29 Setembro 2014

não veem os olhos do predador a brilhar na noite

There is a ritualistic symbolism at work in sex crime that most women do not grasp and therefore cannot arm themselves against. It is well-established that the visual faculties play a bigger role in male sexuality, which accounts for the greater male interest in pornography. The sexual stalker, who is often an alienated loser consumed with his own failures, is motivated by an atavistic hunting reflex. He is called a predator precisely because he turns his victims into prey.
Sex crime springs from fantasy, hallucination, delusion, and obsession. A random young woman becomes the scapegoat for a regressive rage against female sexual power: “You made me do this.” Academic clichés about the “commodification” of women under capitalism make little sense here: It is women’s superior biological status as magical life-creator that is profaned and annihilated by the barbarism of sex crime.
Misled by the naive optimism and “You go, girl!” boosterism of their upbringing, young women do not see the animal eyes glowing at them in the dark. They assume that bared flesh and sexy clothes are just a fashion statement containing no messages that might be misread and twisted by a psychotic. They do not understand the fragility of civilization and the constant nearness of savage nature.
Camille Paglia*

* Uma das minhas autoras favoritas

vou votar PS

‹‹Nas próximas eleições vou votar PS, estou farto deste governo››, disse-me esta manhã o P.F., um simpatizante assumido do PSD.
Pergunto-me: quantas pessoas estarão a pensar desta maneira?

é o amor

o mia patria sì bella e perduta

28 Setembro 2014

Peço

É agora altura de perguntar: Mas, então, o sistema católico de afectação de recursos, que é baseado no pedido e se concretiza na dádiva, é aplicável a comunidades de dimensão maior que a família, por exemplo, a cidade ou o país?

Suponha que  eu  sinto a necessidade de que se construa um Hospital para crianças  na minha cidade.

Na solução liberal, eu arranjo o dinheiro (meu e/ou tomado de empréstimo), construo o Hospital e depois facturo os pais das crianças que a ele acorrem, para me ressarcir do investimento e eventualmente obter um lucro.

Na solução socialista, arranjo um lobby e procuro influenciar o sistema político para que o Estado o construa.

Na solução católica, peço.

Peço? Mas peço a quem?

De preferência ao dono de uma construtora, porque só as construtoras sabem fazer hospitais pediátricos.

Se eu sinto a falta de um Hospital que trate os meus filhos e os meus netos em condições condignas - e não dentro de contentores - , ele também deve sentir a mesma necessidade. Se a necessidade é real (e não uma imaginação minha), há-de haver um dono de construtora que se vai comover com o meu pedido.

E dir-me-á que sim.

Mas a obra custa, digamos, 20 milhões, e ele não pode dispor de 20 milhões para dar o hospital à cidade (comunidade).

Também eu não, caso contrário não andaria a pedir, eu próprio puxaria dos 20 milhões e dava  o Hospital à cidade.

Ele faz a obra por 15 milhões, abdicando do seu lucro e  pagando do seu bolso (ou da sua empresa) uma parte dos custos, e até facilita o pagamento, por exemplo em 5 anos.

E agora?

Se quero ter o Hospital pediátrico na cidade vou ter de arranjar 15 milhões, ao ritmo de 3 milhões ao ano.

Como faço?

Peço.

Vou junto de outras pessoas, de preferência pessoas em posição de autoridade, como pais ou avós de família, empresários,  administradores de empresas, e peço-lhes para contribuírem para o pagamento da prestação anual. Eu, evidentemente, também o farei. Também pedirei a jornalistas e a padres  para que divulguem a obra.

Se a obra fôr realmente uma necessidade (e não uma imaginação minha) eles vão-se deixar comover - como aconteceu comigo -, e contribuem, cada um na medida das suas possibilidades, uns em dinheiro outros em espécie. A uma empresa de tintas peço para que dê as tintas de borla, a outra de cimentos para que  forneça o cimento gratuitamente (e a prestação anual que era de 3 milhões vai descendo, já só é agora de 2,7 milhões). E, por aí adiante, continuo a pedir.

Este Hospital pediátrico será feito. Muito mais rapidamente do que pela via liberal ou socialista.

E o Hospital é pertença da  comunidade, não de qualquer empresário, nem do Estado, ainda que seja o Estado a tutelá-lo e passe a ser o seu proprietário formal.

A obra começa em Janeiro.

É assim a solução católica de afectação dos recursos. Também funciona em comunidades mais vastas do que a família. E, em Portugal, que é um país católico, funciona admirável e maravilhosamente bem.


dádiva, troca e imposição

O sistema católico de afectação de recursos é desencadeado pelo pedido e concretiza-se na dádiva. O sistema liberal concretiza-se na troca ("toma lá isto e dá cá aquilo") e o sistema socialista na imposição ("toma lá isto e agora toma lá os impostos para o fazer pagar).

Existe escrutínio das necessidades no sistema católico, o qual é feito por uma autoridade benevolente, a qual é quem toma também a decisão final - a mãe-de-família, ou o pai, no exemplo do post anterior.

(Aproveito para dizer aqui que este é o único sistema racional e a fundação da sua racionalidade está aqui - na pessoa da  autoridade benevolente. A racionalidade só se encontra na figura da autoridade benevolente - a palavra autoridade significa "fazer crescer" - isto é, numa pessoa que faz crescer por benevolência, altruísmo ou amor. Nunca numa pessoa, ou num conjunto de pessoas, que agem por interesse, como no liberalismo, ou pelo exercício do poder, como no socialismo).

(A propósito: a decisão da mãe no meu post anterior é ou não perfeitamente racional? Ou será que você consegue rebatê-la?)

Pelo contrário, no liberalismo, as necessidades individuais não estão sujeitas a escrutínio. O primeiro irmão do post anterior, se tiver dinheiro, vai comprar o seu sétimo par de sapatos, enquanto o outro, se não o tiver, vai continuar a usar os sapatos rôtos. No socialismo, se os governantes estiverem voltados para fornecer à população  auto-estradas ou centros culturais, os dois irmãos vão ambos ficar sem sapatos novos.

