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29 junho 2009

nem se governam nem se deixam governar


"Para fugir aos naturais enviesamentos da forma como nos olhamos a nós próprios, é sempre útil procurar ver-nos no espelho do olhar dos outros (...) O olhar de dentro de Teixeira de Pascoaes ajuda, talvez, a compreender melhor, e a relativizar o olhar de fora de Kapuscinski e a sua sentença de "individualistas empedernidos". Os portugueses têm, de facto, sinais comportamentais que não facilitam a sua organizada inserção comunitária. Daí, provavelmente, a frase que sobre os nossos antecessores Lusitanos é atribuída a Gaius Julius Caesar (110-44 aC): "há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar". Mas não creio que o português típico - se é que existe essa figura - apesar de desorganizado e ter pouca disponibilidade para cooperar com os outros, seja especialmente dotado para afirmar e assumir a sua individualidade. (...) Por isso tenho alguma simpatia por uma interpretação baseada na tese que Michael Oakeshott (*) sustentou, em 1958, nas suas Conferências de Harvard. (...) De um lado (...) a "moralidade da individualidade" (...) de outro lado (...) a "moralidade do colectivismo". (...) Assim e à luz desta tese de Oakeshott, creio ser mais razoável identificar o "carácter" dos portugueses com a moralidade do segundo tipo de governados. Aliás, o que o filósofo José Gil escreveu, a dado passo do livro, "O Medo de Existir", tende a reforçar a interpretação que aqui partilho."

Bento, Vítor (2009). Perceber a crise para encontrar o caminho. Lisboa: Bnomics.

(*) Para mais acerca do pensamento de Michael Oakeshott leiam o ensaio de João Carlos Espada publicado este fim de semana no "i".

13 abril 2009

arriscarem a sua reputação


A falta de originalidade do pensamento político português, a que me refiro no post anterior, é a outra face do espírito de imitação que caracteriza a nossa cultura, e a que Teixeira de Pascoaes faz referência aqui, apontando-o como um dos maiores defeitos da cultura portuguesa.

Como tenho vindo a referir, os portugueses só acreditam nas ideias que são partilhadas pelo grupo. Uma ideia original, por definição, não é partilhada pelo grupo. Por isso, os portugueses não são originais. O português típico não acredita nas suas próprias ideias e, por isso, tem medo de as expôr, porque a reacção do grupo é invariavelmente céptica, se não mesmo destrutiva. As ideias originais na nossa cultura permanecem uma miragem.
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E, no entanto, aquilo que Portugal mais precisa são ideias originais que procurem conceber soluções e instituições adaptadas à sua cultura e aos valores dos tempos. Nunca essas ideias sairão, como nunca sairam, das universidades. As universidades em Portugal foram fundadas pela Igreja para difundirem as ideias da Igreja quando ela tinha poder. Hoje continuam a ser instituições para difundir as ideias do poder, significando as ideias do PS, do PSD, do CDS, do PP e do BE, as quais são invariavel e monocordicamente ideias importadas do estrangeiro e de uma cultura diferente e , portanto, ideias em segunda mão.
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Em Portugal, a originalidade do pensamento político e social vai ter de partir de homens e mulheres independentes e fora das instituições, com a confiança suficiente no seu intelecto e a coragem suficiente para arriscarem a sua reputação expondo-as e defendendo-as publicamente. Esses homens e mulheres não se encontram nas universidades e nas instituições, e muito menos nos partidos. Aí encontram-se precisamente os menos originais de todos.

17 março 2009

Balanço


Aquilo que caracteriza a sociedade portuguesa desde 1820, quando pela primeira vez foi implementada a democracia, é a sua permanente instabilidade, a qual está a ressurgir agora outra vez com os apertos causados pela crise económica e com a destruição que 35 anos de democracia produziram nas instituições.

Eu não conheço um autor que alguma vez tenha fornecido uma teoria coerente para este mistério, em parte porque os portugueses não são dados ao pensamento abstracto . Sempre que a democracia, desde 1820, se implementou no país, o país acabou mal. E da primeira vez até acabou muito mal, numa guerra civil. É essa teoria que eu tenho vindo a construir.

