31 agosto 2025

O RESSURGIMENTO DO TRIBALISMO


Narrativas e Tribalismo: a Morte do Debate Racional

Vivemos tempos em que as grandes questões do nosso presente — o aquecimento global, a pandemia de Covid-19, a guerra da Ucrânia — deixaram de ser discutidas num registo racional e informado, como preconizava o ideal iluminista. Em vez disso, circulam narrativas parcelares, simplificações emotivas de realidades complexas, às quais as pessoas aderem segundo a filiação da sua tribo: partidária, religiosa, profissional ou sindical.

O resultado é um tribalismo renovado, que já não se ancora apenas em laços de sangue ou território, mas sobretudo em identidades ideológicas e narrativas mediáticas.

O caso do aquecimento global

No debate sobre as alterações climáticas, o espaço para ponderação e dúvida foi reduzido a pó. Para uns, negar o carácter antropogénico do aquecimento global é negar a ciência; para outros, a narrativa dominante não passa de alarmismo manipulado ao serviço de interesses económicos e políticos. O que deveria ser um debate científico e político racional converte-se numa batalha tribal, onde qualquer nuance é vista como traição.

O caso da pandemia

Durante a Covid-19, assistiu-se ao mesmo padrão. De um lado, a narrativa do “seguir a ciência”, legitimando confinamentos e vacinação em massa; do outro, a narrativa do “autoritarismo sanitário” e da defesa da liberdade individual contra excessos governamentais. Entre estas trincheiras não houve espaço para um debate equilibrado sobre proporcionalidade de medidas, efeitos colaterais e alternativas. As redes sociais funcionaram como arenas tribais, onde cada gesto, cada opinião, era lido como uma prova de pertença.

O caso da Ucrânia

A guerra na Ucrânia expôs a mesma lógica binária. Para uns, trata-se da defesa da democracia contra uma agressão russa; para outros, de uma guerra por procuração, alimentada pela OTAN, onde a Rússia reage à expansão ocidental. Outra vez, o complexo é reduzido ao simplismo narrativo. Quem questiona um lado é imediatamente rotulado de simpatizante do outro.

Do debate ao espectáculo político

Neste contexto, a verdadeira política desaparece. Em vez de fóruns de discussão e procura de consensos, temos apenas espectáculo político, destinado a reforçar identidades tribais e a mobilizar emoções. O Parlamento, os media e sobretudo as redes sociais tornaram-se arenas de gladiadores, onde o que importa não é esclarecer mas atacar, não é convencer mas marcar território.

O eclipse das Luzes

O mais inquietante é que estas narrativas, ao serem parcelares e emotivas, afastam-nos das luzes da racionalidade. O ideal iluminista, que sonhava com sociedades capazes de debater com base na razão e no conhecimento, parece morto ou em estado de coma. Em seu lugar, ergue-se uma política tribal, previsível nas suas reações, impermeável ao diálogo, alimentada por algoritmos que reforçam o viés de cada grupo.

Epílogo

A força das narrativas é inevitável — os humanos sempre viveram delas. Mas quando se tornam substituto do debate e arma de tribalização, deixam de iluminar e passam a ofuscar. Talvez o maior desafio do nosso tempo seja reencontrar um espaço público onde a razão volte a ter lugar. Sem isso, restar-nos-á apenas o espectáculo tribal, cada vez mais ruidoso e cada vez menos político.

Miguel Milhão (10)

 (Continuação daqui)



10. D. Dolores


Falámos sobre vários aspectos da cultura portuguesa. Nesta matéria, enfatizei o carácter católico da nossa cultura que, na minha opinião é, de longe, o principal obstáculo ao triunfo do liberalismo em Portugal que o Miguel Milhão visa conseguir.

Por exemplo, foi mencionado o carácter feminino da cultura católica e, por implicação, da cultura portuguesa, mas não houve oportunidade para desenvolver o assunto, o que faço agora.

