20 fevereiro 2017

O dia em que o PR decidiu enforcar-se

O episódio mais dramático relatado no livro de José António Saraiva, "Eu e os Políticos", é aquele em que Marcello Rebelo de Sousa, antes de uma reunião que iria ter lugar com Pinto Balsemão, fingiu enforcar-se num cortinado:

enquanto esperava numa sala, abriu inesperadamente a janela, saltou para uma consola exterior, puxou a fita do estore, enrolou- a à volta do pescoço e deitou a língua de fora, fingindo que se tinha enforcado. Mas quando Balsemão apareceu já Marcelo tinha recuperado a compostura.

Não estive lá para observar o que fizeram as outras pessoas presentes, mas presumo que Marcello Rebelo de Sousa só é hoje o nosso Presidente da República porque os presentes fizeram alguma coisa, muito provavelmente aquilo que eu faria se lá estivesse. Atirava-me a ele e tirava-lhe o cortinado do pescoço, nem que fosse à pancada.

Mais difícil seria explicar, quando os ânimos se acalmassem, a racionalidade da minha acção. Ter-lhe-ia dito que me opus a que ele se suicidasse porque a vida dele não lhe pertence só a ele, também pertence ao pai, à mãe, aos amigos, todos o tratam por meu ou por nosso.

-E tu... também sou teu... que apareceste agora aqui e eu nunca te tinha visto?,

poderia ele perguntar-me na altura e ter-me-ia deixado embatucado.

Mas hoje não, hoje eu teria a resposta.

-Sim, também és meu e nosso. És o meu e o nosso Presidente da República.

Ainda o imagino de língua de fora e cortinado ao pescoço, e eu a atirar-me a ele. Não teríamos Presidente da República se não fosse eu.

12 fevereiro 2017

o agradecimento

"Reitero que o agradecimento é a mais alta forma de pensamento e que a felicidade mais não é do que a gratidão duplicada pelo espanto."
G.K. Chesterton

11 fevereiro 2017

meu

A mãe trata o Chiquinho por meu filho.
Existe muito dela nele.
Sem ela, ele não seria o que é.
Durante os primeiros meses de vida
O Chiquinho não precisou de mais ninguém
Para viver e crescer.
Depois, ela deixou de ser suficiente.
O Chiquinho tem pai,
Que o trata por meu filho.
Se não fosse ele,
O Chiquinho não seria o que é.
Seria diferente.
O Chiquinho tem avós,
Tias, primos, irmãos.
Todos o tratam por meu.
À medida que cresceu,
O Chiquinho teve professores
Que o tratam por meu aluno.
Sem eles, o Chiquinho seria outro.
Amigos e colegas, que o tratam por meu.
O Chiquinho teria sido diferente sem eles.
Hoje o Chiquinho é Engenheiro
Lá na empresa tratam-no por
O nosso Engenheiro.
Com razão.
Sem aquela gente toda o Francisco
Não seria Engenheiro.
Quem é que consegue
Construir casas sozinho?
E quem é que lhe compraria as casas?
Hoje, o Francisco tem família,
Mulher e filhos.
A mulher e os filhos tratam-no por meu.
Meu marido e meu pai.
Sem ela e sem eles
O Francisco não seria a mesma pessoa.
O Francisco recorre a empresas
De telemóveis, automóveis, serviços
Todas o tratam por nosso cliente.
Sem telemóvel, o Francisco seria
Uma pessoa muito diferente.
E sem os seus médicos, sapateiros,
Barbeiros, padeiros, carpinteiros também.
Todos eles influenciaram a vida do Francisco
E por isso o tratam por meu e nosso.
Onde de início só dependia da mãe
Passou a depender da comunidade
De que a própria mãe faz parte.
Aquilo que o Francisco hoje é
É o resultado muito mais
Da comunidade onde nasceu e cresceu
Do que dele próprio.
Foi a comunidade (ekklesia) que lhe deu
Mãe, pai, avós, tios e primos
A mulher com quem casou,
Os professores e os médicos que teve
E também os clientes para as casas que faz,
E os arquitectos que fazem as casas com ele.
Os padeiros, os carpinteiros, os amigos,
Os fabricantes de telemóveis e de automóveis,
Até o padre que o casou.
Um dia o Francisco decidiu que a vida era dele
E queria ter o direito a pôr termo à vida.
Mas como,
Se o Francisco não se fez a si próprio?
A relação não é de propriedade.
É  de pertença.
O Francisco pertence a si próprio,
Mas pertence ainda mais à comunidade.
Sem ela, o Francisco não seria
Nada daquilo que é hoje.
Por isso, tanta gente na comunidade o trata
Por meu e por nosso.
E até quem  não o conhece
O trata por nosso concidadão.
Só a comunidade pôde fazer do Francisco
Aquilo que ele hoje é.
Ele não teria sabido fazer-se sozinho.
E que segredo (ou "tecnologia") possui a comunidade
Para fazer pessoas como o Francisco?
A tradição.
E quem governa a Tradição?
Alguém que quer bem às pessoas
De modo a fazer pessoas como o Francisco.

