30 novembro 2023

Um passo de gigante (96)

 (Continuação daqui)

Rodrigo Janot, ex-Procurador-Geral da República do Brasil


96. A tradição criminosa


O primeiro-ministro português teve muita sorte em ter a chefiar o Ministério Público a procuradora Lucília Gago que é uma pessoa mansa (cf. aqui). 

Ela liquidou politicamente o primeiro-ministro disparando apenas um parágrafo assassino num comunicado da Procuradoria Geral da República.

O Brasil herdou a tradição inquisitorial da justiça portuguesa e a tradição criminosa do Ministério Público, e as coisas lá são muito mais sérias e levadas ao extremo.

O ex-Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, confessou, numa autobiografia, que esteve em vias de assassinar o juiz do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, por este criticar fortemente a actuação do Ministério Público na operação Lava Jato.

E, neste caso, o assassínio não era político, era físico. E não era com parágrafos, era com tiros de verdade. E na cara do juiz.


Fonte: cf. aqui


(Continua acolá)

DAVID

DAVID

 

‹‹Depois de contemplar DAVID ninguém precisa de ver nenhuma outra obra de arte›› — Georgio Vasari



Michelangelo* foi certamente um dos artistas mais talentosos de sempre e DAVID é a sua obra-prima. A estátua emana perfeição e deslumbra quem a vê. Talvez Deus tenha guiado a mão do artista porque mal se acredita que possa ser apenas o resultado da ação humana.

 

A estátua foi rapidamente adoptada pelos florentinos como símbolo da luta pela República de Florença e de como podiam desafiar e derrotar inimigos poderosos, como os Medici, do mesmo modo que David derrotou Golias.

 

A desproporção anatómica da cabeça e das mãos de DAVID sugerem a vitória da razão e da subtileza contra a gigantesca força bruta.

 

Esta metáfora da lenda bíblica é atualmente tão inspiradora como para os florentinos do século XVI. A liberdade e os direitos cívicos nunca estiveram tão ameaçados e precisamos de todos os recursos possíveis para lutar contra os poderes fácticos que cooptaram as instituições políticas a seu favor.

 

As lendas ajudam-nos a conceptualizar possibilidades que não imaginaríamos e o DAVID de Michelangelo objectifica essas possibilidades, é real. A estátua mostra DAVID antes do confronto com Golias, tenso, com o rosto franzido, mas pleno de dignidade e majestade (a terribilità de Michelangelo).

 

Precisamos de personificar a terribilità de DAVID para resguardar a liberdade porque os nossos inimigos também são gigantes.

 

Ninguém pode imitar o génio de Michelangelo, mas todos podemos imitar o espírito de luta de DAVID.

 

* Optei por Michelangelo em vez de Miguel Ângelo.

Um passo de gigante (95)

 (Continuação daqui)



95. Sem comentários


"Eu próprio tenho muitas dúvidas que não tenha telefones sob escuta. Como é que vou lidar com isso? Não sei. Como vou controlar isto? Não sei." 

"Penso que tenho um telefone sob escuta. Às vezes faz uns barulhos esquisitos"

(Fernando Pinto Monteiro, 2008, na altura Procurador-Geral da República, isto é, chefe do Ministério Público)

Fonte: cf. aqui


(Continua acolá)

Um passo de gigante (94)

 (Continuação daqui)



94. Black Monday


RTP: "O DCIAP analisou os argumentos expostos nas queixas e considerou haver elementos suficientes para abrir um inquérito-crime às agências de "rating" Moody`s, Standard & Poor`s e Fitch". (cf. aqui)


Comentário: Foi o dia mais negro deste século nos mercados financeiros mundiais, 9 de Maio de 2011. Ficou conhecido por Black Monday.  Foi o dia em que o Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) do Ministério Público, a partir da Rua Gomes Freire em Lisboa, Portugal, anunciou ao mundo a ameaça de pôr na prisão as três maiores agências internacionais de rating por terem baixado a notação da República Portuguesa para um nível próximo de "lixo" (cf. aqui).

(Continua acolá)

Um passo de gigante (93)

(Continuação daqui)



93. No tempo de Salazar


No tempo de Salazar a Justiça era respeitada ao contrário do que hoje acontece (cf. aqui).

