22 maio 2017

Viana não perdoa

“Cara Mariana, no seguimento à sua brilhante frase “Temos de perder a vergonha e ir buscar dinheiro a quem está a acumular dinheiro”, permita-me a minha revolta nestas palavras que lhe dirijo: Esta sou eu com 16 anos no meu 1º trabalho, nas férias do Liceu (não, não é photoshop nem posei para a fotografia, estava mesmo a trabalhar!). Ganhei o meu 1º salário, 30 contos, como operadora de empilhador numa bloqueira. Aos 17, já carregava camiões, com chuva e pó nas ventas ao volante de 1 máquina de maior porte. Com 6h de trabalho intenso, onde por vezes era preciso montar paletes (de blocos de cimento), seguia pra escola. 

Aos 18 já era independente e pagava as minhas contas. Ingressei no ensino superior. Dava aulas durante o dia todo e seguia para o Porto, estudar à noite. Formei-me a pagar meus próprios estudos como trabalhador estudante. Comprei aos 23 anos meu 1º carro sozinha (1 super cinco em 2ª mão). Aos 28 anos construí 1 casa com empréstimo bancário que paguei durante 15 anos. Aos 35, tinha já 1 poupança de alguns milhares. Ao longo dos meus 50 anos, já fiquei sem emprego mas nunca sem trabalho. 

Só estive 4 meses no fundo de desemprego, para logo de seguida empreender. Quando estive grávida deixei perplexa a funcionária da segurança social perante minha ignorância e não ter, por isso, requerido subsídio. É que meus pais ensinaram-me a trabalhar, não a viver à custa do Estado. Não desenvolvi essa habilidade. Porque apesar de não ter dividido como o meu pai, 1 sardinha por três, cresci sem saber o que era abundância. A dar valor a tudo o que se tinha. A lutar. A fazer reservas para o futuro. 

Emigrados no Canadá, e porque era preciso “acumular dinheiro”, não tenho 1 lembrança, em criança, de 1 passeio com meus pais, de 1 almoço fora, de 1 férias… Os brinquedos, ainda hoje consigo lembrá-los todos. As roupas e calçado, só quando eram mesmo precisos. Vivi em casas modestas dormindo na sala. Porque era preciso “acumular dinheiro”, aos 5 anos tive de aprender a tomar conta de mim sozinha (ter babysitter é prós fracos). Porque meu pai , acampado nos bosques onde cortava pinheiros, só vinha ao fim semana. Minha mãe, tinha 2 empregos (era contínua e fazia limpezas), só a via à hora de almoço porque saía às 5h e chegava sempre pelas 24h. Cresci sozinha porque era preciso trabalhar arduamente para “acumular dinheiro”. Porque o meu pai não assaltou bancos. O que tinha era mesmo dele. Saiu-lhe do corpo. 

Por isso, vocês é que deveriam ter VERGONHA. Porque é preciso ser-se muito NULO para não saber governar sem sacar a quem faz pela vida. Criar grupos de trabalho de como assaltar as poupanças e património, em vez de procurar estimular e incentivar a economia. Porque de facto, já não pagamos impostos suficientes. Saiba que os “acumuladores de dinheiro deste país, trabalharam arduamente para o ter. Sejam grandes ou pequenos acumuladores de dinheiro”, TODOS começaram de baixo (excluo aqui, como é óbvio, os criminosos assaltantes de bancos, de património, traficantes). E consoante as suas aspirações, uns apostaram mais alto, outros menos, mas todos contribuindo para o enriquecimento da Nação. 

E é graças a eles TODOS que a Mariana, sem mérito algum, pousa o seu rabito no Parlamento. Porque não fossem eles, não haveria salário para nenhum de vós, que a bem dizer, é um desperdício. O país não precisa de parasitas que estudam meios para conseguir roubar mais a quem os sustenta. Precisa sim de gente como nós, mais ou menos “abastados” que produz, que investe, que cria postos de trabalho. 

Por isso, cada vez que estiver nessas reuniões de “trabalho” sinta vergonha por mais 1 assalto à classe dos “abastados” (classe média) em vez de começar por tributar o património dos partidos políticos onde se inclui o vosso palacete ocupado à força depois da revolução; por ter chumbado o decreto sobre enriquecimento ilícito; por ter permitido as subvenções vitalícias; por fazer vista grossa à corrupção existente no sector financeiro e organismos públicos; por proteger a classe que nos rouba e empobrece: a vossa.”