O meu ponto de partida é a cultura católica dos portugueses. Dos autores modernos que eu conheço e que se deram conta da importância de conhecer os portugueses, nenhum acabou a fornecer um quadro racional e lógico com capacidade explicativa e previsiva acerca dos grandes comportamentos da sociedade portuguesa, e , em particular, da instabilidade permanente dos últimos duzentos anos.

Alexandre Herculano só muito tarde se apercebeu da importância do factor cultural e católico para compreender Portugal, e deixou algumas observações sobre o carácter dos portugueses que, sendo verdadeiras, são insuficientes para construir um quadro explicativo coerente. Fernando Pessoa deu algumas contribuições importantes, devido à sua educação anglo-saxónica, mas não foi muito longe a compreender o povo português.
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Teixeira de Pascoaes foi mais longe, mas as suas observações acerca do que ele chamava A Arte de Ser Português, embora geralmente certeiras, relevam mais da sua sensibilidade de poeta do que de um quadro de análise racional e lógico. Salazar foi talvez o homem que foi mais além no conhecimento dos portugueses, mas ainda assim as suas observações, na maioria acertando no alvo, são ocasionais, desarticuladas e resultam do seu espírito observador e minucioso e das necessidades do ofício. Escusado será acrescentar que, na minha opinião, homens como Eça de Queiroz ou Ramalho Ortigão não fizeram sobre os portugueses qualquer observação original, e que não pudesse ser feita, embora talvez com menos talento, por qualquer homem do povo.

Assim, por exemplo, Salazar deu-se conta da falta de sentido de justiça do povo português, mas estava errado quanto à sua origem, que ele atribuiu à deseducação do povo (cf. aqui). A verdadeira razão da falta de sentido de justiça do povo português resulta da sua cultura católica e do extraordinário liberalismo e tolerância popular desta cultura.

Noutros casos, Salazar estava completamente errado, por exemplo quando atribui aos portugueses uma certa propensão para a abstracção (Prefácio do vol. III dos Discursos). Na realidade, a última qualidade que se pode atribuir aos portugueses é a capacidade para a abstracção. Aquilo que Salazar pretendia dizer é que os portugueses têm propensão para a fantasia, e são frequentemente fantasistas, uma característica que resulta ainda da sua incapacidade de julgamento.

Eu tive o benefício dos contributos destes homens que pensaram o português moderno antes de mim. Assim, a observação de Salazar acerca da falta de sentido de justiça dos portugueses intrigou-me durante muito tempo, quer quanto a saber se era adequada, quer, em caso afirmativo, quanto a saber a sua causa. Hoje, como tenho repetidamente afirmado, não só considero a observação adequada, como conheço a sua causa. Naquela observação, Salazar, sem o saber, estava a tocar naquele que é, de longe, o pior defeito dos portugueses - a sua radical incapacidade de julgamento ou falta de sentido de justiça - e do qual muitos dos outros defeitos menores dos portugueses são derivados.

A blogosfera foi também um benefício. Num blogue aberto permitindo a expressão livre ao ponto do anonimato, os portugueses que surgem a comentar exibem não apenas a sua cultura mas, por virtude da absoluta liberdade de expressão de que dispõem, fazem-no até ao exagero. Por isso eu tenho beneficiado bastante dos comentadores mais exagerados porque eles exibem certos traços da cultura portuguesa, às vezes ampliados mil vezes, e que numa pessoa normal e moderada não seriam tão claramente discerníveis.

