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03 agosto 2020

Os milagres de S. Branquinho (III)

(Continuação daqui)


III. A indústria dos milagres



Nos países de tradição protestante ou frugais só Cristo faz milagres. Pelo contrário, nos países de tradição católica ou do vinho e das mulheres, para além de Cristo, também a Virgem e os santos fazem milagres. Exceptuam-se apenas os santos à porta.

Os países protestantes até nos milagres são frugais. Pelo contrário, nos países católicos existe uma próspera indústria de milagres onde cada santo procura oferecer no mercado o melhor milagre do mundo ao mais baixo preço possível.

Em Portugal, com o fim do regime de Salazar, que era um regime de inspiração católica, e a sua substituição pelo regime da democracia liberal, que é um regime de inspiração protestante, os santos foram proibidos e os milagres também. Os santos passaram à clandestinidade e os milagres passaram a transacionar-se na candonga. Se até então, no país, só os santos à porta não faziam milagres, a partir de então nenhum santo pode fazer milagres.

Para perseguir os santos no novo regime político foi instituído o Ministério Público em novas bases, como nos alvores da modernidade a Inquisição tinha sido instituída em novas bases para perseguir os cristãos-novos. Escusado será dizer que aos procuradores do Ministério Público, como antes aos inquisidores, interessava muito menos a pureza da fé cristã - protestante num caso, católica no outro - do que a conta bancária dos pecadores.

Olhando em retrospectiva, a limpidez com que os inquisidores do Ministério Público deitaram a mão à conta bancária de S. Branquinho é impressionante mas, para a descrever, talvez seja conveniente dar de novo a palavra à jornalista Mariana Oliveira do Público:

"Os pagamentos terão sido feitos pelo empresário Joaquim Teixeira , administrador da sociedade anónima que é dona do hospital, a PMV Policlínica, há mais de 13 anos, no final de Maio de 2007. Segundo o MP, em três dias os 225 mil euros saíram de uma conta da empresa, foram transferidos para uma conta que estava em nome de Joaquim Teixeira e desta para outra que o empresário mantinha com um outro acionista da PMV. Por fim, o dinheiro chegou a uma conta no Banco Espírito Santo que tinha Agostinho Branquinho como titular" (cf. aqui, ênfase meu).

Mas que milagre é esse, que começou a ser feito em 2003 e cujo pagamento foi efectuado em 2007, e como é que os inquisidores do Ministério Público - às vezes chamados os melhores magistrados do mundo - só começaram a tomar conhecimento de tudo isto em 2014, ainda por cima pelos jornais?

E como é que agora, em pleno verão post-pandemia, se vai explicar aos portugueses que o Ministério Público os manteve durante quase vinte anos na ignorância de que existia um santo entre eles, e que fazia milagres a 225 mil euros a peça? E o Ricardo Salgado não terá sido cúmplice daquele elaborado sistema de transferências bancárias?

De novo a palavra à jornalista Mariana Oliveira do Público, agora para desvendar o milagre:

"(..) três dos sete pisos foram construídos sem que houvesse licença para tal (…).
Só em Setembro de 2007 é que a PMV deu entrada no município de Valongo com um pedido de ampliação do edifício, fazendo referência pela primeira vez aos sete pisos e à criação de um hospital. O município terá ficcionado que a obra ainda não estava construída. Tal permitiu o insólito de terem passado apenas 11 dias entre a emissão do alvará das obras de ampliação, a 10 de Dezembro de 2007, e a emissão do alvará de utilização, com data de 21 desse mês. O livro de obra, aliás, registou que os trabalhos de ampliação foram iniciados a 10 de Dezembro e concluídos a 19 do mesmo mês, ou seja, realça a acusação «ali se declarou que os três pisos suplementares foram concluídos em nove dias»" (cf. aqui, ênfase meu).

Que milagre tão fantástico que os inquisidores do Ministério Público atribuem a S. Branquinho - o de ter construído três pisos do edifício de um hospital em apenas nove dias, ainda por cima sob o frio intenso do mês de Dezembro.

Por 225 mil euros, este milagre é uma verdadeira pechincha sobretudo se o preço incluía os materiais de construção.

(Continua)

05 agosto 2020

Os milagres de S. Branquinho (VI)

(Continuação daqui)


VI. O milagre da obliteração


O terceiro milagre de S. Branquinho foi o de conseguir que, até 2014, os milagres que realizou em Valongo entre 2003 e 2007 não chegassem aos ouvidos da Inquisição, mesmo se a Inquisição possui olheiros em todos os recantos do país, incluindo Valongo.

Em 2014, a política da Inquisição, segundo a qual "Os blogues é uma vergonha" (cf. aqui) já tinha sido largamente relaxada. Na realidade, poucos anos depois, os inquisidores não queriam outra coisa, passavam o tempo nos blogues e nas outras redes sociais. A tal ponto que a hierarquia teve de emitir uma directiva proibindo-lhes o acesso à internet durante as horas de trabalho (cf. aqui). A directiva começava assim: "Meninos... não vejam tanta internet … faz mal à vista….".

Não obstante, os milagres de S. Branquinho chegaram aos ouvidos dos inquisidores através dos jornais, disso não restam hoje dúvidas.

A palavra à jornalista Mariana Oliveira no seu artigo de sexta-feira passada no Público:

"Apesar do licenciamento e da construção do hospital terem ocorrido entre 2003 e 2007, esta investigação só foi aberta em 2014, na sequência de um grande trabalho do PÚBLICO (…)"
(cf. aqui, p. 15 da edição em papel, ênfase meu)

Agora, outra vez a palavra à jornalista Mariana Oliveira no seu artigo de ontem no Público que, além dos milagres de 2003-2007, imputa a S. Branquinho mais dois milagres, o de fraude fiscal e o de branqueamento de capitais:

"Os indícios de fraude fiscal e branqueamento surgiram no âmbito deste inquérito aberto em 2014, na sequência de um grande trabalho do PÚBLICO (…)"
(cf. aqui, p. 13 da edição em papel, ênfase meu).

Perante esta dupla evidência - a de que os inquisidores tomaram conhecimento dos milagres de S. Branquinho na sequência de um grande trabalho do PÚBLICO - fica demonstrado à saciedade que, enquanto os antigos inquisidores tinham de andar por aí, país fora, à procura de milagres, os novos inquisidores ficam sentados à espera que os jornais e as redes sociais lhes tragam os milagres aos seus gabinetes de trabalho.