Cristina Miranda, Viana do Castelo

02 maio 2017

águas de bacalhau

Ficou tudo em águas de bacalhau.

Eles e elas utilizam o sistema de justiça como meio de intimidação.

São grandes adeptos e adeptas da liberdade de expressão, mas só para eles e para elas.

20 abril 2017

que passou a ser triste

O estado em que ficou o eurodeputado Paulo Rangel depois desta minha intervenção no Porto Canal:

"Ora, como consequência directa e necessária das expressões proferidas pelo demandado a seu respeito, o demandante sentiu-se vexado e humilhado publicamente, com alteração de humor, que passou a ser triste em alguns períodos, irritabilidade, desgosto, a par de natural revolta, o que teve interferência no seu quotidiano e no seu descanso, atentas as imputações e as qualificações insultuosas efectuadas".

Ai que florzinha...

(...)

"Nestes termos, deve o demandado ser condenado a pagar ao demandante a quantia de 50.000,00 euros acrescida de juros de mora à taxa legal, actualmente de 4%, desde a data de notificação deste pedido civil, até integral pagamento".

E que florzinha tão preciosa...


17 abril 2017

Turquia

O referendo da Turquia vai aproximar o país do regime de governação da Igreja Católica.

Diz-se, por vezes, que Cristo não se pronunciou sobre política. Certamente que não sobre política partidária porque ele não gostava de partidos. Havia muitos na sua época e ele não aderiu a nenhum. Na realidade, houve até um que foi o alvo preferencial das suas críticas.

O centro da pregação de Cristo é o de que todos os homens se unam em comunidade, e não que se dividam em partidos ou seitas em lutas uns com os outros. É verdade que Cristo não recomendou nenhum regime político em particular e deixou isso à liberdade dos homens. Mas, quando se tratou de organizar a sua comunidade, ele deixou um sinal bem claro.

Nomeou um homem com poderes absolutos para a comandar. A Igreja, ao longo dos séculos, aperfeiçoou o sistema de organização política da comunidade cristã. Não o impõe a ninguém, mas ele permanece lá como exemplo. A mensagem que a Igreja, a este propósito, transmite à humanidade parece-me clara:

"Escolham lá o sistema político que quiserem. Mas quando se virem em situações de crise ou de aflição, este é o que tem melhores hipóteses de funcionar. Ao longo de dois mil anos, já passou por tudo. É só copiarem".

Aquela famosa tirada do Churchill acerca do regime de democracia parlamentar era apenas isso - uma tirada.

16 abril 2017

a crise dos refugiados

Para além do seu significado teológico, o franciscanismo teve um significado sociológico importante revelando a Igreja Católica no seu papel de instituição moderadora, ao ponto de fazer conviver todo o tipo de pessoas numa mesma comunidade,  sem excluir ninguém.

Este carácter inclusivo do catolicismo, e, principalmente,  o carácter exclusivo do seu oposto - o protestantismo -, está aí hoje à vista na crise dos refugiados.

Aquilo que o  franciscanismo veio mostrar é que a felicidade não se encontra necessariamente na riqueza, e que um homem pode ser feliz na mais extrema pobreza. E fê-lo, não por argumento intelectual, mas através de exemplos concretos porque esses não enganam ninguém.

Pois se até pessoas ricas - como Francisco e Clara de Assis - podiam encontrar a felicidade na pobreza, como é que o  homem vulgar, que nasceu pobre, e nunca conheceu outra condição senão a pobreza, não a poderia encontrar também? O exemplo do franciscanismo, bem como das  outras ordens mendicantes, placou o ressentimento dos pobres em relação aos ricos, e permitiu que eles convivessem lado a lado na mesma comunidade.

A Igreja Católica exibia aqui, no seu melhor, uma das suas principais características sociológicas, que é o seu papel de moderadora de conflitos sociais. E fazia-o através de um meio que não ocorreria a ninguém, que era o da institucionalização da pobreza - e de uma pobreza ainda por cima voluntária - representada pelas ordens mendicantes.

Assim que o movimento do protestantismo foi desencadeado na Prússia, a primeira coisa que os protestantes fizeram foi expulsar as ordens mendicantes julgando que, ao fazê-lo, erradicavam os pobres do seu meio. Para os países tocados pela influência protestante ser pobre passou a ser  um estigma pessoal e social.

Daqui resultaram, pelo menos, duas consequências não previstas.