A liberdade de escolha de que fala o liberalismo é frequentemente a liberdade só para o primeiro irmão, que tem dinheiro para satisfazer luxos ou caprichos, e a total ausência dela para o segundo, que não tem dinheiro nem sequer para satisfazer as suas necessidades básicas. Trata-se de uma liberdade exclusiva, como é típico de uma ideologia protestante (a exclusão está sempre presente nela).

Já as "liberdades democráticas" de que fala o socialismo são as liberdades para a classe política se dedicar a fornecer auto-estradas ou centros culturais à população, ao mesmo tempo que ignora que aquilo que a população em primeiro lugar precisa são sapatos. É uma liberdade ainda mais exclusiva,  só para a chamada "classe política" e que deixa sem liberdade nenhuma  a imensa maioria que constitui a população.

No sistema católico, ambos os irmãos têm a liberdade de pedir, mas não ambos a liberdade de obter aquilo que pedem, se os recursos disponíveis não permitem. A liberdade de pedir não exclui ninguém - está acessível a todos. Já a liberdade para dar, em cada momento, não é para todos, porque traz consigo a responsabilidade de obter os recursos necessários à dádiva e, por isso,  só pode pertencer a uma pessoa responsável. Porém,  a prazo, também esta liberdade é não-exclusiva, porque os filhos que hoje pedem sapatos à mãe são os mesmo que amanhã serão pais e que receberão idênticos pedidos da parte dos seus respectivos filhos.

Não tem nome

Exemplifico o significado do meu post anterior com o problema chamado da afectação dos recursos.

Este é o problema central da chamada Ciência Económica, e existe mesmo uma forte corrente de economistas, na linha de Lionel Robbins, que define esta ciência em torno deste problema: como afectar recursos  escassos entre fins alternativos.

É também em torno deste problema que se consumiram as energias dos melhores economistas do último século, e se dividiram os Prémios Nobel, com uns a afirmarem que o mercado é a instituição ou o processo mais adequado para resolver esse problema enquanto outros defendem que a solução está no Estado.

A atribuição conjunta do Prémio Nobel de 1974 a Hayek e a Myrdal deu razão às duas partes, embora, mais tarde, a solução liberal tenha sido mais vezes premiada (v.g., Friedman, Becker) do que a socialista (v.g., Solow, Stiglitz).

É a discussão que eu tenho designado por "Mete Estado, Tira Estado" e que, como se sabe, nunca chega a conclusão nenhuma e só cria inimigos. (O economista Gunnar Myrdal, que recebeu o Prémio Nobel em 1974, ameaçou renunciar a ele se o Prémio viesse algum dia a ser atribuído a Friedman - o que viria a acontecer, e logo no ano seguinte).

Que nem uma nem outras das soluções são verdadeiras - embora a do liberalismo seja menos falsa do que a do socialismo - está aí à vista. O mercado de habitação em Portugal é bastante privado, e no entanto gerou uma crise enorme de sobreprodução - não faltam por aí casas à venda e sem comprador. Por outro lado, o sector das auto-estradas pertence ao Estado. Também ocorreu uma crise de sobreprodução, não faltam por aí auto-estradas vazias.

O liberalismo entrega a identificação das necessidades ao indivíduo, isolado da comunidade. E o desejo ou o incentivo para as produzir também a um indivíduo - o empresário - que depois responde a ele frequentemente através de uma empresa. E depois acredita que este segundo conjunto de indivíduos que não se conhecem entre si nem aos outros, vai produzir um número de casas que é exactamente igual ao número de casas que o primeiro conjunto de indivíduos - que também não se conhecem entre si e aos outros - desejava. O preço, variando para cima e para baixo, estabelece a igualdade.

É preciso muita sorte para que isto aconteça, uma "mão invisível" como lhe chamou Adam Smith, uma verdadeira mão de Deus.

Do lado socialista as coisas são ainda piores. Pois se os decisores políticos não conhecem as necessidades dos milhões de cidadãos que compõem o país, como é que eles vão acertar no número adequado de auto-estradas, ou de serviços de saúde, ou de batatas se decidirem também meter-se neste negócio?

Só se forem deuses (que é aquilo que frequentemente eles acreditam que são).

Imagine agora uma família com cinco filhos, um dos quais gosta muito de sapatos - tem seis pares na prateleira -,   recebeu um par deles novo há apenas dois meses, enquanto um outro mais dado às coisas do intelecto e menos vaidoso, há cinco anos que não tem um par de sapatos novo, e aqueles que usa já ameçam ficar rôtos.

Ambos os filhos pedem um par de sapatos novos à mãe (ou ao pai), mas os recursos são escassos e por agora só há dinheiro para comprar um par de sapatos, e não dois.

A quem é que a mãe vai comprar os sapatos novos?

Eis o sistema católico de afectação de recursos.

Primeiro, as necessidades individuais são escrutinadas por quem as conhece. Segundo, considerações de justiça são introduzidas na decisão. Terceiro, a decisão é tomada por uma autoridade benevolente.

Neste sistema de afectação de recursos estão presentes ao mesmo tempo questões económicas (as necessidades individuais e os recursos disponíveis) , de justiça (quem merece?) e de poder ou autoridade (a decisão final), que nas ideologias protestantes aparecem separadas nas esferas autónomas da Economia, do Direito e da Política.

Haverá alguém capaz de contestar esta decisão da mãe? (supondo todos os outros factores iguais, v.g., que os filhos são igualmente bem-comportados, estudiosos, etc.).

Não há. É uma decisão irrebatível, perfeita e completamente racional.

Como é que se chama este sistema de afectação de recursos, que é praticado diariamente por mihões de pais e mães, mas que nunca é considerado na  Ciência Económica?

Não tem nome. E não tem nome porque ninguém lhe liga ou porque ainda ninguém reparou nele. E também não é minha preocupação baptizar aqui a criança antes de a fazer nascer.

Questão mais importante é a de saber se este sistema de afectação de recursos é generalizável e realizável em outras comunidades mais vastas do que a família, como a aldeia, o bairro, o município, a nação ou até o mundo.