Enquanto na cultura protestante o centro da religiosidade cristã é o próprio Cristo (princípio protestante Solo Christo), a religiosidade popular católica dá centralidade à figura da sua Mãe, Maria. 

É um daqueles paradoxos em que a cultura católica é prolixa. Maria não é deusa nenhuma. Deus é o seu filho, Jesus Cristo. Maria é importante apenas por ser Mãe de quem é. Não obstante, a religiosidade popular católica dá mais importância a Maria do que a Cristo. Quem tem uma dificuldade na vida vai mais facilmente pedir um favor à Virgem Maria em Fátima do que ao Cristo-Rei em Almada.

É como se a D. Dolores fosse mais importante do que o seu filho, Ronaldo, quando a realidade é exactamente ao contrário. D. Dolores não é nenhuma craque de futebol. A importância da D. Dolores é uma importância derivada, resulta de ser mãe de quem é.

Este aparente paradoxo é fruto da esperteza popular e da figura do chico-esperto. Os primeiros chico-espertos da cultura portuguesa (e de todos os países sujeitos à influência dominante do catolicismo) foram os padres, eles próprios oriundo do povo.

Se um admirador qualquer quiser pedir uma camisola autografada ao Cristiano Ronaldo e se dirigir directamente a ele, tem poucas probabilidades de ser atendido porque o Ronaldo recebe diariamente milhões de pedidos idênticos. Mas se esse admirador conseguir convencer  D. Dolores da emoção e da importância que teriam para ele uma camisola do Ronaldo, é praticamente certo que a vai receber. Aos ouvidos de um filho a voz da mãe soa mais forte do que como um mero pedido. Soa como uma ordem. A voz da mãe é a voz que deu ao filho mais ordens em toda a sua vida ("Senta-te à mesa!, "Vai lavar os dentes!", "Não comas com as mãos!", "Não bebas álcool!", "Vai fazer essa barba!", "Atravessa a rua na passadeira!").

Portanto, segundo esta racionalidade, quem quiser obter um favor de Cristo, o melhor é dirigir-se à Mãe. No primeiro milagre de Cristo, o das Bodas de Caná, Maria faz saber a Cristo que o vinho acabou, um pedido implícito para que ele o faça aparecer de novo. Inicialmente, ele mostra-se relutante dizendo que ainda não tinha chegado a sua hora. Mas, pouco depois, acaba por ceder. Vindo da Mãe, aquilo era mais do que um pedido. Era uma ordem.

Em resultado desta interpretação popular da religiosidade cristã promovida pelos padres, a figura da Mulher e da Mãe ganhou uma centralidade na cultura católica que não tem na cultura protestante. A própria Igreja Católica é a figura teológica de Maria, sendo servida por uma imensidão de homens - os padres. O catolicismo põe a Mulher num pedestal e o homem a servi-la.

Para a própria cultura popular do catolicismo, os custos deste short-cut - o de chegar a Deus (Cristo) por intermédio de uma pessoa, um ser humano (Maria) - foram enormes. Criou uma cultura de intermediários ou intercessores, uma cultura de cunhas que aos olhos da modernidade protestante é uma cultura de corrupção. Esta é uma cultura capaz de corromper até Deus. Maria é a principal corruptora activa, seguida pelos santos e pelos padres - naturalmente, tudo gente que o protestantismo não venera.

Quando a sociedade se laicizou e os padres perderam parte do seu poder e influência em favor dos juristas - Em Portugal, a governação do Marquês, ele próprio um estudante de Direito, embora falhado, foi decisiva nesta transição -  não foi apenas a toga, a organização corporativa e o cerimonial que os juristas herdaram dos padres no exercício das suas funções. Herdaram também a cultura do chico-esperto, que é a cultura do atalho, do golpe, da esperteza saloia e da corrupção.