A primeira é que, sem o papel moderador da Igreja, se reavivou aquele que deve ser o mais antigo ressentimento da vida em sociedade - o ressentimento dos pobres contra os ricos. E não passaram muitos séculos para que na mesma Prússia - onde haveria de ser? - Marx desse voz a esse ressentimento com  o seu conceito de luta de classes que, na sua essência, é a oposição dos pobres contra os ricos, pela violência, se fôr necessário.  As consequências são bem conhecidas.

Em segundo lugar, os países católicos, com a pobreza institucionalizada, ganharam a reputação de serem países pobres - e até Salazar, que era um homem inteligente, não se cansava de repetir este cliché em relação a Portugal (porque é de um cliché que se trata). Pelo contrário, os países protestantes, sem pobreza institucionalizada, passaram a gozar da reputação de serem "países ricos".

Precisamente por isso, são hoje os países de influência protestante que atraem os pobres de todo o mundo. Julgaram que os tinham erradicado, mas enganaram-se. Eles entram-lhes agora pelas portas dentro sem controlo.

Os refugiados entram na Europa frequentemente por países católicos - como a Itália, Espanha, Portugal - ou pela ortodoxa Grécia. Mas não é aí que eles querem ficar. Eles querem ir para a Alemanha ou até, a partir daí, dar o salto para os EUA. E sem a moderação activa do catolicismo, os pobres são aí um potencial enorme de violência.

Como se tem visto.

Monty Python

É, talvez, a única cultura em que aqueles que nascem nela são absolutamente livres - e possuem um forte incentivo cultural -, para dizer mal dela. Um homem que se sente mal no meio onde nasceu, que está de mal com tudo aquilo e todos aqueles que o rodeiam, é um candidato ideal a emigrar. E, portanto, a ir espalhar pelo mundo a cultura onde nasceu.  É assim que ela se torna católica ou universal.

É um paradoxo, mas o catolicismo é feito de paradoxos, e daí a dificuldade em o racionalizar. Este paradoxo foi colocado da forma mais sucinta que conheço num episódio que me contaram e que teve lugar há uns anos no Bombarral.

Vários homens conversavam num pequeno grupo e, naturalmente, diziam mal de Portugal e dos portugueses. Entre eles, estava um homem de mais de oitenta anos, que tinha levado uma vida de empresário. Foi este que, depois de algum tempo a ouvir os outros, decidiu a certa altura falar.

Para dizer o seguinte: " Pois...  mas eu  viajei e conheci ao longo da minha vida todos os países do mundo... e, francamente,... nunca encontrei um país para viver tão bom como esta merda".

A conclusão não podia ser mais clara: a melhor coisa do mundo é, ao mesmo tempo, uma merda. E, na realidade, é, porque o catolicismo instila no espírito humano um padrão que as outras religiões não instilam, certamente que não no mesmo grau - a ideia de um mundo celestial que é perfeito. Talvez esteja aqui a explicação do paradoxo.

Entre os intelectuais, este paradoxo exprime-se frequentemente em eles falarem do catolicismo sem saberem daquilo de que estão a falar. Atribuem ao catolicismo coisas que ele não é nem diz, criam um espantalho, e depois dizem mal do espantalho.

Aconteceu recentemente à Maria Filomena Mónica, o que motivou uma resposta pronta e certeira do Padre Portocarrero de Almada. Ela reagiu.

Ora, as reacções dos intelectuais quando se vêem em terreno movediço acerca do catolicismo são também inteiramente previsíveis - Cruzadas, Inquisição (incluindo o episódio de Galileu) e expulsão dos judeus - e a Maria Filomena Mónica não fez excepção.

É claro que eu não vou dizer aqui que a Inquisição foi uma coisa boa. Mas vou dizer que foi a resposta menos desumana que se podia conceber às desumanidades que, na altura, se cometeram sobre a Igreja Católica e os povos de cultura católica.

Mas aquilo que mais me surpreendeu na argumentação da Filomena Mónica foi o facto de, após ter puxado pelos seus galões de socióloga, apresentar apenas, em abono da sua tese, um livro sobre o Cristianismo escrito aparentemente por um anglicano - o que não é propriamente prova de imparcialidade -,  e  um sketch dos Monty Python.

A Maria Filomena Mónica diz gostar de polémicas. Claro que gosta. Da verdade é que ela não gosta nada, porque a verdade não admite polémica.

11 abril 2017

O principal milagre

-Se Cristo era homem e fazia milagres, eu, que sou homem como ele, também os posso fazer, não?

