20 abril 2017

que passou a ser triste

O estado em que ficou o eurodeputado Paulo Rangel depois desta minha intervenção no Porto Canal:

"Ora, como consequência directa e necessária das expressões proferidas pelo demandado a seu respeito, o demandante sentiu-se vexado e humilhado publicamente, com alteração de humor, que passou a ser triste em alguns períodos, irritabilidade, desgosto, a par de natural revolta, o que teve interferência no seu quotidiano e no seu descanso, atentas as imputações e as qualificações insultuosas efectuadas".

Ai que florzinha...

(...)

"Nestes termos, deve o demandado ser condenado a pagar ao demandante a quantia de 50.000,00 euros acrescida de juros de mora à taxa legal, actualmente de 4%, desde a data de notificação deste pedido civil, até integral pagamento".

E que florzinha tão preciosa...


17 abril 2017

Turquia

O referendo da Turquia vai aproximar o país do regime de governação da Igreja Católica.

Diz-se, por vezes, que Cristo não se pronunciou sobre política. Certamente que não sobre política partidária porque ele não gostava de partidos. Havia muitos na sua época e ele não aderiu a nenhum. Na realidade, houve até um que foi o alvo preferencial das suas críticas.

O centro da pregação de Cristo é o de que todos os homens se unam em comunidade, e não que se dividam em partidos ou seitas em lutas uns com os outros. É verdade que Cristo não recomendou nenhum regime político em particular e deixou isso à liberdade dos homens. Mas, quando se tratou de organizar a sua comunidade, ele deixou um sinal bem claro.

Nomeou um homem com poderes absolutos para a comandar. A Igreja, ao longo dos séculos, aperfeiçoou o sistema de organização política da comunidade cristã. Não o impõe a ninguém, mas ele permanece lá como exemplo. A mensagem que a Igreja, a este propósito, transmite à humanidade parece-me clara:

"Escolham lá o sistema político que quiserem. Mas quando se virem em situações de crise ou de aflição, este é o que tem melhores hipóteses de funcionar. Ao longo de dois mil anos, já passou por tudo. É só copiarem".

Aquela famosa tirada do Churchill acerca do regime de democracia parlamentar era apenas isso - uma tirada.

16 abril 2017

a crise dos refugiados

Para além do seu significado teológico, o franciscanismo teve um significado sociológico importante revelando a Igreja Católica no seu papel de instituição moderadora, ao ponto de fazer conviver todo o tipo de pessoas numa mesma comunidade,  sem excluir ninguém.

Este carácter inclusivo do catolicismo, e, principalmente,  o carácter exclusivo do seu oposto - o protestantismo -, está aí hoje à vista na crise dos refugiados.

Aquilo que o  franciscanismo veio mostrar é que a felicidade não se encontra necessariamente na riqueza, e que um homem pode ser feliz na mais extrema pobreza. E fê-lo, não por argumento intelectual, mas através de exemplos concretos porque esses não enganam ninguém.

Pois se até pessoas ricas - como Francisco e Clara de Assis - podiam encontrar a felicidade na pobreza, como é que o  homem vulgar, que nasceu pobre, e nunca conheceu outra condição senão a pobreza, não a poderia encontrar também? O exemplo do franciscanismo, bem como das  outras ordens mendicantes, placou o ressentimento dos pobres em relação aos ricos, e permitiu que eles convivessem lado a lado na mesma comunidade.

A Igreja Católica exibia aqui, no seu melhor, uma das suas principais características sociológicas, que é o seu papel de moderadora de conflitos sociais. E fazia-o através de um meio que não ocorreria a ninguém, que era o da institucionalização da pobreza - e de uma pobreza ainda por cima voluntária - representada pelas ordens mendicantes.

Assim que o movimento do protestantismo foi desencadeado na Prússia, a primeira coisa que os protestantes fizeram foi expulsar as ordens mendicantes julgando que, ao fazê-lo, erradicavam os pobres do seu meio. Para os países tocados pela influência protestante ser pobre passou a ser  um estigma pessoal e social.

Daqui resultaram, pelo menos, duas consequências não previstas.

