaria de voltar ao tema.

Não se trata de qualquer desrespeito pelos leitores. Trata-se de que eu não acredito que, na nossa cultura, o debate das ideias, sobretudo em público, conduza a qualquer fim - e certamente que não à produção de ideias novas. O meu interesse pela blogosfera reside em ela ser uma excelente observatório - ou laboratório, como já anteriormente lhe chamei - sobre a cultura portuguesa e a personalidade do povo português, que é um tema que me interessa profundamente.

A nossa cultura detesta ideias novas - às vezes chamadas novidades - e, por isso, não deixa que elas sejam produzidas. A respeito da produção de ideias os portugueses são, por assim dizer, um zero-à-esquerda. Os portugueses possuem outros atributos, mas certamente que não esse. Esta é uma tese que eu tenho reiterado neste blogue. E aquele que é, na minha opinião, um dos mais argutos observadores de sempre da cultura e do espírito portugueses não tinha opinião diferente a este respeito:

"Julgo que entre as reais qualidades do nosso espírito não se conta uma forte independência mental. Somos capazes de glosar, desenvolver, aplicar ou rectificar ideias alheias; raro teremos lançado no Mundo uma concepção nova ou nos teremos emancipado completamente do jugo das concepções alheias" (1).

A principal tecnologia para a produção de ideias é o debate intelectual, cujas peças essenciais o Ricardo caracterizou apropriadamente em post anterior como sendo três - o desejo e a boa-fé para chegar à verdade, a coerência racional e a clareza da expressão. O que fazem as pessoas numa cultura que detesta ideias? O mesmo que fariam numa cultura que detesta gelados - partem as máquinas de gelados. A forma mais eficaz de impedir a produção de ideias é destruir a sua tecnologia de produção - o debate intelectual.

Esta destruição não é premeditada nem sequer intencional, mas puramente espontânea e, por isso, ocorre independentemente de alguém se aperceber disso. Sabotar o debate intelectual, partir a maquinaria da produção de ideias utilizando todos os instrumentos que estiverem à mão, nem que seja à martelada, de maneira que, no final, não fique a mínima possibilidade sequer de as pessoas se entenderem acerca de uma ideia, é, portanto, uma das características mais salientes da cultura portuguesa.

O meu interesse pela blogosfera reside em ela permitir obervar estes processos espontâneos que seriam de muito mais difícil e lenta obervação em qualquer outro meio de comunicação social. Quanto ao debate de ideias, ele não serve para nada em Portugal. O debate de ideias é uma instituição útil nos países que apreciam ideias novas, como os países de tradição protestante, e por isso é daí que saem predominantemente a ciência e os homens de pensamento.
(1) Salazar, Discursos, op. cit., vol IV, pp. 248-9.

07 outubro 2014

O problema do voto

...é a capacidade de votar sobre a propriedade e direitos naturais (como o de estabelecer formas de cooperação voluntária em vez de compulsórias) de todos os outros.

Quais são os sistemas organizacionais que subsistem voluntariamente no tempo e onde são praticados sistemas de decisão colectiva?

Resoluções espontâneas comunitárias por consenso... Porque em geral o que está em causa são apenas aspectos comuns, mas sem interferir na soberania das partes, a não ser que estas acedam a tal voluntariamente (ex. as Cruzadas?).

Associações, com liberdade de entrada e saída e financiamento voluntário.

Associações de proprietários, como empresas ou condomínios, onde a tendência é a unidade familiar ou comunitária se manter, em vez do voto pulverizado individualista.

Nestes, as elites naturais são formadas e contribuem pelo exemplo para sustentar a ordem social. Por exemplo, nas empresas, as mudanças de CEO e administrações, apesar de terem de ser validadas, a seu tempo, pelo Assembleia Geral de Accionistas, passam-se com a maior tranquilidade e sem campanha eleitoral, porque ela é essencial a preservar o valor e a sobrevivência de longo prazo. Noutras organizações de sucesso sem fins lucrativos, é o mesmo. E claro, temos o exemplo da Igreja.

Já o voto universal recai em abstracto sobre tudo, em especial sobre o Direito (ainda que com o filtro representativo), é uma arma de agressão permanente. E no Estado Moderno, é uma arma permanente progressista, de onde não vai sobrar nada. A família, a natalidade e tudo o mais, vai cair nas mãos totalitárias de uma vontade geral iluminista e cientificamente igualitária e claro, infinitamente humanista ao ponto de se esquecer do homem.

