28 Fevereiro 2012

não chega

A solução do Paul Krugman não é uma verdadeira solução para resolver os problemas económicos de Portugal. A solução do Ricardo é uma verdadeira solução - embora não seja a única solução - para resolver esses problemas.

Porque é que a solução do Ricardo está mais próxima da verdade que a do Krugman? Isto levou-me de volta à velha questão: o que é a Verdade?

Eu penso que Tomás de Aquino não estava perfeitamente certo quando definiu a verdade como a adequação do intelecto à realidade. De facto, com esta definição, o que Tomás de Aquino fez foi abrir a porta, mais tarde, ao Descartes e ao Kant e, desconfio eu, ao próprio protestantismo.

Ele devia ter dito: a verdade é a adequação do intelecto e dos sentimentos, ou da razão e do coração, à realidade. E, sendo hoje um dia em que eu estaria disposto a questionar até os Dez Mandamentos, dei comigo, de uma maneira exagerada, é certo - mas, para chegar à verdade, eu estou hoje convencido que é preciso exagerar - a procurar responder a uma questão que não lembraria ao diabo: será que o homem a quem eu sempre chamei pai era, na verdade, o meu pai?

E propus-me responder à questão usando a definição de Aquino que, num aspecto, pelo menos, é semelhante à de Kant, a saber, o papel decisivo - na realidade, exclusivo - que o intelecto (ou a razão) tem na obtenção da verdade. E foi por esta via exclusivamente intelectual que me propus responder à questão anterior.

Comecei por tentar reunir os factos, mas dei-me logo conta de que, quanto ao facto principal - uma relação sexual entre um homem e uma mulher, o meu verdadeiro pai e a minha verdadeira mãe, respectivamente - eu nem sequer estava ainda neste mundo para o testemunhar. E ao tentar reconstituir esse facto decisivo, o qual contém toda a verdade, eu não consegui ir além de meras presunções abstractas. Terá ocorrido durante o ano de 1953, muito provavelmente em privado, mas quanto a factos concretos, quem esteve envolvido? onde teve lugar? quanto tempo durou?, etc., eu não consegui obter nenhuma resposta, tanto mais que os dois principais suspeitos já morreram e não deixaram testemunhas.

Agora, eu guardo muito gratas recordações do homem a quem sempre tratei por pai. Eu poderia referir centenas de factos que documentam que aquele homem sempre me quis bem, as imensas coisas boas que ele fez por mim, incluindo alguns castigos que, julgo eu agora, em 95% dos casos foram merecidos, e nos outros 5% ele terá julgado mal. Mas todos esses factos e toda a gratidão que eu sinto hoje por aquele homem não provam que ele é o meu verdadeiro pai. Por aqui não chego lá.

Tenho de fazer intervir uma outra pessoa, porque essa sim, essa é que tem a verdade que eu procuro, e é uma figura de mulher. Refiro-me à minha mãe.

Se eu alguma vez perguntei à minha mãe se aquele homem a quem eu sempre chamei pai era o meu verdadeiro pai? Não, nunca perguntei porque ela nunca me deu margem para isso. Desde que eu tenho memória da minha própria existência, talvez desde os meus três ou quatro anos, sempre que a minha mãe, falando comigo, se referia àquele homem, dizia-me: “O teu pai isto ... O teu pai aquilo ... Vou fazer queixa ao teu pai ... Para isso tens de pedir autorização ao teu pai ...”.

E é por isso que eu acredito que aquele homem era verdadeiramente o meu pai. Eu acredito na palavra da minha mãe. Cheguei à verdade através de um acto de fé na palavra da minha mãe, e não por argumento racional porque, por essa via, nunca mais lá chegava. Mas este acto de fé é um acto racional - a fé como pináculo da razão -, a cereja em cima do bolo, porque todos os factos que eu consigo recordar dele já me tinham levado à conclusão racional de que aquele homem devia ser o meu pai. A verdade ou certeza absoluta é que eu não tinha. Essa foi-me dada pela minha mãe, e pela fé que eu tenho na palavra da minha mãe. E não foram raras as ocasiões na minha juventude em que ela, exalatada comigo por uma qualquer razão, me disse nos termos que não deixavam margem para dúvidas: "Fazes o que eu te digo porque eu sou a tua mãe!...".

Falta responder a uma questão final: como é que eu estou certo que a minha mãe não me mentiu, mais, como é que eu estou certo que aquela mulher era a minha verdadeira mãe? Não tenho dúvida nenhuma. Aquela mulher cuidou de mim desde que eu nasci, incorreu em imensos sacrifícios por mim, fez-me sempre bem, preocupou-se sempre comigo, ainda nas vésperas de morrer, estava eu já para ser avô, ela queria saber de mim, e se eu estava bem. Aquela mulher amou-me toda a vida. Só podia ser a minha mãe. E eu o seu filho. Eu acredito nela pelo amor que ela sempre teve por mim e pelo amor que eu tenho por ela.

Cheguei ao fim. Não se chega à verdade somente pelo intelecto. São necessários os sentimentos e especialmente o do amor. E é por isso que o Krugman nunca terá a verdadeira solução para os problemas dos portugueses. Ele não ama nem Portugal nem os portugueses, embora eu também acredite que ele não lhes quer mal. Ele veio cá fazer uma conferência, receber umas honrarias e uns dinheiros e já partiu para outra. A esta hora é bem capaz de estar na China, a fazer a mesma coisa. Quem não gostar de Portugal e dos portugueses nunca vai encontrar as verdadeiras soluções para os problemas de Portugal e dos portugueses. O intelecto (ou a razão) só, não chega para atingir a verdade.

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discriminação fiscal (2)

"(...) o que é pequeno é o privado (...) A solução é aumentar o privado", RB num comentário a este post.
Precisamente!

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discriminação fiscal

Na impossibilidade de imaginar os portugueses a tomarem por si próprios a decisão de sair do Euro, o Ricardo tem vindo a defender na imprensa uma solução para atenuar os efeitos da crise que me parece bem mais adequada à realidade e à cultura portuguesa. Trata-se da discriminação fiscal contra os produtos importados e que os portugueses podem produzir.

Tratar-se-ia de negociar com os nossos parceiros europeus, e tendo em vista a situação de crise em que Portugal se encontra, um regime de excepção no mercado único europeu. Este regime incluiria a possibilidade de Portugal impôr tarifas aduaneiras à importação de todos os bens e serviços que os portugueses sabem e podem produzir. Estão neste caso, a generalidade dos bens alimentares, o mobiliário, o calçado, o vestuário, a lista seria vastíssima.

Os portugueses, na sua cultura, não gostam de soluções totais, soluções que são impostas de forma coerciva e igual para todos, como é a solução proposta pelo Krugman. Eles preferem soluções que deixem a porta aberta à escolha e à opção de se submeterem ou não se submeterem a elas. E a solução da discriminação fiscal satisfaz este requisito. Ninguém me obrigaria a pagar uma fortuna pelas maçãs importadas de França. Bastava que consumisse maçãs portuguesas.

Existe depois uma categoria de bens importados que os portugueses não produzem, mas que são de consumo generalizado. Estou a pensar no automóvel. Neste caso, o regime de excepção a negociar reservaria a Portugal o direito de exigir que a produção seja feita em Portugal. Assim, se a BMW quiser vender automóveis no país vai ter de estabelecer uma fábrica ou linha de montagem em Portugal.