14 fevereiro 2009

para além de Badajoz


Em posts anteriores, tenho referido a incapacidade da cultura portuguesa para o pensamento abstracto como uma das suas grandes deficiências, e os custos que essa deficiência, por vezes, acarreta. Por isso, eu não posso senão sentir admiração por homens como Teixeira de Pascoaes que, neste particular, são verdadeiras excepções na nossa cultura.
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Pascoaes procurou construir uma ciência - a ciência, que ele na altura chamou arte, de Ser Português - e que gostaria de ver ensinada nas escolas. Este sonho, infelizmente, nunca se concretizou. Mas pode um dia concretizar-se - outros, entretanto, contribuiram, e ainda outros contribuirão no futuro para essa ciência, que seria um ramo da sociologia, e que teria um enorme alcance prático para todos os portugueses, especialmente nos domínios, social, económico e político.
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Porém, a mera capacidade de Pascoaes para imaginar e ser o iniciador de uma nova ciência revela imediatamente a sua propensão para o pensamento abstracto. A ciência faz-se de abstracções, não da coleccção de factos desligados entre si, como é próprio do pensamento concreto.
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A minha pretensão neste post é dupla. Pretendo, primeiro, salientar duas limitações de Pascoaes. Segundo, pretendo juntar-lhe alguns outros homens da nossa cultura que, no meu conhecimento, contribuiram para a ciência que ele pretendia ver desenvolvida e extraír daí uma hipótese de trabalho futuro.

O livro onde Pascoaes reune as suas observações acerca dos portugueses - A Arte de Ser Português - é um livro verdadeiramente original e fundador. Tem, porém, algumas limitações, de que destacarei agora duas. A primeira é que os defeitos que ele aponta aos portugueses são em muito maior número do que as qualidades - exactamente o dobro. Tal deve-se ao facto de a cultura portuguesa exibir o seu melhor na esfera privada, e o seu pior na esfera pública. Para quem observa de fora, sem penetrar na cultura íntima dos portugueses - nas suas casas, nos seus círculos de amigos, nas suas famílias, até nas suas camas - vê muito mais defeitos do que qualidades.

A segunda limitação reside no facto de Pascoaes não se ter apercebido que as qualidades e os defeitos que ele aponta aos portugueses não serem, na realidade, exclusivas dos portugueses. Existem também - apenas com uma diferença de grau - nos espanhóis, nos argentinos, nos venezuelanos, nos brasileiros, nos chilenos, nos peruano e nos italianos. São qualidades e defeitos da cultura católica. Neste aspecto, Pascoaes não conseguiu abstraír para além de Badajoz.

Pascoaes era um poeta e, entre os homens da cultura portuguesa, que revelaram a capacidade de abstracção necessária para contribuirem para a sua ciência do Ser Português, existem alguns que eu dou como certos: Alexandre Herculano, Salazar, Camões, Fernando Pessoa, para além dele próprio. Aquilo que me surpreendeu ao considerar este grupo é que existe nele uma desproporção de poetas. Estará a capacidade de abstracção, rara na cultura portuguesa, mais entre os poetas do que noutro grupo qualquer? E bem provável que sim, concluí. É que entre os grandes prosadores portugueses - homens como Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, a única excepção sendo talvez Camilo - eu não vejo a mínima capacidade de abstracção. Eça e Ramalho, neste aspecto, até metem dó.
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É tomando como boa, embora de forma provisória, esta hipótese de trabalho que eu decidi ir conhecer melhor os poetas portugueses, com o propósito de poder contribuir para o desenvolvimento da ciência que Pascoaes fundou. É claro que eu ficaria muito grato aos leitores que, interessando-se por estas matérias, e conhecendo a poesia portuguesa melhor do que eu, me pudessem ajudar, indicando-me poetas em cujas obras exista uma tentativa ou um esforço para descrever o que é Ser Português.
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(Nota: Eu próprio não consegui resistir a ser português no título que dei a este post, destacando uma limitação de Pascoaes, nunca uma sua qualidade.)

13 fevereiro 2009

uma susceptibilidade infinita


Entre os defeitos que Teixeira de Pascoaes atribui aos portugueses encontra-se aquele que ele designa por Vaidade Susceptível. Esta é uma susceptibilidade associada a uma forma de vaidade que é típica dos portugueses - a de gostarem de aparentar, a de quererem parecer mais e melhor do que aquilo que na realidade são.