Uma das razões para o respeito da população pela Justiça tinha a ver com a organização do Ministério Público e está descrita no texto a seguir  que começa por citar até um opositor ao regime do Estado Novo (José António Barreiros):


"Se me é permitida mais uma nota pessoal, direi que de crítico, o autor destas linhas passou a céptico. Concluiu, na recta final da sua vida de jurista, que tenta tornar em recomeço para ganhar o fôlego da esperança, que, lamentavelmente, em muitas facetas o regime jurídico-penal a que se opôs publicamente, porque era o de uma ditadura, não era pior, em alguma das suas facetas, do que aquele que temos de suportar no que se proclama como sendo uma democracia" (cf. aqui, ênfase meu).

Eu estou convencido que, "em algumas das suas facetas" (sic), era bastante melhor. Desde logo por este pequeno detalhe da legislação que fez a reforma do sistema penal em 1945:

«o Ministério Público constitui uma magistratura hierarquicamente organizada na dependência do Ministro da Justiça e sob a chefia directa do Procurador-Geral da República» (ibid).

Quer dizer, o Ministério Público, no Estado Novo, não era o Diabo à Solta que se tornou em democracia.


Fonte: cf. aqui


Talvez valha a pena acrescentar que a diferença entre o Ministério Público de então e o Ministério Público de hoje é consequência de uma diferença mais geral. Então, Portugal era governado por uma elite, hoje é governado pelo povo.

Cada geração tem aquilo que merece.


(Continua acolá)

Um passo de gigante (92)

 (Continuação daqui)



92. Contra desconhecidos


TSF: "Segundo a edição desta sexta-feira do jornal Público, desde o início do mês está a decorrer um inquérito contra desconhecidos no Departamento de Investigação e Ação Penal Regional de Lisboa". (cf. aqui)


Comentário: O presidente da República é o principal visado no caso das gémeas brasileiras, mas o Ministério Público abriu um inquérito contra desconhecidos (cf. aqui).

Sempre certeiro a perseguir criminosos!

O sentinela do Palácio de Belém ainda acabará arguido. A cunha passou-lhe diante dos olhos e ele não viu.

(Continua)

Um passo de gigante (91)

 (Continuação daqui)



91. Chumbados


Diz-se no meio que  a maior parte dos procuradores do Ministério Público vão para a carreira do Ministério Público como segunda escolha. Na realidade, o que eles queriam era ser juízes, mas chumbaram no exame para juiz.

Daí, talvez, a avidez com que eles querem parecer-se com os verdadeiros juízes, atribuindo-se o título de magistrados (tradicionalmente reservado aos juízes), fardando-se de toga como os juízes e sentando-se ao lado dos juízes nas salas dos tribunais, a tal ponto que a maioria das pessoas pensa que eles também são juízes.

Em abono desta tese, existem vários posts neste blogue, de que destaco os dois seguintes:

-O dia em que o magistrado Toni Guimarães chumbou pela sétima vez no exame para juiz: cf. aqui.

-O dia em que o magistrado X, tendo chumbado 18 vezes no exame para juiz, desistiu da ideia e decidiu apresentar-se a exame no Ministério Público para subir de categoria:  cf. aqui.


(Continua acolá)

Um passo de gigante (90)

 (Continuação daqui)



90. A Choca


Quem será a magistrada do Ministério Público que é conhecida entre os seus pares por "A Choca"?


(Continua acolá)

AS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO

AS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO

 

"Tedium is the worst pain." — John Gardner




No Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, está a pintura mais interessante e valiosa do País: “As Tentações de Santo Antão” — do Hieronymus Bosch (1450-1516).

 

O tríptico representa as tentações de Santo Antão (251-356), um ermita asceta que abandonou a família e a vida em sociedade para uma reclusão pelos desertos do Egipto (região oriental do Saara). O seu ascetismo condenou-o a jejuns prolongados e a uma dieta frugal constituída por pão, sal e água e que nunca incluía carne nem vinho.

 

Tudo o que sabemos sobre Antão provém de uma biografia escrita por Athanasius de Alexandria (A Vida de António), que o descreve como um analfabeto tomado por delírio religioso. Um homem que buscou Deus, através do sacrifício pessoal.

 

Buscou e encontrou porque depois de ser agredido por demónios que lhe apareceram sob a forma de centauros e de sátiros, que o tentaram com prazeres terrenos e o agrediram até à morte, ressuscitou e falou com Deus.