Ciência da Governação

Nós temos andado a viver do debate entre duas ideologias que são falsas - o liberalismo e  o socialismo, a segunda mais falsa ainda do que a primeira. Ambas são ofensivas da nossa cultura católica - a segunda também mais do que a primeira -, que nasceram dela e contra ela.

A instituição que mais contribui para propagar e difundir estas ideologias (presentemente em Portugal, mais a segunda do que a primeira) são as universidades, e especialmente as Faculdades de Direito e de Economia.

A própria organização do ensino em ciências sociais e humanas, incluindo disciplinas como o Direito, a Economia, a Política e a Sociologia é protestante porque divide o saber necessário à governação de uma sociedade (mais certeiramente, uma comunidade) em compartimentos separados.

Dividir, separar, partir, excluir são características típicas da cultura protestante. Católicas são as características opostas: juntar, unir, compor, incluir.

A fraqueza intelectual em que o catolicismo se encontra face às ideologias saídas do luteranismo (socialismo) e do calvinismo (liberalismo) reside em o catolicismo nunca ter articulado uma  ciência social (ou várias) que servisse de contraponto às várias ciências sociais do protestantismo (Direito, Economia, Política, etc.).

A chamada Doutrina Social da Igreja foi a este respeito um grande falhanço. Desde a sua fundação com a Encíclica Rerum Novarum  do Papa Leão XIII, publicada em 1891, a Doutrina Social da Igreja foi sempre, e em primeiro lugar, uma arbitragem entre liberalismo e socialismo (isto é, entre as duas ideologias principais com génese no protestantismo) e nunca um discussão  racional e coerente acerca da organização de uma sociedade baseada na doutrina católica.

É esta ciência social que é preciso construir.

E será uma ou serão várias as ciências sociais do catolicismo, como várias são as do protestantismo (Direito, Economia, Política, etc.)?

Será uma apenas, porque, ao contrário do protestantismo, o catolicismo não separa - integra. A justiça não vive separada da economia e esta da política. Vivem todas em conjunto e interligadas.

Poderia chamar-se Ciência da Governação.

26 Setembro 2014

Diferença e relação

Retomo agora o tema da personalidade como característica distintiva entre um povo e a massa.

Uma família aqui centrada numa mulher, outra na vizinhança e ainda outra mais além. Os filhos de cada família, em termos espirituais ou de personalidade, são muito diferentes uns dos outros, e entre famílias as diferenças são ainda maiores. É esta teia de famílias, em que as relações entre elas são ainda, e principalmente, intermediadas pelas mulheres, que forma um povo.

Retire-se a mulher do centro da família, ou torne-se a mulher igual ao homem. O que vai acontecer a cada família, e às relações entre famílias?

Os filhos tornam-se todos mais iguais, esbatendo-se  as diferenças de personalidade e aumentando o distanciamento entre eles, as famílias também ficam mais iguais umas às outras, e as relações entre famílias enfraquecem. Agora, já não existe um povo. Agora, existe uma massa.

O que é que existe no povo, mas que não existe na massa?

Diferença e relação - características que são, em primeiro lugar, femininas.

(As mulheres são muito mais diferentes entre si do que os homens, e também muito mais relacionais. Por que é que é assim? Porque Deus assim quis. A resposta ao último porquê é sempre a mesma e uma só - Deus)

E na massa?

Igualdade e isolamento - características que são, em primeiro, masculinas.

(Os países nórdicos e luteranos são os países mais igualitários da cultura Ocidental e também aqueles onde as pessoas vivem mais isoladas umas das outras -  mais de 50% da população vive só. Em termos de população filosófica, o exemplo acabado do loner era, evidentemente, o Kant - um luterano).

terrorismo islâmico

Eu gostaria agora, em relação com os argumentos que tenho vindo a expor, de comentar o tema do terrorismo islâmico, como aquele que é protagonizado actualmente pelo chamado Estado Islâmico.

Primeiro, para dizer que a religião islâmica contempla o uso da violência como instrumento de conversão de almas. Não se trata de dizer que a religião islâmica é violenta, mas de afirmar que ela abre a porta à violência para a propagação da sua fé.

Segundo, outra uma constatação. O terrorismo islâmico tem como alvos principais os países da América do Norte (especialmente os EUA - o 11 de Setembro é o acto paradigmático desse terrorismo), que são países protestantes, e não os da América do Sul, que são católicos. Na Europa, passa-se o mesmo, o alvo são os países do Norte (especialmente a Inglaterra), que também são de influência protestante, mais do que os do sul que são católicos ou ortodoxos (um ataque terrorista em Madrid há alguns anos parece ser a excepção que confirma a regra). Em suma, o terrorismo islâmico tem como alvo sobretudo os países de influência calvinista (que são os mais capitalistas e de influência anglo-saxónica), talvez porque o calvinismo é a mais internacionalista das seitas protestantes e, portanto, também a mais ameaçadora da cultura islâmica. É o que está a acontecer agora em que os alvos são sobretudo jornalistas destes países.

E o que é que há de igual entre o cristianismo protestante e o islamismo?

Bastante, e decisivamente importante. É por serem muito iguais, em certos aspectos decisivos, que eles se detestam.

Em ambos os casos, são religiões ou culturas que se organizam em forma de seitas. No caso do islamismo, os sunitas e os xiitas são as maiores e mais conhecidas, mas existem muitas outras menores, algumas radicais e violentas. Ao contrário do catolicismo que é comunitário, o protestantismo e o islamismo são sectários.

Ora, a seita exclui e, por isso, causa ressentimentos, aversões e, no fim, ódios. Se a isto juntarmos que no meio deste conflito sectário, se encontram frequentemente os judeus - a mais sectária de todas as religiões - então o potencial para o conflito, que deixa o mundo católico a olhar, é enorme.

Nem o protestantismo nem o islamismo formam uma Igreja - uma palavra que significa comunidade -, ao contrário do que sucede com o catolicismo. No centro desta comunidade está uma Mulher (Maria) - a "mãe de família" - sem a qual não haveria comunidade (Igreja) nenhuma. Ao contrário do catolicismo, que é, por isso, uma cultura feminina,  o protestantismo e o islamismo são ambos culturas masculinas - culturas que dão mais importância ao homem do que à mulher, e por isso são também culturas mais agressivas.