Foi o que aconteceu naquela manhã de primavera, 18 de maio de 2014.

O procurador Nuno Serdoura - hoje Procurador da República, com 3 anos, 4 meses e 2 dias de experiência na função, 553º na lista de antiguidades (cf. aqui, p. 169) - estava sentado no seu gabinete do DIAP do Porto a tomar café e a fumar um cigarro, enquanto lia os jornais da  manhã.

De repente, deparou-se com o grande trabalho do PÚBLICO que relatava os milagres de S. Branquinho em Valongo entre 2003 e 2007. Deu um salto na cadeira e, alvoroçado, disse para a sua colega, a procuradora Ana Margarida Santos, que fazia tricot sentada na cadeira ao lado:

-Guida... temos de nos despachar!...

09 agosto 2020

Os milagres de S. Branquinho (VII)

(Continuação daqui)


VII. O milagre da urgência



Corria a primavera de 2019 e S. Branquinho andava profundamente triste, senão mesmo deprimido.

O caso não era para menos. Tinha começado a fazer milagres em 2003, na idade de 46 anos. Agora, aos 62, aproximava-se a terceira idade e alguns milagres já tinham prescrito e outros estavam na iminência de prescrever. A este ritmo, ele tinha o receio legítimo de que a Inquisição nunca lhe viesse a reconhecer os milagres durante o seu tempo de vida.

Uma manhã de maio resolveu telefonar ao magistrado António Ventinhas, o chefe do sindicato e um inquisidor temido, a quem chamavam o Terror Disto Tudo, abreviadamente TDT.

-Ventinhas, pá… o Nuno e a Guida nunca mais avançam com o meu processo…

-Desculpa lá... oh Branquinho... mas o pessoal anda todo muito desmotivado…

-Porquê... por vos terem cortado o acesso à internet durante as horas de serviço?...

-Também por isso, pá… mas o pior são os vencimentos...imagina tu, Branquinho... que já não somos aumentados há sete meses!...

-Sete meses!?... E tu não fazes nada, Ventinhas!?…

-Tu é que podias fazer alguma coisa, Branquinho… tu é que fazes milagres...

-Eu!?…

-Sim... podias ver se a PGR declara o processo urgente…

-Eh pá… oh Ventinhas… tem lá paciência, pá… mas esse milagre eu não faço…

-Era a maneira das coisas andarem mais depressa, pá…

-Pois é, pá... mas isso é a corrupção da santidade, carago!… como é que eu vou explicar ao povo que em 2019 o Ministério Público declara urgente um processo aberto em 2014 para investigar milagres ocorridos em 2003!?... Não posso, pá…. é abusar da estupidez do povo, carago!…

-Sem esse milagre…o teu mega-processo... que já tem dez volumes… e pode vir a ter setenta... só se resolve lá para o ano 2084...ainda por cima com esta coisa do covid…

-Eh pá... oh Ventinhas… deixa-te de coisas… o covid é só para o ano, pá…ainda só estamos em 2019...

-Pois, pá… mas a malta aqui antecipou e entrámos de quarentena em Abril de 2018... além disso, a Guida está de licença de maternidade desde maio de 2016... e o Nuno em licença de paternidade desde Outubro de 2014...


Cerca de um ano depois, em pleno verão de 2020, dois dias antes de os procuradores do Ministério Público entrarem nas suas merecidas férias judiciais, que têm a curta duração de 45 dias, a Procuradoria Geral Distrital do Porto enviou para a imprensa um comunicado que levou o jornal Público a escrever assim, pela mão da jornalista Mariana Oliveira:

"Os indícios de fraude fiscal e branqueamento surgiram no âmbito deste inquérito aberto em 2014, na sequência de um grande trabalho do PÚBLICO que explicava as diversas diligências que Branquinho fizera, por exemplo, junto da Administração Regional de Saúde do Norte tentando agilizar o licenciamento do Hospital de São Martinho. Provavelmente porque a maioria dos factos em análise ocorreu entre 2003 e 2007, ou seja, alguns há 17 anos, o processo foi declarado urgente. Foi essa urgência, justificam os procuradores [Nuno Serdoura e Ana Margarida Santos] que os fez avançar com uma parte da acusação e abrir um novo inquérito para continuar a investigar eventuais crimes de fraude fiscal e branqueamento de capitais"
(cf. aqui, p. 13 da edição em papel, ênfases meus)

06 maio 2025

CUATRECASAS- Uma Máfia Legal (33)

 (Continuação daqui)



33. SLAPP

Ele pregava aos outros que, quando lhes dessem uma bofetada (em inglês, slap), eles oferecessem a outra face. Mas quando, durante o seu julgamento, fez menção de falar para se defender, um guarda deu-lhe uma bofetada, e ele não ofereceu a outra face. Protestou.

Este foi um dos episódios em que ele mostrou a sua dupla natureza, divina e humana, porque ele era ao mesmo tempo filho de Deus e de uma mulher. A lição é que os seres humanos são excelentes a ditar regras para os outros, mas têm uma grande dificuldade em aplicá-las a si próprios. Esta, aliás, foi uma das razões, na figura dos fariseus, por que ele se revoltou contra a sua própria religião judaica.

O cristianismo é a única religião em que Deus é ao mesmo tempo um homem e esta é a razão principal da grandiosidade de civilização cristã. Se Cristo fazia milagres, e era um homem, então qualquer homem os podia fazer. E, de facto, não faltaram milagres nesta civilização. 

Qualquer homem ou mulher que nascido sob a aura do cristianismo está equipado espiritualmente para conseguir as coisas mais extraordinárias na vida, para tornar possível o mais improvável dos impossíveis, aquilo que noutras religiões só é acessível a Deus. A razão é que nesta civilização um homem também é Deus.

Se alguém, do tempo de Cristo, voltasse a este mundo, iria morrer de espanto ao ver um  avião, um automóvel, uma expedição à lua, um telemóvel, a internet, a electricidade, um medicamento que cura doenças outrora mortais, uma cirurgia ao coração, uma carta de direitos humanos. São tudo milagres da civilização cristã porque, se Cristo era homem e podia fazer milagres, qualquer homem nascido no cristianismo  podia fazer milagres também. E fez.

Cristo popularizou o judaísmo, transformou uma religião de elite numa religião popular, e de uma religião centrada em regras (literalmente, uma Religião de Direito) ele fez uma religião centrada em pessoas, de que ele viria a tornar-se a figura principal e paradigmática. 