 

A psiquiatria e a antipsiquiatria não têm dificuldade em explicar os delírios e as alucinações de um ser humano isolado e malnutrido, sem recorrer ao Demo nem ao Altíssimo. As descrições de Athanasius, porém, foram tomadas à letra e influenciaram uma notável plêiade de escritores e pintores. Desde o escritor Gustave Flaubert (La tentation de Saint Antoine) até pintores como Hieronymus Bosch, Michelangelo e Salvador Dali.

 

O tríptico do Hieronymus Bosch, do MNAA, exerce um fascínio imenso sobre todos os que tiveram o privilégio de o contemplar e apela o visitante ao regresso, a sentar-se contemplativo e extasiado pelos detalhes e colorido da obra.

 

Filipe II (Filipe I de Portugal) foi um grande colecionador de pinturas do Hieronymus Bosch, que ornamentavam os seus alojamentos no Escorial, onde viria a falecer. E poderá ter sido ele que doou “As tentações de Santo Antão” a Portugal (não se conhece com certeza a proveniência do tríptico).

 

O fascínio pelas “Tentações de Santo Antão” remete-nos para algum recanto obscuro do inconsciente? Para medos primordiais ou sentimentos de culpa que aguardam castigo? Receamos os castigos inclementes do Inferno?

 

Penso que não!

 

O Inferno somos nós, é a dor imensa do tédio, da repetição do quotidiano e do sentimento de cobardia por desperdiçarmos o presente (ausência de mindfulness) e o futuro.

 

As representações do tríptico são magníficas porque nos retraem do tédio, pela riqueza dos pormenores, da criatividade e do colorido. Talvez até nos façam recuar a uma certa meninez.

 

A divina obra do Bosch liberta-nos para sonharmos que um mundo melhor é possível, se matarmos o tédio e abraçarmos a vida. O contrário do que fez o Antão.


Um passo de gigante (89)

 (Continuação daqui)


89. As nódoas de sangue

-Por que é que estes investigadores criminais trajam todos de negro?

-É para não se notar as nódoas de sangue dos crimes que eles investigam (cf. aqui). 


(Continua acolá)

29 novembro 2023

PANTEÃO

O Panteão de Roma é um dos raros edifícios que sobreviveu dois milénios e que, apesar de algumas renovações, mantém o espírito do projeto inicial.

 

É constituído por um pórtico de entrada e por uma rotunda, colmatada por uma abóboda, que delimita um óculo no topo, uma abertura para o céu que deixa entrar a luz e facilita a ventilação do espaço.



O minimalismo da conceção arquitetónica e a relação perfeita das suas dimensões levou Michelangelo a dizer que o Panteão era ‹‹obra de anjos e não humana››.



Ao longo dos séculos, o Panteão inspirou milhares de obras de criadores que procuravam a essência do sublime. A Rotunda Thomas Jefferson, na Universidade da Pensilvânia (1828) é um excelente exemplo. A Biblioteca do British Museum é outro.



Nestes espaços o espírito humano adquire asas e voa mais alto, procura alcançar perspectivas diferentes e dar contributos inovadores para a matriz cultural. A lista de leitores da Biblioteca do British Museum parece indicar isso mesmo: Oscar Wilde e George Orwell, por exemplo. Mas também Karl Marx e Vladimir Ilyich Lenin (por vezes voa-se tão alto que se perde a noção).

 

A renovação do British Museum e a forma como a Rotunda foi integrada no conjunto — do arquitecto Norman Foster — é outra obra deslumbrante.



O feixe de luz que atravessa o óculo projeta-se nos diferentes quadrantes da Rotunda como um relógio de Sol e no Equinócio de Março foca-se na entrada do Panteão. O Imperador Hadriano visitava o Panteão por essa altura para demonstrar aos presentes, à sua chegada, como era abençoado pelo Sol.

 

O pintor Rafael, que faleceu aos 37 anos (1520), solicitou que o seu lugar de eterno descanso fosse o Panteão; no túmulo podemos ler: "Ille hic est Raphael, timuit quo sospite vinci Rerum magna parens, et moriente mori" — "Aqui jaz Rafael, que fez temer à Natureza por si fosse derrotada, em sua vida, e, uma vez morto, que morresse consigo".