No catolicismo existem correntes, mas não seitas, e correntes são,  por exemplo o Opus Dei e os Jesuítas. As diferenças entre estas duas correntes do catolicismo - teológicas, filosóficas, políticas - são consideráveis, mas ninguém vê os membros de uma e outra destas correntes em público a insultarem-se e muito menos a agredirem-se, embora, pelo menos em certas ocasiões do passado, vontade não lhes faltasse. (Os principais preconceitos, senão mesmo calúnias,  existentes contra o Opus Dei, e que ainda hoje perduram, foram postos a circular pelos Jesuítas).

E porquê, porque é que os Jesuítas e o Opus Dei não andam por aí a discutirem e baterem-se?

Porque o Papa não deixa.

E esta é a última e decisiva semelhança que pretendo salientar entre o protestantismo e o islamismo. Em ambos os casos, não têm uma figura de unidade - um Papa - uma figura de homem cuja principal função é a de guardião da comunidade (Igreja) e, em primeiro lugar, de protector da Mulher-de-Família (Maria, a  figura da Igreja) que está no centro dessa comunidade.

Seita contra seita dá oposição e, frequentemente violência.

Só a religião católica parece ter condições para assegurar a paz mundial. Porque é uma religião ou cultura comunitária.

coitadas das criancinhas

Nunca chamaria Luzia a uma filha minha, com todo o respeito por todas as Luzias do mundo. E a razão é muito simples, prefiro os nomes que podem ser pronunciados em diversas línguas, como Sara ou Clara.
Nos dias que correm é muito provável que as crianças migrem pelo globo e um nome simples é um bom cartão de visita.
Agora metam o complicómetro e tranformem Luzia em Lhuzie (ver notícia aqui). Os bifes nunca conseguirão pronunciar o "lh" e portanto a Lhuzie ficará conhecida por Iuzy, Juzy ou até Juicy.
O avô tinha andado melhor se tivesse reservado o nome para uma pet, ou lhet ou lhiet ou lá como se diz em mirandêz. E se a imaginação fosse falha ou fiala ou falala, há sempre o simplesemente:
MARIA
Tão bonito em todas as línguas (excepto em basco e finlandês).
:-)

um monopólio do Estado

À falta de reconhecimento social, e de quem se preocupe com ela e governe para ela (só um regime político comunitário o fará, nunca o regime sectário de democracia partidária), a figura da mãe de família tornou-se uma figura em vias de extinção.

E, então, Aqui d'El Rei, que não nascem crianças no país.

Como é que haviam de nascer, se ninguém liga ou considera socialmente a pessoa principal que os faz nascer?

Para resolver o problema forma-se uma comissão.

A originalidade desta comissão vai consistir em imitar aquilo que os outros países - cujo regime político e social nós imitamos - já praticam há décadas.

Trata-se de criar incentivos, sobretudo de natureza financeira, para que os casais tenham filhos.

É uma prostituição do homem, e mais ainda da mulher.

E a prostituição acabará por ser um monopólio do Estado.

E que filhos sairão daqui - filhos em que o Estado passou a ocupar o lugar de Deus?

24 Setembro 2014

É a personalidade

Foi o Papa Pio XII na sua célebre alocução de Natal de 1944 que introduziu a distinção entre povo e massa. Foi um primeiro e decisivo passo, mas que eu sempre considerei insuficiente.

Estou agora em condições de avançar.

O que é que distingue verdadeiramente o povo da massa?

Os membros da massa são todos iguais ao passo que os membros do povo são todos diferentes - têm personalidade.

(Por mera coincidência, o post anterior do Joaquim ilustra o que é uma sociedade de massas)

É a personalidade, a maneira única e distintiva de olhar a vida e a viver que distingue o povo da massa. No povo, cada um é uma pessoa - e as pessoas são todas diferentes, ao passo que na massa cada um é um mero indivíduo - e os indivíduos são todos iguais.

(A palavra pessoa tem a sua origem mais remota no grego, significando personagem de uma peça de teatro. Neste sentido, num povo cada um anda na vida a representar um papel que lhe foi atribuído por Deus. Na massa, cada indivíduo não tem papel a representar na vida, não existe um sentido na sua vida).

E quem cria a personalidade das pessoas que constituem um povo e  que, estando ausente ou menos presente, produz os indivíduos todos iguais que formam a massa?

A resposta está dada nos meus dois posts anteriores.

É  a mãe-de-família. É ela principalmente que, sendo o centro da comunidade e cuidando diferenciadamente de todos os membros da família - de cada um dos filhos, do marido, dela própria, dos sogros, dos seus próprios pais e ainda dos tios e das tias idosas - os faz sentir únicos e diferentes de todos os outros.

Retire-se à mulher o lugar central na família -  tornando-a igual ao homem, levando-a a casar-se mais tarde, encorajando o divórcio, levando-a a atribuir maior importância à profissão do que à família, encorajando-a a não ter filhos ou a ter menos filhos - e aquilo que vai acontecer é que, em lugar de produzir pessoas, ela vai produzir meros indivíduos, e onde estava um povo passa a existir uma massa (às vezes chamada uma vasta classe média).

É curioso que o sistema de democracia partidária (que tem feito tudo isto em Portugal nas últimas décadas), e que alegadamente representa o povo, aquilo que na realidade faz é acabar com o povo.

E com o valor da vida humana porque uma pessoa - com a sua personalidade - é única e irreplicável, ao passo que um mero indivíduo é igual a todos os outros (que falta faz cá ele, se ainda ficam cá milhares de milhões iguais a ele?).