Na opinião de Pascoaes este é um defeito que deriva do glorioso passado colonial do país. Nas suas palavras, o português "(c)ontinua a viver, em sonho, o poderio perdido. Mas como toda a vida fantástica pressente o próprio nada que a forma, (ele) torna-se, por isso mesmo, de uma susceptibilidade infinita, sangrando dolorosamente, ao contacto de qualquer coisa de real que, junto dele, se ponha em contraste revelador da sua ilusória aparência".

O português típico gosta de aparentar em público, de parecer em público melhor do que aquilo que na realidade é, de proclamar aí grandiosos princípios que o façam parecer bem, mas que nâo têm correspondência na prática da sua vida real. Mas se alguém lhe chama a atenção para a enorme discrepância entre aquilo que ele diz ser, ou proclama, e a verdadeira realidade daquilo que ele é, ou faz, a sua susceptibilidade é imensa. Sente-se ofendido e reage mal, às vezes furiosamente. E inventa então um milhão de razões, desculpas, fugas, estratagemas, para tentar conciliar o inconciliável - a aparência e a realidade. Trata-se de uma manifestação da falta de sentido da verdade existente na cultura portuguesa, a que já me referi noutros posts.

Na explicação de Pascoaes: "O português é um herdeiro esbulhado dos seus bens materiais e espirituais. Mas vão dizer-lhe que é pobre. Suprema ofensa! Não ignora a sua pobreza, porque é vaidoso, mas quer que os outros a ignorem; e serve-se, para isso, de todos os meios que iludem, criando o seu drama em que é autor e actor. E engendra mil preconceitos, fórmulas, propícios à atmosfera de ilusão em que pretende viver acompanhado ..."

09 fevereiro 2009

à procura de um destino comum


A liberdade de expressão é uma instituição que se destina a resolver conflitos e, portanto, uma instituição dos países protestantes, onde o protesto e o conflito são o traço dominante da sua cultura. Pelo contrário numa sociedade católica, onde a conformidade é a norma, não só essa instituição não resolve conflitos nenhuns, como é uma fonte de conflitos inumeráveis.

Uma das manifestações da instituição da liberdade de expressão é o debate, e eu gostaria de descrever neste post como decorre um debate em Inglaterra ou nos EUA e, alternativamente, em Portugal. Imagine um debate na televisão sobre qualquer tema envolvendo duas pessoas que se sabem ter posições diferentes acerca dele.

Começo pela Inglaterra. Um dos participantes avança a sua tese. O moderador passa a palavra ao outro participante que também avança a sua tese, distinta da anterior. A palavra é devolvida ao primeiro, que dá mais um avanço na sua tese, e depois ao segundo que procede de modo idêntico. E assim por diante. No final do programa, ou as teses convergem para um ponto comum - e é assim que a liberdade de expressão contribui para resolver conflitos -, ou não convergem. Certo é que nós vimos desfilar perante os nossos olhos, do princípio ao fim, duas teses distintas e concorrentes. Repare também na posição do moderador, que é de absoluta neutralidade.

Passemos agora a Portugal. Um dos participantes faz uma intervenção. Quando a palavra é passada ao segundo, aquilo que ele faz em primeiro lugar é declarar que concorda com o outro (caso em que o debate perde todo o interesse, porque em lugar de dois participantes devia só lá estar um), ou, mais frequentemente, que discorda dele. E, em lugar de avançar uma tese própria, fica ali o tempo todo a dizer porque é que discorda do outro participante. É claro que, quando a palavra é devolvida ao primeiro, este, em lugar de dar mais um avanço na sua tese, vai mas é dizer porque é que discorda das discordâncias do segundo. Frequentemente, o moderador toma partido e ele próprio discorda das discordâncias que o primeiro participante, da segunda vez que falou, manifestou acerca das discordâncias que o segundo participante apresentou à sua intervenção original. Acaba tudo na salganhada habitual.

Repare numa diferença essencial. No primeiro caso (Inglaterra) os participantes no debate são dois companheiros de viagem que seguem por uma estrada, à procura de um destino comum. No segundo caso (Portugal), eles tornam-se dois adversários que ficam ali parados no meio da estrada às turras um ao outro.