A primeira é que, sem o papel moderador da Igreja, se reavivou aquele que deve ser o mais antigo ressentimento da vida em sociedade - o ressentimento dos pobres contra os ricos. E não passaram muitos séculos para que na mesma Prússia - onde haveria de ser? - Marx desse voz a esse ressentimento com  o seu conceito de luta de classes que, na sua essência, é a oposição dos pobres contra os ricos, pela violência, se fôr necessário.  As consequências são bem conhecidas.

Em segundo lugar, os países católicos, com a pobreza institucionalizada, ganharam a reputação de serem países pobres - e até Salazar, que era um homem inteligente, não se cansava de repetir este cliché em relação a Portugal (porque é de um cliché que se trata). Pelo contrário, os países protestantes, sem pobreza institucionalizada, passaram a gozar da reputação de serem "países ricos".

Precisamente por isso, são hoje os países de influência protestante que atraem os pobres de todo o mundo. Julgaram que os tinham erradicado, mas enganaram-se. Eles entram-lhes agora pelas portas dentro sem controlo.

Os refugiados entram na Europa frequentemente por países católicos - como a Itália, Espanha, Portugal - ou pela ortodoxa Grécia. Mas não é aí que eles querem ficar. Eles querem ir para a Alemanha ou até, a partir daí, dar o salto para os EUA. E sem a moderação activa do catolicismo, os pobres são aí um potencial enorme de violência.

Como se tem visto.

Monty Python

É, talvez, a única cultura em que aqueles que nascem nela são absolutamente livres - e possuem um forte incentivo cultural -, para dizer mal dela. Um homem que se sente mal no meio onde nasceu, que está de mal com tudo aquilo e todos aqueles que o rodeiam, é um candidato ideal a emigrar. E, portanto, a ir espalhar pelo mundo a cultura onde nasceu.  É assim que ela se torna católica ou universal.

É um paradoxo, mas o catolicismo é feito de paradoxos, e daí a dificuldade em o racionalizar. Este paradoxo foi colocado da forma mais sucinta que conheço num episódio que me contaram e que teve lugar há uns anos no Bombarral.

Vários homens conversavam num pequeno grupo e, naturalmente, diziam mal de Portugal e dos portugueses. Entre eles, estava um homem de mais de oitenta anos, que tinha levado uma vida de empresário. Foi este que, depois de algum tempo a ouvir os outros, decidiu a certa altura falar.

Para dizer o seguinte: " Pois...  mas eu  viajei e conheci ao longo da minha vida todos os países do mundo... e, francamente,... nunca encontrei um país para viver tão bom como esta merda".

A conclusão não podia ser mais clara: a melhor coisa do mundo é, ao mesmo tempo, uma merda. E, na realidade, é, porque o catolicismo instila no espírito humano um padrão que as outras religiões não instilam, certamente que não no mesmo grau - a ideia de um mundo celestial que é perfeito. Talvez esteja aqui a explicação do paradoxo.

Entre os intelectuais, este paradoxo exprime-se frequentemente em eles falarem do catolicismo sem saberem daquilo de que estão a falar. Atribuem ao catolicismo coisas que ele não é nem diz, criam um espantalho, e depois dizem mal do espantalho.

Aconteceu recentemente à Maria Filomena Mónica, o que motivou uma resposta pronta e certeira do Padre Portocarrero de Almada. Ela reagiu.

Ora, as reacções dos intelectuais quando se vêem em terreno movediço acerca do catolicismo são também inteiramente previsíveis - Cruzadas, Inquisição (incluindo o episódio de Galileu) e expulsão dos judeus - e a Maria Filomena Mónica não fez excepção.

É claro que eu não vou dizer aqui que a Inquisição foi uma coisa boa. Mas vou dizer que foi a resposta menos desumana que se podia conceber às desumanidades que, na altura, se cometeram sobre a Igreja Católica e os povos de cultura católica.