A revolta protestante, que está na origem da democracia partidária e da modernidade, é em primeiro lugar uma revolta contra a mãe-de-família (teologicamente, contra a Santa Madre Igreja). Que sejam as mães-de-família que hoje em Portugal são as primeiras a sofrer-lhe as consequências não deve surpreender ninguém.


os ricos consomem essencialmente o mesmo que os pobres

O que é fabuloso acerca deste país é que a América iniciou a tradição dos consumidores ricos comprarem essencialmente as mesmas coisas que os mais pobres. Podes estar a ver televisão e ver uma Coca-Cola e sabes que o Presidente bebe Coca-Cola, a Liz Taylor bebe Coca-Cola e tu pensas: eu também posso beber uma Coca-Cola. Uma Coca-Cola é uma Coca-Cola e nenhuma fortuna pode comprar uma Coca-Cola melhor do que a que o vagabundo da esquina está a beber. Todas as Coca-Colas são iguais e todas são boas. A Liz Taylor sabe isso, o Presidente sabe isso, o vagabundo sabe isso, e tu também sabes isso.

Andy Warhol

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Governo de Portugal aumenta SMN para 505,00 € e dá um desconto às empresas com trabalhadores a receberem o salário mínimo

Central patronal francesa (Medef) propõe excepções ao SMN para criar emprego

a verdadeira notícia

Governo instiga deliberamente o aumento da miséria

todos os caminhos são bons

"A Física é uma ciência muito séria, com a sua área própria de investigação. Não lhe cabe discutir questões teológicas", diz Olga Pombo, coordenadora do Centro de Filosofia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. "Agora, o homem, o cidadão que se chama Stephen Hawking, pode ser crente ou ateu. São coisas que tem inteira liberdade para ser, pois relativamente a esse problema da existência de Deus, há séculos que a Humanidade anda a pensar nisso e não chegou a nenhuma conclusão.

Expresso

Comentário: Qual é a origem do Universo? É evidente que esta questão pode e deve ser investigada e, se possível, esclarecida pela física. Assim sendo, a física pode entrar pela metafísica e discutir questões de natureza ontológica e teológica.
É surpreendente que uma filósofa e "coordenadora de um Centro de Filosofia" pretenda limitar o âmbito de uma disciplina científica como a física. Como qualquer catequista lhe poderia explicar: todos os caminhos são bons para chegar a Deus.

no meu tempo de vida

A civilização árabe colapsou. E não vai recuperar no meu tempo de vida.

PS: Muitas vezes penso também que Portugal não irá recuperar no meu tempo de vida. Os fenómenos sociais levam décadas a evoluir e a vida é demasiado curta para vermos mudanças significativas.

23 Setembro 2014

comece por aí

E como é que o governante de um regime político comunitário, e  que visa o bem-comum, ganha o sentimento de saber se a sua medida de governação agrada ou não às mulheres e, em primeiro lugar, às mães-de-família?

Ele não tem uma em casa? Pois comece por aí.

Depois, se quiser alargar a sua amostra, pergunte à sua própria mãe, à tia Benilde, e de uma maneira geral às suas familiares e amigas  (de preferência mulheres  acima dos 40 anos, caso em que a condição de terem filhos pode ser relaxada).

Vai ver que as respostas (sim ou não), vão ser consensuais (coisa rara na cultura católica, e especialmente entre mulheres)

barbárie

A que sabe a carne humana?

Deixem-me traduzir a notícia:

É um pensamento macabro, mas um ser humano carnívoro não pode deixar de pensar, de vez em quando, no sabor da carne humana.
...
Como o canibalismo é ilegal... temos de recorrer a relatos de assassinos... para responder a esta pergunta.
...
E é com base nessa informação que dois cozinheiros de Londres se propõem confecionar hambúrgueres que sabem a carne humana.

Comentário: Como é que uma sociedade que vende hambúrgueres com sabor a carne humana tem autoridade moral para condenar, por exemplo, as decapitações do EI. Não estaremos a falar, em ambos os casos, de um regresso à barbárie?

nas mães-de-família

Num regime político sectário, como é o da democracia partidária, em que pessoas pensa prioritariamente o governante antes de tomar uma medida de governação?

Nos políticos como ele (oposição, parceiros de coligação, presidente da república, juízes do tribunal constitucional,  deputados, sindicatos) e nos jornalistas.

E num regime político comunitário, aquele que visa o bem-comum, em que pessoas pensa prioritariamente o governante antes de tomar uma medida de governação?

Nas mulheres. E acima de todas, nas mães de família.

A mãe de família é o centro da comunidade, é em torno dela que giram os filhos, o marido, às vezes os seus sogros e pais, e ainda algum  tio velho que já não tem família próxima. Ninguém, como a mãe de família, tem um sentido tão apurado do que é bom para a comunidade, do que é o bem-comum.

"As mães-de-família do meu país vão aprovar esta medida?"

Se a resposta fôr sim, o governante pode estar razoavelmente certo que a sua medida serve o bem- comum.

22 Setembro 2014

os irmãos católicos

A cultura católica integra tudo e desde a origem que a cultura católica está sedenta de integrar o protestantismo, sobretudo naquilo que ele tem de bom - e são muitas as coisas que ele tem de bom.

O que foi, afinal, que o protestantismo trouxe de novo e que o catolicismo procura integrar (imitar), às vezes sem o conseguir?

Respondo com base na analogia que tenho vindo a seguir, envolvendo o grupo de irmãos separados da família e em conflito com ela - os cidadãos dos países de cultura protestante - e a família católica, composta por Pai (Papa), Mãe (Igreja) e os irmãos que ficaram com ela (os cidadãos dos países de cultura católica).

O que é que os irmãos protestantes trouxeram de novo?

A reforma da família católica porque muitas das suas críticas eram justas.

Um sentimento de igualdade entre irmãos, ao passo que na família católica existe hierarquia, estando o Pai e a Mãe acima.

Um sentimento de independência pessoal (self-reliance) próprio de quem vive separado dos pais e sem a protecção deles, por oposição à dependência dos irmãos católicos que vivem sob a protecção da família.

Uma atitude mais enérgica ou agressiva e de assumpção de riscos perante a vida, que é própria de jovens desprotegidos, por oposição ao rame-rame dos irmãos católicos que vivem no conforto e na segurança que a família lhes dá.

Uma cultura de auto-governo (self-government) própria de quem não tem um Pai e uma Mãe para os governar, por oposição aos irmãos católicos que são governados pelos Pais e que, na ausência deles,  desatam à zaragata uns com os outros e não conseguem governar-se.

