22 abril 2019

por amor à massa

"A conversa azedou no final quando Daniel Oliveira fez questões a Paulo Rangel sobre o tempo em que acumulou a profissão de advogado com o cargo de eurodeputado...". (cf. aqui)

Não havia necessidade de a conversa azedar.

Eu fui talvez o primeiro comentador a mencionar esse conflito de interesses do eurodeputado Paulo Rangel num comentário televisivo quando, há cerca de 4 anos ele, que também era na altura director da sociedade de advogados Cuatrecasas, se pôs à frente da obra do Joãozinho.

Mas a conversa não tinha que azedar porque o mês passado o Tribunal da Relação do Porto num acórdão que segue, não a jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, à qual Portugal está vinculado, mas a jurisprudência de uma seita religiosa à qual pertence o juiz-relator, veio dar razão ao eurodeputado Paulo Rangel (cf. aqui).

Não havia nada de errado na sua conduta de utilizar um cargo público para promover interesses privados, a começar pelos seus. O erro foi meu - na realidade, o "crime".

A jurisprudência da seita assenta na ideia de que a humanidade é uma irmandade universal, ligada por sentimentos de amor fraternal. A forma mais elevada de comportamento humano é a do político que se dedica a promover o bem comum e exprime assim a forma mais elevada de amor - o amor dos amores (cf. aqui) - pelos seus irmãos.

A dignidade e a honra destes seres superiores que trabalham incansavelmente em benefício das massas tem de ser protegida das ofensas (cf. aqui), caso contrário eles não serão atraídos a tão nobre e elevada função (cf. aqui).

Parece ser claramente o caso do eurodeputado Paulo Rangel. Embora não seja certo se ele trabalha por amor às massas ou por amor à massa (cf. aqui).


havia sempre um capo

-Que elementos sectários encontrou nos Focolare?

-Um dos conceitos-chave dos Focolare é a unidade, a imagem-sonho de um mundo ideal. Mas isto é enquadrado numa grande hierarquia espiritual. Nas reuniões de comunidade, ou em encontros ocasionais, havia sempre um capo, um responsável com quem se tinha de fazer a unidade. Esta pessoa tinha a graça de exprimir o desejo de Deus. Objectar era inaceitável, não se faziam perguntas.

Emoções, criatividade ou uma ideia pessoal tinham de ser reprimidas para manter a unidade com o capo, que era a maneira de estarmos unas a Chiara, que tinha o carisma da unidade. Era como se estivéssemos unidos através das veias de um grande corpo místico. Usávamos os slogans dados por Chiara. Dessa maneira, tínhamos a nossa própria terminologia, frequentemente incompreensível para os outsiders. Em muitas ocasiões diziam-me: "A Monique não existe, a Monique tem de morrer pela unidade".

A unidade era mais importante do que a nossa própria consciência. Eu dei tudo por esse ideal sagrado e esperei encontrar a minha realização nele. Mas não me dei conta de que o preço a pagar era a minha própria identidade. Quanto mais caía na unidade, menos era capaz de formar as minhas opiniões e de manter uma atitude crítica. Fiquei sem identidade.

No ano passado, ouvi uma frase importante a Job Cohen, presidente da Câmara de Amsterdão: "Nós, humanos, somos todos iguais e diferentes uns dos outros. A beleza está em fazer sobressair as diferenças". Nos Focolare eu nunca senti a unidade como uma humanidade comum, mas como uma submissão comum a uma doutrina e a uma pessoa.

À medida que o Movimento crescia, havia um sistema de controlo total. Posso testemunhar como tudo, ao mais ínfimo detalhe, era reportado ao responsável. De tudo se dava conta, tudo se partilhava. Não havia liberdade de pensamento individual. Até os pensamentos mais íntimos eram trazidos para a unidade. Não existia qualquer espécie de privacidade."

(Monique Goudsmit,  cf. aqui)

21 abril 2019

como se o mal não existisse

Como seriam Portugal e os portugueses se o país fosse habitado exclusivamente por membros do Movimento dos Focolares?

A resposta a esta questão permite identificar os grandes traços da subcultura católica criada por Chiara Lubich vai para 80 anos. Para tanto, basta lembrar que o Movimento Focolare tem como objectivo realizar a irmandade universal, a unidade da espécie humana, que "todos sejam um só" (Jo:17,21) tendo como ideal Deus.

São algumas das características dessa cultura que me proponho identificar aqui.