Uma das grandezas do cristianismo  é que é possível encontrar nele inspiração para todas as situações da vida, e a situação que eu estava a viver não era excepção. Cristo também foi alvo de um processo SLAPP (Strategic Lawsuit Against Public Participation), um processo que tinha no centro a figura penal da difamação, e que visava calar um homem que ousara pôr em causa os poderes estabelecidos. Ele foi pronunciado e condenado por blasfémia que é a difamação de Deus. Eu também fui pronunciado e acabei condenado por difamação. Esta era a primeira semelhança que me inspirava, mas não era a única.

Eu estava a passar por aquilo que ele próprio passou. E se ele tinha conseguido aguentar tudo, então eu, que sou homem como ele, também iria conseguir. Fortitude era a palavra de ordem, para além de determinação e persistência, três das principais qualidades de um capricorniano como ele, e que eu também sou. 

No caso dele, todas as regras do processo penal foram violadas e quando abriu a boca para se defender, foi impedido. O meu caso não foi muito diferente. Logo na primeira sessão, quando procurei defender-me, o juiz cortou-me a palavra e acabaria por me condenar de uma maneira perfeitamente inquisitorial, violando as mais básicas regras do processo penal.

Em todos os momentos do processo diante dos fariseus ele nunca teve medo, portou-se com enorme dignidade e até mesmo com uma certa altivez própria de quem sabe que está inocente. Eu procurei fazer o mesmo, mas houve uma diferença. Ele nunca se riu dos seus carrascos ao passo que eu não consegui conter-me.

Ele acabou condenado e eu também.

Ele morreu na sequência do processo judicial  e eu estive muito perto.

Mas havia uma coisa mais naquela sua natureza ao mesmo tempo divina e humana que me inspirava. Ele mostrou que um homem sozinho podia mudar o mundo. Acontece que eu também acredito nisso, seguramente por influência dele. 

(Continua acolá)


11 abril 2017

O principal milagre

-Se Cristo era homem e fazia milagres, eu, que sou homem como ele, também os posso fazer, não?

-Sim, mas Cristo, além de homem, também era Deus, e tu não és...
 (Segundo a doutrina católica Cristo é plenamente homem e plenamente Deus)

-Mas posso ser!... Como?... Imitando-O.

Eu não sei se foi exactamente este o diálogo íntimo que teve lugar no espírito de S. Francisco. Mas, se não foi, há-de ter sido muito parecido.

Só a capacidade para colocar a primeira questão alargou o espírito humano a latitutes nunca antes conhecidas. E a capacidade para responder à segunda elevou-o até altitudes a que ele nunca antes tinha chegado.

S. Francisco acabou a fazer milagres como Cristo e, na sua vida de pobreza, até Cristo, pelos padrões dele, teria parecido um mau franciscano. O século de S. Francisco viria a produzir  grandes santos, como ele próprio e S. Domingos, grandes teólogos, como S. Boaventura e S. Tomás de Aquino, grandes pintores como Giotto, grandes poetas como Dante, grandes cientistas, como Roger Bacon - considerado o pai da ciência moderna.

Chesterton na sua biografia de S. Francisco diz que ele foi uma nova luz que chegou ao mundo, algo que, antes dele, Dante já tinha escrito - uma luz que deixou atrás de si a Idade das Trevas e iluminou novos horizontes à humanidade cristã.

Mas em que consistia precisamente essa luz, que se manteve apagada nos séculos anteriores ainda dominados pelo paganismo com os seus ídolos e o seus deuses da natureza?

No facto de Deus ser homem.

Se Cristo é homem e faz milagres, eu, que sou igualmente homem, também os posso fazer. Mas se, para fazer milagres, além de homem, eu também tenho de ser Deus como Cristo, então a solução está mesmo à vista. Só tenho que O imitar.

O principal milagre de S. Francisco foi o de ter ensinado ao homem como é que o homem pode fazer milagres.

Esta foi a revolução espiritual operada por S. Francisco, o Alter Christus, como tem sido chamado.  Ele abriu e elevou o espírito humano a uma dimensão nunca antes conhecida. Nunca o homem contemplou horizontes tão vastos e tão elevados. Depois da revolução franciscana, qualquer homem podia passar a sentir-se como se fosse um super-homem.

É uma revolução espiritual deste género - embora não necessariamente nos termos em que S. Francisco a fez - que nós estamos a precisar. O meu sentimento é que essa nova revolução espiritual será centrada na figura de Maria e não na de Cristo, como aconteceu com a revolução franciscana.


24 dezembro 2024

Almirante Gouveia e Melo (XXXVII)

 (Continuação daqui)




XXXVII. Milagres 


Na recente palestra que proferiu na Gulbenkian acerca da sua experiência à frente do combate à pandemia, o Almirante Gouveia e Melo disse, a certa altura, que uma das coisas que mais lamentava é que, daquilo que foi feito, nada tivesse ficado como lição para o futuro (cf. aqui, min. 18:35).

Trata-se da expressão de uma das principais características de um povo de tradição católica - a sua radical imprevidência. Esta é uma característica que distingue a elite católica do povo, sendo que, em democracia é o povo que está aos comandos, não a elite.

A cultura católica é uma cultura conservadora para a qual Deus está, para além das Escrituras, também na Tradição. Ora a Tradição invoca o passado, que é para onde o povo católico está constantemente voltado, ignorando o futuro. "O futuro a Deus pertence", diz o ditado popular e, por isso, não interessa pensar o futuro porque ele é radicalmente imprevisível, sendo determinado por Deus.

Buscar no passado lições para projectar e, de alguma forma, controlar o futuro é algo que está totalmente fora do radar cultural de um povo de tradição católica. Daí o desalento do Almirante Gouveia e Melo.

Mas o Almirante não está sozinho. Os economistas liberais têm fortes razões para partilhar o desalento do Almirante

Em 1973 Portugal fez capa no Financial Times que considerou o país um "milagre económico", uma designação que ficou para a história económica nacional no período 1950-73 (cf. aqui). Nesse mesmo ano iniciou-se um outro  milagre económico no Chile (cf. aqui). Por essa altura, já muito se falava de um milagre económico em Espanha (cf. aqui). E, em 1968, tinha-se iniciado um outro  milagre económico, desta vez no Brasil (cf. aqui).