Uma religiosidade que, embora não tendo o Pai e a Mãe em casa, é em muitos aspectos mais verdadeira e genuína, praticada diariamente e nos pequenos actos da vida corrente, do que a dos irmãos católicos que só se lembram do Pai e da Mãe quando estão aflitos.

Uma atitude mais racional perante os problemas da vida, que eles têm de resolver por si próprios, e que são resolvidos para os irmãos católicos pelo amor e a experiência do Pai e da Mãe.

O gosto e o empenho pelo estudo, ao passo que os irmãos católicos têm em casa os Pais para os ensinar.

Uma atitude de responsabilidade pessoal, que os faz pagar pelos seus erros, ao passo que os irmãos católicos podem cometer todas as irresponsabilidades porque têm os Pais por trás a servir de rede.

Um gosto pela acção, que é próprio de jovens não-tutelados, por oposição aos irmãos católicos, que falam muito e agem pouco, não vão os Pais castigá-los.

Uma atitude de seriedade e de apego ao trabalho, a sua única fonte de sobrevivência, ao contrário dos irmãos católicos que podem contar com a herança da família.

Uma certa atitude de sobranceria e de desprezo em relação aos irmãos católicos que, aos seus olhos, são verdadeiros meninos-mimados (vivem bem  no conforto e na segurança da família, trabalham pouco, pedincham muito e estão-se sempre a queixar)

uma loja de doces



“É brutal lá fora. Hoje em dia, as raparigas são tão atraentes e sexys, e mostram-se de uma forma tão óbvia, que os homens sentem-se numa loja de doces. (…) Sinto que esta obsessão em ser-se ‘hot’ é mais dominante do que alguma vez foi na minha juventude. Já não é [a ideia de] ‘Eu quero ser encantadora, mágica, romântica e bonita’. É ‘ Eu quero ser sexy”. Noutras palavras: ‘Eu quero que os homens me queiram…’.

Observador

PS: Bisset descobre "as mulas".

lamuriam-se

... women take on too much so of course they whinge, because they’re absolutely exhausted. That’s our mistake, always wanting to be perfect.

... as mulheres assumem tantas responsabilidades que claro que se lamuriam, porque estão completamente exaustas. É o nosso erro, queremos ser sempre perfeitas.

Jacqueline Bisset

Não fazendo nada

Às últimas eleições (europeias) concorreram 16 partidos. O ex-bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho e Pinto, anunciou a criação de um novo partido e as primárias no PS ameaçam dividi-lo em dois.

A multiplicação e a pulverização dos partidos é um sinal da crise da democracia partidária e, no passado, antecedeu o seu colapso (a ascensão de Hitler ou de Salazar ao poder foi precedida deste fenómeno).

Nas montanhas, em redor da planície, onde começou por haver um só castelo donde se disparava sobre quem estava na planície, agora passaram a existir muitos castelos e o tiroteio passou a ser entre castelos.

No final, os únicos sobreviventes vão ser os habitantes da planície.

Como é que eles ganharam?

Não fazendo nada.

Rothbard sobre Catolicismo

Um texto escrito com 31 anos, e um tema que viria abordar novamente,

Memorandum on Catholicism, Protestantism, and Capitalism (1957) [pdf]
By Murray N. Rothbard

Ler o pequeno texto (pdf) para não formar ideias incompletas, ficam aqui duas citações:

" (...)  The brunt of this important new thesis is this: rather than saying that Hume and Smith developed economic theory almost de novo, economics had actually been developed, slowly but surely, over the centuries by the Scholastics and by Italian and French Catholics influenced by the Scholastics; that their economics was generally individualist methodologically, and stressed utility theory, consumers’ sovereignty and market pricing, and that Smith really set back economic thought by injecting the purely British doctrine of the labor theory of value, thus throwing economics off the sound track for a hundred years. Here I might add that the labor theory of value has had many bad consequences. It, of course, paved the way, quite logically, for Marx. Secondly, its emphasis on “costs determining prices” has encouraged the view that businessmen push up prices or that unions push up prices, rather than governmental inflation of the money supply. Third, its emphasis on “objective, inherent value” in goods led to “scientistic” attempts to measure values, tostabilize them by government manipulation, etc.

Now, Kauder’s interesting thesis is in two parts: one, that the above was the historical course of events in economic thought; and two, that the reason for this forgetting of utility theory and replacement by a labor-cost theory was influence by the Protestant, as opposed to the Catholic spirit. (...)

(...) We may sum up the Case for Catholicism as follows:

(1) Smith’s laissez-faire and natural law views descended from the late Scholastics, and from the Catholic Physiocrats;
(2) the Catholics had developed marginal utility, subjective value economics, and the idea that the just price was the market price, while the British Protestants grafted on a dangerous and ultimately highly statist labor theory of value, influenced by Calvinism;
(3) some of the most “dogmatic” laissez-faire theorists have been Catholics: from the Physiocrats to Bastiat;
(4) capitalism began in the Catholic Italian cities of the 14th century;
(5) Natural rights and other rationalist views descended from the Scholastics.

I would also recommend, for a chilling example of Protestant-Calvinist influence leading to a philosophy of altruist socialism, reading Melvin Richter, “T. H. Green and His Audience: Liberalism as a Surrogate Faith” Review of Politics (October, 1956).

Although tangential to this particular memo, I would also highly recommend Erich von Kuehnelt-Leddihn, Liberty and Property (Caldwell, Id., 1952), the main gist of which is the thesis that Catholicism makes for a libertarian spirit (albeit “anti-democratic” while Protestantism makes for socialism, totalitarianism, and a collectivist spirit. One example is Kuehnelt-Leddihn’s assertion that the Catholic belief in reason and truth tend toward “extremism” and “radicalism,” while Protestant emphasis on intuition leads to belief in compromise, Gallup-polling, etc. [words missing].

Professor von Mises’ view on the Max Weber thesis should be mentioned here: namely, that Weber reversed the true causal pattern, i.e. that capitalism came in first, and that the Calvinists adapted their teachings to the growing influence of the bourgeoisie – rather than the other way round.