Eu penso que o Governo devia andar a negociar esta matéria em lugar de andar a negociar empréstimos. Esta solução contribui para resolver os problemas dos portugueses, reduzindo o défice externo e dando emprego aos portugueses. Pelo contrário, a negociação dos empréstimos não resolve nenhum destes problemas, só os prolonga e adia.

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Paul Krugman

É claro que Paul Krugman tem razão quando afirma que um corte generalizado nos salários em Portugal, da ordem dos 30%, resolveria para já as causas da crise económica em que estamos mergulhados.

A crise é motivada pela falta de competitividade externa da economia portuguesa, reflectindo-se num défice permanentemente elevado da Balança de Transacções Correntes (BTC). Um corte de 30% nos salários faria baixar os preços dos produtos portugueses vendidos lá fora, aumentando as exportações, e também o preço dos produtos portugueses vendidos cá dentro, reduzindo as importações, desta forma diminuindo - eventualmente anulando - o défice externo. Não haveria mais necessidade de recorrer a empréstimos externos.

O problema é que essa dificilmente seria uma solução aceitável pelos portugueses. Pois se até o corte nos subsídios da função pública, motivou logo que várias instituições do sector público - que deviam dar o exemplo de espírito público -, desatassem a inventar razões para se eximirem aos cortes, que reacções seriam de esperar de uma decisão do governo que fizesse baixar os salários de todos os portugueses em 30%, no sector público e no sector privado?

É aqui que a irrelevância de Krugman em contribuir para uma solução dos problemas portugueses transparece. Ele não conhece Portugal, senão através dos jornais e de cá vir uma ou duas vezes. E, certamente, ele não conhece os portugueses. Numa palavra, ele não conhece a cultura. E, por isso, ele fala como se estivesse na América e a falar para americanos. E na América eu estou a ver a possibilidade de, perante uma situação económica de emergência como aquela que vive Portugal, se gerar um consenso entre os americanos que levasse à aceitação generalizada de um corte de 30% nos salários.
Na América existe de forma generalizada o chamado espírito público, que é o espírito que leva as pessoas a aceitarem sacrifícios pessoais em nome do bem comum. Em Portugal também existem pessoas assim, mas são poucas, são casos extremos. Para além de existirem também aquelas que são o exacto oposto, pessoas que não estariam dispostas a sacrificar um cêntimo que seja em prol do bem comum, existem depois todos os graus intermédios. Perante esta variância, seriam numerosos os grupos de interesses que se iriam levantar - alguns provavelmente em armas - contra esta medida.

Que as universidades portugueses queiram dar um doutoramento honoris causa ao economista Paul Krugman é uma decisão que se compreende. Já pretender fazer dele o economista destinado a apontar as soluções para resolver a crise económica portuguesa é a maior das fantasias, pela simples razão de que ele não conhece Portugal nem, principalmente, os portugueses.

A verdade não está no exterior, como pretende o pensamento protestante e moderno - embora também esteja aí. É este preconceito que levou académicos e jornalistas a ficarem embasbacados com a conferência do Paul Krugman. É ainda este preconceito que levou os panelistas do Expresso, com excepção de Medina Carreira a sugerir que as soluções para os problemas económicos portugueses são os cronistas estrangeiros e as publicações estrangeiras que as possuem.
A verdade não está no exterior, embora também esteja aí. A verdade está, em primeiro lugar, no interior, está em nós, os portugueses, porque somos nós que conhecemos melhor - porque a vivemos diariamente -, a realidade das coisas, a começar pelo próprios portugueses E eu garanto que se não forem os portugueses - alguns portugueses, bem entendido -, a encontrar as soluções para os problemas económicos do país, não é nenhum estrangeiro - o Paul Krugman, os membros da troika, os alemães ou os economistas do FMI - que a vão encontrar.

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no estrangeiro

Contaram-me que no Expresso desta semana, na secção de Economia, o jornalista Daniel Deusdado põe a seguinte questão a um painel de economistas portugueses: "Qual o cronista/publicação que vale a pena ler?".
Com excepção de Medina Carreira que respondeu "Um bom cronista português", sem no entanto especificar, todos os outros responderam com cronistas estrangeiros e publicações estrangeiras (Paul Krugman, The Economist, etc.).
Eu raramente leio o Expresso, e não estou arrependido da leitura que perco todas as semanas. É que para ler parolos que não acreditam em si, nem nos seus, eu prefiro ler directamente os autores e as publicações estrangeiras que eles recomendam porque, como se sabe e os parolos agora certificam, no estrangeiro é que está a verdade.

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educado pelos Jesuítas

Nascido em 1926, Fidel Castro ingressou em 1934 no Colégio dos Irmãos de La Salle de Santiago de Cuba. Em Setembro de 1939 entrou para o Colégio de Dolores, conduzido pela Companhia de Jesus.

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precisamos de extraterrestres




Krugman afirma que uma ameaça de invasão por extraterrestres seria útil à economia norte-americana.

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27 Fevereiro 2012

Krugman, the clown

Krugman afirma que a probabilidade de Portugal permanecer no Euro é de 75%.

Reparem na precisão de Krugman, a probabilidade não é de 70%, nem de 80% - é de 75%.
A Universidade de Lisboa, a Universidade Técnica de Lisboa e a Universidade Nova de Lisboa deviam ter vergonha de se associarem a este palhaço.

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conservador ma non troppo II

Espanha quer proteger empresas de OPA hostis.

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os empresários gregos começaram a perceber o sarilho

... em que a Grécia está metida (ou em que meteram a Grécia...).

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ao que chegamos

Roche suspende venda a crédito a 23 hospitais.

Governo, recorde-se, tomou posse há cerca de 9 meses.

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Joaquim

Parabéns. Conte muitos. A sua companhia tem sido sempre grata para mim.

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75 vezes

Imagine a sua mão a representar o avião da Air France referido no post anterior, o punho para baixo e os dedos levantados para cima. Desloque agora a sua mão para a frente e para baixo. Foi assim que o avião caiu, sendo a cauda a primeira parte a embater no mar.

Nenhum dos pilotos teve a sensação física de que o avião estava a cair, e o mesmo terá acontecido com os passageiros. Existe um momento em que o comandante se apercebe de que possivelmente o avião estaria a cair, mas isso resulta da leitura dos instrumentos, certamente do altímetro, cujo ponteiro nessa altura estaria a rodar para a esquerda a toda a velocidade.

Tudo começou quando o co-piloto decidiu puxar o nariz do avião para cima a fim de subir e fugir à tempestade. Nessa altura o indicador principal de velocidade avariou-se e, embora todos os sistemas de um avião moderno possuam um back-up, isto é, um sistema alternativo que lhe dá as indicações de outro que se avariou, o co-piloto terá mantido a mesma potência dos motores, não ligando à velocidade.

Imagine-se a conduzir o seu carro numa estrada plana e tendo pela frente uma ladeira. Se não der mais acelerador ao carro, ele vai perdendo velocidade e, no limite, pára. Foi isso que aconteceu ao avião, começou a subir e a perder velocidade. A certa altura, a velocidade caiu abaixo da velocidade mínima necessária para manter o avião no ar, e o avião começou a perder altitude - uma situação de emergência conhecida pelo nome de stalling.

Um avião moderno possui alarmes os mais variados, normalmentye sob a forma de campainhas ou buzinas, mas a situação de stalling é tão grave que, neste caso, o alarme é uma voz mecânica que se faz ouvir repetidamente no cockpit: “Stalling ... Stalling ... Stallling...”. Esta voz mecânica fez-se ouvir 75 vezes no cockpit sem que os co-pilotos, já completamente desorientados, lhe tivessem dado atenção.