A primeira característica de uma sociedade focolare é o seu carácter feminino, isto é, a prevalência na sociedade das características que definem a natureza feminina sobre aquelas que definem a natureza masculina - a pessoalidade das relações, o sentido estético, a atenção ao detalhe, a compaixão, a prevalência da emoção sobre a razão, a delicadeza das relações pessoais, etc. O próprio Movimento Focolare foi criado por uma mulher e, nos termos dos seus estatutos, aprovados pelo Papa João Paulo II, a sua presidência é sempre ocupada por uma mulher (actualmente, Maria Voce, depois da morte da fundadora Chiara Lubich em 2008).

Uma sociedade focolare será sempre uma sociedade elitista. Tendo como objectivo que "todos sejam um só", um pequeno número de pessoas - os líderes do Movimento - serão chamados a falar por todos os outros, não tendo estes qualquer voz activa na discussão dos destinos da vida colectiva. A obediência ao líderes é, por isso, estrita, e a liberdade de expressão não tem qualquer utilidade numa sociedade focolare. A sociedade focolare não discute. Nela, uns mandam e os outros obedecem.

Os líderes são os "políticos" do regime e identificam-se por uma característica que indicarei mais adiante. Uma vez que a unidade de todos na comunidade é conseguida tendo como ideal Deus, que é o Bem e a Verdade, estes líderes são inatacáveis e a sua honra é intocável. Eles são os intérpretes de Deus.

A adesão ao Movimento Focolare é feita mais pela delicadeza e simpatia dos seus líderes, e pela sua capacidade de sedução, do que pela força das suas ideias. O Movimento Focolare não privilegia o intelecto, mas o coração, sendo conhecido pelo seu anti-intelectualismo.

Mas aquilo que, na minha opinião, mais caracteriza os Focolares - e que constitui a característica distintiva dos seus líderes e os distingue das massas - é a sua forma de pensar e de agir. Eles pensam e agem como se o mal não existisse.

Está aqui a sua maior grandeza e também o seu maior defeito.


a honra e dignidade

"Mas será que a liberdade de expressão é mesmo um valor absoluto e ilimitado nas sociedades livres e democráticas?
(...)
O que é próprio das sociedades livres e democráticas é o livre debate de ideias.
(...)
Também é própria das sociedades livres e democráticas a livre crítica das ações e comportamentos políticos, mas tal não significa que a honra e dignidade pessoais dos atores políticos possa ser espezinhada".

(Pedro Vaz Patto, "Só a Liberdade é Sagrada?", in Crónicas Ainda Atuais, op. cit., pp. 159-160)

a difamação das religiões

"Vários governos de países islâmicos vêm encetando esforços para que no âmbito do direito internacional se consagre a proibição daquilo a que chamam a «difamação das religiões», e deparam-se com a oposição dos ´governos dos países ocidentais".

(Pedro Vaz Patto, "Só a Liberdade é Sagrada?" in Crónicas Ainda Atuais, op. cit., p. 159)

a visão do mundo islâmico

"A propósito dos protestos (...). contra a difusão de um filme profundamente ofensivo para com a figura de Maomé (...), a mais frequente reação dos responsáveis políticos e formadores de opinião dos países ocidentais tem sido a de proclamar que a liberdade de expressão em que assentam as sociedades livres e democráticas não pode ser limitada, nem mesmo nestes casos. Parece que neste países e nessas sociedades a liberdade de expressão é um valor absoluto, que nelas nada há de intocável e sagrado, senão mesmo essa liberdade de expressão.
Não é essa, porém, a visão do mundo islâmico e não só das suas fações mais extremistas. (...)"

(Pedro Vaz Patto, "Só a Liberdade é Sagrada?" in Crónicas Ainda Atuais, op. cit., p. 159

"Pouco azar!...."

Desde há três semanas que me interesso pelo pensamento do cidadão Pedro Vaz Patto, um interesse de que são exemplos os dois posts anteriores. O meu interesse visa compreender o seu pensamento para depois o poder comentar e, eventualmente, aderir a ele.

Foi um interesse despertado por ser ele a redigir um acórdão do Tribunal da Relação do Porto que me condenou numa multa de 5 mil euros e numa indemnização de 10 mil euros ao político Paulo Rangel pelo crime de "difamação agravada", um "crime" do qual tinha sido absolvido em primeira instância (cf. aqui).

Além de juiz desembargador, ainda por cima num tribunal superior - como é o Tribunal da Relação do Porto -, Pedro Vaz Patto é também um activo opinion-maker na comunicação social portuguesa e um activista político. E esta foi a minha segunda surpresa.

