18 setembro 2013

só falta a Oceania

Não apenas Portugal seria capaz de viver completamente isolado do mundo, como, ao mesmo tempo, os portugueses seriam capazes de saber tudo aquilo que se passa no mundo - porque sem as novidades acerca do que se passa no mundo é que nós não seríamos capazes de passar. A razão é que existem portugueses em todos os  sítios do mundo.

Existe na nossa história recente um episódio que comprova esta tese. A partir dos anos 60, Portugal ficou crescentemente isolado da comunidade internacional por causa da guerra colonial. E que consequências teve isso para a economia nacional? Praticamente nenhumas. Na realidade, nós continuámos a crescer a taxas muito superiores às daqueles que cortaram relações connosco, e com pleno emprego.

Fechar, ainda que parcialmente, a economia portuguesa, é uma condição sine qua non para sairmos da situação em que nos encontramos. Por fecho, eu significo restringir as importações, neste país cuja cultura torna os portugueses ávidos de importações e admiradores irreformáveis de tudo aquilo que é estrangeiro.
Ainda agora, no post anterior, falando eu da capacidade dos portugueses para imitar, a nossa comentadora zazie foi à caixa de comentários dizer que os chineses é que são os melhores a imitar. Eu não podia estar mais de acordo. Porquê? Porque os chineses são estrangeiros.

Existem várias maneiras de restringir as importações, mas as mais óbvias são a desvalorização cambial, que implicaria o desmembramento da zona Euro, e as tarifas aduaneiras, o que implicaria o desmembramento do Mercado Único ou um regime de excepção para Portugal. E é isso que vai ter de acontecer, ou ainda alguém tem esperanças que, pelo presente caminho, sairemos da situação em que nos encontramos? Eu não tenho, desde há muito.

Eu tenho uma filha que é economista e que trabalha na Suíça. Numa das suas recentes viagens a Portugal disse-me que achava curioso que os suíços gostavam de passar férias era na Suíça. Expliquei-lhe que a cultura protestante, de que a Suíça foi um dos principais centros, é uma cultura paroquial. Eles gostam em primeiro lugar das suas coisas e daquilo que é deles, ao contrário de nós que gostamos em primeiro lugar daquilo que é estrangeiro.

E acrescentei: "Os suíços gostam é de passar férias na Suíca. Agora, olha para ti. Estás há três anos na Suíça. E já foste passar férias ao Brasil, ao Egipto, à Tailândia, ao Dubai, a Malta e várias vezes em Portugal. Em três anos já correste os quatro continentes do mundo, só te falta a Oceania".

O exemplo acabado do provincianismo da cultura protestante é o Kant, apropriadamente, e sob vários pontos de vista,  chamado o filósofo do protestantismo. Nunca saiu da sua parvónia e, no entanto, teve a pretensão de emitir sentenças com carácter universal. Mas quem é que vai convencer um intelectual português de que o Kant era um pacóvio?

1 comentário:

Emanuel Lopes disse...

Embora concorde com algumas das ideias, não deixo de estar preocupado com algumas das considerações que faz. Eu não tenho grande desejo de passear pelo mundo. Aliás, à parte de algumas viagens a Alemanha e a Espanha, nunca fui para o estrangeiro. Por outro lado, gabo sempre aquilo que é feito em Portugal, mesmo certas porcarias, ao mesmo tempo que desvalorizo o que é feito no estrangeiro. Estou sempre a dizer que temos o melhor vinho e os melhores enchidos do mundo. (uma vez provei Napa Valley e sabia a terra. Nunca mais quis beber). Isso faz de mim alguém a viver em Portugal, mas com uma cultura de outro país, mesmo que lá nunca tenha estado?