Aquilo que unia todos estes milagres económicos é que ocorriam em países católicos, e não em países protestantes, talvez porque os protestantes, não acreditando nos Santos nem na Virgem, mas apenas em Cristo (o princípio protestante "Solo Christus") têm menos fazedores de milagres do que os católicos.

Mas havia uma segunda característica que era comum a todos estes milagres económicos. Eles ocorreram sob regimes militares ou de inspiração militar - Franco em Espanha,  Pinochet no Chile, Costa e Silva no Brasil, Salazar em Portugal.

Salazar não era um militar mas chegou ao Governo (ministro das Finanças e depois primeiro-ministro) ainda sob a ditadura militar saída da revolução de 28 de Maio de 1926, aí se mantendo após a aprovação da Constituição de 1933.

Foi Salazar que, naquela sua forma límpida de falar e escrever, exprimiu um dos segredos, talvez o maior, de todos estes milagres económicos - o segredo do Estado Subsidiário, um Estado pequeno, forte e distante, um Estado que só entra em cena, e mesmo aí relutantemente, quando os particulares, através dos seus arranjos espontâneos (v.g., famílias, empresas, cooperativas, igrejas, associações), não fazem aquilo que precisa de ser feito. 

Disse ele num discurso pronunciado no início da década de 1930:

"Sou absolutamente hostil a todo o desenvolvimento da actividade económica do Estado em todos os domínios em que não esteja demonstrada a insuficiência dos particulares".

Está visto que, na Economia, como no combate à pandemia, o povo  português não aprende nada com o passado. É assunto para a elite, da qual, obviamente, o Almirante faz parte.

(Continua acolá)

02 agosto 2020

Os milagres de S. Branquinho (II)

(Continuação daqui)

II. Por causa do racismo


Os inquisidores ganharam este nome porque antigamente iam por aí pelas aldeias, vilas e cidades do país, a inquirir quais eram os cidadãos que não se portavam bem, que não eram bons cristãos. Normalmente, escolhiam como alvo os cristãos-novos - isto é, os judeus convertidos - por duas razões fáceis de compreender.

A primeira é a de que era fácil dizer dos cristãos novos que eram falsos cristãos, que se tinham convertido ao catolicismo, mas que isso era só aparência conveniente porque, na realidade, continuavam a seguir as práticas e os preceitos da religião judaica.

A segunda é mais importante. Os cristãos-novos eram geralmente homens de negócios, homens endinheirados - os novos-ricos da época - a quem os inquisidores confiscavam a riqueza para depois ficarem com ela.

Hoje, os modernos inquisidores são diferentes, não na questão do confisco da riqueza, mas na maneira como chegam aos seus alvos. Se antes tinham de se deslocar pelo país fora, hoje ficam confortavelmente resfestelados nos seus gabinetes do Ministério Público à espera que as vítimas lhes cheguem pelos jornais e pelas televisões.

Dão-se mesmo ao luxo de desprezar outros meios de comunicação social como aqueles que estão associados às novas tecnologias da internet. A tal ponto que corria o ano de 2007, os blogues estavam no auge da sua popularidade, e o inquisidor-mor permitiu-se desvalorizar os blogues. "Os blogues é uma vergonha", disse ele sem arrependimento e com toda a correcção sintática (cf. aqui).

Foi, por isso, através dos jornais - na realidade, através de um grande trabalho do jornal Público - que, em 2014, praticamente dez anos após ter andado a fazer milagres em Valongo, que S. Branquinho caiu nas mãos dos inquisidores.

Iniciou-se então uma minuciosa investigação acerca dos milagres de S. Branquinho e, mais ainda, das suas contas bancárias - que é aquilo que a Inquisição mais gosta de investigar - e que culminou este verão, seis anos volvidos, num despacho acusatório.

Vale a pena citar de novo o jornal Público:

"Na acusação do Departamento de Investigação e Acção Penal Regional do Porto, assinada pelos procuradores Nuno Serdoura e Ana Margarida Santos, estes pedem aos dez arguidos acusados e à PMV o pagamento ao Estado de 2,3 milhões de euros, o montante que o MP considera ser a vantagem dos crimes" (cf. aqui, ênfase meu)

Antigamente, e durante certo período da nossa História, este dinheiro acabava todo nos bolsos dos inquisidores. Agora, não sei bem como é - se é todo ou só uma parte. Ninguém imagina as discussões que antigamente ocorriam entre a Coroa e a Inquisição (isto é, entre o Estado e a Igreja) para decidir quem é que ficava com a maior fatia do bolo.

O ponto importante, porém, é que é agora, quase vinte anos depois, que os tribunais vão apurar se S. Branquinho é, na realidade, um santo, e se faz ou não milagres. Perguntar-se-á por que é que o Ministério Público demorou tanto tempo a investigar S. Branquinho e os seus milagres - mais tempo, na realidade, do que a própria Igreja Católica hoje em dia demora a fazer um santo.

Foi por causa do racismo.

Os inquisidores do Ministério Público, que sob a  aparência da justiça fazem mas é política, passaram os três últimos anos a discutir se deviam acusar criminalmente um santo com o nome de Branquinho. Acabaram por concluir que sim. Com o nome de Pretinho é que teria sido politicamente incorrecto.

(Continua)

04 agosto 2020

Os milagres de S. Branquinho (IV)

(Continuação daqui)

IV. O milagre do hospital


Repetindo metade da notícia da passada sexta-feira (cf. aqui, p. 15 da edição em papel), porque estamos no verão, não há notícias e é preciso encher papel, o Público volta hoje a S. Branquinho para dizer que o Ministério Público do Porto se prepara para lhe atribuir mais dois milagres - o de fraude fiscal e o de branqueamento de capitais (cf. aqui, p. 13 da edição em papel).

Convém esclarecer que S. Branquinho é capaz de fazer muitos milagres, mas o milagre em que ele é verdadeiramente especialista, é no milagre de branqueamento. É daí que lhe vem o nome - Branquinho.

Aos três anos já branqueava as paredes da casa materna e aos 16 branqueava a carteira aos seus professores da escola secundária. Só a partir dos 25, por falta de oportunidades de branqueamento no país, é que decidiu emigrar e foi branquear para a Suíça, decorria o ano de 1981. Desde então, o milagre do branqueamento permanece o mais repetido, e também o mais banal, do seu extenso CV.