I am not prepared to say that the Protestant case should be thrown overboard completely and Catholic view adopted wholly. But it seems evident that the story is far more complex than the standard view believes. Certainly, the Revisionists supply an excellent corrective.4 On the specific questions of utility theory and Adam Smith, I can enter an endorsement of the revisionists. I have felt for a long time that Adam Smith has been considerably overrated as a laissez-faire stalwart."

qual é a origem do socialismo?

Para compreendermos a origem do socialismo temos de perceber que o socialismo assenta na violação dos direitos dos produtores a favor de determinados grupos de consumidores. Característica que obviamente não é exclusiva do socialismo.
Ora para perpetrar esta violação é necessário recorrer à força porque ninguém cede a bem o que produz. É necessário ameaçar, coagir, aprisionar e até, em último caso, matar.
Em Portugal o Estado usa o seu monopólio de violência para extorquir os produtores, por vezes de mais de 80% dos seus rendimentos, ameaçando com penhoras, nacionalizações e cadeia. Depois redistribui o pecúlio assim obtido pelos seus apaniguados, como os bandos de ladrões distribuem o produto dos saques.
Quem vir aqui parecenças com a atuação de gangues armados está simplesmente a usar a razão e a lógica.
Ontem a I. interrogava-se sobre a origem das "tendências socialistas". Ouvi-a durante algum tempo e depois disse-lhe:
- Olha, usar a força para roubar tem centenas de milhares de anos e até os animais o fazem. Redistribuir pelos elementos do gangue é obrigatório para manter o poder. A origem do socialismo portanto, na minha opinião, reside na violência.

21 Setembro 2014

ouviu-me em silêncio

Uma cultura católica é uma cultura de tudo. Há de tudo, há sempre um caminho para se chegar a um certo fim. É preciso é procurá-lo. Acabará por se encontrar com certeza.

Foi assim que desde Janeiro eu me dediquei a procurar esse caminho, um caminho que libertasse Portugal deste regime político que nos sufoca e nos envergonha, que destruiu as instituições - a justiça, a economia, a protecção da velhice, a própria família -, e que não tem futuro nenhum. E um caminho que fosse pacífico, que tivesse o consentimento dos portugueses.

No final de Junho, depois de muito silêncio, telefonei ao Joaquim:

 "Joaquim, estou a pensar em candidatar-me a Presidente da República no próximo ano.
   O meu programa eleitoral é simples e que anunciarei claramente a todos os portugueses:
   1. Só ocuparei o cargo durante três anos (e não pelos cinco do mandato) e sairei para nunca mais  ocupar nenhuma função pública.
   2. Declararei imediatamente o estado de emergência económica e financeira do país e suspenderei a Constituição e os partidos políticos, governando com plenos poderes.
   3. O meu programa de governo só tem um objectivo - o bem comum (não me perguntem por medidas particulares porque essas serão tomadas conforme as circunstâncias da altura e obedecendo a este critério).
   4. Nesses três anos, restauro as instituições e o crescimento económico e elaboro uma nova Constituição conforme às tradições portuguesas (que incluirá partidos políticos, embora com outro nome e outro arranjo organizacional que os fará concorrer para o bem comum). Esta Constituição será sujeita a referendo.
   5. A nova Constituição prevê a restauração da Monarquia, uma das maiores tradições portuguesas. Ao fim de três anos, renuncio ao cargo de Presidente da República e o D. Duarte Pio de Bragança reassume o Trono de Portugal. Estabeleço com ele um acordo verbal de que só reinará durante três anos, ao fim dos quais abdica a favor do seu filho Afonso. Será o "começar de novo" para Portugal".

O Joaquim ouviu-me em silêncio.

Se perder?

Não há problema nenhum. Quem dá o que tem...

Uma colaboradora minha, a quem antes tinha exposto a mesma ideia, respondeu-me: "O Professor ainda leva mas é um tiro na cabeça..."

E eu fiquei a pensar: E qual seria o problema?

a interpretar a Bíblia

Vc descreve uma cultura, a católica, por comparação com a protestante. Na sua opinião, que eu tambem partilho, a cultura católica terá sido abduzida ou ultrapassada pela esquerda pela protestante que teremos importado algures no tempo.
.
Ora, isso parece-me ser verdade. No entanto, quais são os motivos pelos quais isso se verificou?

Rb


"A Tradição contém em si as raízes da sua própria destruição". Assim, ou de forma algo semelhante, esta é uma frase que li há poucos anos ao Papa Bento XVI, num dos seus muitos livros de teologia, e que me ficou na memória.

Traz logo ao espírito a revolta protestante - o protestantismo nasceu no seio da Igreja Católica.

E também essa curiosidade e admiração que os portugueses têm pelo "estrangeiro", como, aliás, todos os países de cultura católica. Não é uma admiração por qualquer país estrangeiro, a Índia, a Guiné Equatorial, ou mesmo o Japão. É pela Alemanha, pela Inglaterra, pelos países nórdicos, pela Austrália, pelos EUA ou o Canadá. É uma admiração pelos países onde o protestantismo triunfou.

E porquê?

Porque sendo o catolicismo uma cultura de tudo, passando a haver protestantismo (ou "modernidade") no mundo, os países católicos também têm de o ter. Daí a curiosidade, a admiração - e, no fim, a imitação.

Alexis de Tocqueville viveu por alturas da Revolução Francesa. Foi aí que se definiu a Esquerda e a Direita. Tocqueville era um homem de Direita, um católico convicto e, como todo o católico convicto, dado a estabelecer diferenças - von Mises diria mais tarde dele que era um "aristocrata católico". A Esquerda, na altura, eram os liberais, pois o socialismo ainda não existia e o liberalismo, com a sua origem calvinista e anti-católica e muita influência escocesa (David Hume, Adam Smith, etc.), estava sobretudo, e na sua forma mais pura,  representado num país acabado de nascer - os EUA.

