18 janeiro 2017

exercício físico

Exercício físico aeróbico


O exercício físico, aeróbico, deve fazer parte de qualquer intervenção psicoterapêutica porque melhora a cognição e a memória, criando condições favoráveis para um resultado positivo da psicoterapia.

A investigadora Heidi Godman, da Universidade de Harvard, recorre a uma metáfora para explicar este efeito: ‹‹é como se ajudasse a levantar o nevoeiro que por vezes tolda o pensamento››

O impacto positivo do exercício físico na psique resulta de ações diretas e indiretas.

1. Ações diretas

Redução da resistência à insulina e estímulo da produção de fatores de crescimento. Em particular, este último efeito melhora a neoformação de vasos sanguíneos e a sobrevivência do tecido nervoso.

2. Ações indiretas

As ações indiretas consistem na melhoria do humor, do sono, e na redução do stress. Condicionantes de uma cognição clara.

Outro investigador, Scott McGinnis, também de Harvard, demonstrou que as pessoas que fazem exercício físico aeróbico regular têm as regiões do cérebro que controlam o pensamento e a memória mais desenvolvidas – córtex pré-frontal e temporal.

Seis meses a um ano de exercício físico moderado, de duas horas por semana, é o suficiente para obter este resultado a nível neurológico, segundo Heidi Godman e Scott McGinnis.


Qualquer exercício aeróbico é útil, desde a corrida à natação ou squash. O que é necessário é ativar o sistema cardiovascular. Os exercícios estáticos (halterofilismo ou culturismo), pelo contrário, não têm o efeito positivo dos exercícios aeróbicos sobre os fatores mencionados.

17 janeiro 2017

meditação

Meditação


A meditação é uma das ferramentas mais importantes de que dispomos para fortalecer a força de vontade, assim como a atenção, o foco, tratar o stress, controlar impulsos, e desenvolver a autoconsciência.

É uma prática que alia o foco da consciência ao relaxamento físico. Simples de adotar e de resultados cientificamente garantidos.

Estudos efetuados pela Harvard Medical School e pelo Massachusetts General Hospital demonstraram, de forma inequívoca, que a meditação altera a morfologia e a fisiologia do cérebro, desenvolvendo o córtex pré-frontal, assim como todas as áreas relacionadas com a autoconsciência.

Mais importante, o resultado positivo da meditação não demora décadas a desenvolver-se. Nos estudos que referi, foram comprovadas alterações neurológicas, através de Ressonância Magnética funcional, em apenas oito semanas de meditação – de trinta minutos por dia.

Não é necessário, portanto, tirar visto para o Tibete nem alterar o esquema de vida. Tudo o que é necessário é dispor de alguns minutos por dia para meditar, e desfrutar dos resultados.

Amit Sood (1), da Mayo Clinic, identifica três estadios diferentes, mas progressivos, na prática da meditação.

1.     Evasão sensorial
2.     Foco
3.     Imersão

1. Evasão sensorial

A evasão sensorial é o primeiro estadio da meditação, a porta de entrada para os iniciantes. Consiste em desligarmo-nos do bombardeamento sensorial constante a que estamos sujeitos e abrandar o turbilhão de pensamentos que normalmente nos invade (a chamada mente errante – “wandering mind”).

2. Foco

Isolados do input sensorial e da torrente de pensamentos, a mente foca-se por instantes na consciência de si, na autoconsciência, até surgirem novas sensações e pensamentos. Esta interrupção do foco é normal e pode ser superada concentrando-nos de novo, por exemplo, na respiração.


3. Imersão

Com experiência, podemos começar a experimentar um foco mais intenso da consciência, com uma sensação de leveza corporal, autoconsciência intensa – “mindfulness”, e profunda felicidade.

Na minha experiência pessoal, tudo o que é preciso é decidir começar a meditar. Escolher um lugar sossegado e uma postura confortável, fechar os olhos, respirar lentamente, e focar a atenção na respiração. Lentamente conseguimos desligar-nos do que nos rodeia (evasão sensorial), concentrar-nos na respiração (foco) e desfrutar plenamente do momento (imersão).