Muito mais excitantes foram os milagres que S. Branquinho fez em Valongo entre 2003 e 2007. Neste período de quatro anos, construiu-se em Valongo um hospital de sete andares - o Hospital de S. Martinho -, num espaço que estava licenciado pela Câmara para ser um edifício de quatro andares destinado a um centro de noite para idosos.

Mas apesar do alvará ser público e Valongo ter uma população de 90 mil habitantes, nunca ninguém - incluindo o presidente da Câmara, os vereadores e os técnicos camarários -, alguma vez viu ali um hospital, muito menos com sete andares. O que toda a gente via ali, quando passava, era um edifício de quatro andares com velhinhos a entrarem de noite e a saírem de manhã.

Até que um dia, um senhor reformado de 87 anos, que andava a dar o seu passeio de fim-de-tarde enquanto a mulher fazia o jantar, passou pelo local, parou e ficou a olhar para o edifício.

-Oh diabo!... ontem estava aqui um centro de noite para velhos com quatro andares … e hoje está aqui um hospital de sete andares…

disse de si para si.

Chegou a casa e contou à mulher:

-Oh Felismina… tu já reparaste que aquele prédio novo ali ao pé do Café do Silva ontem tinha quatro andares e hoje é um hospital com sete?...

-Olha, home… tu estás mas é com Alzaimere… aquele prédio sempre teve quatro andares e é um centro de noite para velhos, home…

-Olha que não, Felismina… olha que eu hoje vi lá um hospital e estive a contar os andares… são sete…

Palavra puxa palavra e a conversa, que tinha começado amigável, foi aquecendo até terminar numa cena de violência doméstica, que comoveu Valongo inteiro. O homem foi detido pela GNR nesse mesmo dia, mais tarde condenado a 20 anos de prisão mas, dada a idade avançada, a pena foi comutada em internamento compulsivo num hospital psiquiátrico do Porto.

O episódio teve, porém, o mérito de fazer acorrer ao local, na manhã seguinte, três quartos da população de Valongo, uma maioria qualificada, incluindo o presidente da Câmara, os vereadores, os técnicos camarários que tinham concedido a licença, o próprio empreiteiro e os trabalhadores que tinham levantado o edifício.

E era verdade. E a verdade era consensual. Onde todos, até à véspera, tinham visto um edifício de quatro andares com velhos a entrar e a sair, agora todos viam um edifício de sete andares e um hospital em pleno funcionamento com médicos e enfermeiras de bata branca.

Foi o primeiro milagre de S. Branquinho em Valongo - o milagre do hospital.

(Continua)

29 outubro 2013

não há milagres

A vontade de Deus corresponde às leis da natureza
Um milagre é uma violação das leis da natureza
Por definição, a vontade de Deus é inviolável
Logo não há milagres

Baruch Spinoza, Tractatus Theologico-Politicus - 1677

Comentário: Aqui fica uma elegante demonstração da impossibilidade de milagres. Na minha opinião, não só não existem milagres como seria indesejável que existissem. A existência da nossa espécie ficaria dependente de factores aleatórios, factores contrários às leis da natureza.

o "milagre" está no caminho

Do mesmo leitor Anónimo na caixa de comentários aqui:

"O milagre das probabilidades"

O Joaquim acha que, e passo a citar, “ganhar o Euromilhões só seria milagre se o prémio saísse a quem não tivesse comprado o bilhete, mas tal não acontece.” E chega mesmo a dizer que (e eu concordo) “este meu raciocínio não deixa margem para os chamados milagres, em que obviamente eu não acredito. Deixa contudo margem para Algo, que dotou o universo de Leis.”

Acho que agora já consegui perceber porque é o que o Joaquim ficou tão impressionado com o meu relato. Existe ali um ligeiro problema de percepção da realidade. Ele vê milagres onde os milagres não existem. Depois, claro, fica impressionado.

Ou seja, há dois ou três dias eu não compreendia porque é que o Joaquim se tinha deixado impressionar por algo tão simples e que eu próprio, que vivi a “experiência”, considero absolutamente normal e até expectável face ao caminho que venho percorrendo. Agora consigo entender, é apenas uma questão de percepção.

Portanto, parte do problema reside em mim que não fui capaz de explicar as coisas de forma suficientemente clara e objectiva para uma pessoa “randianamente” racional.

Então vou tentar de novo. E faço-o porque considero que é minha obrigação defender o “caminho racional para Deus”.

Na nossa vida vamos tomando uma série de pequenas e, aparentemente insignificantes, decisões. Analisadas isoladamente algumas delas até poderiam cair completamente no esquecimento ao fim de uns dias, semanas ou meses. Outras perduram muito mais tempo.

Em cada uma dessas decisões poderíamos, noutro contexto, ter tomado precisamente a decisão oposta.

Um exemplo, eu actualmente entro num supermercado, escolho algo para os meus filhos comerem e depois pago a conta. Mas se não tivesse dinheiro entraria no supermercado, escolheria algo para o meus filhos comerem e depois sairia sem pagar.

Eu sou a mesma pessoa mas, fruto de uma série de dicisões diferentes no meu passado (e até talvez decisões dos meus pais), no momento actual poderei pagar ou roubar.

No fundo, o que quero transmitir é que na vida estamos permanentemente a jogar ao euromilhões sendo que cada jogada afecta (determina em maior ou menor grau) as jogadas seguintes.

Um dia, sem milagres nem palermices sobrenaturais, se tivermos uma boa memória, alguma sensibilidade, alguma atenção ao pormenor vamos aperceber-nos que apenas algumas dessas milhares de decisões estão ligadas e que fazem sentido.

As ligações são tão fortes e tão absolutamente extraordinárias que, se formos pessoas racionais e objectivos, somos forçados a interrogar-nos sobre como é que isto é estatisticamente possível? Isto, do ponto de vista estatístico, não deveria acontecer. Não é racional que aconteça.

Isoladamente, sim. Pode acontecer. É racional que o euromilhões saia uma vez. Mas se sair várias vezes à mesma pessoa deveremos suspeitar que algo não está certo. Ou melhor, começa a ser é racional especular se não haverá é Algo que esteja muito certo.

02 agosto 2020

Os milagres de S. Branquinho (I)


I. Um país do vinho e das mulheres


Agostinho Branquinho, ex-deputado e ex-vice-presidente do grupo parlamentar do PSD, Fernando Melo, seu companheiro de partido e ex-presidente da Câmara de Valongo, e mais oito pessoas foram esta semana acusados pelo Ministério Público do Porto.