Ainda agora o GRECO (Grupo de Estados Contra a Corrupção do Conselho da Europa) divulgou o seu quarto relatório de avaliação relativo a Portugal (cf. aqui). Em 2015, o GRECO (de que Portugal faz parte) elaborou 15 medidas anti-corrupção para serem aplicadas a deputados (5), juízes (6) e magistrados do Ministério Público (4). Os deputados (na maioria, juristas), os juízes e os magistrados do MP são os combatentes da corrupção no país, uns fazendo as leis anti-corrupção e os outros aplicando-as.

Pois, dez anos depois, em 2025, estes combatentes da corrupção só tinham implementado cinco das 15 medidas recomendadas pelo GRECO, um terço do total. A este ritmo, a implementação de todas as medidas vai demorar 30 anos. É caso para dizer: "Em Portugal, os combatentes da corrupção gostam muito de corrupção", caso contrário já teriam acabado com ela no seu próprio meio.   

Ora, um regime político liberal com uma justiça corrupta é uma impossibilidade prática.

(Continua acolá)

29 agosto 2025

Miguel Milhão (9)

 (Continuação daqui)



9. Uma cabra ou um cabrão

O podcast foi gravado nas instalações da Prozis na Maia. Logo à entrada, em letras vermelhas luminosas, a inscrição "A GOD CALLED MONEY". Por baixo, a imagem de um animal, não consegui discernir o sexo, se era uma cabra ou um cabrão.

"A God Called Money" é o título de um filme com a Julia Roberts e parece que o Papa Francisco também pronunciou a frase referindo-se a Mamon. Inicialmente não consegui  compreender a relação entre a imagem do animal e o slogan. Observei depois que o ambiente da empresa é perfeitamente americano, tudo muito profissionalizado. Fiquei encantado. No estúdio, uma equipa de produção com três pessoas para gravar o podcast. 

Eu não queria abusar da hospitalidade do meu anfitrião para falar de assuntos pessoais, mas não resisti, o meu case-study (cf. aqui) tem um manifesto interesse público. Além de revelar a corrupção que existe no sistema de justiça português e o seu carácter anti-democrático e inquisitorial, ele ilustra na perfeição a profecia de Santo Agostinho referida no post anterior, segundo a qual "Um Estado que não se reja pela justiça converte-se num grande bando de ladrões".

Uma sociedade de advogados e um político queixam-se de dois crimes de ofensas. O Ministério Público dá seguimento à queixa e produz acusação criminal contra mim. Um tribunal superior do país condena-me pelos dois crimes. O Estado português não se regeu pela justiça (um tribunal internacional arrasou a condenação). 

E quem são os ladrões?

O próprio Estado a quem tive de pagar sete mil euros de multa mais outro tanto em custas judiciais; o político a quem tive de pagar uma indemnização de dez mil euros mais juros (cerca de doze mil no total); e a sociedade de advogados a quem tive de pagar uma indemnização de cinco mil euros mais juros (cerca de seis mil no total). Este é o grande bando de ladrões a que se referia Santo Agostinho.

Excepcionalmente, este caso era recorrível para um tribunal internacional, onde imperou a justiça. O tribunal internacional ordenou ao tribunal nacional para rever a condenação - uma decisão que aguardo para breve -, pelo caminho obrigando o Estado português a devolver-me o dinheiro que me roubou e ainda o dinheiro que me foi roubado pela sociedade de advogados e pelo político. O golpe saiu mal ao Estado e o bando de ladrões ficou reduzido à sociedade de advogados e ao político que acusaram falsamente um inocente e ainda enriqueceram por cima.

O dinheiro falou mais alto que a justiça.

Eu ponho sempre alguma emocionalidade quando falo deste case-study.  E foi nesse estado algo emocional que me despedi do Miguel Milhão e saí do estúdio. Ao abandonar o edifício, acompanhado por um seu colaborador, olhei uma derradeira vez para a imagem do animal, uma cabra ou um cabrão, encimada pela inscrição "A GOD CALLED MONEY". 