 

Raphael, como Michelangelo, via a mão de Deus no Panteão e desejaria ficar mais próximo do céu.

 

‹‹Ars Suscitat›› — a arte acorda e eleva o espírito. 

Um passo de gigante (88)

 (Continuação daqui)



88. Mais Liberdade


TSF: "Costa defende herança dos seus governos e conclui que país tem hoje mais "liberdade"" (cf. aqui)


Comentário: Mas que liberdade é essa em que até o primeiro-ministro é perseguido por um bando de caluniadores oficiais e é obrigado a demitir-se do lugar que legitimamente lhe pertence?


(Continua acolá)

Um passo de gigante (87)

 (Continuação daqui)



87. Uma das grandes tragédias


CNN Portugal: "As buscas para a recolha de prova da Operação “Arrangements” contaram com a participação de 60 inspetores e peritos da PJ, cinco magistrados do Ministério Público, cinco especialistas do Núcleo de Assessoria Técnica da Procuradoria-Geral da República, dois juízes de instrução criminal e um representante da Ordem dos Médicos" (cf. aqui).


Comentário: Uma das grandes tragédias da justiça em regime democrático (era diferente no Estado Novo) tem sido o desprestígio dessa grande instituição que é a  Polícia Judiciária - a verdadeira rainha das instituições de justiça em Portugal -, a qual, em lugar de liderar a investigação criminal, como sempre fez,  passou a actuar às ordens de uma corporação de criminosos que são investigadores criminais de sofá (cf. aqui).

(Continua acolá)

Um passo de gigante (86)

 (Continuação daqui)


86. Mais uma palhaçada


Medina investigado por equipa especial da Polícia Judiciária 

Em causa estão contratos assinados entre 2014 e 2018 pela sociedade de advogados Linklaters, fundada em Portugal por Pedro Siza Vieira, e a Câmara de Lisboa. 

A Polícia Judiciária constituiu uma equipa especial para investigar o ministro das Finanças, Fernando Medina.

O Correio da Manhã (CM) escreve, esta sexta-feira, que a equipa terá sido constituída a pedido do Ministério Publico, após notícia daquele jornal, há três semanas, que dava conta de que Fernando Medina, enquanto presidente da autarquia de Lisboa, estava sob investigação por ajustes diretos à sociedade de advogados de Pedro Siza Vieira, ex ministro socialista.


A investigação visa ainda o atual ministro do ambiente, Duarte Cordeiro e a ex-ministra da Cultura, Graça Fonseca, enquanto vereadores da Câmara de Lisboa.


Fonte: cf. aqui


Comentário: Afinal, era mais uma palhaçada inventada pelo Ministério Público (cf. aqui).


(Continua acolá)

Um passo de gigante (85)

 (Continuação daqui)



85. A acusar-se uns aos outros


O escândalo de corrupção no Ministério Público do Perú, que agora corre mundo (cf. aqui), e que tem no centro a Fiscal de la Nación (Procuradora-Geral da República), Patrícia Benevides, confirma plenamente dois princípios que têm sido constantemente reiterados neste blogue:

1) Num país de tradição católica e inquisitorial (como o Perú ou Portugal), o Ministério Público não faz justiça, mas política;

2) Numa organização de criminosos, eles acabam sempre a acusar-se uns aos outros.


(Continua acolá)

Um passo de gigante (84)

(Continuação daqui)



84. Sete anos

DN: "Fonte oficial da Procuradoria-Geral da República disse ao portal especializado em economia que "este inquérito conheceu o despacho final de arquivamento relativamente a todos os investigados", uma vez que o Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa considerou não haver "qualquer indício criminal na matéria em apreço" e considerou que esta investigação, iniciada em 2016, foi dada como terminada porque seria uma perda de recursos e tempo se continuasse" (cf. aqui).


Comentário: Estes criminosos calaceiros mantiveram pessoas inocentes sob suspeita durante sete anos para, ao fim deste tempo todo, chegarem à conclusão que andavam a perder tempo e a esbanjar o dinheiro dos contribuintes.

(Continua acolá)

Um passo de gigante (83)

 (Continuação daqui)



83. "Porreiro, pá!..."