É possível recuperar de uma posição de stalling se a altitude fôr suficientemente elevada, e esse era o caso quando o alarme se fez ouvir pelas primeiras vezes. Partindo da situação em que o avião se encontrava, nariz para cima e a perder velocidade e altitude, a manobra consiste, em primeiro lugar, em virar o nariz do avião para baixo e, em seguida, aplicar a potência máxima aos motores. O avião fica, assim, durante um tempo a voar em direcção ao solo e a aumentar de velocidade de tal modo que, quando a velocidade de sustentação é atingida, é possivel endireitar o nariz, passando o avião a voar paralelamente ao solo e, continuando a aumentar a velocidade, finalmente fazê-lo ganhar altitude de novo. Num avião militar esta manobra é relativamente fácil, num avião comercial é mais lenta e complicada porque a sua capacidade de manobra é menor, uma diferença semelhante à que existe entre um automóvel e um autocarro.

Só muito tardiamente, porém, o comandante, que tinha regressado ao cockpit e que se sentou atrás do co-piloto que tinha ocupado o seu assento, se apercebe que este, paralisado pela confusão e provavelmente pelo pânico, continua agarrado ao comando do avião a puxar-lhe o nariz para cima, exactamente o contrário daquilo que deveria ser feito. Ainda lhe dá a ordem para cessar de o fazer. Mas já não houve tempo para fazer mais nada.

Uma série de factores concorreram para a tragédia, nenhum deles de per se sendo susceptível de a causar: a tempestade tropical (habitual naquela zona), a decisão de não a contornar (outros vôos que passaram naquela zona naquela altura decidiram contorná-la); o abandono do cockpit por parte do comandante para o seu descanso regular (se ele tivesse decidido descansar cinco minutos mais tarde, estaria aos comandos na altura em que tudo começou); a avaria do velocímetro; a inexperiência e a falta de treino do co-piloto; a independência dos comandos do moderno Airbus (uma manobra feita por um dos pilotos não é reflectida nos comandos do outro); a demora do comandante em regressar ao cockpit; e, finalmente, a confusão generalizada. Ninguém estava aos comandos do avião.

Os momentos finais do Air France 447 sugerem-me a economia portuguesa. Os alarmes a soar repetidamente e no cockpit reina a confusão. Ninguém sabe o que fazer, ninguém está aos comandos mais do que estava o comandante Marc Dubois naqueles minutos finais, e ninguém faz nada. Olhando em frente pelo cockpit, na escuridão da noite, vêem-se distintivamente as luzes do avião grego mais à frente e mais abaixo. Um dos pilotos portugueses ainda observa: “O grego vai-se espetar no oceano...”, mas um outro diz: ”Mas nós, não. Nós somos diferentes”, enquanto o avião continua a perder altitude, sem que ninguém faça nada, e a seguir rigorosamente a mesma trajectória do grego.

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26 Fevereiro 2012

o comandante


Agora que, incidentalmente, o Joaquim trouxe o tema da aviação para o blogue, eu gostaria de referir a que se deve, em parte, o meu interesse pelo assunto. As pessoas que seguem dentro do avião formam uma comunidade porque têm pelo menos um interesse em comum - a segurança.

O avião é hoje em dia, e apenas com cerca de 70 anos de história da aviação comercial, o transporte mais seguro do mundo, a grande distância de todos os outros. E isso deve-se aos enormes progressos que têm sido feitos na melhoria das condições de segurança, quase sempre a partir da análise exaustiva dos acidentes aéreos. O grande crédito nesta matéria vai para a FAA americana (Federal Aviation Administration), curiosamente uma instituição do Estado, e não uma instituição privada, mostrando que não existe princípio que possa provar em abstracto que as instituições privadas são mais importantes que as públicas, ou vice-versa.

Muitas decisões têm se ser tomadas dentro de um avião, algumas delas em condições de emergência. Como são tomadas essas decisões, são decisões democráticas? É claro que há muitas decisões, como a hora a que será servido o almoço numa viagem de longo curso, às 12:30 ou às 13:00, que podiam perfeitamente ser tomadas de forma democrática, envolvendo toda a tripulação e todos os passageiros. Mas o que dizer das situações em que estão todos aflitos, como aquela que ilustrei no post anterior, quando o avião, a um segundo de tocar no chão é abanado por uma violenta rajada de vento: aterra-se ou borrega-se?

A experiência, e não o argumento intelectual abstracto, acabou por consagrar a solução que melhor serve o bem comum, que é aqui principalmente o bem da segurança. A comunidade que segue dentro de um avião não se organiza democraticamente, mas organiza-se de forma autoritária, sendo conferida a um homem a autoridade suprema e absoluta sobre toda a gente que segue no avião e sobre tudo o que está dentro do avião. Esse homem é o comandante.

Um dos últimos grandes acidentes, que causou um enorme mistério a mim próprio e a todos os que se interessam pela aviação, ocorreu há cerca de dois anos. Um avião da Air France que fazia a ligação entre o Rio de Janeiro e Paris despenhou-se a meio do oceano, sem razão aparente. Não havia vestígios de bomba, o avião encontrava-se em fase de cruzeiro, que é a fase menos propensa a acidentes.

A marinha francesa fez um trabalho extraordinário e acabou por recuperar as duas caixas negras do avião ao fim de dois anos de buscas no Atlântico, a caixa contendo a última meia hora de conversas no cockpit e a caixa contendo o registo das manobras efectuadas. O mistério ficou desvendado (ver aqui). O custo para o Estado francês de desvendar este mistério, em nome da segurança presente e futura para todos os passageiros de aviões em França e em todo o mundo, deve ter sido extraordinário, um custo que dificilmente uma empresa privada estaria disposta a incorrer, sobretudo quando os benefícios são tão difusos e futuros.
O comandante não estava no seu posto de comando, tendo-se ausentado para o seu descanso regular, e os dois co-pilotos que ficaram no cockpit não conseguiram nunca entender-se sobre o que estava a acontecer e como sair daquela situação. Infelizmente, o comandante quando regressou ao cockpit, em lugar de assumir imediatamente os comandos como lhe competia, ficou a observar. No final, uma coisa é certa: se o comandante não tivesse saído do cockpit aquele acidente nunca teria acontecido. (Na posse dos dados do vôo, fornecidos por uma das caixas negras, a Air France replicou em simulador as condições do acidente com vários comandantes diferentes, e todos sairam facilmente da situação).
A democracia não é um método de decisão cuja bondade possa ser demonstrada por argumento intelectual abstracto, e que seja independente das circunstâncias. Em circunstâncias difíceis, como uma emergência num avião, ou aquelas por que passa actualmente Portugal, parece haver outro melhor.

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2 notícias 2

Pay in Germany, which has no nationwide minimum wage, can go well below one euro an hour.

Paul Krugman vê Portugal como o país mais difuso do euro, duvida que consiga pagar a sua dívida e afirma que os salários dos portugueses têm de cair até 30% face à Alemanha.

PS: Eu sei que é um bocado ridículo afirmar isto, mas às vezes o Paul Krugman parece apalermado.

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um trabalhinho exemplar

O Público de hoje dedica "6 páginas 6" a arrasar a Ongoing. Foi um trabalhinho exemplar que seguramente não foi encomendado, mas que parece... lá isso parece.