Mas aquilo que mais me surpreendeu na argumentação da Filomena Mónica foi o facto de, após ter puxado pelos seus galões de socióloga, apresentar apenas, em abono da sua tese, um livro sobre o Cristianismo escrito aparentemente por um anglicano - o que não é propriamente prova de imparcialidade -,  e  um sketch dos Monty Python.

A Maria Filomena Mónica diz gostar de polémicas. Claro que gosta. Da verdade é que ela não gosta nada, porque a verdade não admite polémica.

11 abril 2017

O principal milagre

-Se Cristo era homem e fazia milagres, eu, que sou homem como ele, também os posso fazer, não?

-Sim, mas Cristo, além de homem, também era Deus, e tu não és...
 (Segundo a doutrina católica Cristo é plenamente homem e plenamente Deus)

-Mas posso ser!... Como?... Imitando-O.

Eu não sei se foi exactamente este o diálogo íntimo que teve lugar no espírito de S. Francisco. Mas, se não foi, há-de ter sido muito parecido.

Só a capacidade para colocar a primeira questão alargou o espírito humano a latitutes nunca antes conhecidas. E a capacidade para responder à segunda elevou-o até altitudes a que ele nunca antes tinha chegado.

S. Francisco acabou a fazer milagres como Cristo e, na sua vida de pobreza, até Cristo, pelos padrões dele, teria parecido um mau franciscano. O século de S. Francisco viria a produzir  grandes santos, como ele próprio e S. Domingos, grandes teólogos, como S. Boaventura e S. Tomás de Aquino, grandes pintores como Giotto, grandes poetas como Dante, grandes cientistas, como Roger Bacon - considerado o pai da ciência moderna.

Chesterton na sua biografia de S. Francisco diz que ele foi uma nova luz que chegou ao mundo, algo que, antes dele, Dante já tinha escrito - uma luz que deixou atrás de si a Idade das Trevas e iluminou novos horizontes à humanidade cristã.

Mas em que consistia precisamente essa luz, que se manteve apagada nos séculos anteriores ainda dominados pelo paganismo com os seus ídolos e o seus deuses da natureza?

No facto de Deus ser homem.

Se Cristo é homem e faz milagres, eu, que sou igualmente homem, também os posso fazer. Mas se, para fazer milagres, além de homem, eu também tenho de ser Deus como Cristo, então a solução está mesmo à vista. Só tenho que O imitar.

O principal milagre de S. Francisco foi o de ter ensinado ao homem como é que o homem pode fazer milagres.

Esta foi a revolução espiritual operada por S. Francisco, o Alter Christus, como tem sido chamado.  Ele abriu e elevou o espírito humano a uma dimensão nunca antes conhecida. Nunca o homem contemplou horizontes tão vastos e tão elevados. Depois da revolução franciscana, qualquer homem podia passar a sentir-se como se fosse um super-homem.

É uma revolução espiritual deste género - embora não necessariamente nos termos em que S. Francisco a fez - que nós estamos a precisar. O meu sentimento é que essa nova revolução espiritual será centrada na figura de Maria e não na de Cristo, como aconteceu com a revolução franciscana.


09 abril 2017

D. Laura

Eu acredito muito nos resultados deste estudo, a que já fiz referência anterior (sem discutir ao detalhe os números que lá são citados).

A ciência, afinal, vem confirmar uma antiga verdade da fé, a saber, que a  duração da vida humana é, em primeiro lugar, determinada por Deus, embora Ele tenha concedido ao homem uma certa liberdade para influenciar o resultado (o estudo fala em dois terços para Deus e um terço para o homem).

Esta liberdade  manifesta-se não apenas no estilo de vida que cada um decide adoptar, mas também na liberdade - e no encorajamento, acrescentaria eu - que Deus concedeu ao homem para, através dos progressos da ciência, aumentar a duração da vida humana. Mas esta liberdade será sempre limitada em comparação com a liberdade absoluta que só pertence a Deus.

Mas, se é Deus, mais do que o homem,  que determina a duração da vida humana, qual é o comportamento racional por parte daquele que, perante uma situação de morte previsível ou iminente,  já esgotou, ou está em vias de esgotar, todos os recursos da ciência?

Pedir a Deus.