Teixeira de Pascoaes tinha razão aqui.

04 fevereiro 2009

a floresta


Neste post Teixeira de Pascoaes refere a inaptidão da cultura portuguesa para a filosofia (e para a ciência, acrescentarei eu). Pascoaes prossegue escrevendo assim:

"O português não é nada filósofo; a luz do seu olhar alumia mais do que vê; não abrange, num golpe de vista, os conhecimentos humanos, subordinando-os a uma lógica perfeita e nova que os interprete num todo harmonioso".

A razão para este fenómeno é uma excessiva propensão dos portugueses (católicos) para formas de pensamento concreto, em oposição ao pensamento abstracto mais prevalecente nos países do norte da Europa e da América do Norte (vg., ingleses, alemães, etc) (*).

O pensamento abstracto ignora (abstrai) as circunstâncias, o superficial e o acessório, para se concentrar naquilo que é permanente e essencial. O pensamento abstracto simplifica a realidade e é sobre aquilo que é permanente e essencial nela que constrói um argumento ou uma tese. O pensamento abstracto é o pensamento da ciência e da filosofia.

O pensamento concreto, pelo contrário, concentra-se nos factos singulares ou individuais dando uma importância excessiva às circunstâncias e àquilo que é superficial e acessório. Ele mistura o essencial com o acessório e exprime-se contando episódios ou histórias acerca dos factos. Nenhuma tese emerge dele, excepto, às vezes, de forma implícita, como a moral da história. Esta é a forma de pensamento propícia à literatura e à poesia.

Numa analogia simples, o pensamento abstracto ignora todas as árvores, mas sabe que a floresta é verde (a tese). Pelo contrário, o pensamento concreto conhece todas as árvores, uma a uma, nas suas peculiaridades individuais, mas não sabe de que côr é a floresta (não tem tese).

(*) O pai do pensamento asbtracto moderno é Kant.

02 fevereiro 2009

uma diferença essencial



Há uma diferença essencial entre escritores como Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, por um lado, e Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, por outro. Para os primeiros, a escrita era um acto de liberdade e de consciência; eles não viviam da escrita e, por isso, não escreviam para o povo. Os segundos, pelo contrário, escreviam para o povo - para o mercado - e precisavam desse dinheiro como do pão para a boca; a correspondência assídua entre eles quase não trata de outra coisa - dinheiro.
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Outra diferença é que Ortigão e Eça eram dois ideólogos de esquerda - eles queriam revolucionar Portugal, destruindo a ordem social existente (pelo menos até ao momento em que lhes ofereceram tachos - a partir daí passaram a ser mais conservadores). Pascoaes e Pessoa, pelo contrário, eram duas almas à procura da verdade.
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Numa carta datada de Newcastle em 3 de Março de 1878, Eça escreve a Rodrigues de Freitas:
"O que queremos nós fazer com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau, por persistir em se educar segundo o passado; queremos fazer a fotografia, is quase dizer a caricatura do velho mundo burguês, sentimental, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc. E apontando-o ao escárnio, à gargalhada, ao desprezo do mundo moderno e democrático - preparar a sua ruína. Uma arte que tem este fim ... É um poderoso auxiliar da ciência revolucionária."

Teixeira de Pascoaes


Quando comecei a convencer-me que o liberalismo de inspiração anglo-saxónica - a chamada democracia-liberal - não estava a dar bons resultados em Portugal, e não iria dar bons resultados no futuro, quer do ponto de vista económico, quer do ponto de vista social e político, fiz aquilo que me parecia racional fazer: "Esquece tudo o que aprendeste, e começa de novo".

Neste recomeço, no sentido de saber qual o regime mais adequado para Portugal - económico, social e político - comecei por aquele domínio que me é mais familiar - a economia. E voltei a estudar a história económica de Portugal, dando ênfase ao período do Estado Novo, por ser o mais recente. A performance económica do Estado Novo não pode deixar de impressionar um economista (veja aqui).