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windshear

Caro Joaquim,
Reparei que, de repente, se interessou por temas da aviação e, em particular, por aterragens com ventos cruzados na pista, uma situação conhecida pelo nome técnico de windshear.
Acontece que eu sou há muitos anos um interessado por matérias relacionadas com acidentes aéreos. Conheço praticamente a história e as circunstâncias de todos os grandes acidentes da aviação comercial.
As situações mais dramáticas de windshear podem levar, in extremis, a abortar a aterragem, uma manobra muito perigosa e difícil, conhecida pelo nome de borregar.
Ora, eu tenho reparado que os seus exemplos e heróis nesta matéria são todos estrangeiros, em particular vindos da muito protestante Alemanha. Devo dizer-lhe que, na minha opinião, esses exemplos são coisas de meninos. No seu último exemplo, o piloto demonstra até uma grande falta de julgamento (devia ter borregado muito antes), e de perícia, ao deixar o avião tocar com a asa no chão, e só por sorte não matou aquela gente toda.
Para saber verdadeiramente o que é manobrar um avião em condições de windshear, e o que é verdadeiramente um piloto, você tem de ir a um país católico porque só aí as coisas são levadas ao extremo e ao exagero. Sugiro-lhe que vá a este país para saber como é. Perfeito, nada que se compare com a azelhice do piloto alemão do seu post.
PS. Só agora reparei que o último post é do Ricardo, e não do Joaquim. Não interessa, a mensagem permanece.

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só visto (2)

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homo economicus


Uma das características mais atraentes do pensamento católico, que enfatiza as formas concretas de pensamento, por oposição ao pensamento protestante, que põe o acento tónico nas formas abstractas de pensamento, diz respeito aos exemplos. O protestantismo apresenta sempre como exemplos abstracções, tornando inverificável o seu pensamento. Pelo contrário, o catoliciosmo apresenta exemplos em pessoas de carne e osso, ou instituições feitas com pessoas de carne e osso, para documentar as suas doutrinas.

Quando já quase no final da sua vida, um jornalista perguntou ao Hayek qual o país do mundo que mais aproximava a filosofia social que ele tinha defendido ao longo da sua vida, e ele respondeu que era a Suíça, eu fiquei muito decepcionado. E fiquei decepcionado por duas razões.

Primeira, porque tivesse ele dito aquilo há mais tempo, e ter-me-ia evitado muitas horas de estudo, em lugar de estudar a obra do Hayek eu teria passado o tempo a estudar a Suíça. Segunda, porque ainda assim o exemplo continha um grau de abstracção - a Suíça - que o tornava inoperacional. Ser liberal, no sentido do Hayek, era ser como a Suíça. E eu, se quisesse ser liberal no sentido do Hayek, como é que iria fazer, imitar a Suíça? Ainda se ele tivesse referido o nome de um suíço que considerasse representativo, eu sempre poderia tentar conhecê-lo e imitá-lo. Mas não. Referiu apenas a Suíça.

Pela mesma altura, o Murray Rothbard, um dos símbolos do anarquismo moderno foi passar uns tempos à Guatemala e, quando regressou aos EUA, para desapontamento dos seus seguidores, veio dizer que o país que melhor aproximava as suas doutrinas era a Guatemala. Outra dupla decepção. Rothbard podia primeiro ter viajado pelo mundo primeiro, e só escrever depois, poupando tempo e dinheiro aos seus seguidores. Só teria então uma linha a escrever: “Na minha opinião, o melhor país do mundo é a Guatemala”, e estava tudo dito, embora com uma dificuldade remanescente. Quem quisesse imitar o anarquismo do Rothbard, como iria fazer, imitar a Guatemala? Ainda se ele tivesse indicado o nome de um guatemalteco que considerasse representativo...

Esta dificuldade que o pensamento protestante tem em indicar exemplos concretos que suportem as suas teorias, ficando-se por abstracções, torna inverificável qualquer teoria. O liberalismo do Hayek não é suportado pela existência da Suíça, porque a Suíça já existia antes do Hayek, nem o anarquismo do Rothbard é confirmado pela Guatemala, porque a Guatemala já existia muito antes do Rothbard. As teorias protestantes, como o liberalismo ou o socialismo, acabam sempre na decepção. E acabam sempre na decepção porque são falsas (embora contendo alguns elementos de verdade).

Muito diferente é o catolicismo que está sempre preparado para apresentar exemplos que ilustrem a sua doutrina, não em termos de abstracções, mas em homens de carne e osso, ou em instituições feitas de homens de carne e osso. E não apenas exemplos das suas doutrinas, mas de todas as doutrinas que existem no mundo porque ele entretanto já as internalizou - caso contrário, deixaria de ser católico ou universal.

A Ciência Económica nasceu na Escócia, sob a influência do calvinismo. John Knox, o pai do presbiterianismo escocês - a corrente do calvinismo que prevaleceu na Escócia -, para não surpreender, era um padre católico. A Economia é uma perspectiva específica - e, portanto, necessariamente estreita - de olhar os comportamentos humanos. Olha-os do ponto de vista dos custos e dos benefícios. E, para ilustrar este perspectiva, a Economia criou a figura do homo economicus. O homo economicus é uma abstracção, a representação ideal do homem que pensa e age somente em termos dos custos e benefícios esperados da sua acção. Nunca, porém, em quarenta anos de estudo da Economia, eu alguma vez vi o homo economicus.

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as ideias

Eu gostaria de voltar a este meu post para exagerar o papel que é aí desempenhado por S. Tomás e Kant, o católico e o protestante,respectivamente o realista e o idealista, dentro da ideia de que é impossível chegar à verdade sem exagerar.

Uma sociedade feita de homens extremamente realistas, que estão sempre a apontar para o concreto e o imediato, o aqui e o agora, é uma sociedade parada, uma sociedade onde qualquer mudança - a menos que seja imposta de fora - é impossível, uma sociedade onde as ideias não têm nenhum valor.

A grande contribuição do protestantismo foi precisamente a de renovar o valor das ideias, a crença no poder das ideias para mudar o mundo, e conseguiu fazê-lo, a despeito de muitos, às vezes calamitosos, exageros. As grandes revoluções tecnológicas dos dois últimos séculos - a última, a revolução das tecnologias de comunicação - que permitem hoje ao homem comum, e não apenas ao homem rico, dispôr de um nível de vida que ele não conseguiria sequer sonhar há duzentos anos atrás, tiveram origem invariavelmente em países protestantes.

Os EUA, como paradigma do país que revolucionou as tecnologias da produção de alimentos e como paradigma, mais geralmente, das tecnologias de produção em massa, pode vir bem a passar para a história como o primeiro país do mundo que tirou, em massa, o homem da miséria. E este é um feito extraordinário.

De volta às ideias, o excesso do realismo católico, que paralisa toda a inovação e que conduz directamente ao tradicionalismo, é talvez uma das maiores pechas dos países do catolicismo tradicional, como Portugal, Espanha ou a Itália. As ideias não têm valor, as ideias, e mais geralmente a filosofia, são tomadas como um ócio próprio de pessoas que, de outro modo, se poderiam igualmente entreter a fazer puzzles, palavras cruzadas ou a jogar à canasta.