A primeira foi a sentença, que era surpreendente, porque era totalmente contra a jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem à qual Portugal está vinculado - a qual faz prevalecer o direito à liberdade de expressão sobre o direito à honra -, como era contra a tradição do Tribunal da Relação do Porto, que foi dos primeiros a adoptar no país essa jurisprudência, pondo de lado a jurisprudência que vinha do Estado Novo (e da Inquisição) e que fazia prevalecer o direito à honra sobre o direito à liberdade de expressão.

No sentido de conhecer o pensamento social e político do juiz Pedro Vaz Patto ainda recentemente chamei a atenção neste blogue para aquele que é provavelmente o seu último artigo de opinião. É um artigo do Observador que ele assina na qualidade de presidente da Assembleia Geral de uma ONG chamada "O Ninho" (cf. aqui).

Fui à página desta ONG e encontrei lá o eurodeputado Paulo Rangel como membro da Comissão de Honra de uma conferência patrocinada por esta organização e onde o juiz Pedro Vaz Patto foi orador (cf. aqui). Fiquei a pensar que o eurodeputado Paulo Rangel e o juiz Pedro Vaz Patto partilham algumas ideias e muito presumivelmente se conhecem.

Ora, esta foi a minha última e derradeira surpresa. Para dirimir um caso judicial pendente no Tribunal da Relação do Porto que me opõe ao eurodeputado Paulo Rangel, o caso foi distribuído - presumo que aleatoriamente - ao juiz Pedro Vaz Patto, que foi o relator da sentença, que me condenou a pagar uma pesada indemnização ao eurodeputado Paulo Rangel.

Eu tinha um amigo de infância que, quando lhe acontecia uma coisa destas, em lugar de dizer "Pouca sorte!...", exclamava: "Pouco azar!...".

Nunca foi longe nos estudos.

Nem o Tribunal da Relação do Porto parece ir longe a fazer Justiça.

20 abril 2019

a fundadora dos Focolares

"No final do mês de Agosto fui surpreendido pela notícia da morte repentina de uma amigo de há muitos anos.
Fernando Castro tinha sido um dos pioneiros do sector juvenil do Movimento dos Focolares em Portugal. Quando o conheci na segunda metade dos anos setenta, liderava um grupo de jovens do Movimento empenhados naquilo a que se chamava "Operação África", em favor do povo bangwa, uma tribo dos Camarões que já correra o risco de extinção pelo alastrar de doenças. Essa e outras actividades de empenho social pretendiam responder a um apelo que Chiara Lubich, a fundadora dos Focolares, lançara então aos jovens: "morrer pela sua gente", como fizera Jesus no seu tempo, guiados pela luz do Evangelho que afirma que "ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos". Interpretava-se este "dar a vida" não num sentido literal da morte física, mas como o doar todas as suas energias e esforços".

(Pedro Vaz Patto, "Dar a Vida pelos seus Amigos", Voz da Verdade, Setembro 2011, reimpresso em Crónicas Ainda Atuais, op. cit. p. 107)

Chiara Lubich

"O desencanto com a política e os políticos leva um cada vez maior número de cidadãos à abstenção. Em reacção a essa tendência, numa nota de abril passado, a Conferência Episcopal Portuguesa apela à participação nas eleições, europeias, legislativas e autárquicas, que se realizam este ano.
Muitos sentem a urgência de "reabilitar" a política. Ficou célebre a definição de Pio XI da política com "forma de caridade". A referida nota da C.E.P. evoca a referência de Paulo VI à política como "arte nobre". E Chiara Lubich designou, numa ocasião, a política como "o amor dos amores", isto é, uma forma de serviço que ajuda cada um dos cidadãos a concretizar os seus projectos de realização pessoal, os quais se traduzem sempre numa forma de viver o amor."

(Pedro Vaz Patto, "Reabilitar a Política", revista Cidade Nova, Setembro de 2009, reimpresso em Crónicas Ainda Atuais, op. cit. p. 35),

da pátria da liberdade de expressão

A liberdade de expressão, e a sua prevalência sobre a honra, vista da pátria da liberdade de expressão:

"Toda a gente sofre quando pessoas que pensam de forma controversa são postas fora da vida pública" (cf. aqui).

Esta semana, as crianças, presentes e futuras, internadas no Hospital de São João do Porto, e a própria cidade do Porto e o país, perderam para sempre um novo hospital pediátrico que lhes teria sido oferecido de forma mecenática (cf. aqui).