10 fevereiro 2017

O Chiquinho

Tenho estado a pensar
No dia em que o Chiquinho nasceu.
Há quem diga que foi um acaso,
Um acaso ele ter nascido naquele dia.
Mas, se é assim, houve outros acasos
Naquele dia e num curto espaço de tempo.

A maminha da mãe do Chiquinho deu leite,
Naquele mesmo dia.
Nunca tinha dado leite.
Deu pela primeira vez naquele dia.
Por acaso.
Podia ter sido quinze meses mais tarde.

E não é que o Chiquinho gostou?
Que acaso o Chiquinho gostar do leite!
Podia não ter gostado.

Mas o mais desconcertante
É ainda outro acaso.
O Chiquinho sabia mamar!
Sabia fazer os movimentos de sucção
Na maminha da mãe.
Ninguém lhe ensinou.
Mas o Chiquinho sabia.
O Chiquinho nasceu ensinado.

Tantos acasos em tão pouco tempo...
Não serão acasos a mais?
E todos na mesma direcção,
Favoráveis ao Chiquinho?
É que o acaso é aleatório,
Tanto lhe dá para o bem como para o mal.
Mas estes acasos
São todos para o bem do Chiquinho.

Não será mais racional acreditar
Que Alguém determinou:
"Chiquinho, vou-te dar vida no dia tal";
"E vou dar leite à maminha da tua mãe";
"E vou-te ensinar a mamar";
"E tu vais gostar"?

Para mim é.



06 fevereiro 2017

O Plano de Deus

O Francisco nasceu, mas não foi ele que deu vida a si próprio.
Deram-lha.
Também lhe deram o sol para se aquecer,
O mar para beber,
E muitas outras coisas para se alimentar.
À nascença, não se tinha por si próprio.
Deram-lhe logo uma mulher para cuidar dele.
E uma família para o proteger.
E amigos para conviver.
Deram-lhe uma Língua para comunicar.
Deram-lhe uma religião para se orientar.
Professores para o ensinar.
Médicos para o tratar.
Uma sociedade organizada para ele prosperar.
Disponibilizaram-lhe profissões para ele optar.
Carros para ele guiar.
Casas para habitar.
Até lhe deram uma mulher para ele casar

O Francisco cresceu, é um jovem adulto.
E agora está convencido que tudo o que é na vida
Se deve a ele próprio.
É  engenheiro
Mas não foi ele que inventou a engenharia.
Tem automóvel,
Mas não foi ele que inventou o automóvel.
Tem uma família
Mas não foi ele que inventou a família.
Fala inglês
Mas não foi ele que inventou o Inglês.

Agora, o Francisco diz que um dia  quer ser ele a decidir
Racionalmente o momento em porá termo à vida.
Na verdade, a vida dele parece obedecer a um plano racional.
E benevolente.
Deram-lhe tudo o que hoje o torna feliz.
E orgulhoso.
Mas o plano não foi estabelecido por ele.