A conclusão é que o homem que, perante uma situação de morte previsível ou iminente, vai a Fátima (ou a outro local) pedir a Deus é um homem perfeitamente racional. Irracional é quem, nas mesmas circunstâncias, lá não vai.

A fé e a razão, a religião e a ciência, não são incompatíveis. A razão é um subproduto da fé e a ciência um subproduto da religião (em linguagem dos conjuntos, a ciência é um subconjunto da religião). Às vezes, a filha quer tanto demarcar-se da Mãe que se torna ridícula, ao ponto de chamar acaso ao Pai, como é patente no artigo  que tenho vindo a referir.

Aquele que, por vezes, é considerado o primeiro cientista da modernidade, Roger Bacon, era um filho da Igreja Católica, um frade franciscano. Ficou apropriadamente conhecido por "Doutor Miraculoso" porque a sua tarefa - a tarefa da ciência - era vista como a  de desvendar os mistérios que Deus colocou na Natureza. Bacon mostra na perfeição como a ciência moderna é filha da Igreja.

Com o advento do protestantismo, e principalmente sob a  influência de Kant - que é justamente considerado o filósofo do protestantismo - a ciência ficou proibida de falar do Pai, entre outras coisas passando a chamar-lhe acaso, e procurou demarcar-se da Mãe, tornando-a mesmo sua inimiga.

Em vão. Ninguém consegue libertar-se da Mãe, como a própria ciência agora vem provar. Parece o conflito entre a Laurinha e a D. Laura. A Laurinha acabará tão D. Laura como a mãe.


Não precisei de mais

Afinal, onde é que está aqui o milagre?

Há dois milagres.

Dois? Sim, o próprio pai da criança julgou que me estava a falar de um só milagre e, enquanto ele falava, eu estava a ver dois milagres, um milagre que aconteceu ao filho e outro que aconteceu ao pai.

E o milagre que aconteceu ao pai foi o da conversão - ele, que era ateu.

Um milagre é um acontecimento quase-impossível e cuja ocorrência nos deixa maravilhados. A própria palavra milagre deriva do latim miraculus que significa "maravilhar-se". São dois, portanto, os elementos de um milagre, a sua inverosimilhança e a alegria que produz.

Eu também fiquei convencido, tão convencido como estava o pai, de que o sucesso da operação da criança tinha sido um milagre. Não, não perguntei que tipo de problema tinha a criança no cérebro e muito menos quais eram as soluções técnicas e as probabilidades. Tenho alguma competência em probabilidades mas nenhuma em cirurgia. E o pai da criança parecia não  a ter nem numa nem noutra.

Acreditei pela maneira como tudo aquilo se desenrolou. Eu já entrei em muitos Cafés ao longo da minha vida. Mas, em nenhum, mal tivesse assomado à porta, o patrão saltou de trás do balcão, como se tivesse uma mola, para me vir receber com todas aquelas atenções, ao ponto de abandonar o serviço e vir sentar-se a conversar comigo.

O homem estava perfeitamente convencido que a cura do filho se ficou a dever a intercessão divina, sem que, em algum momento, tivesse desvalorizado o trabalho do cirurgião. Acerca do trabalho do cirurgião, eu teria muito a dizer sobre o milagre que é os cirurgiões disporem hoje de técnicas e talentos que lhes permitem fazer delicadas operações ao cérebro, mas estaria a desviar-me do meu tema principal.

Para aquele homem, a questão que, na altura, lhe ia no espírito, transcendia em muito a competência do cirurgião e o sucesso imediato da operação. A questão que o preocupava era se aquela criança, que tinha nascido com um problema no cérebro, se iria tornar um adulto normal. E tornou, estava agora ali à vista de todos.

A mãe e a avó da criança também estavam igualmente convencidas de que foi um milagre, a tal ponto que a avó duplicou as suas idas anuais a Fátima.  E, com a minha adesão, passaram a ser quatro, pelo menos, as pessoas que acreditam que foi um milagre.