Os crimes alegados pelo Ministério Público remontam ao período 2003-2007 em que Branquinho terá andado a meter cunhas a torto e a direito para o licenciamento de um hospital privado em Valongo - o Hospital de S. Martinho -, pelas quais terá recebido 225 mil euros do empresário promotor do projecto, Joaquim Teixeira.

É claro que meter cunhas faz parte da tradição católica do povo português. Ao contrário da tradição protestante - agora chamada dos países frugais - em que o crente se dirige directamente a Deus, na tradição católica - agora chamada dos países do vinho e das mulheres - o crente dirige-se à Virgem Maria ou a um santo para que este interceda em seu nome junto de Deus, talvez por receio de ele próprio incomodar a Deus.

A cultura católica ou do vinho e das mulheres é uma cultura de cunhas em que os santos e a Virgem Maria estão constantemente a ser solicitados para meterem cunhas a Deus. Porém, com a chegada progressiva da cultura democrática a Portugal - que é uma cultura de origem protestante ou dos países frugais -  a cunha passou a ser crime, o crime de tráfico de influências.

Segundo esta cultura, quem quer uma graça de Deus tem de se dirigir directamente a Ele. Acabaram-se os intermediários. Na teologia protestante ou dos países frugais, os santos e a Virgem Maria deixam de ser venerados e a veneração passa a ser devida exclusivamente a Cristo, segundo o princípio protestante "Solo Christus".

Porém, na arreigada cultura católica do povo português, quem mete cunhas a Deus mais rapidamente as mete aos homens, e foi assim que, segundo a versão do MP, o empresário Joaquim Teixeira, aflito por uma licença de construção, meteu uma cunha a S. Branquinho para que este intercedesse junto do presidente da Câmara de Valongo, Fernando Melo - este fazendo a figura de Deus - a fim de que a licença fosse concedida.

Quem pede um favor ao seu santo preferido ou à Virgem Maria para obter uma graça de Deus, normalmente deixa uma esmola para olear o processo,  porque se presume que quer a Virgem quer os santos estão inundados de pedidos para meter cunhas a Deus, e há que estabelecer prioridades. E assim fez o empresário Joaquim Teixeira que alegadamente terá dado uma esmola de 225 mil euros a S. Branquinho.

Tudo teria passado despercebido ao povo português e à sua guarda avançada de procuradores do Ministério Público - a saber, que ainda havia santos e milagres no país -  se não fosse o jornal Público, que, neste ponto, vale a pena citar:

"Apesar de o licenciamento e a construção do hospital terem ocorrido entre 2003 e 2007, esta investigação só foi aberta em 2014, na sequência de um grande trabalho do PUBLICO que explicava as diversas diligências que Branquinho fizera, por exemplo junto da Administração Regional de Saúde do Norte, tentando agilizar o licenciamento do Hospital de São Martinho." (cf. aqui, ênfases meus).

Quer dizer, se não fosse o grande trabalho do PÚBLICO, em 2014, onze anos após S. Branquinho ter começado a fazer o milagre, e sete anos depois de ele ter  terminado o milagre, nós, cidadãos portugueses e crentes católicos, ainda hoje não teríamos o mínimo indício de que existia um santo entre nós e que ele fazia milagres. Tudo porque os inquisidores do Ministério Público, que nos deviam proteger contra os falsos santos e os falsos milagres, nada fizeram durante todos estes anos e nada sabiam. Passaram o tempo a ver navios entrar e sair da barra do Douro.

Pouca vergonha. Não surpreende que a cultura católica dos países do vinho e das mulheres esteja em declínio e ande por aí de mão estendida à cultura protestante dos países frugais. Mesmo se os inquisidores, só com dois anos de experiência, ganham como generais (cf. aqui). São, na verdade, uns calaceiros que devem gastar tudo em vinho e em mulheres.

(Continua)

05 novembro 2013

de milagres

só tu e o miguel esteves cardoso é que vêem milagres em tudo. Lê a cronica dele de hoje. Podias enviar-lhe um livro, eu até acho que nós e ele nos íamos dar bem. Ela também está habituada a viver com um lunático e temos os cancros para nos compreendermos e vocês falavam de milagres.
(recebido de uma leitora, ontem, por e-mail)

29 julho 2026

há milagres (a dobrar)

Eu devo ser insuspeito porque há muito que defendo neste blogue que há milagres (cf. aqui).

Um tanque que se transformou em piscina, ainda por cima contra a vontade do seu proprietário, só prova aquilo que afirmo: há milagres. E o milagre, neste caso, é a dobrar porque  a piscina voltará a ser tanque (cf. aqui)