CNN Portugal: "Foi aberto, e bem". Marcelo saúda inquérito sobre o caso das gémeas tratadas no Santa Maria" (cf. aqui)


Comentário: Se três quartos dos portugueses já tiveram estes criminosos à perna por motivos absolutamente fúteis, ou por motivo absolutamente nenhum, por que é que o presidente da República não os havia de ter por uma cunha de 4 milhões? Vivemos num país democrático, não é?

(Continua acolá)

POMPEIA

 POMPEIA

A tragédia da existência humana

A história de Pompeia é a história da humanidade numa coleção de fotos. Retratos que nos remetem para um passado longínquo, mas inquietante porque adquirimos consciência real de que tudo o que valorizamos e amamos pode extinguir-se de um momento para o outro.

Os habitantes da Pompeia tinham acabado de festejar a Vulcanália, uma festa de homenagem ao Deus Vulcano e prosseguiam com festividades em memória de César Augustus, quando no dia 24 de Agosto de 79 DC, às 22 horas, o Vesúvio entrou em erupção e, num curto espaço de tempo, envolveu a cidade num “tsunami” piroclástico, soterrando tudo e todos os que não conseguiram escapar após os primeiros sinais (chuva de púmice).

As prospeções arqueológicas dos últimos séculos permitiram redescobrir Pompeia e retratar a vida interrompida há quase 2.000 anos.

As cinzas vulcânicas preservaram um património artístico considerável, do qual, os frescos das vilas senhoriais e os motivos decorativos dos estabelecimentos servem para dar um vislumbre da vida no 1º século da era cristã.

Independentemente da qualidade artística dos frescos de Pompeia, aliás assinalável, qual é o seu conteúdo e propósito?

As vilas mais luxuosas exibem motivos relacionados com a filosofia, a arte e a literatura, especialmente de origem grega. A mitologia grega, por exemplo, ocupa um lugar de destaque.

Não surpreende esta relação com a mitologia grega. A evocação dos seus mitos traz ao consciente arquétipos fundacionais da mente humana. Os gregos acreditavam que não eram donos do seu próprio destino e a erupção do Vesúvio parece confirmá-lo. Em última análise estamos submetidos aos desígnios dos Deuses, de Deus ou da Natureza.

Nalguns estabelecimentos a arte de Pompeia revelava-se mais utilitária, explicando a natureza dos serviços prestados e até incentivando à ação.

É a arte a cumprir a sua função evocativa de estados mentais, que facilitam comportamentos e cimentam a coesão social. A arte abstrata do século XXI, pelo contrário, não é passível de uma interpretação coletiva, impondo-nos um individualismo radical que surpreenderia os habitantes de Pompeia.

Contemplando a tragédia de Pompeia e o seu legado, devemos ter sempre presente que ‹‹A vida é para ser vivida como se fosse eterna, nunca esquecendo que pode terminar a qualquer momento››.

A arte pode ajudar-nos a lidar com esta contradição.

28 novembro 2023

Um passo de gigante (82)

 (Continuação daqui)



82. Perú: Corrupção no Ministério Público


Fonte: cf. aqui

No centro da crise está a própria Fiscal de la Nación, Patricia Benevides (equivalente à nossa Procuradora-Geral da República), acusada de liderar uma organização criminosa com fins políticos dentro do próprio Ministério Público que ela chefia (cf. aqui)

Comentário: A pergunta que dá o título à notícia ("Cómo se habría llegado a esta situación?) tem uma semelhança extraordinária com o título do artigo da procuradora Maria José Fernandes no Público da semana passada: "Ministério Público: Como chegámos aqui?" (cf. aqui)

(Nota: Em espanhol, os magistrados do Ministério Público são chamados "fiscales" e o Ministério Público é referido como "Fiscalia")

(Continua acolá)

Um passo de gigante (81)

 (Continuação daqui)



81. Nem a PIDE


Quer dar cabo da vida ao seu vizinho, ao seu adversário político, ao seu patrão, ao presidente do clube de futebol rival?

Não tem nada que enganar.

É só seguir o formulário: cf. aqui.

O Ministério Público faz o resto.

Não tem sequer que se identificar: a denúncia pode ser anónima.

Nem a PIDE alguma vez chegou a este ponto de promover publicamente a denúncia anónima.