Não são precisos mais para validar um milagre. Porque aquilo que  caracteriza um milagre é o facto de serem muito poucas as pessoas que acreditam nele. Os cépticos excedem largamente os crentes. E isto é assim porque a principal consequência de um milagre, que seja um verdadeiro milagre, é produzir outro milagre - o da conversão. E para que a conversão possa existir é necessário, em primeiro lugar, que existam cépticos.

Como não havia eu de acreditar na história daquele homem, se eu ia a Fátima por um motivo semelhante? E convenci-me do milagre pouco depois de sair do Café e me fazer ao caminho, meditando sobre o significado daquele inesperado encontro.

Que estranho... tinha tantos Cafés no caminho e logo entrei naquele. E a forma como o homem me recebeu, adivinhando logo para onde eu ia? E não é que, ainda por cima, tinha uma história para me contar que, nas circunstâncias, tinha um imenso significado para mim?

Eram acasos a mais, uma conjugação assim de acasos tem probabilidade zero. Não existe aqui acaso nenhum. Foi Deus. Foi Deus que me quis pôr um sinal no caminho e planeou este encontro.

E que tinha Deus para me dizer?

O seguinte: "Estás a fazer a coisa certa. Continua o teu caminho, não desanimes nem abandones. Vais obter o resultado que pretendes. Acabei de te pôr na frente dos olhos um exemplo vivo - ou precisas de mais?".

Não precisei de mais. (Na realidade, já tinha recebido alguns sinais pelo caminho e ainda viria a receber outros).


08 abril 2017

as ameaças do mercado livre



A família Zequinha tinha um problema dos diabos, a casa estava infestada por ratos. Tantos que era difícil controlar tal peste.

O pai Zecão e a mãe Zecona lamentavam-se  amarguradamente do dinheiro que gastavam em ratoeiras e pesticidas, que bem fazia falta para outra coisas. O menino Zequinha ouvia estas lamúrias e pensava em soluções mirabolantes, “a better mousetrap” – por assim dizer. Tudo hiperbolizado por aquela esperteza tuga das anedotas :-).

A brincar, a brincar, o menino Zequinha encontrou, porém, uma solução. Tão simples que era um verdadeiro ovo de Colombo. A família só tinha de comprar uma jiboia, como pet, e deixá-la jiboiar pela casa, a fazer o que as jiboias adoram fazer que é caçar e comer roedores.

O  Zecão e Zecona não estavam muito de acordo porque depositavam pouca confiança nos répteis, mas perante a capacidade persuasiva do Zequinha, alinharam. Compraram uma jiboia ainda pequerrucha, logo batizada de Zecoia, e largaram-na pela casa.

O menino Zequinha tinha convencido os pais de que a parceria com a jiboia traria beneficio mútuo para a família e para o animal. Era uma espécie de troca de serviços num mercado livre interespécies. A caça aos ratos era uma especialização laboral da jibóia que, por troca, libertava recursos da família Zequinha para outras actividades. Em vez de gastar em ratoeiras e pesticidas, a família passaria a investir no pomar e os dividendos daí obtidos mais do que dariam para os gastos com a Zecoia.

Fantástico, pensaram todos. O menino Zequinha é um génio, pese embora ter-se inspirado nas ideias de outro génio do passado chamado Zicardo. O mercado não é um jogo de soma zero!

Os anos passaram e tu do corria de feição. Os ratos desapareceram, a família prosperou com a exploração do pomar e a jibóia engordou, e engordou, e engordou. Até atingir os 100 quilos de peso. Minha nossa, era um luxo aquela jibóia e o olhar agradecido do bichano derretia o coração de todos.

Um dia, porém, uma calamidade aconteceu. Quando chegaram a casa, o Zecão e a Zecona aperceberam-se do pior, a Zicoia tinha esmagado e engolido o menino Zequinha. Como tinha sido possível?


A jiboia aproveitou-se dos benefícios da vantagem competitiva que lhe advinha da sua especialização laboral, cresceu, engordou, e, por assim dizer, comeu o menino que a trouxe para a família. Triste sina a do Zequinha, uma ideia que parecia tão boa.

um acaso especial

Esta notícia interessou-me logo no dia em que saiu em vários jornais. Afinal, é o acaso que determina o cancro, e não o estilo de vida. A ciência parece estar a lançar uma nova moda, em substituição da anterior, mas eu devo afirmar que prefiro a nova.