Ahhh
Esqueci-me de dizer
Que também deram a liberdade ao Francisco.
Não foi ele que a inventou.
Não para escolher os pais,
Não para escolher o dia em que nasceu,
Não para inventar o avião,
Nem o país em que cresceu.
Mas para fazer obras
E as asneiras que quiser.

01 fevereiro 2017

amaricanos

Vem por aí uma invasão de amaricanos.

25 janeiro 2017

PNL

PNL

O que é a Programação Neurolinguística – PNL

A PNL é uma disciplina que usa métodos psicológicos e a interação pessoal para efeitos de desenvolvimento pessoal e tratamento de problemas psicossociais. Pode ser entendida como uma escola de psicoterapia, pelo seu âmbito e objeto, sem esquecer que os seus métodos têm encontrado aplicação em muitas outras áreas, como a comunicação, a educação, a psicologia das organizações, a gestão, e até o treino militar.

A PNL nasceu da observação do trabalho clínico de três personalidades incontornáveis da psicoterapia, Milton Erickson, Fritz Perls (ambos psiquiatras) e Virgínia Satir. Esta observação sistemática, efetuada inicialmente por Richard Bandler (psicólogo) e John Grinder (linguista), permitiu deduzir os elementos fundamentais da prática clínica destes três psicoterapeutas e estruturá-los de uma forma coerente que foi batizada como “Programação Neurolinguística”.

Imagino o impacto que terá tido sobre Bandler e Grinder, em particular sobre este último, por ser linguista, a observação da experiência psicoterapêutica, conduzida por três grandes mestres da psicoterapia. Como é que uma conversa, recorrendo apenas à linguagem – (incluo aqui também a linguagem não verbal e a corporal) – pode curar ataques de pânico, fobias e depressões? Parece um milagre!

Era como se a linguagem reprogramasse o cérebro, daí “Neuro-linguistic Programming” ou Programação Neurolinguística.

Alguns princípios emergiram das observações de Bandler e de Grinder, a que chamaram pressupostos operacionais da PNL. Pressupostos que são, no fundo, princípios implícitos no processo psicoterapêutico. E que, salvo melhor entendimento, estão presentes em quase todas as escolas de psicoterapia.

Pressupostos operacionais:

  1. O mapa não é o território
  2. Ter escolhas é melhor do que não as ter
  3. As pessoas fazem as melhores escolhas que podem na altura
  4. As pessoas agem de modo perfeito
  5. Todos os comportamentos têm um propósito
  6. Todos os comportamentos têm uma intenção positiva
  7. A comunicação é o “feed-back”
  8. Temos todos os recursos de que precisamos e a capacidade para criar novos
  9. A mente e o corpo são um todo
  10. Não há fracassos, apenas “feed-back”
  11. Num grupo, a pessoa com mais flexibilidade é a mais influente
  12. Modelar o sucesso leva à excelência
  13. Todos os processos devem procurar a congruência
  14. Se queres compreender – age
Cada um destes pressupostos tem muito que se lhe diga e merce estudo atento. Permitam-me apenas, a título de exemplo, abordar o ponto 9).

A mente e o corpo são um todo

É um pressuposto fácil de compreender, mas de grande importância porque nos alerta para a necessidade de uma vida saudável, especialmente no que diz respeito à alimentação, ao exercício físico e ao descanso, se queremos desfrutar de uma mente sã. Um princípio de vida milenar, mas tantas vezes esquecido.

Por fim, gostaria de refutar acusações de que a PNL é uma pseudociência ou uma disciplina que não pode ser comprovada cientificamente. É um facto que a PNL, por abordar cada caso individualmente, não permite o mesmo estudo empírico a que se prestam, por exemplo, tratamentos massificados, não difere, contudo, neste aspecto, de qualquer outra escola de psicoterapia.


Alguém despreza, porém, a psicoterapia, em geral, por este motivo? Claro que não, a abordagem pessoal e individualizada da psicoterapia tem, e terá sempre, o seu lugar. A ciência empírica ocupa uma posição destacada neste século XXI, mas é preciso não esquecer que ‹‹há vida para além do empirismo científico››.