Eu penso que este desprezo pelas ideias, esta crença de que as ideias não servem para nada, excepto para entreter pessoas de gostos mais ou menos esotéricos, e por isso irrelevantes, é um dos principais ónus do catolicismo tradicional, e de Portugal em particular. Nos últimos trinta e tal anos, não houve uma única mudança significativa em Portugal que tivesse tido origem interna, todas vieram do exterior - o regime político, as leis, a organização económica, etc. E até a última destas mudanças - o plano de austeridade para corrigir os excessos do passado recente - não foge à mesma regra.

Se desvalorizar as ideias, que são representações de uma realidade que por vezes nem sequer existe, em benefício da realidade, pode conduzir, no extremo, a uma sociedade parada, à mercê dos ventos e das marés que sopram pelo mundo, o exagero contrário é ainda mais perigoso. A valorização excessiva das ideias em detrimento da realidade, a substituição da realidade pelo mundo das ideias, conduz frequentemente a esquemas mentais que violentam a realidade. De facto, foi à violência que conduziram as ideias iniciadas por Kant e prosseguidas por outros na sua linha.

Numa caixa de comentários anterior, o Joaquim escreveu que, se a filosofia não fôr compreensível pela generalidade das pessoas, é inútil. Eu diria mais, se a filosofia não for compreensível pela generalidade das pessoas, é falsa. Eu estou hoje firmemente convencido que o primeiro critério de verdade acerca de um sistema de ideias é a sua simplicidade, e é essa também a posição do Papa João Paulo II, expressa no meu post anterior. A julgar por este critério, os sistemas de ideias do Kant e de todos o seus seguidores são, de uma maneira geral, falsos, sejam eles Hegel, Marx ou Mises. Não estou a dizer que ocasionalmente não existam grãos de verdade naquilo que eles escreveram. Estou a dizer que genericamente aquilo é falso. Como, de resto, a experiência tem atestado. Não se pode viver daquela maneira. Para eles, as ideias desligaram-se da realidade, ganharam uma vida própria, e eles acabaram por querer substituí-las à realidade, com os resultados que são conhecidos.

O Joaquim tem razão quando afirma aqui que a verdade se revela pelo diálogo e no pequeno grupo. Foi assim que Cristo se revelou também, em diálogo com Pedro e perante os apóstolos (Lc, 9: 18-22). E estes homens perante os quais a verdade é revelada não são homens especiais, são homens absolutamente vulgares, pescadores e outras coisas do género.
Uma das maiores ofensas que se podem cometer contra a humanidade - e que constitui invariavelmente a origem de todos os crimes contra a humanidade - é a afirmação de que o homem comum não é competente para chegar à verdade, seja pela teologia, pela filosofia, pela ciência ou por qualquer outro caminho, e que esse é um domínio reservado a alguns eleitos. Porque se você não é competente para chegar à verdade, o que é que você anda cá a fazer, para que e que você serve, para se entreter a fazer puzzles dizendo que é filósofo? Não serve para nada.

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só visto

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diálogo

- Como é que na nossa cultura se chega à verdade?
- É através do diálogo!
- Diálogo?
- Sim, é através do diálogo, da troca de ideias. Os portugueses não têm temperamento para se sentarem à secretária a escrever tratados de filosofia.
- Ó Joaquim, mas se cada tipo tem a sua própria visão do mundo...
- É através do diálogo entre as elites. Com a populaça só se pode discutir futebol.

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Zazie demonstra a existência de Deus


..."a filosofia pode ser mais complexa do que a física nuclear".

Aqui, Zazie demonstra a existência do inferno.
;-)

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25 Fevereiro 2012

very complex, indeed

Acerca da complexidade da filosofia, mencionada neste post do Joaquim, eu diria que não há nada de mais complexo e só acessível a alguns eleitos:
"Já que se menciona este movimento de aproximação dos cristãos à filosofia, importa recordar a cautela com que eles olhavam para outros elementos do mundo cultural pagão, por exemplo, a gnose. A filosofia, enquanto sabedoria prática e escola de vida, podia facilmente ser confundida com um conhecimento de tipo superior, esotérico, reservado a poucos iluminados. É, sem dúvida a especulações esotéricas deste género que alude S. Paulo, quando adverte os Colossenses: "Procurai que ninguém vos engane com falsas e vãs filosofias, fundadas nas tradições humanas, nos elementos do mundo, e não em Cristo" (2,8) São bem actuais estas palavras do Apóstolo, se referidas às diversas formas de esoterismo que hoje se difundem mesmo entre alguns crentes, privados do necessário sentido crítico ...
É injusta e improcedente a crítica de Celso, ao acusar os cristãos de serem gente "iletrada e rude". Na realidade, o encontro com o Evangelho oferecia uma resposta tão satisfatória à questão do sentido da vida, até então insolúvel, que frequentar os filósofos lhes pareceia coisa sem interesse e, em certos aspectos, superada.
Hoje, isto é ainda mais claro, se pensarmos no contributo dado pelo cristianismo, ao defender o acesso à verdade como um direito universal. Derrubadas as barreiras raciais, sociais e sexuais, o cristianismo tinha anunciado, desde as suas origens a igualdade de todos os homens perante Deus. A primeira consequência deste conceito registou-se no tema da verdade, ficando decididamente superado o carácter elitista que a busca da mesma tinha no pensamento dos antigos: se o acesso à verdade é um bem que permite chegar a Deus, todos devem estar em condições de percorrer esses caminho (...)"
Papa João Paulo II, Carta Encíclica A Fé e a Razão, 1998, (37,38).

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Junta explora "Santa"

O ouro dado por fiéis à santinha de Arcozelo vai hoje a leilão. A verba angariada será para ajudar os mais carenciados da freguesia. Porém, nem todos aceitam a verba extraordinária que entra nos cofres da Junta.

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em comum


Eu li a reportagem da Sábado sobre o Opus Dei com o espírito concentrado em dois pontos. Primeiro, para identificar as pessoas que utilizavam o Opus Dei para seu benefício pessoal. Segundo, para identificar as pessoas que davam ao Opus Dei, ou através do Opus Dei. Não encontrei ninguém na primeira categoria. Todas pertencem à segunda.

Existe uma passagem onde o advogado José Afonso Gil vende umas propriedades da fundação de que é administrador e entrega um cheque de mais de 700 mil contos a Jardim Gonçalves que, alegre, telefona à mulher para lhe anunciar: “Olha, cá está a massa para safar isto”. E o que é “isto”? É o passivo da Fomento, uma cooperativa de ensino que administra quatro colégios em Portugal. A obra do Opus Dei é sobretudo uma obra educacional em consonância com a finalidade primeira da Igreja Católica - o magistério da palavra de Cristo.

O tom da reportagem, porém, é económico, e o título é mesmo enganador: "A Fortuna Escondida do Opus Dei em Portugal”, a sugerir semelhanças com a Maçonaria. Mas nem o Opus Dei tem qualquer fortuna - os seus bens consistem em três jazigos -, nem as pessoas ou instituições que são beneméritas do Opus Dei escondem alguma coisa. Como, de resto, a reportagem mostra à evidência detalhando as propriedades e outros bens que essas pessoas e instituições possuem e até pondo preços de mercado sobre cada uma delas.

Para um economista como eu, a arquitectura económica em que assenta a actividade do Opus Dei - que é uma actividade consagrada à dádiva - é simplesmente genial. Só uma instituição como a Igreja Católica, que possui toda a memória histórica da humanidade, podia fazer assentar a dádiva numa organização económica tão original e eficaz. A explicação para esta arquitectura ecónomica é fornecida na reportagem numa afirmação que, de forma espúria ou não, é atribuida ao seu fundador, S. Josemaria Escrivá: “Os jesuítas perderam muitas coisas porque era fácil localizá-las. Não cometamos esse erro”.