O passo seguinte foi o de me interrogar que segredos conduziram o Estado Novo a uma performance económica tão extraordinária - a melhor da Europa durante o seu tempo de vida. Como a doutrina do Estado Novo se baseia essencialmente na doutrina de um único homem, o passo seguinte foi o de estudar o pensamento de Salazar à procura das soluções do mistério.

No final desse estudo, aquilo que mais me impressionou no pensamento de Salazar não foi nem a sua doutrina económica, nem o seu pensamento político. Foram, antes, pequenas observações, dispersas aqui e ali nos seus discursos e entrevistas acerca do povo português. Postas em conjunto, elas davam uma teoria acerca do povo português, uma ciência do Ser Português . Passei a acreditar na tese de que Salazar conhecia muito bem as características culturais do povo português e que o seu segredo consistiu em construir um regime económico e político adaptado a essas características e às circunstâncias da época. (veja, em resumo, aqui, mas também aqui, aqui, aqui , aqui, aqui)

Salazar era um homem muito inteligente e arguto - uma qualidade que ele também reconhecia aos portugueses (a inteligência rápida). Aquilo que ainda hoje impressiona nele é que, praticamente sem nunca ter saído de Portugal e sem os meios de informação que hoje existem, ele possuía um conhecimento extraordinário de Portugal, dos portugueses, e da cena internacional, incluindo as correntes filosóficas e políticas dominantes no estrangeiro.

Como o pensamento da Salazar nos foi transmitido sobretudo por entrevistas e discursos, e não por trabalhos académicos que mencionem as fontes, é, por vezes difícil descortinar as fontes e os autores em que ele formou o seu pensamento. Para mim foi um grande prazer ter descoberto recentemente que esse extraordinário conhecimento que ele possuía do povo português se fundava, em grande parte, num pequeno livro publicado em 1915 por Teixeira de Pascoaes (1877-1952), o poeta de Amarante - A Arte de Ser Português.

01 fevereiro 2009

afoga


O génio lusíada é mais emotivo que intelectual. Afirma e não discute. Quando uma ideia se comove, despreza a dialéctica; e é sendo e não raciocinando que ela prova a sua verdade.

A emoção afoga a inteligência, ultrapassando-a como força criadora. E assim, corresponde à nossa superioridade poética, uma grande inferioridade filosófica.


(Teixeira de Pascoaes, op. cit.)

... e a Liberdade dos políticos


INTOLERÂNCIA

Este defeito [dos portugueses] é uma forma de vaidade susceptível que se alimenta da sua quimera dolorosa. Quem duvida do próprio valor não pode suportar a dúvida alheia que lhe diz, em voz alta e clara, o que ele mal se atreve a murmurar.

Mas a intolerância tem outra origem mais positiva; é ainda um processo de defendermos os nossos interesses. Se é uma utilidade para mim a seita (política, religiosa, etc.) a que eu pertenço, os princípios que esta segue, compete-me torná-los dogmáticos, absolutos, indiscutíveis. Sim ... porque discutir uma ideia é pô-la em conflito com a verdade.

O Deus dos padres e a Liberdade dos políticos, para eles, são coisas indiscutíveis - quero dizer, essenciais à existência das suas igrejas sagradas e profanas.

Uns prometem a Liberdade, os outros prometem Deus; e, suspensa de tal promessa, conseguem ter obediente aos seus desígnios a eterna criança ludibriada - o Povo.

A intolerância defende os interesses de uma seita e imprime à criatura o mais odioso fácies!

É a alma negra da anarquia.

(Teixeira de Pascoaes, op. cit.)

31 janeiro 2009

Ser Português


Cap. IX. Qualidades da Alma Pátria
(...)
Génio de aventura
(...)
Espírito messiânico
(...)
Sentimento de Independência e Liberdade

Cap. X. Defeitos da Alma Pátria
(...)
Falta de persistência
(...)
Vil tristeza
(...)
Inveja
(...)
Vaidade susceptível
(...)
Intolerância
(...)
Espírito de imitação
(Teixeira de Pascoaes, A Arte de Ser Português)