-Sim, mas Cristo, além de homem, também era Deus, e tu não és...
 (Segundo a doutrina católica Cristo é plenamente homem e plenamente Deus)

-Mas posso ser!... Como?... Imitando-O.

Eu não sei se foi exactamente este o diálogo íntimo que teve lugar no espírito de S. Francisco. Mas, se não foi, há-de ter sido muito parecido.

Só a capacidade para colocar a primeira questão alargou o espírito humano a latitutes nunca antes conhecidas. E a capacidade para responder à segunda elevou-o até altitudes a que ele nunca antes tinha chegado.

S. Francisco acabou a fazer milagres como Cristo e, na sua vida de pobreza, até Cristo, pelos padrões dele, teria parecido um mau franciscano. O século de S. Francisco viria a produzir  grandes santos, como ele próprio e S. Domingos, grandes teólogos, como S. Boaventura e S. Tomás de Aquino, grandes pintores como Giotto, grandes poetas como Dante, grandes cientistas, como Roger Bacon - considerado o pai da ciência moderna.

Chesterton na sua biografia de S. Francisco diz que ele foi uma nova luz que chegou ao mundo, algo que, antes dele, Dante já tinha escrito - uma luz que deixou atrás de si a Idade das Trevas e iluminou novos horizontes à humanidade cristã.

Mas em que consistia precisamente essa luz, que se manteve apagada nos séculos anteriores ainda dominados pelo paganismo com os seus ídolos e o seus deuses da natureza?

No facto de Deus ser homem.

Se Cristo é homem e faz milagres, eu, que sou igualmente homem, também os posso fazer. Mas se, para fazer milagres, além de homem, eu também tenho de ser Deus como Cristo, então a solução está mesmo à vista. Só tenho que O imitar.

O principal milagre de S. Francisco foi o de ter ensinado ao homem como é que o homem pode fazer milagres.

Esta foi a revolução espiritual operada por S. Francisco, o Alter Christus, como tem sido chamado.  Ele abriu e elevou o espírito humano a uma dimensão nunca antes conhecida. Nunca o homem contemplou horizontes tão vastos e tão elevados. Depois da revolução franciscana, qualquer homem podia passar a sentir-se como se fosse um super-homem.

É uma revolução espiritual deste género - embora não necessariamente nos termos em que S. Francisco a fez - que nós estamos a precisar. O meu sentimento é que essa nova revolução espiritual será centrada na figura de Maria e não na de Cristo, como aconteceu com a revolução franciscana.


09 abril 2017

D. Laura

Eu acredito muito nos resultados deste estudo, a que já fiz referência anterior (sem discutir ao detalhe os números que lá são citados).

A ciência, afinal, vem confirmar uma antiga verdade da fé, a saber, que a  duração da vida humana é, em primeiro lugar, determinada por Deus, embora Ele tenha concedido ao homem uma certa liberdade para influenciar o resultado (o estudo fala em dois terços para Deus e um terço para o homem).

Esta liberdade  manifesta-se não apenas no estilo de vida que cada um decide adoptar, mas também na liberdade - e no encorajamento, acrescentaria eu - que Deus concedeu ao homem para, através dos progressos da ciência, aumentar a duração da vida humana. Mas esta liberdade será sempre limitada em comparação com a liberdade absoluta que só pertence a Deus.

Mas, se é Deus, mais do que o homem,  que determina a duração da vida humana, qual é o comportamento racional por parte daquele que, perante uma situação de morte previsível ou iminente,  já esgotou, ou está em vias de esgotar, todos os recursos da ciência?

Pedir a Deus.

A conclusão é que o homem que, perante uma situação de morte previsível ou iminente, vai a Fátima (ou a outro local) pedir a Deus é um homem perfeitamente racional. Irracional é quem, nas mesmas circunstâncias, lá não vai.

A fé e a razão, a religião e a ciência, não são incompatíveis. A razão é um subproduto da fé e a ciência um subproduto da religião (em linguagem dos conjuntos, a ciência é um subconjunto da religião). Às vezes, a filha quer tanto demarcar-se da Mãe que se torna ridícula, ao ponto de chamar acaso ao Pai, como é patente no artigo  que tenho vindo a referir.

Aquele que, por vezes, é considerado o primeiro cientista da modernidade, Roger Bacon, era um filho da Igreja Católica, um frade franciscano. Ficou apropriadamente conhecido por "Doutor Miraculoso" porque a sua tarefa - a tarefa da ciência - era vista como a  de desvendar os mistérios que Deus colocou na Natureza. Bacon mostra na perfeição como a ciência moderna é filha da Igreja.