A comparação com os jesuítas, que são tomados como referência, é interessante em dois sentidos. O primeiro é o que decorre da citação: se algum dia, em Portugal, o Estado perseguir o Opus Dei, como perseguiu os Jesuítas, e lhes confiscar as propriedades, só vai encaixar três jazigos. O segundo sentido tem uma natureza diferente.

O Opus Dei é hoje em Portugal e em outros países de tradicionalismo católico talvez a instituição da Igreja que mais mistério, mais desconfiança, mais ressentimento, mais impaciência e mais irritação suscita, e tudo isto exactamente na mesma medida em que os jesuítas suscitaram nos seus tempos áureos. Só a jovem revista Sábado já lhe dedicou cinco capas.

A razão é que o Opus Dei e os Jesuítas têm um importantíssimo elemento em comum.

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conservador "ma non troppo"

David Cameron has given his backing to extending the legal definition of marriage to include same-sex couples, a change he hopes will be a central achievement of his premiership.

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o que não se ensina nos MBA's

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absurdo

...a filosofia é tão difícil na sua prática e no seu pensamento como a física nuclear.

PS: Não há nada tão absurdo, mas foi dito por um filósofo. Cícero, De Divinatione

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24 Fevereiro 2012

milagre de carnaval

Casal homossexual que irá ter o primeiro filho em comum.

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O Samsung! My Samsung!

A minha tablet Samsung Galaxy 8,9 necessita de uma atualização de software, mas a atualização não instala normalmente e eu fui obrigado a recorrer ao apoio a clientes da Samsung.
Em conclusão, necessito de levar a tablet a um centro de assistência Samsung no Porto. Deram-me um número de telefone e uma direção.
Ligo e atendem-me de um “Grupo Tânia” ou “Titanium” ou qualquer coisa do género. Há uma lista de espera de 3 semanas para reparações (?), mas se pagar uma taxa moderadora de 9,00 € passam-me à frente da lista de espera e sou atendido no próprio dia. Sugerem-me que leve a tablet de manhã cedo para a poder ir buscar, em princípio, no fim do dia. Fixe, não é?
A I., que usa uma Asus EEPad Transformer, não teve de passar por nada disto. Hoje instalou o Android Ice Cream Sandwich, sem problemas.

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compare


Em alguns dos últimos posts defendi que uma economia de tradição católica assenta na instituição da dádiva. Compare a capa da revista Sábado com o que se diz aqui.

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Mario Draghi

O modelo social Europeu está obsoleto.
WSJ

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Jean Meslier


Até eu, que já devia ter experiência nestas coisas da propaganda britânica, me deixei levar pela patranha, que tenho repetido sem qualquer sentido crítico, de que o primeiro filósofo ateu da modernidade é o David Hume, nascido na muito presbiteriana Escócia. Mas não foi, não foi o primeiro ateu e, mais importante que tudo, não foi um ateu verdadeiro (Samuel Johnson, por exemplo, desconfiou até à morte do ateísmo de Hume).
Um verdadeiro ateu tem de ser em primeiro lugar um católico porque só um católico é capaz de levar as coisas ao extremo. E, então, se fôr padre ... Pois, como não podia deixar de ser, o primeiro filósofo ateu moderno, o autor do primeiro tratado sobre o ateísmo, o inspirador de Voltaire, e quase um século antes de Hume, foi um padre católico. Este.

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he can't be sure

Aqui

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a distância mais curta

Homo Sapiens em vias de descobrir que "a distância mais curta entre dois pontos é uma recta".

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a origem dos princípios a priori

Donde provêm o princípios a priori? Por definição, não podem resultar da experiência vivida por cada um de nós porque antecedem essa experiência e são válidos em quaisquer circunstâncias.
Podem, porém, resultar de uma experiência ancestral da nossa espécie. Podem resultar de uma seleção natural dos indivíduos que manifestaram uma tendência inata para reagir de determinadas maneiras ao seu meio ambiente.
Essa experiência ancestral, a que poderíamos chamar memória da espécie, evoluiu ao longo de milhões de anos e ficou associada a determinados genomas com expressões neuronais específicas que nos obrigam a pensar dentro de certos parâmetros.
Eu não necessito de demonstrar que a distância mais curta entre dois pontos é uma recta porque os meus antepassados longínquos foram selecionados para aceitar a evidência deste princípio. Os que “iam dar uma volta ao bilhar grande” para chegar de A a B, extinguiram-se.
Gosto bastante desta interpretação sobre a origem dos princípios a priori porque remete todo o conhecimento para a experiência. A experiência da espécie, relativamente ao conhecimento apriorístico e a experiência pessoal relativamente ao conhecimento empírico.

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IRC desce para 15%

... na Grécia!

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Senate Budget Committee - Per Capita Government Debt

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23 Fevereiro 2012

uma sociedade de deveres é racionalista

É possível justificar, de modo racional, a proibição de matar? Eu penso que sim. O assassínio compromete a sobrevivência de pequenos agregados populacionais e pode desencadear conflitos entre tribos e etnias que dizimem milhares de seres humanos. Elimina indivíduos geneticamente viáveis e compromete a diversidade humana.
Em última instância, o assassínio prejudica o próprio assassino que depende de uma sociedade coesa e saudável para a sua viabilidade. Sem a proibição de matar não poderia emergir o direito à vida e ninguém se poderia assumir como senhor de si próprio.
A proibição de matar é portanto uma interdição lógica e necessária à espécie e a cada indivíduo.