(Continua)

ALTAMIRA

Um chalé na Cantábria



A província da Cantábria é uma das zonas mais privilegiadas da Península Ibéria, um verdadeiro jardim entre a Baía da Biscaia e a Cordilheira Cantábrica. A faixa costeira (chamada Marina), com cerca de 10 km de largura, tem um clima ameno, suavizado pela corrente do Golfo, dotada de uma flora viçosa (Espanha Verde) e de uma fauna exuberante.

 

No Paleolítico Médio e Superior, em plena Idade do Gelo (110.000 a 10.000 AC), a Marina constituía um refúgio seguro, com recursos abundantes para as populações de caçadores recolectores.

 

A fauna da época era constituída por cavalos, bisontes, auroques (touros selvagens já extintos), veados e javalis.

 

A bacia hidrográfica, com os afluentes do Ebro e do Douro, também contribuía para a abundância que descrevi.

 

Sempre que passei na Cantábria fiquei seduzido pela paisagem magnifica, pela profusão de verde e pela beleza das praias: pequenos espaços que o mar roubou à região, certamente enamorado pela formusura da costa. Muitas vezes pensei como seria agradável ter um chalé nesta aprazível localização.

 

O mesmo teriam pensado os nossos antepassados que aqui procuraram refúgio há milhares de anos atrás — entre 30.000 e 15.000 anos (Paleolítico Médio e Superior). Procuraram e encontraram.

 

As Cavernas de Altamira são muito mais do que um chalé, com um comprimento total de 300 m, distribuídos por múltiplos compartimentos, com destaque para o salão de entrada, com luz natural e para o salão dos policromos, onde se encontram as famosas pinturas do teto.

 

Esta coleção de pinturas rupestres é, sem dúvida, uma obra incontornável do espírito humano. Eterna porque continua moderna, após 15.000 anos. Mais moderna até do que os murais que nos chegam do Egipto e de Pompeia, na minha humilde opinião.

 

Tanto engenho, energia e tempo investido nestas pinturas suscitam uma pergunta: porquê e para quê?



Imagino-me sentado no salão dos policromos, reunido com outros autóctones, talvez à luz tremeluzente de uma pequena fogueira. As imagem animadas pelo piscar da luminosidade, o som do galopar das cavalgaduras no exterior e as descrições impetuosas de caçadas e sinto-me arrastado pelo fervor do momento.

 

Mal posso esperar pela madrugada para sair com o grupo e enfrentar as feras. Os auroques chegam a ter 2 metros de altura e 2 toneladas de peso, com cornos maciços e fatais. Os bisontes ainda são maiores.

 

Sinto o coração acelerado e a minha mente a focar-se na estratégia da caça. Acometemos em grupo, como as alcateias de lobos, isolamos as presas e atacamos de forma implacável. Uma besta destas pode alimentar-nos durante vários dias.


Os pintores não saem da caverna, ficam a caprichar no seu ofício e nós repartimos a caça com eles. A presença destas pinturas é um bom augúrio do sucesso das caçadas.

 

As pinturas rupestres de Altamira invocam abundância e comunicam uma mensagem que nos impele à caça. Quase como os painéis de publicidade, os chamados “outdoors”. Procuram chamar a atenção e desencadear uma compra.

 

Pensar que estas pinturas são “arte pela arte” (conceito definido por Benjamim Constant), no sentido de prazer estético desinteressado (Kant), mostra como nos afastamos da nossa natureza e até da própria natureza.

 

Altamira tem um museu que reproduz a Caverna de Altamira e que recomendo visitar. A beleza e a “modernidade” das pinturas toca-nos muito, especialmente se pensarmos que somos descendentes destes antepassados que andaram pela Cantábria há mais de 50 gerações.



Um passo de gigante (80)

 (Continuação daqui)



80. Ninguém escapa


CNN Portugal: "Segundo a nota do Ministério Público, as buscas decorrem nas instalações de uma empresa, ao Instituto Português do Desporto e da Juventude, à Cruz Vermelha Portuguesa, ao Centro Hospitalar Tondela-Viseu e ao Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge" (cf. aqui).


(Continua acolá)

Um passo de gigante (79)

 (Continuação daqui)



79. Crimódromo


A democracia política, graças sobretudo à acção do Ministério Público, transformou Portugal num crimódromo. Portugal está transformado num país de criminosos onde nem o primeiro-ministro nem o presidente da República escapam.