Tocqueville era juiz, tinha na altura cerca de 30 anos, e estudava-se uma reforma do sistema prisional em França. Em que país poderia ele procurar melhor inspiração do que nos EUA, um país jovem e anti-católico? As originalidades deviam estar todas lá. E assim partiu para os EUA, onde passou dois anos. E, curioso e admirativo, sedento de novidade,  como todo o bom católico, em breve se interessou por todos os aspectos do modo de viver e da cultura americana, e não apenas pelo seu sistema prisional.

Daí resultou o seu célebre "A Democracia na América", um livro encantador em vários aspectos, pela sua imparcialidade, pela sua honestidade límpida, e pela sua simpatia em relação a muitos aspectos da cultura americana - uma cultura, é preciso não esquecer, que, sendo calvinista na origem, era profundamente anti-católica.

No regresso, nos muitos anos que ainda viveu, em tudo aquilo que viria a dizer e a escrever depois, Tocqueville já não era o mesmo católico que partira para os EUA. Havia agora muito de protestantismo nele. Na realidade, o próprio livro que o imortalizou é uma declaração de imensa simpatia pela cultura protestante americana.

(Num comentário em baixo, o D. Costa, depois de mencionar uma  pessoa das suas relações,  que ele considera o "católico perfeito", refere-se a mim como um "católico ambíguo". E tem razão. Estou cheio de protestantismo. A minha formação (economista) é protestante;  vivi oito anos num país de influência protestante, numa idade muito influenciável, e gostei de muitas coisas que lá vi, e que gostaria de ver replicadas no meu país - e esta última é precisamente a minha costela de origem, a católica. É que um protestante nunca está curioso pela que se passa fora do seu país. Contenta-se com o que há no seu país, e que considera o melhor. Eu, pelo contrário, sou assim uma espécie de Tocqueville à portuguesa, sim, porque se existem Tocquevilles no mundo, nós não havíamos de ter um?)

A cultura católica integra tudo e desde a origem que a cultura católica está sedenta de integrar o protestantismo, sobretudo naquilo que ele tem de bom - e são muitas as coisas que ele tem de bom.

Mas essa integração tem de ser feita com delicadeza, equilíbrio e parcimónia, não pode ser feita à la minuta como nós temos feito nos últimos quarenta anos, e como já tentámos fazer no passado (a partir de 1820).

Já imaginou  um  matarruano a interpretar a Bíblia?

(Esta frase foi-me transmitida pelo Joaquim, mas não me sinto à vontade para mencionar a  sua autoria, e revela o problema fundamental da cultura protestante ou de quem a pretende imitar: já imaginou um matarruano a interpretar a Bíblia?)

Um Rei

Uma das observações do PA mais excelentes é em Portugal (país católico) encontrarmos de tudo. Do bom, do excelente, do mau, do terrível, do razoável e do medíocre.
D. Costa


É verdade. Esta constatação, que eu repito frequentemente ("Portugal é um país de tudo", "A cultura católica é uma cultura de tudo"), na tentativa de lhe encontrar o significado, constitui, aos meus olhos, o maior mistério da nossa cultura e eu penso estar nela a base de uma teorização consequente, do ponto de vista político, social e económico, da própria cultura católica.

A cultura protestante exclui - exclui o mal ou aquilo que ela julga ser o mal. O pensamento protestante está sempre assente no mal (na "crítica"), com o objectivo de o expurgar e ficar apenas com o bem. O seu pensamento funciona sempre por uma espécie de diálise, e daí o seu carácter dialógico. A cultura protestante acredita que é possível separar o bem do mal.

Pelo contrário, o pensamento católico considera que o mal e o bem vivem entrelaçados, que o diabo é ele próprio uma criatura de Deus, e que procurar excluir o mal implica excluir o bem - um bem às vezes ainda maior. Por isso a cultura católica convive com o mal e por isso pensa por analogia (em que o bem serve de referência e encorajando o mal a converter-se em bem).

Se o pensamento protestante está primariamente concentrado no mal, através da crítica, o pensamento católico está prioritariamente concentrado no bem, como padrão.

Um exemplo. Aquilo que passa habitualmente como opinião pública (uma instituição protestante) em Portugal  e aparece publicado nos media está sempre concentrado no mal: corrupções, tráfico de influências, lutas partidárias, défices do Estado, erros na colocação dos professores, falhas do Citius na justiça, etc.

Ora esta concentração no mal não é representativa da cultura portuguesa, que está prioritariamente concentrada no bem. E, de facto, no nosso dia a dia, relacionamo-nos sobretudo com pessoas que estão a pensar no bem - no bem das suas famílias, dos seus amigos, e no seu próprio.

A opinião pública em Portugal não é apenas não-representativa do que são os portugueses. É o contrário do que são os portugueses. É assim em todos os países de cultura católica.

Volto, porém, ao meu tema de início: Como governar uma comunidade destas que aceita de tudo, onde há de tudo, do melhor e do pior, de um extremo ao outro?

Existem alguns elementos da resposta a esta questão que eu julgo já conhecer. Por exemplo, não tente governar esta comunidade por um regime político assente na opinião pública, como o regime de democracia-partidária. Porque este regime concentra-se no mal, e  com a tendência da comunidade católica para aceitar tudo, incluindo os extremos, esta comunidade acabará a ser extremamente mal governada.

Parece que a característica essencial de uma boa governação é o Equilíbrio.

Mas quem o tem, um homem, um partido, a massa, o povo?

Creio que um homem. Um homem que conheça muitíssimo bem as tradições desta comunidade, aquilo que, ao longo dos tempos ela sempre considerou o bem e o mal, e como estabeleceu o justo equilíbrio entre  um e outro, adaptando esse equilíbrio ao seu tempo.

Um homem que já tenha nascido numa família de Tradição, que seja educado nessa Tradição e para representar e interpretar essa Tradição.

Um Papa, um Salazar, um Presidente da República, um Rei?

Um Rei.

(O mal de um Salazar é que o povo não lhe reconhece legitimidade para representar e interpretar a Tradição, e sobretudo para a transmitir, que é o significado mesmo da palavra Tradição - transmissão. O mal de um Presidente da República eleito é que divide e não foi educado para isso.)