E dado o problema da natalidade ir constituir uma ameaça séria à sustentação da social-democracia, será sobre este que mais tarde ou mais cedo vamos ter novidades, com toda a certeza construtivistas da ordem social. Basta a tecnologia dar uma ajuda e a tendência para as famílias se deflacionarem continuar: de famílias com vários irmãos, primos, tios, em vários graus, no futuro próximo o indivíduo praticamente só tem o parente directo e… o estado. A vítima perfeita para aceitar tudo o que a vontade geral lhe der. O Estado Social é a maior fonte de individualismo extremo a-comunitário. Sem deveres nem obrigações a não ser para quem tudo lhe dá, e de resto também tira.

O aspecto económico, já aqui tratado por diversas vezes, resume-se à tendência para qualquer regime político aumentar o número de pessoas dependentes directa ou indirectamente do Orçamento de Estado, reduzindo progressivamente, os contribuintes líquidos (produtores na parte voluntária da ordem social), a uma minoria. É fácil de visualizar o porquê da tendência suicidária mais acelerada das democracias, dado depois a maioria dos votos estar agora do lado dos receptores.

PS: Outra forma de visualizar o problema é pensar em quem seria capaz de comprar um apartamento, com a poupança da sua vida, num condomínio numeroso onde as decisões de orçamento e auto-regulação fossem estabelecidas, não por voto por fracção, mas por voto universal dos maiores de 18 anos...Isto dando de barato que o voto universal em comunidades mais limitadas e pequenas conseguem evitar os males das macro-decisões-democráticas dado o contacto mais directo e pessoal.

15 novembro 2016

O Jornal da Cúria

Quem paga as contas?

Os políticos. Os jornalistas estão em trabalho - o trabalho de, logo a seguir, irem escrever nos jornais aquilo que os políticos lhes dizem para escrever.

E, de facto isto é assim na Cúria Romana em que o poder instituído estabelece a Verdade e depois a passa  ao povo através do Osservatore Romano. Mas, numa democracia partidária é ao contrário, a missão dos jornalistas é a de fazer chegar ao poder instituído a opinião do povo - a opinião pública.

O livro do José António Saraiva, sem que ele próprio se aperceba, é acerca da promiscuidade entre jornalistas e políticos, acerca da maneira como tudo é concebido e combinado entre eles nos mais famosos bares e restaurantes de Lisboa,  para depois ser servido ao povo, em versão pronto-a-comer, através do Jornal da Cúria.

Do outro lado, está uma classe média, sobretudo urbana, com pretensões intelectuais, mas sem tempo, nem gosto nem hábitos para o estudo, que espera que as novidades lhe sejam servidas num sofá, e de preferência ao fim-de-semana. É assim um povo de cultura católica, fica à espera que lhe sirvam a Verdade. Mas não é assim numa democracia partidária. Aí é o povo que toma a iniciativa e a transmite ao poder político - que é suposto representá-lo - para que este a execute.

A cultura católica do país mina a democracia partidária de alto a baixo, invertendo os papeis dos jornalistas e dos políticos, por um lado, e do povo, por outro. Na democracia partidária, o povo toma a iniciativa (opinião pública), os jornalistas transmitem-na aos políticos, e estes - como agentes do povo - executam-na. Na Cúria Romana é ao contrário, os padres tomam a iniciativa,  os jornalistas transmitem-na ao povo, e o povo aceita-a passivamente.

Não surpreende que, um país de tradição católica, como é Portugal, quando envereda pela democracia partidária, tudo saia ao contrário. Em lugar da prosperidade  prometida sai a ruína.

Mas a contradição mais curiosa é ver "democratas" zangados com o povo e a dar lições de democracia ao país que é o primeiro país a nascer democrático, e é o símbolo da democracia no mundo. Como este, que foi o primeiro director do Público, vindo directamente do Jornal da Cúria (veja também aqui).

Admira-se que no Público ninguém tivesse previsto, todos tivessem torcido contra, e muitos parecem ainda não aceitar, a eleição do Trump?

O povo só pode estar enganado.


15 maio 2012

descartado

Num post anterior, o Joaquim afirmou que a democracia é um valor relativo, isto é, só é um bem enquanto satisfizer certos critérios ou condições, deixando de o ser quando esses critérios ou condições não forem satisfeitos.