Subitamente tudo aquilo ganhou um significado para mim. Pensei: "Na verdade, só uma cabra ou um cabrão põe o dinheiro acima de tudo, mesmo do valor sagrado da justiça". 

(Continua acolá)

27 agosto 2025

Miguel Milhão (8)

 (Continuação daqui)



8. Justiça e liberdade


Falámos também de justiça. Para quem patrocina um projecto político liberal para o país como o Miguel Milhão a ideia de justiça é crucial. Não existe liberdade sem justiça. A liberdade exprime-se frequentemente na esfera económica mas conquista-se na justiça. 

Os povos de cultura anglo-saxónica foram os criadores do liberalismo devido à elevada concepção de justiça que possuíam e que foi celebrada por Kipling (cf. aqui). O ideal de justiça entre os britânicos não se exprime pela palavra justice mas pela palavra fairness,  cujos ingredientes principais são a imparcialidade e a proporcionalidade.

Existe uma antiga discussão entre católicos e protestantes quanto a saber se Cristo veio ao mundo para dizer a verdade ou para fazer justiça. Veio para as duas coisas porque sem verdade não é possível fazer justiça. A verdade, ela própria, é a justiça que se faz à realidade.  Sem verdade não há justiça e sem justiça não há liberdade.

O Estado, possuindo o monopólio da coerção, é essencial para assegurar a justiça porque nenhum criminoso vai de livre vontade para a prisão. Mas é precisamente este monopólio da coerção que, se não for limitado pela justiça, torna o Estado o maior inimigo da liberdade. É célebre a frase de Santo Agostinho segundo a qual "Um Estado que não se reja pela justiça converte-se num grande bando de ladrões". Ora, nenhum cidadão é livre diante de um grande bando de ladrões possuindo um poder coercivo. 

A frase, que se encontra no livro "A Cidade de Deus", foi proferida no contexto de uma conversa entre um chefe de piratas e um imperador. O pirata vê-se a si próprio como o chefe de um bando de ladrões e é, nesta qualidade, que ele se compara com o imperador que também é chefe, chefe de Estado. Ambos possuem o poder coercivo para confiscar a propriedade a qualquer pessoa, até tirar-lhe a vida. A única diferença é que no Estado chefiado pelo imperador existe justiça, os impostos são cobrados de acordo com a lei e o consentimento dos governados, o confisco dos bens de um cidadão só é tolerado em certas circunstâncias excepcionais prescritas na lei.

Quando a justiça desaparecer do Estado, o pirata e o imperador são iguais, ambos chefiam um bando de ladrões diante do qual não existe liberdade para ninguém. Excepto, naturalmente, para os próprios ladrões, que é aquilo em que se terão convertido os governantes, com o imperador à frente. 

(Continua acolá)

26 agosto 2025

Miguel Milhão (7)

 (Continuação daqui)



7. Juristas


No podcast do Miguel Milhão também falámos de juristas. Suponho que fui eu que chamei a atenção para o facto seguinte. Em Portugal, no poder executivo (Governo) a maioria dos seus membros são juristas; no poder legislativo (Assembleia da República) a maioria são juristas; no poder judicial os juristas são, não apenas a maioria, mas dominam o sistema de justiça em regime de monopólio.

Os juristas resolvem os problemas sociais com leis, apelando ao poder coercivo do Estado. Colocar a coerção ou a força do Estado como relação dominante entre as pessoas na sociedade, pondo-a à frente das relações voluntárias ou livres (como são as relações de amor ou amizade que prevalecem na família, no grupo de amigos ou na caridade; ou as relações de troca que prevalecem no mercado) é o traço distintivo do socialismo.

Enquanto o sistema político for dominado por juristas, Portugal não vai sair do socialismo e o facto de o André Ventura ser jurista foi um factor decisivo para o Chega ter abandonado a sua matriz liberal inicial  e se ter convertido à social democracia ou socialismo democrático (cf. post anterior).