De início, o foco é interrompido constantemente pela torrente do pensamento e esta experiência é fundamental para intuirmos como andamos distraídos de nós próprios. Quando isto acontece focamo-nos de novo na respiração. Esta experiência pode ser depois transportada para o dia-a-dia, quando precisamos de focar a atenção e controlar o turbilhão de pensamentos que distraem e prejudicam a persecução dos nossos objetivos.


1) Sood, A.: Handbook for Happiness – Mayo Clinic, Boston, Capo Press (2015)

16 janeiro 2017

Dedicado a todos os liberais

À distância de quase trinta anos depois de o ter lido pela primeira vez, gostaria de comentar o último capítulo do último livro de Hayek (The Fatal Conceit, ver em baixo). Foram as últimas palavras escritas que ele teve para transmitir depois de uma vida dedicada ao estudo do liberalismo.

O capítulo tem o título "Religion and the Guardians of Tradition" e a sua antecipação causou calafrios entre a maior parte dos intelectuais liberais. Abre assim:

In closing this work, I would like to make a few informal remarks (...) about the connection between the arguments of this book and the role of religious belief.

O autor quase pede desculpa:

These remarks may seem unpalatable to some intellectuals because they suggest that, in their long-standing conflict with religion, they were partly mistaken - and very much lacking in appreciation.

Na verdade, aquilo que caracteriza os liberais de todas as variedades é uma característica só - a sua oposição à religião, com a consequente  exclusão de Deus do debate racional.

Aquilo que Hayek tem para dizer - na realidade, sumarizar - é que nós devemos a nossa civilização,e  os padrões que ela atingiu, a um conjunto de regras de conduta e de instituições que nós não criámos, não sabemos quem as criou, não sabemos sequer para que fins foram criadas (dois dos seus exemplos preferidos são a família e a propriedade privada) - numa palavra, à tradição.

E que o principal guardião dessa regras de conduta e instituições - isto é, da tradição - foi a religião.
Por outras palavras, sem a tradição, e a religião que é a sua guardiã, a civilização, tal como a conhecemos, seria impossível. Aqui Hayek quer também afirmar que a civilização seria impossível apenas com regras de comportamento e instituições deliberada e racionalmente feitas por nós.

Em suma, nós devemos a civilização muito menos à razão (e à ciência) do que à fé (e à religião) - a fé em seguir regras de comportamento e adoptar instituições que os nossos antepassados já seguiram, e que deram bons resultados, mesmo se nós não sabemos bem porquê.

Chegado aqui, o passo seguinte seria o de Hayek procurar na religião a origem e racionalidade da tradição, entendida como esse conjunto de regras e instituições. Mas já era tarde para ele, tinha 89 anos na altura e faleceria três anos depois. Sempre fora um agnóstico:

So far as I personally  am concerned I had better state that I feel as little entitled to assert as to deny the existence of what others call God, for I must admit that I just do not know what this word is supposed to mean.

Mas Hayek incentiva os outros a envolverem-se na teologia para responderem à questão, já que as conclusões a que ele e os teólogos chegam são, em muitos casos, as mesmas:

I long hesitated whether to insert this personal note here, but ultimately decided to do so because support by a professed agnostic may help religious people more unhesitatingly to pursue those conclusions that we share.

Depois, uma frase extraordinária:

Perhaps what many people mean in speaking of God is just a personification of that tradition of morals or values that keeps their communities alive.

Se hoje eu pudesse responder a Hayek, diria: É exactamente isso. E a personificação foi feita na pessoa de Cristo.

A terminar:

Yet perhaps most people can conceive of abstract tradition only as a persoanl Will. If so, will they not be inclined to find this will in "society" in an age in which more overt supernaturalisms are ruled out as superstitions?

O que Hayek está a dizer é que, como a religião é considerada uma superstição, e  as pessoas tendem a interpretar a tradição como uma vontade pessoal, existe o risco de que as pessoas venham a identificar essa vontade como sendo a vontade da  "sociedade".

Seria a "sociedade" transformada em Deus. (Estamos quase lá).

On that question may rest the survival of our civilization.

E assim terminou.


A linguagem envenenada

Ao atravessar o Atlântico a palavra liberal ganhou um sentido praticamente oposto àquele que tem na Europa, que foi onde ela nasceu (Espanha).