Uma das grandes novidades que Cristo trouxe ao mundo judaico do seu tempo foi a separação entre a esfera política e a esfera religiosa. Na tradição cristã, a escolha dos regimes políticos passou a ser deixada à liberdade dos homens e não emana de Deus: "... Jesus operou uma separação entre as dimensões religiosa e política; uma separação que mudou o mundo e que pertence verdadeiramente à essência do seu caminho novo...De facto, na ordem em vigor até então, as duas dimensões - a religiosa e a política - eram absolutamente inseparáveis uma da outra. Não existia o político «sozinho» nem o religioso «sozinho»". (J. Ratzinger, Jesus de Nazaré, vol. II, p. 141)

Não existe nada de sagrado no regime político da democracia, nem em qualquer outro. Pelo contrário, a  verdade absoluta que a tradição cristã afirma acerca dos regimes políticos é que todos - os que já se conhecem e os que podem ser inventados - são legítimos desde  que promovam o bem comum: "A diversidade dos regimes políticos é moralmente admissível, desde que concorram para o bem legítimo da comunidade que os adopta." (Cat: 1901).

Um regime político que não promova o bem comum pode e deve ser descartado e substituído por outro. E a democracia não é excepção.

23 abril 2009

yes, we cão!

É impressão minha ou, com excepção das novidades sobre o cão, o Redentor não tem dado sinais de vida?

13 junho 2008

Top Stories EU

EU news, anybody?
Eu sou um grande fã da Google e em particular da Google News. Numa página dão-nos as principais notícias do dia, classificadas por assuntos, e até com a possibilidade de personalizarmos o conteúdo.
Quase todos os dias visito a Google News, logo de manhã bem cedo. Visito as páginas dos EUA, Portugal, Espanha, França e RU. Depois escolho de acordo com os assuntos do dia. Esta semana visitei, alguns dias, a página da Irlanda por causa do referendo. Quem está habituado a este serviço sabe como é útil, mas não há bela sem senão.
O senão da Google News, quanto a mim é que as notícias se repetem nas páginas de cada país. Por exemplo, o aumento dos combustíveis é notícia em todos os jornais de todos os países da Europa e portanto há uma grande repetição. A única vantagem desta repetição é divertirmo-nos com as nuances que cada cultura imprime aos acontecimentos. A prensa espanhola sempre engajada, a francesa sempre rebuscada, a italiana sempre histérica e a inglesa sempre debochada.
Os americanos são os que gostam mais de novidades, em particular tecnológicas e os alemães são os que mais vezes propõem soluções para os grandes problemas “das welt”. Ainda esta semana a piedosa senhora Merkel denunciava a falência do modelo anglo-saxónico de regulação dos mercados financeiros e propunha que a UE assumisse a vanguarda no “desenho de novas regras para o mercado”. Os alemães tratam dos problemas políticos e sociais como se fossem problemas de engenharia. “Achtung!”.
Uma melhoria da Google News seria disponibilizar uma página sobre a União Europeia, onde agrupasse as principais notícias que dizem respeito à Europa. Ora quem partilhar desta minha opinião pode dar a sugestão à Google.

Vai aqui e faz copy/paste deste texto:

Hi,
European News top stories! Make this option available in the Google News. There are 500 million people, in 27 member states, waiting for this service.

15 setembro 2023

os velhos ladrões

 


Deitar a mão aos lucros dos bancos, como pretendem o PCP, o BE e o Chega (cf. aqui), mesmo que seja tudo legalizado, não deixa de ser um roubo. Esta forma de roubo institucionalizado é, aliás, provavelmente umas das memórias mais vivas de quem, há quase 50 anos atrás, presenciou o 25 de Abril.

Nacionalizações de empresas, ocupações de casas particulares, apropriação indevida de explorações agrícolas foram  novidades trazidas pelo 25 de Abril e pela democracia à sociedade portuguesa, a qual  não conhecia tais práticas.

O Estado andar a roubar pessoas, ou dar cobertura àqueles que roubavam pessoas, era uma coisa absolutamente desconhecida no país. Os principais promotores desta nova instituição do roubo legal foram, na altura, o PCP e os vários partidos de extrema esquerda, alguns dos quais viriam a dar origem ao actual BE.

É uma pena que o Chega, que é um partido novo, que se diz anti-sistema, respeitador da propriedade privada, da livre iniciativa e da liberdade económica, se junte agora aos velhos ladrões para, juntamente com eles, querer deitar a mão aos lucros dos bancos.