Algumas notícias recentes:

-Operação Espelho. Prisão preventiva para 13 dos 28 arguidos (cf. aqui)

-Operação Teia. Dois ex-autarcas do PS, um ex-deputado socialista e o ex-director do IPO do Porto acusados pelo MP de mais de 50 crimes (cf. aqui)

-Vinte detidos na Operação Gota d´Água (cf. aqui)

-Ministério Público acusa 51 arguidos de associação criminosa, tráfico humano e branqueamento de capitais (cf. aqui

-António Costa suspeito da prática de um crime demite-se do Governo (cf. aqui

-Ministério Público investiga suspeitas de favor no caso das gémeas luso-brasileiras tratadas no Santa Maria. Nome do presidente da República surge várias vezes no decurso do caso" (cf. aqui).

(Continua acolá)

27 novembro 2023

O povo

O povo tomou conta dos três poderes do Estado - o executivo, o legislativo e o judicial.

O que é que esperavam?


(Continua acolá)

Um passo de gigante (78)

 (Continuação daqui)

Juiz Francisco Marcolino, candidato pelo PS à Câmara de Bragança em 2005


78. Cúmplice do juiz


Foi, de longe, o post mais popular do ano passado, publicado neste blogue. Tinha o título "uma forma original de enriquecer" e, nele, eu comentava a promoção ao Supremo de um juiz, ligado ao Partido Socialista, e que tem uma vida pública de criminalidade imputada: cf. aqui. 

Este post teve depois seguimento na mais longa série de posts alguma vez publicada neste blogue, sob o título "Um juiz do Supremo" (começa aqui e acaba ali).

Basicamente, ao longo da sua vida, este juiz utilizou o sistema de justiça em proveito próprio, pondo processos-crime e exigindo indemnizações contra adversários políticos, familiares e amigos, sócios, juízes e advogados, jornais e jornalistas, bastonários de ordens profissionais, a madrasta, médicos, psicólogos, funcionários do registo civil, presidentes de câmara, traficantes de droga, a lista é sem fim.

(Este juiz é o autor da célebre ameaça dirigida a uma amiga da madrasta, e doente oncológica, depois de uma perseguição de carro altas horas da noite, e que ficou para sempre gravada nos anais do Supremo Tribunal de Justiça: "Ou dás o dinheiro ou estouro-te os miolos. Eu fodo-te!" (cf. aqui))

Mas são necessários dois para dançar o tango. Para que as queixas do juiz se transformassem em processos-crime era necessária a conivência do Ministério Público porque só o Ministério Público goza do privilégio monopolístico no país de fazer acusações criminais.

Por outras palavras, o Ministério Público foi sempre o cúmplice do juiz na sua actividade serial de corromper a justiça em benefício próprio.

Como é que o juiz retribuiria ao Ministério Público os favores que recebia é outra questão. Podia partilhar com os magistrados que subscreviam as acusações o produto das indemnizações. Ou podia condenar inocentes que andassem por aí nas televisões a criticar o Ministério Público (cf. aqui). Neste caso, é o crime de tráfico de influências, o mesmo que é imputado aos arguidos da Operação Influencer. 

Indícios para imputar o Ministério Público não faltam, mas quem é que tem poder para o investigar? Ninguém vindo de fora. E os criminosos não têm propriamente por hábito investigar-se a si próprios.

Escusado será dizer que o PS, que agora se vitimiza por causa do sistema de justiça e que proclamava aos quatro ventos, "À justiça o que é da justiça e à política o que é da política", é o mesmo que apoiou a candidatura deste juiz à Câmara de Bragança (cf. aqui).


(Continua acolá)

Um passo de gigante (77)

 (Continuação daqui)



77. Que amor é este?


O Ministério Público conseguiu desacreditar completamente a democracia em Portugal, lançando sobre os políticos democraticamente eleitos uma suspeita generalizada de corrupção. Os autarcas são as principais vítimas dos caluniadores oficiais, mas a calúnia chegou também recentemente ao primeiro-ministro em exercício. 

Ninguém conhece os magistrados do Ministério Público, ou pelo menos são raros aqueles que têm exposição pública. Eles escondem-se.