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Compra 200 gramas


A minha experiência, que gostaria de transmitir, é a de que o Catecismo da Igreja Católica tem resposta para todas as perguntas que um ser humano se possa colocar. Até à data, eu nunca me pus uma questão que não encontrasse resposta no Catecismo, qualquer que fosse a natureza da questão.
Uma objecção que imediatamente pode ocorrer é a de saber se o Catecismo também responde a questões do tipo: quando amanhã fôr ao supermercado, devo comprar 200 gramas de manteiga, ou 5 quilos?
A resposta é sim, mas antes de elaborar sobre ela eu gostaria de tecer algumas considerações.
A primeira vez que eu recorri ao Catecismo, não por mera curiosidade intelectual, mas para responder a uma questão importante da minha vida, foi há cerca de 6 anos quando fui objecto de um abuso fiscal. Eu já tinha solicitado ao fisco que o abuso fosse corrigido, através de dois requerimentos que não obtiveram resposta. Pelo contrário, passados meses, em lugar de corrigir o abuso, o fisco primeiro duplicou-o e depois triplicou-o.
A questão era tributária e, portanto, económica, estava dentro do meu domínio profissional. Eu procurei resposta à questão em todas as teorias económicas que conhecia, e não eram poucas, mas todas de inspiração protestante, liberais e socialistas. E a questão era simples: como é que eu devo reagir perante o fisco que me obriga a pagar um inposto (IRS) que eu já paguei?; que, não contente com isso, me obriga a pagar uma multa e juros pelo alegado atraso no imposto que eu já paguei?; e - para cúmulo - depois de eu ter pago pela segunda vez, mais a multa e os juros, passadas três semanas me manda penhorar as contas bancárias por falta de pagamento desse imposto que eu já tinha pago duas vezes, mais a multa e os juros?
E foi com um enorme desespero que eu concluí que toda a Ciência Económica que eu tinha aprendido e quase durante uma vida ensinado, não me dava resposta a esta questão tão simples: o que é que devo fazer, depois de já ter feito doi requerimentos que nem sequer resposta tiveram? E foi neste ambiente que uma tarde, já conformado que provavelmente ainda tinha de ir suplicar ao fisco que me desbloqueasse as contas bancárias e me devolvesse o dinheiro do segundo pagamento mais multa e juros, que tinha lá e me pertencia, que me pus a folhear o Catecismo. Nunca mais o larguei nessa tarde e, no final do dia, tinha a resposta no arts. 2242/2243: "Revolta-te. Estás legitimado para te revoltares e até para usares a violência se fôr necessário".
E foi isso que eu fiz no dia seguinte. Revoltei-me e usei da máxima violência verbal de que fui capaz perante o responsável máximo do fisco. Nessa mesma tarde, o problema foi resolvido, as contas desbloqueadas e recebi a promessa da devolução do dinheiro dentro de dez dias.
A partir daí, eu vou ao Catecismo sempre que tenho algum problema para resolver, mesmo os de natureza económica. Encontro sempre a resposta. E tenho ido lá para obter respostas a problemas muito mais importantes do que os de natureza económica ou fiscal, como são os problemas da doença e da morte, da razão e da fé, da vida eterna ou da ausência dela. É sempre uma resposta encantadora, tranquilizadora, racional e perfeitamente coerente com as respostas que ele me deu a todas as questões anteriores.
Mas, então, amanhã no supermercado devo comprar 200 gramas de manteiga, ou 5 quilos?
Os primeiros catecismos foram escritos na forma pergunta-resposta, mas esta não é a forma adequada para responder a todas as perguntas possíveis e imaginárias que uma pessoa se pode pôr na vida. Exigiria milhões de volumes. Por isso, o actual Catecismo da Igreja Católica está escrito em forma narrativa, a qual permite generalizações, inferências e deduções, consentindo que o Catecismo se reduza a um só volume de menos de 700 páginas. Eu não posso, portanto esperar, que o Catecismo contenha a resposta directa àquela questão e aos milhões de questões da mesma natureza que eu poderia colocar.
Porém, não apenas o Catecismo contém respostas a todas as perguntas que eu lhe possa colocar, como fornece uma resposta pessoalizada, segundo as circunstâncias em que se encontra a pessoa que coloca a questão. E, segundo as minhas circunstâncias actuais, a resposta que o Catecismo me dá à questão acima é a seguinte: "Compra 200 gramas".

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de Alfama

No post anterior salientei que a teologia da libertação, tendo tido origem na Alemanha, acabou em luta de classes. A questão que quero agora colocar é a seguinte: mas que tipo de pensamento - político, social, económico, teológico - que tenha origem na Alemanha não acaba em luta? Não conheço nenhum.

Em português de Alfama, estes gajos são lixados para pôr a malta toda à porrada.

Num post anterior, o Joaquim citou o Herman Hoppe que, depois de enumerar um certo número de proposições, transmite a seguinte mensagem ao leitor: "Se você não concordar comigo (e com os da minha escola miseana), você está mas é maluco".

E o que se faz a um maluco? Encarcera-se, e se ele não fôr a bem, vai a mal. Esta ideia de que quem não concordar com a seita só pode ser um louco, e portanto ser objecto de tratamento adequado, teve origem no Kant e está documentada aqui e aqui (em estrangeiro). Em quem é que havia de ser?

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uma contribuição protestante

Dentre as contribuições protestantes que o Papa Bento XVI deu à Igreja Católica moderna, talvez a mais importante foi dada ainda como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé quando presidiu à comissão de teólogos que durante anos elaborou o novo Catecismo da Igreja Católica, promulgado pelo Papa João Paulo II em 1992.

O Catecismo uma contribuição protestante?

Sim. O catecismo é uma ideia protestante que o catolicismo imitou do protestantismo. A palavra catequese vem do verbo grego katechein que significa ressoar ou ecoar, e, na verdade, é mais fácil imaginar um pastor luterano do que um padre católico - excepto se fôr jesuíta - de megafone na mão a fazer ecoar a sua doutrina, a proselitar.

Os primeiros catecismos são o Pequeno Catecismo de Martinho Lutero e o Catecismo Alemão, ambos publicados em 1529. Os católicos imitaram a ideia ainda na Alemanha, tendo S. Pedro Canisius produzido três catecismos entre 1555 e 1559, um para o clero, outro para os jovens, outro ainda para as crianças. E foi só em 1566, quase 40 anos depois do primeiro catecismo protestante, que saiu um catecismo de Roma, o Catecismo do Concílio de Trento para o Clero.

Embora desde então tenham existido catecismos para certos sectores da Igreja Católica - como o Catecismo americano que teve uma duração de vida de 75 anos no século XIX, e destinado à Igreja Católica da América -, a verdade é que o Catecismo de 1992, elaborado pela comissão presidida pelo Cardeal Ratzinger, é o segundo Catecismo oficial da Igreja Católica e produzido a uma distância de 426 anos do primeiro.

O Catecismo contém a versão oficial e autoritária da doutrina católica, e tem a forma de um código legislativo com os artigos devidamente numerados, 2865 no total. É o código da fé católica, reflectindo o ênfase protestante que, tendo rejeitado a Tradição como fonte da Revelação e retido apenas as Escrituras (A Lei), desenvolveu a tendência para juridicalizar a vida e codificá-la.

O catolicismo guardou a Bíblia e a Tradição como fontes da revelação divina. Pode dizer-se que o Catecismo é o livro que representa a Tradição, pois é ele que contém a interpretação da Bíblia, destilada por mais de dois mil anos de experiência histórica da humanidade. O Catecismo é O Livro do catolicismo e, para os leigos pelo menos, é muito mais importante do que a Bíblia.

Nos mais de quatro séculos que medearam entre os dois Catecismos saídos de Roma, a doutrina católica andou dispersa pelo Catecismo de Trento, pelos vários documentos conciliares, pelas encíclicas, e pelos vários pronunciamentos papais acerca das questões da fé católica. Neste ambiente, e à excepção talvez de alguns teólogos, ninguém sabia ao certo o que era a doutrina católica.

Foi também neste ambiente, acentuado pela liberalidade que o Concílio Vaticano II veio trazer à interpretação do catolicismo, que o Cardeal Ratzinger assumiu as funções de guardador da fé católica a partir de 1981, na sua condição de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Inquisção). Mas o que era a fé católica? Em muitos aspectos, ninguém sabia ao certo.

Por exemplo, a recente teologia da libertação tinha sido desenvolvida na Alemanha, mas para se saber ao certo a verdade acerca dela a Alemanha era um mau laboratório. Um bom laboratório, capaz de a levar aos extremos, tinha de ser um país profundamente católico. O teólogo brasileiro Leonardo Boff estudou na Alemanha sob a orientação de professores que eram adeptos da teologia da libertação e, quando mais tarde regressou ao Brasil, foi isso mesmo que ele foi fazer - leva-lá ao extremo. Em breve, em nome da teologia da libertação estava a defender a luta de classes e a alimentar movimentos marxistas na América Latina, em nome do cristianismo.