Aproveitei a oportunidade para ir de volta ao último livro do conhecido economista liberal F. A. Hayek, The Fatal Conceit - The Errors of Socialism (Chicago, The University of Chicago Press, 1988).

O que é que este homem de quase 90 anos tinha para dizer em jeito de sumário e de conclusão final do seu pensamento?

Dedica um capítulo à corrupção da linguagem (Cap. VII. Our Poisoned Language), que torna difícil, senão mesmo impossível, todo o debate intelectual. Detém-se, em particular, sobre o adjectivo "social" que, colocado junto a um substantivo, particamente lhe inverte o sentido.

Exemplo (da minha autoria): Justiça é, na concepção tradicional, "dar o seu a seu dono". Justiça Social é o oposto: é tirar ao dono para dar a alguém doutrem, alegadamente em estado de carência.

Mas o capítulo mais interessante é o último. Qual o tema que ocupou Hayek nos últimos parágrafos que escreveu para o público,  depois de uma vida de quase 70 anos a escrever para o público (essencialmente, académico), e que o tornou uma referência do pensamento liberal moderno?

Deus.


o que é a Força de Vontade?

Força de vontade – FV


A força de vontade é uma tendência instintiva que se destina a alcançarmos objetivos de médio e longo prazo, ignorando prazeres ou desconfortos imediatos.

O modelo mais utilizado para estudar a FV foi desenvolvido por Roy F. Baumeister (2003), da Universidade da Flórida nos EUA, que afirma que a FV não é uma característica da personalidade, nem uma deliberação ética ou moral. É uma capacidade humana que funciona como “um músculo”, uma capacidade que pode ser fortalecida, mas que também entra facilmente em exaustão.

Kelly McGonigal (1), autora do livro “The Willpower Instinct” (2012), sublinha que este modelo tem várias implicações importantes.

1.     A FV é uma resposta do corpo e da mente, não apenas da mente
2.     Usar a FV consome recursos físicos do organismo
3.     A FV tem limites
4.     A FV pode ser treinada e desenvolvida (como um músculo)

1. A FV é uma resposta do corpo e da mente, não apenas da mente

O principal contributo científico nesta área foi da investigadora Suzane Segerstrom (2007), da Universidade de Kentucky nos EUA. Suzane Segerstrom estudou características fisiológicas associadas ao exercício da FV e verificou que este está associado a uma ativação equilibrada do sistema nervoso autónomo que permite focar a atenção, mas num estado de relaxamento. ‹‹Agindo de acordo com os nossos objetivos superiores e não com os nossos apetites imediatos›› – (citada por K. McGonigal).

2. Usar a FV consome recursos físicos do organismo

Usar a FV cansa e leva o indivíduo a sentir-se exausto – “fadiga central”. Consome glicose, o principal combustível do organismo, e foi possível demonstrar que a glicémia desce quando se exercita a FV e que, por outro lado, quando a glicémia está baixa a FV enfraquece.

3. A FV tem limites

O modelo de Baumeister, que equipara a FV a um músculo, permite usar aqui uma metáfora fácil de compreender: tal como o exercício físico esgota e reduz temporariamente a força muscular, o exercício da FV reduz a capacidade de autocontrole e a disponibilidade para a continuar a exercer.
Susan Segerstrom descobriu também que a FV é uma capacidade genérica e que se a usarmos para uma determinada finalidade ficamos com menos FV para outras tarefas. Exemplo, se estivermos a exercer a FV para cumprir uma dieta ficamos com menos força de vontade para estudar.


4. A FV pode ser treinada e desenvolvida

Esta é talvez a conclusão mais interessante dos estudos mais recentes sobre a FV. Sendo “um músculo”, a FV pode ser treinada de modo a aumentar a sua capacidade de reserva e não entrar em fadiga central tão facilmente.

Exercícios físicos e meditação, por exemplo, podem fortalecer a FV porque obrigam a autocontrole. Ir todos os dias ao ginásio implica força de vontade e, de início, algum esforço, mas com a repetição a FV sai fortificada e o esforço diminui.

CONCLUSÃO:


Todas as pessoas têm força de vontade e é possível criar condições para a fortalecer. Com uma vida saudável, com alimentação equilibrada e com treino de fortalecimento.

Ref:

1) McGonigal, K: The Willpower Instinct, Penguin Group, NY 2012