Os únicos ganhadores foram um político e os advogados da sociedade que dirigia na altura, que vão ser indemnizados por terem conseguido boicotar a obra (cf. aqui).

o poder está nos cidadãos

Extracto da entrevista do candidato da Iniciativa Liberal ao Jornal Dia 15 (cf. aqui):

-O que significa ser liberal num país que gira ainda tanto em torno do Estado?

-Ser liberal é saber interpretar a razão da existência do Estado. Em Portugal as pessoas têm reverência e temor ao poder. Talvez pela tradição histórica portuguesa, que em nove séculos de existência foi essencialmente iliberal, as pessoas vêem o Estado como uma manifestação superior do poder, ao qual se devem prostrar. A forma como como se escreve em português a palavra Estado, com letra maiúscula, diz tudo. Mas a visão liberal é precisamente a oposta . Na perspectiva liberal, o Estado é um mero instrumento de agregação comum de vontades individuais. É uma forma de concretizar desígnios ou funções que os cidadãos entendem necessárias e sobre as quais deliberam. O verdadeiro poder está nos cidadãos, que legitimam a existência do poder estatal, e na delimitação constitucional da acção do Estado. Aqui a letra maiúscula remete para os Cidadãos.

As queixas

As queixas dos ex-focolares são idênticas às de qualquer outra seita (cf. aqui).

O culto da líder, a lavagem ao cérebro, a despersonalização, a obediência absoluta, o apagamento do "eu" ao ponto de a pessoa deixar de ser um fim em si mesma e passar a ser um instrumento nas mãos de outrem (geralmente a líder que serve de intérprete de Deus).

Numa Memória particularmente desenvolvida e equilibrada, a italiana Renata Patti, que pertenceu ao Movimento dos Focolares deste os 10 até aos 50 anos, cobre todos estes temas (cf. aqui):

A despersonalização, mediante a qual todas as raparigas (focolarini) são chamadas Chiaras e supostas ser réplicas da fundadora (p. 29 e segs.).

A submissão e a manipulação (p. 61 e segs.).

A obediência absoluta, segundo a qual nada se pode passar sem a autorização da líder (p. 94 e segs.).

A ausência completa de liberdade de expressão, segundo a qual ninguém pode falar ou escrever sem a autorização da hierarquia (p. 99).

O endeusamento da líder que se vê a si própria no mesmo plano de Deus (pp. 156-57).

19 abril 2019

A Armada do Papa


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Gordon Urquhart, um ex-membro dos Focolares, afirma que o recrutamento de antigos esquerdistas pelos novos movimentos eclesiais já provou o seu sucesso: "Paradoxalmente, a despeito do seu estatuto de direita na política, e do seu estatuto de classe média - pelo menos no mundo ocidental -, todos os três movimentos (Focolares, Comunhão e Libertação e Neo-catecumenais) tiveram um sucesso considerável em atrair recrutas da extrema-esquerda política. De facto, estes dois extremos têm muito em comum: a promessa de um novo mundo num futuro obscuro e distante; a necessidade de um estrutura eficiente, dura, centralizada e totalitária para atingir os seus ambiciosos objectivos; a obediência total dos seus membros sem qualquer espaço para a dissensão ... Antes da queda do comunismo, Lubich via os Focolares como a imagem do mundo socialista. "Nós estamos feitos para eles", dizia ela. "Eles têm as estruturas certas; tudo o que necessitam é do nosso espírito para animar essas estruturas" (Gordon Urquhart, The Pope's Armada, Unlocking the Secrets of Mysterious and Powerful New Sects in the Church, Prometheus Books, 1999, pp. 276-277). Chiara Lubich é a fundadora do Movimento dos Focolares. (cf. aqui)

illiberal organizations

"That these basically illiberal organisations will come to dominate the life of the [Roman] Catholic Church is unlikely, despite efforts to present them as a powerful force." (cf. aqui)

o amor dos amores

O Movimento dos Focolares possui uma teoria de acção política que assenta numa ideia chave, tornada famosa por Chiara Lubich, fundadora do Movimento: "A política é o amor dos amores" (cf. aqui).

18 abril 2019

sou eu!

“Every soul of the Focolari has to be an expression of mine and nothing else. My Word contains all of those of the focolarine and focolarini. I summarize all of them. So when I appear they must let themselves be engendered by me, commune with me. I too, like Jesus, must say to them: ‘And he who eats my flesh….’”
(Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, cit. aqui)

Por outras palavras: "Os focolares sou eu!"