Ora, a luta entre os homens - a luta de classes ou qualquer outra forma de luta - é exactamente o oposto da mensagem de Cristo, que pregou o amor entre os homens. Foi com estas questões que o Cardeal Ratzinger teve de lidar, e foi com o vigor intelectual de um protestante - e por oposição à bagunçada doutrinal em que o catolicismo vivia há séculos, sob a direcção de Papas predominantemente italianos - que ele se entregou à tarefa de definir com rigor o que era a verdadeira fé católica.

Muitos sectores da Igreja não gostaram. A Leonardo Boff e a vários outros teólogos foi-lhes retirada a licença para ensinarem em nome da Igreja Católica. O caso mais célebre é talvez o do teólogo suíço Hans Kung que nos anos sessenta tinha levado o jovem Ratzinger para a prestigiada Universidade de Tubingen, onde ambos foram durante anos professores, colegas e amigos. Kung começou a ensinar, entre outras coisas, que a Igreja Católica devia ser governada, não por um Papa, mas por um colégio de cardeais democraticamente eleitos. Ora, isto era protestantismo do mais puro. Ficou também sem licença e, indignado, chamou “nazi” ao seu ex-colega.

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O Papa Protestante


Eu gostaria aqui de retomar o meu post anterior para o relacionar com esta notícia.

Aquilo que é nítido no embate entre S. Tomás e Kant é o contraste entre o realismo católico e o idealismo protestante. E qual é o sentimento que, no extremo, o protestante inspira ao católico e, reciprocamente, o católico ao protestante?

O protestante inspira ao católico um sentimento de impaciência, primeiro, e de irritação depois, reflectido nos expletivos que S. Tomás a certa altura profere, e este sentimento é motivado pela teimosia do protestante em ignorar a realidade. Pelo contrário, o sentimento que o católico inspira no protestante é, em primeiro lugar, o de perturbação e, depois, de aversão, de distanciamento, porque o católico não deixa o protestante concentrar-se no seu mundo ideal.

Quem tem a verdade neste debate, se é que se pode chamar debate a uma conversa em que um fala para o outro e este fala para o ar? Têm ambos, embora o católico mais do que o protestante. Não é este, porém, o ponto em que me pretendo deter aqui. O ponto que pretendo salientar é que a atitude de S. Tomás, quando levada ao extremo, torna inviável qualquer inovação neste mundo - só se chega daquela sala à arrecadação dando sete curvas, ponto final. Pelo contrário, a atitude do Kant, quando levada ao extremo, torna impossível a vida neste mundo.
A porção da verdade que existe no Kant está em que, depois da observação de S. Tomás acerca das sete curvas que é preciso fazer entre a sala e a arrecadação, o Kant, naquela sua atitude especulativa de olhar para o ar, talvez estivesse a pensar que a maneira de reduzir o número de curvas seria construir um túnel que ligasse directamente a sala à arrecadação.

É possível ser católico e também protestante, o que não possível é o contrário, ser protestante primeiro e católico depois, porque ser protestante implica a secessão da comunidade católica. E, tendo dito isto, eu penso que se tivesse de arranjar um cognome para o Papa Bento XVI, chamar-lhe-ia o Papa Protestante. Este é o Papa que mais tem contribuido para fazer o catolicismo, que é uma cultura universal, assimilar os elementos bons que resultaram do protestantismo.
Ele é o Papa do catolicismo moderno, por oposição ao catolicismo tradicional, prevalecente em países como a Itália, Portugal e a Espanha que não foram submetidos à Reforma do século XVI. É natural, pois que este Papa enfrente o pior dos dois mundos, os católicos tradicionais ressentindo nele o seu protestantismo ou progressismo (v.g., na ideia de transparência das coisas do Vaticano, no seu rigor doutrinário, no seu apreço pela disciplina, na sua tendência para regulamentar e legislar, no seu alto conceito de justiça) ao passo que os católicos protestantes ou progressistas vêm nele o tradicionalista adepto da autoridade suprema e absoluta, dando mais importância à Tradição do que às Escrituras, concedendo um lugar maior ao coração do que à razão (para o Papa Bento XVI, Santo Agostinho é o grande filósofo da Igreja, à frente de S. Tomás).

Eu não acredito que exista uma conspiração para matar o Papa. Mas acredito que o Papa pode vir a renunciar ao seu mandato, alegando razões de saúde e de idade. Seria mais uma atitude protestante, sair de um lugar, cedendo-o a outro, depois de sentir que já cumpriu a sua missão nesse lugar. Um católico tradicional, pelo contrário, sentando-se num lugar, fica lá até à morte, como, por exemplo, Alberto João Jardim na Madeira ou a maior parte dos políticos portugueses, se os deixassem.

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pensamento anglo-saxónico

Sex selection is illegal and is morally wrong.

Abortion, on demand, is legal and morally right.

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22 Fevereiro 2012

deveres & direitos

Antes de quaisquer direitos, todos nascemos com deveres. O dever de respeitar a verdade, talvez o maior de todos – expresso como a obrigação de adorar apenas um Deus, um Deus = uma Verdade. O dever de não matar, de não roubar, de não prestar falsos testemunhos, de não cometer excessos e ainda de preservar as tradições.

Se todos respeitássemos estes deveres, todos desfrutaríamos dos correspondentes “direitos”, o direito à vida, por exemplo, decorrente de todos respeitarem o dever de não matar.

Uma sociedade construída em torno de deveres, precisa de muito pouca regulação. Apenas proíbe comportamentos que ancestralmente são considerados anti-sociais.

Uma sociedade construída em torno de direitos, porém, necessita de uma complexa regulação. O direito à vida, por exemplo, tem de ser enquadrado nos códices jurídicos. Um assassino ainda tem direito à própria vida, depois de tirar a vida aos outros? E em que circunstâncias? O crime foi premeditado? Houve intenção de matar? O criminoso lucrou ou esperava lucrar com o crime?

Parece-me que uma sociedade alicerçada em direitos depende de um edifício social e jurídico de elevada complexidade. Certamente que, em Portugal, esse edifício não existe e a cultura popular não o permite. Os portugueses não entendem o direito à propriedade privada, por exemplo, embora saibam perfeitamente que não devem roubar.

Nos países anglo-saxónicos, pelo contrário, a cultura popular lida bem com as questões dos “direitos” e todos parecem compreender os seus limites e a sua importância.

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Negative Confessions

















Hail to thee, great God, Lord of the Two Truths. I have come unto thee, my Lord, that thou mayest bring me to see thy beauty. I know thee, I know thy name, I know the names of the 42 Gods who are with thee in this broad hall of the Two Truths . . . Behold, I am come unto thee. I have brought thee truth; I have done away with sin for thee. I have not sinned against anyone. I have not mistreated people. I have not done evil instead of righteousness . . .

I have not reviled the God.

I have not laid violent hands on an orphan.

I have not done what the God abominates . . .

I have not killed; I have not turned anyone over to a killer.

I have not caused anyone's suffering . . . I have not copulated (illicitly); I have not been unchaste.

I have not increased nor diminished the measure, I have not diminished the palm; I have not encroached upon the fields.

I have not added to the balance weights; I have not tempered with the plumb bob of the balance.

I have not taken milk from a child's mouth; I have not driven small cattle from their herbage . . .

I have not stopped (the flow of) water in its seasons; I have not built a dam against flowing water.

I have not quenched a fire in its time . . .

I have not kept cattle away from the God's property. I have not blocked the God at his processions.

Texto do Livro dos Mortos, (2375 - 2345 BC)

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eis o problema

As empresas públicas são instrumentos da política económica dos Governos.

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