10 março 2009

À procura do Dedé


A tradição católica chega à verdade directamente através da razão, ao passo que a tradição protestante chega à verdade indirectamente através do julgamento que, em primeiro lugar, se destina a produzir justiça (equidade). A tradição católica parte dos factos e, por um processo de dedução racional e lógica, chega à verdade. Por isso, a verdade na tradição católica exprime-se por uma afirmação (statement).
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Pelo contrário, a tradição protestante parte de duas teses (tese e antítese) que, em si mesmas e a priori, não são nem verdadeiras nem falsas. São meras alegações. As teses são então submetidas a um julgamento em que cada uma das partes procura apresentar o máximo de evidência empírica a seu favor. A verdade está no veredicto e exprime-se por uma tese (síntese).
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A verdade da tradição católica é, pois, absoluta, exprimindo-se por uma afirmação acerca da qual não há recurso argumentativo e lógico. Pelo contrário, a verdade da tradição protestante é meramente tendencial ou relativa, exprimindo-se por uma tese (síntese) que não nega necessariamente cada uma das teses em litígio, mas que se limita em geral a fazer prevalecer uma sobre a outra.
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Segue-se que a verdade na tradição católica não se decide da mesma maneira que a verdade na tradição protestante. Nesta tradição a verdade necessita de evidência empírica ou factual a seu favor, ao passo que na tradição católica os factos são as premissas da verdade e estão contidos nela. A verdade da tradição protestante só pode ser negada por falsificação empírica, ao passo que a verdade da tradição católica só pode ser negada por argumento racional e lógico.
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Procurarei ilustrar a diferença em relação à ideia de Deus. Para estabelecer a verdade acerca da ideia de Deus, a tradição católica parte dos factos. Os factos dizem que não existe nenhuma sociedade humana, ou alguma vez existiu, que não assente na ideia de Deus. Nenhuma. E todas as tentativas até agora realizadas para construir uma sociedade humana sem a ideia de Deus falharam. Logo, a humanidade é imposssível sem Deus. Em consequência, a ideia de Deus existe (caso contrário, a humanidade não existiria). Está feita a prova da existência da ideia de Deus.
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Deixarei de lado por um momento a questão de saber "Mas onde é que está Deus?" para ilustrar como a tradição protestante decide acerca da verdade de Deus. Ela começa por contrapôr a tese A - "Deus existe" à sua antítese, a tese B - "Deus não existe" e, em seguida propõe-se pronunciar julgamento, ou fazer justiça, sobre as duas teses em litígio. Para tal, requer a cada uma das partes que apresente evidência empírica em suporte da sua respectiva tese.
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É neste momento que a tradição protestante entre por um caminho irracional. Repare-se que a tradição católica demonstra a verdade da ideia de Deus, mas em nenhum momento afirma a sua existência física. Pelo contrário, as partes A e B da tradição protestante vão agora procurar no mundo real e dos sentidos - na natureza e na sociedade - sinais da existência de Deus, ou da sua inexistência.
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A parte A - "Deus existe", em particular, vai agora partir mundo fora a procurar sinais da existência de Deus em cada esquina - como, por exemplo, nos milagres -, e até a ver se encontra Deus pelo caminho. Mas é claro que Deus não pode andar por aí no meio dos humanos, caso contrário não seria Deus. Seria o Dedé, que todos ou alguns de nós conheceríamos de se cruzar connosco na rua. Nem pode Deus andar a fazer milagres a cada esquina, sem que fosse objecto de comentários jocosos como este: "Olha, hoje o Dedé passou por aqui e deixou uns milagres". A Parte litigante A - "Deus existe" está, pois, destinada a ridicularizar-se aos olhos de qualquer júri imparcial. Tanto mais que a Parte B - "Deus não existe", pode indicar catástrofes naturais e situações de injustiça no mundo como "evidência" de que Deus não existe. O veredicto de um júri imparcial está destinado a pender para o lado B - "Deus não existe".
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O Terramoto de Lisboa de 1755 foi utilizado pelos filósofos iluministas da época, como Kant, Voltaire e Molière, para escrutinizar a existência, ou não, de Deus - uma peça de "evidência empírica" que evidentemente faria pender o julgamento de qualquer júri imparcial para o lado da tese B - "Deus não existe". Tendo sido a tradição protestante a colocar pela primeira vez a questão da verdade de Deus nestes termos, não surpreende que o primeiro filósofo ateu tenha saído desta tradição. Foi David Hume.
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A tradição católica aquilo que demonstra, sem margem para contestação, é a verdade da ideia de Deus. Ela não demonstra, nem pretende demonstrar, a sua existência física nem, como procurei argumentar acima, Deus alguma vez poderia ter existência física. Seria um Dedé. Mas pode então perguntar-se: "Onde é que está Deus?". A resposta é óbvia: está em cada um de nós, no espírito de cada homem.

29 outubro 2013

a ver milagres...

Agora, a ideia que eu deixei de milagre no meu post anterior não tem nada que ver com a definição de milagre do Espinoza, citada pelo Joaquim. Rigorosamente nada que ver.

Quem está certo? Não sei, se calhar é o Espinoza, quase de certeza é, ainda por cima ele é estrangeiro (embora descendente de portugueses) e judeu. Esta é uma combinação imbatível.

Mas também não é minha pretensão discutir neste post quem tem a verdade acerca do que é um milagre. A minha pretensão é outra.

Aquilo que pretendo é salientar ao Joaquim que o Espinoza, tal como o Kant, nunca teve mulher. E o Espinoza, tal como o Kant, pensava isto acerca das mulheres.

O Espinoza, tal como Kant, era um homem incompleto - um homem que não tinha, nem nunca teve, mulher -, o que não abona muito em favor da sua competência para discutir comigo o que é um milagre (discussão que deixarei para outra altura).

Um homem incompleto ... um homem que não tinha, nem nunca teve, mulher ... mas que importância tem isso para aquilo que um homem pensa?

Tem uma importância decisiva.

E o que é isso de ter mulher, é tê-la fisicamente?

É isso, mas não é só isso - é muito mais do que isso. Um homem que tem mulher é um homem que tem o seu espírito possuído por uma mulher. Amar uma mulher é ter o espírito possuído por ela, é estar pronto a fazer tudo por ela.

Por isso, um homem que tem mulher pensa de uma maneira diferente, muito diferente - porque o seu espírito está possuído por ela - de um homem que não tem mulher.

Ter mulher é... ser possuído por ela, é ter o espírito possuído por ela.

Fantástico ... um milagre...outro.

Na verdade, eu passo agora a vida a ver milagres...

31 outubro 2013

Vêmo-los todos os dias

Se há Milagres? Claro que os há. Vêmo-los todos os dias, a própria Natureza é um Milagre Divino. E cada um de nós, seres humanos, somos abençoados por eles muitas vezes durante a nossa vida, mesmo que não lhes prestemos atenção e/ou nem sequer neles acreditemos.

Eu pessoalmente tenho sido bafejada por essa Benção várias vezes ao longo da minha vida. Claro que só quem tem verdadeira Fé pode chegar a Deus. E a Fé é algo que não se explica, ou se tem ou não se tem.

Os filósofos e os cientistas em geral são por natureza descrentes, como não conseguem provar a existência de Deus em laboratório..., não acreditam Nele. Faz parte da sua maneira de ser. Com talvez a única excepção de Einstein que disse acreditar em Deus o que gostava de saber era se o Mundo tal como se encontrava era Obra Sua ou do acaso.