Being nice

Neste post pretendo discutir a relação que o Movimento dos Focolares tem com a liberdade de expressão, que é a liberdade fundacional da democracia.

O Focolares têm como valor principal a unidade (cf. aqui). Inpirados numa passagem dos Evangelhos em que Cristo pede ao Pai "para que todos sejam um só" (Jo: 17, 21) ), eles levam ao extremo o sentido comunitário da Igreja Católica e o seu desígnio de fazer de toda a humanidade uma família.

Ora, como é que se faz uma comunidade?

Uma comunidade faz-se com amor - "Amai-vos uns aos outros", proclamou Cristo - no sentido lato de caridade, de querer bem aos outros e de os tratar bem, uma comunidade faz-se, enfim, segundo a regra de ouro: "Faz aos outros aquilo que gostas que eles te façam a ti".

Segue-se que o primeiro sinal exterior de um focolare é a delicadeza ou simpatia com que trata os outros. Uma jornalista americana  que se deslocou a Roma para entrevistar a superiora dos focolares, ficou impressionada com estre traço da cultura focolare. "Being nice", mesmo nas circunstâncias que em princípio poderiam parecer as mais impróprias, é uma marca distintiva dos focolares.

Nem poderia ser de outro modo. Ninguém consegue atrair pessoas e juntá-las a si e à sua comunidade sendo antipático, agreste ou ofensivo. Se o objectivo é unir todos numa só comunidade, fazendo com que todos sejam um, então a delicadeza nas relações pessoais é a regra número um.

Porém, também é verdade que, à medida que as pessoas aderem à comunidade focolare, e se tornam unas com aquelas que já lá estão, não precisam de liberdade de expressão para nada. A hierarquia estabelecida por aquelas que já lá estão fala por elas, e elas não têm nada a acrescentar àquilo que a hierarquia tem a dizer em nome de todas.

O Movimento dos Focolares tem sido por vezes criticado pela sua estrutura fortemente hierárquica e por apagar a personalidade dos seus membros (cf. aqui). Nem pode ser de outro modo. Quando todos são um, basta que um se exprima pelos outros todos.

O direito democrático à liberdade de expressão - que é o direito para criticar, divergir, protestar, dissentir - não tem valor nenhum nas comunidades focolares. Quando serve apenas para dizer bem, este direito não serve para nada e todos podem passar perfeitamente sem ele.

17 abril 2019

a última página

Estive hoje a ler um livro que encomendei há dois dias.

Tem o título "Crónicas Ainda Atuais", de Pedro Vaz Patto, com prefácio do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente (Editorial Cáritas, Lisboa, 2018) (cf. aqui).

Quando cheguei ao fim, desejei que este Pedro Vaz Patto não fosse o juiz do Tribunal da Relação do Porto que redigiu o acórdão que recentemente me condenou por crimes de ofensas ao Paulo Rangel e à Cuatrecasas em relação com a obra do Joãozinho (cf. aqui).

Num segundo me desenganei, ao virar a última página que é verdadeiramente a contracapa.

Diz assim:

"Pedro Maria Godinho Vaz Patto é casado e pai de quatro filhos. Foi docente do Centro de Estudos Judiciários e é juiz desembargador do Tribunal da Relação do Porto. Preside à Comissão Nacional Justiça e Paz desde 2015. É chefe de redacão da revista Cidade Nova (do Movimento dos Focolares) e colabora regularmente no jornal Voz da Verdade. São destas duas publicações os artigos coligidos neste livro".

O Movimento dos Focolares (ou "Obra de Maria") é um movimento descrito na Wikipedia (cf. aqui) como católico fundamentalista e  - acrescentaria eu, se havia necessidade de acrescentar alguma coisa - profundamente anti-liberal.

Por um momento, rezei para que nunca um liberal caia nas mãos do juiz Pedro Vaz Patto para ser julgado por ele.

Ex-ante, pode dar a impressão que ele não parece reunir as condições de imparcialidade para o fazer.

15 abril 2019

Associação Joãozinho abandona

Associação Joãozinho abandona a obra da ala pediátrica do HSJ:

TSF: aqui

Observador: aqui

TVI: aqui

Público, aqui

Renascença, aqui

RTP, aqui

Arroja devolve, JN: aqui

Associação Joãozinho desiste, Expresso: aqui