Mas não apenas o socialismo. É esta dominância dos juristas  nos três poderes do Estado que tem perpetuado o provincianismo que caracteriza a cultura portuguesa e a que fiz referência anteriormente (cf. aqui).

Engenheiros, médicos, carpinteiros, taxistas, professores, jogadores de futebol, cantores, economistas, arquitectos, enfermeiros - todas estas profissões são empregáveis no estrangeiro e levam os portugueses a sair do país e a conhecer o que se passa lá fora.

A única profissão - certamente a única profissão de colarinho branco -  que não é empregável no estrangeiro e cujos horizontes intelectuais ficam para sempre limitados às fronteiras do país é a de jurista. Não se imagina um juiz enquanto juiz a emigrar para o estrangeiro. Menos ainda um magistrado do Ministério Público ou um advogado. É a profissão mais provinciana que existe no país e, no entanto, é aquela que o governa.

Eu já tenho imaginado um advogado português a defender um cruel assassino num tribunal de Nova Iorque. A conclusão a que invariavelmente chego é que o advogado português iria para a prisão muito antes do seu cliente. É que nos tribunais americanos não é permitida nem a mentira nem a trapaça. Dá prisão.

(Continua acolá)

25 agosto 2025

Miguel Milhão (6)

 (Continuação daqui)



6. Partido Quinto Portugal (PQP)


O Miguel Milhão acredita que um dia não muito distante o Chega será governo e o André Ventura primeiro-ministro, e eu também vejo isso com uma elevada probabilidade. E o Miguel Milhão faz uma crítica ao Chega que eu também subscrevo, tendo sido o autor do programa económico liberal do Chega às eleições de 2022.

A crítica é que no domínio das questões económicas e sociais o Chega abandonou a sua matriz liberal original para se tornar um partido social-democrata, cujo programa, nestas matérias, não se distingue do programa do PSD.

Na nossa conversa no podcast também estivemos de acordo que sem esta conversão ao socialismo democrático ou social-democracia o Chega nunca teria crescido como cresceu nas últimas eleições. O ponto é que, quando chegar ao poder, o Chega não tem nada de diferente para oferecer aos portugueses que o distinga daquilo que lhes ofereceu o PSD ou mesmo o PS na sua versão mais moderada de partido social-democrata.

Nesse momento - o "Momento Milei" - haverá lugar para um partido liberal em Portugal.

O Partido Quinto Portugal (PQP), promovido pelo Miguel Milhão, é um partido liberal na economia e conservador nos costumes inspirado na ideia messiânica do Quinto Império cultivada por Fernando Pessoa e que, em Portugal, teve a sua expressão mais coerente na obra do Padre António Vieira (cf. aqui). 

O PQP é um projecto político de longo prazo (que pode ir até 10 ou 20 anos), que não visa concorrer às eleições no imediato, mas antes contribuir para formar uma opinião pública de matriz liberal para quando chegar o "Momento Milei" - o momento em que o socialismo do PSD, do PS e do próprio Chega se tiver esgotado e a opinião pública portuguesa esteja receptiva a um programa liberal de governação. 

O programa do Partido Quinto Portugal assenta nas seguintes ideias básicas (cf. aqui):

1. Liberdade individual

2. Descentralização do poder

3. Estado essencial e eficiente

4. Redução de impostos e fomento da Economia

5. Autonomia e responsabilidade dos cidadãos.


(Continua acolá)

24 agosto 2025

Miguel Milhão (5)

 (Continuação daqui)



5. O Marquês


Também falámos do Marquês de Pombal no podcast. Julgo que foi a propósito de uma declaração minha sobre o meu próprio americanismo. 

Eu sou um grande admirador da América, na realidade, como economista, olho para os EUA como o maior milagre económico da humanidade. Os EUA vieram resolver um problema com que a humanidade se debatia desde as suas origens - o problema de saber como tirar, em massa o homem da miséria.