Há quem duvide da existência de Deus. E até há quem a negue peremptòriamente. A esses, que òbviamente não foram bafejados pela Fé nem sabem o que Ela significa, só posso aconselhar a minha experiência pessoal. Deixem por momentos a incredulidade de lado ou suspendam momentâneamente o seu agnosticismo e observem com olhos de ver a Natureza na sua maravilhosa imensidão e extraordinária plenitude. Será possível não acreditarem por um segundo sequer que tanta grandiosidade teve que ser Obra de Algo que nos ultrapassa, de um Ser Omnipotente capaz de A criar na sua incomensurável perfeição, diversidade e beleza? Para quem é crente a resposta está dada. Para quem não é, terá uma existência mais pobre, mais amargurada, mais infeliz, mais só. Mesmo que não o admita abertamente sabe-o no seu íntimo. E por vezes até o admite e afirma-o com sinceridade. Confessam estas pessoas que se sentem inúteis, tristes, sem afinidades ao próximo (na verdade odeiam todos em seu redor e até a própria Humanidade) sem propósito ou motivação para viver. O que é que traduz este desolador estado de espírito senão a falta de religiosidade, a necessidade de acreditar, de amar, de ter Fé em Deus? É que amar e respeitar a natureza, o próximo e a família, é amar a Deus. E Deus retribui sempre esse amor a dobrar, normalmente através de milagres para que nos apercebamos da Sua efectiva existência.
Eu sei do que falo. Estas não são palavras vãs. Temos vários amigos e até alguns elementos na família por afinidade cujas difíceis personalidades, falta de amor ao seu semelhante e descrença absoluta num Ser Superior, são o exemplo acabado do que escrevi acima e tenho a certeza absoluta, a verdadeira causa da sua tremenda infelicidade e nenhuma vontade de viver.
Maria
1:44 AM

03 agosto 2020

contas na Suíça

"Ex-deputado Agostinho Branquinho investigado por fraude fiscal e branqueamento de capitais" (cf. aqui)

Estava eu a comentar os milagres de S. Branquinho, ainda só ia no princípio, aqueles que ele fez entre 2003 e 2007, quando sou surpreendido por esta notícia de hoje no Público.

Afinal, há mais.

Espera-se que o Ministério Público, deste vez, não tenha ido buscar milagres que S. Branquinho fez entre 1903 e 1907, por que capaz disso é ele.

Sobretudo, envolvendo contas na Suíça. Contas na Suíça é aquilo que os procuradores do Ministério Público gostam mais, vá-se lá saber porquê.

24 dezembro 2021

milagres na política

 O Mandatário Nacional do CHEGA apela a milagres na política: cf. aqui

28 fevereiro 2016

a vontade de Deus

Dizem que não há milagres.

Pero que los hay, hay...

Um partido que, como os outros, se esforça por pôr Cristo fora da conversa - e que, por ser um partido radical, se esforça ainda mais do que os outros -, é o mesmo partido que vem pôr Cristo no centro da conversa.

Chesterton definiu os milagres como a liberdade de Deus, são aqueles acontecimentos que Deus tem a liberdade de fazer, mas que nós não temos.

É o caso. A porta-voz do BE já admitiu que foi um erro, um acontecimento não premeditado, um acaso.

E é sobre o acaso que eu gostaria de fazer uma declaração. Sou autor de livros de Probabilidade e Estatística, a chamada "ciência do acaso". Passei milhares de horas da minha vida a  ensinar estas matérias.

Sempre defini o acaso como manda a ciência, como acontecimentos que não têm uma causa pré-determinada (acaso, do latim a casu, sem causa), acontecimentos que não são deliberados (ou planeados) por ninguém, acontecimentos que não constituem o desígnio de alguém.

Hoje, estou convencido que esta definição é falsa. A definição verdadeira é a seguinte:

"O acaso é a vontade de Deus".

04 agosto 2020

Os milagres de S. Branquinho (V)

(Continuação daqui)


V. O milagre dos três andares


Os milagres são como as cerejas. Milagre puxa milagre. E foi assim que ao transformar, do dia para a noite, um edifício de quatro andares que servia de centro de noite para idosos num hospital de sete andares, dotado de enfermeiras e tudo, S. Branquinho criou um grave problema camarário em Valongo.

Havia agora uma discrepância entre a realidade de um hospital de sete andares em pleno funcionamento e a licença camarária que se referia a um edifício de quatro andares para acolher idosos à noite, e o problema não se apresentava de fácil resolução.

As autoridades camarárias, o empresário promotor e o empreiteiro reuniram-se nos Paços do Concelho de Valongo para estudar as alternativas de solução. Eram duas. Corria o mês de Dezembro de 2007 e a decisão tinha de ser tomada antes do final do ano.

Primeira, cortar três andares ao edifício e pedir ao Ministério da Saúde autorização para converter os doentes em idosos. Este projecto tinha um prazo de execução de seis meses, custava um milhão de euros, mas o seu grande inconveniente era a poluição sonora que causava aos doentes da enfermaria do quarto andar.

Segunda, acrescentar três pisos à licença de construção já emitida pela Câmara, mas dada a morosidade da burocracia valonguense e o preço de construção por metro quadrado, este projecto demoraria dois anos a ser executado e tinha um custo estimado de 4,5 milhões de euros.

S. Branquinho estava no café central de Valongo, a beber um copo de vinho verde, quando ouviu na mesa ao lado que iriam arrasar os três andares superiores do Hospital de S. Martinho, e convertê-lo numa casa para idosos.

Ao ouvir isto, um arrepio subiu-lhe pela coluna acima, o gole seguinte de vinho até lhe soube mal, era como se fossem cortar a cabeça a S. Martinho, que gostava de beber vinho verde como ele, embora numa tasca dos arredores de Braga há muitos séculos atrás.

Movido por santa solidariedade, pediu o número de telefone do empresário que era o dono do hospital, de nome Joaquim Teixeira, e ligou-lhe no dia seguinte. A conversa decorreu em código, não fossem os inquisidores do Ministério Público do Porto estarem à escuta:

-Quim?

-Sim.

-Daqui Little White…

-OK.

-Faço os três andares por 5% do preço… 225 mil…para dar aos pobrezinhos... pagos em conta no BES…

-Já falaste ao Salgado?

-Tudo arranjado com o Salted…

-Quanto tempo demoras?

-Nove dias.

-Fechado.

Nove dias depois, a 21 de Dezembro de 2007, na licença camarária, onde antes constava a autorização para construir um edifício de quatro andares, destinado a um centro de noite para idosos, passou a constar a autorização para construir um hospital com sete andares.

Foi o segundo milagre de S. Branquinho em Valongo - o milagre dos três andares -, um milagre certificado pelo Ministério Público do Porto que, uns longos treze anos depois, em pleno verão de 2020, no despacho de acusação, escreveu: "(…) ali se declarou que os três pisos suplementares foram concluídos em nove dias" (cf. aqui, p. 15 da edição em papel).

(Continua)