É talvez por isso que, quando os magistrados do Ministério Público caluniam os políticos, o povo acredita que os políticos são uns corruptos, ao passo que os magistrados do Ministério Público são uns santinhos (cf. aqui).

A razão para esta crença popular - para além daquela citada em cima, a de que eles se escondem do escrutínio público - é que ninguém tem poderes para investigar o Ministério Público.

Porque, se tivesse, o mais provável é que encontrasse a mais vasta teia de corrupção existente no país.

Existem indícios, que é aquilo que o MP geralmente invoca para abrir uma investigação criminal - infelizmente, nunca a si próprio. Um deles está tratado num dos mais partilhados posts deste blogue. É um caso de amor entre o Ministério Público e uma das maiores sociedades de advogados que opera no país. Tem o sugestivo título: "Que amor é este?" (cf. aqui).

 

(Continua)

Um passo de gigante (76)

 (Continuação daqui)

Fonte: cf. aqui


76. Um Mistério Público 


"Muitos embaixadores e outros diplomatas que representam os seus países em Portugal ainda não conseguiram perceber os contornos da atual crise política nacional, sendo que uma das grandes dúvidas é o papel e a atuação do Ministério Público, diz Nuno Rogeiro. "Para estes diplomatas, isto é um 'mistério' público", satiriza o comentador". (cf. aqui)

Comentário: Os diplomatas estrangeiros ainda não compreenderam um novo conceito criado pelo Estado de Direito português - o conceito de "criminalidade legal", acerca do qual poderão encontrar uma extensa literatura neste blogue (cf. aqui).

(Continua acolá)

VÉNUS DE WILLENDORF



VÉNUS DE WILLENDORF

Que mistérios encerra a pequena estatueta, de calcário extraído de Saga de Ala (Norte de Itália), de 11,1 cm, coberta de ocre vermelho e representando uma mulher? Estatueta que foi encontrada num sítio arqueológico do Paleolítico, próximo de Willendorf (Áustria).

Mistérios com cerca de 30.000 anos, perdidos na antiguidade da nossa existência ou guardados no inconsciente da espécie?

Representará os predicados de beleza da época? Com os atributos sexuais secundários exagerados, objectificando uma fêmea sexualmente atrativa?

Temos de viajar até ao paleolítico para rebuscar elementos de interpretação relevantes. O Homo Sapiens terá cerca de 200.000 anos, cobrindo o Paleolítico Médio (300.000 a 30.000 anos AC) e o Paleolítico Superior (30.000 a 10.000 anos AC). Quando a Vénus foi esculpida, o Homo Sapiens Sapiens já era a única espécie de Hominídeos sobrevivente, em tudo idêntica ao homem actual — Cro-Magnon.

Vivíamos em cavernas, usávamos o fogo, produzíamos armas de caça e artefactos decorativos, enterrávamos os mortos e sobrevivíamos da caça e da recolecção.

Qual era a esperança de vida nesse recuado período? A esperança média de vida era cerca de 25 anos. A média esconde uma mortalidade infantil muito elevada e o facto de alguns indivíduos chegarem a “velhos”. Contudo, percebe-se a necessidade da reprodução se iniciar cedo, usualmente após a menarca (entre os 12 e os 16 anos).

A mulher sexualmente atrativa, há 30.000 anos, era (forçosamente) uma jovem com características ainda adolescentes. Não era a Vénus de Willendorf.

A estatueta representa uma mulher que já teve filhos e que sobreviveu mais do que a média, representa uma MATRIARCA.

A matriarca é a mãe de família, a mulher que deixou descendência e que assegura a sobrevivência da espécie. É natural que seja idolatrada porque o desígnio divino ‹‹Crescei e multiplicai-vos›› depende dela. Sem matriarcas não há futuro!
O culto primitivo da Vénus de Willendorf parece-me ser equivalente ao Marianismo da modernidade, com forte presença no países católicos do Sul da Europa.

Tal como a Vénus de Willendorf não tem rosto, Maria também é representada com características indistintas e dessexualizadas. O que evoca não está radicado no tempo, é intemporal.

A figura da Vénus de Willendorf não está, portanto, perdida no tempo, reside no nosso inconsciente coletivo, na matriz cultural, e na mente de cada Homo Sapiens. 

Não é um símbolo sexual. É a MÃE!