Começo a descrer de muito daquilo que a ciência diz. É de modas, hoje é uma coisa, amanhã é outra.
Eu estava convencido que a principal causa do cancro era o tabaco, o álcool, os enchidos, o açúcar, etc. Afinal, não é nada disto. A principal causa do cancro é o acaso.

Cito a notícia a partir do DN por causa de um comentário que lá aparece de um leitor que se chama Jorge Martins Silva. E cito-a porque, no essencial, concordo com o comentário, que diz que é o acaso que nos dá vida, que nos arranja uma profissão, até um clube de futebol, e o acaso é também casamenteiro.

Tenho apenas duas observações a fazer.

A primeira é que, podendo reclamar alguma competência em Teoria das Probabilidades, que é a ciência do acaso, a minha experiência é a de que o acaso é aleatório, tanto lhe dá para o bem como para o mal, e com igual probabilidade.

Ora, o acaso de que fala o leitor é um acaso especial, só lhe dá para o bem. Este acaso é, literalmente, e na linguagem popular, um gajo porreiro.

A segunda é para dizer que, nas situações que o leitor invoca, o acaso chegou-me sempre através de pessoas (embora ele possa também chegar através de outras obras suas, como as da natureza).

Quanto à vida, por acaso foi o meu pai e a minha mãe que me a transmitiram.

Quanto ao clube de futebol, por acaso foi o meu pai que, aos cinco anos, me inscreveu como sócio do Benfica e desde essa idade passou a levar-me todas as semanas ao Estádio da Luz.

Quanto à profissão de economista, por acaso foi ainda o meu pai a pessoa determinante, embora  outras tenham participado. Assim que completei a instrução primária, por acaso foi o meu pai que  decidiu que eu iria frequentar o ensino técnico comercial, o qual, por acaso,  só tinha uma saída para o ensino superior - Economia.

Então e não é que, no decurso dessa decisão do meu pai, às tantas fui frequentar o Instituto Comercial de Lisboa e, por acaso,  encontrei lá uma menina bonita,  a qual é  minha mulher desde há quarenta anos?

Um dia, quando o acaso considerar que eu estou cansado e a minha missão está cumprida, é bem capaz de me arranjar um cancro, ou qualquer outra coisa do género, e põe-me a descansar eternamente.

Por acaso hoje esteve um lindo dia de sol e eu passei um dia fantástico junto ao mar. Que também lá estava por acaso.

Sinto uma imensa gratidão pelo acaso. É mesmo um gajo porreiro. Talvez devêssemos criar uma ciência da gratidão e dedicá-la ao acaso.

07 abril 2017

um homem feliz

Mau... Falo das Clarissas e o Jornal Oficial faz um artigo sobre as Clarissas.

Falo de S. Francisco e o Jornal Oficial faz um artigo sobre o Convento de S. Francisco.

Começo a pensar que são acasos a mais, ao ritmo de um por semana.

Mas eu também já expliquei o que são para mim os acasos.

Bom...independentemente das politiquices, a renovação do Convento parece muito boa. Parabéns a quem a fez, e não lamento um cêntimo dos meus impostos que tenham ido para ali porque isto agora, a propósito de tudo e de nada, é chique falar dos impostos.

Dentro de alguns anos, o Covento vai ser necessário outra vez. Não para alojar artistas, mas franciscanos versão século XXI.

Como assim?

"E podemos afirmar, quase com a mesma profunda certeza, que as estrelas que lá do alto olhavam para aquele cadáver lúgubre e consumido, já hirto sobre o solo rochoso, contemplavam pela primeira vez - no decurso dos longos ciclos percorridos em torno da laboriosa humanidade - um homem feliz".
(G. K. Chesterton, São Francisco de Assis, Lisboa: Aletheia, 2013, p. 107)

Que milagre, um homem feliz na mais extrema pobreza.