Com o advento do protestantismo, e principalmente sob a  influência de Kant - que é justamente considerado o filósofo do protestantismo - a ciência ficou proibida de falar do Pai, entre outras coisas passando a chamar-lhe acaso, e procurou demarcar-se da Mãe, tornando-a mesmo sua inimiga.

Em vão. Ninguém consegue libertar-se da Mãe, como a própria ciência agora vem provar. Parece o conflito entre a Laurinha e a D. Laura. A Laurinha acabará tão D. Laura como a mãe.


Não precisei de mais

Afinal, onde é que está aqui o milagre?

Há dois milagres.

Dois? Sim, o próprio pai da criança julgou que me estava a falar de um só milagre e, enquanto ele falava, eu estava a ver dois milagres, um milagre que aconteceu ao filho e outro que aconteceu ao pai.

E o milagre que aconteceu ao pai foi o da conversão - ele, que era ateu.

Um milagre é um acontecimento quase-impossível e cuja ocorrência nos deixa maravilhados. A própria palavra milagre deriva do latim miraculus que significa "maravilhar-se". São dois, portanto, os elementos de um milagre, a sua inverosimilhança e a alegria que produz.

Eu também fiquei convencido, tão convencido como estava o pai, de que o sucesso da operação da criança tinha sido um milagre. Não, não perguntei que tipo de problema tinha a criança no cérebro e muito menos quais eram as soluções técnicas e as probabilidades. Tenho alguma competência em probabilidades mas nenhuma em cirurgia. E o pai da criança parecia não  a ter nem numa nem noutra.

Acreditei pela maneira como tudo aquilo se desenrolou. Eu já entrei em muitos Cafés ao longo da minha vida. Mas, em nenhum, mal tivesse assomado à porta, o patrão saltou de trás do balcão, como se tivesse uma mola, para me vir receber com todas aquelas atenções, ao ponto de abandonar o serviço e vir sentar-se a conversar comigo.

O homem estava perfeitamente convencido que a cura do filho se ficou a dever a intercessão divina, sem que, em algum momento, tivesse desvalorizado o trabalho do cirurgião. Acerca do trabalho do cirurgião, eu teria muito a dizer sobre o milagre que é os cirurgiões disporem hoje de técnicas e talentos que lhes permitem fazer delicadas operações ao cérebro, mas estaria a desviar-me do meu tema principal.

Para aquele homem, a questão que, na altura, lhe ia no espírito, transcendia em muito a competência do cirurgião e o sucesso imediato da operação. A questão que o preocupava era se aquela criança, que tinha nascido com um problema no cérebro, se iria tornar um adulto normal. E tornou, estava agora ali à vista de todos.

A mãe e a avó da criança também estavam igualmente convencidas de que foi um milagre, a tal ponto que a avó duplicou as suas idas anuais a Fátima.  E, com a minha adesão, passaram a ser quatro, pelo menos, as pessoas que acreditam que foi um milagre.

Não são precisos mais para validar um milagre. Porque aquilo que  caracteriza um milagre é o facto de serem muito poucas as pessoas que acreditam nele. Os cépticos excedem largamente os crentes. E isto é assim porque a principal consequência de um milagre, que seja um verdadeiro milagre, é produzir outro milagre - o da conversão. E para que a conversão possa existir é necessário, em primeiro lugar, que existam cépticos.

Como não havia eu de acreditar na história daquele homem, se eu ia a Fátima por um motivo semelhante? E convenci-me do milagre pouco depois de sair do Café e me fazer ao caminho, meditando sobre o significado daquele inesperado encontro.

Que estranho... tinha tantos Cafés no caminho e logo entrei naquele. E a forma como o homem me recebeu, adivinhando logo para onde eu ia? E não é que, ainda por cima, tinha uma história para me contar que, nas circunstâncias, tinha um imenso significado para mim?

Eram acasos a mais, uma conjugação assim de acasos tem probabilidade zero. Não existe aqui acaso nenhum. Foi Deus. Foi Deus que me quis pôr um sinal no caminho e planeou este encontro.

E que tinha Deus para me dizer?

O seguinte: "Estás a fazer a coisa certa. Continua o teu caminho, não desanimes nem abandones. Vais obter o resultado que pretendes. Acabei de te pôr na frente dos olhos um exemplo vivo - ou precisas de mais?".

Não precisei de mais. (Na realidade, já tinha recebido alguns sinais pelo caminho e ainda viria a receber outros).