Pessoas ricas sempre houve em toda épocas e em todos os lugares. Mas eram poucas no meio da pobreza generalizada. A América foi a primeira sociedade humana a tirar, em massa, o homem da pobreza. Por isso continua hoje a ser tão procurada.

O ano de 1776 foi, a este respeito, um ano sagrado. Foi o ano da independência americana e o ano da publicação do livro "A Riqueza das Nações" do filósofo escocês Adam Smith que pela primeira vez teorizava sobre o liberalismo económico moderno, a organização económica de um país baseada no mercado, a célebre "mão invisível".

Os pais fundadores americanos, muitos de origem escocesa e calvinista, como Adam Smith, eram familiares com a obra do filósofo e instituíram a economia americana assente nas suas ideias. Resultado: produziriam o mais rico e poderoso do mundo.

Parece uma ironia. Ao mesmo tempo que Smith desempenhava um papel fundamental na criação daquela que em breve se tornaria a economia mais rica e poderosa do mundo, o mesmo Smith, no mesmo livro, apresentava como exemplos radicalmente opostos das suas ideias dois países, Espanha e Portugal, que ele descreveu como "atrasados", "miseráveis" e "mal governados".

Nessa altura governava Portugal o Marquês de Pombal. A riqueza produzida pela mão invisível de Adam Smith contrastava com a pobreza da mão visível do Marquês, num país onde nada se podia fazer sem a sua autorização. 

Enquanto a Inglaterra e os seus descendentes na América do Norte, EUA e Canadá, enriqueciam pela abertura às novas ideias liberais, Portugal e Espanha, e os seus descendentes na América Latina, embruteciam às mãos dos seus respectivos déspotas, como o Marquês de Pombal.

É um dos maiores paradoxos da cultura portuguesa celebrar o Marquês de Pombal no centro das principais cidades do país, com destaque para a própria capital, em praças, em ruas, até em escolas. Uma das raras excepções é Braga, a capital do catolicismo em Portugal, donde o Miguel Milhão é natural. Os padres não gostavam dele, e com razão.

A Enciclopédia Portuguesa e Brasileira encerra o artigo dedicado ao Marquês dizendo que ele foi o governante mais cruel da nossa história. Pois é este facínora que é ainda hoje celebrado nas principais cidades e vilas do país. Até a TAP tem um avião com o seu nome.

Na conversa com o Miguel Milhão tive ainda oportunidade de resumir numa só palavra a opinião que numa longa biografia, o Camilo Castelo Branco tinha sobre o Marquês. Deixei-a registada neste blog vai para 16 anos: cf. aqui.

(Continua acolá)

23 agosto 2025

Miguel Milhão (4)

 (Continuação daqui)



4. O provincianismo português


O Miguel Milhão parece ter uma grande admiração pelo Fernando Pessoa que, na opinião dele, analisava muito bem o povo português. Por isso, também falámos de Pessoa, em mais do que um sentido.

Falámos primeiro daquele que Fernando Pessoa considerava o maior defeito português, "o mal superior português", como ele próprio lhe chamava - o provincianismo. 

Referi por curiosidade que Salazar, também ele um provinciano - embora um provinciano astuto como normalmente são os provincianos - considerava igualmente Portugal um país provinciano quando, numa das entrevistas que concedeu a António Ferro, disse que Portugal estava para a Europa como a Província estava para Lisboa

Vale a pena recuperar o que Fernando Pessoa escreveu acerca do provincianismo português e que citei há uns anos neste blogue (cf. aqui):

"Se ... quisermos resumir numa síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo.
...
"O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento dela - em segui-la, pois, mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.
...
"A síndrome provinciana compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e a admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e a admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.
...
"Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do Orpheu, disse a Sá-Carneiro: 'Você é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa você é vítima da sua educação portuguesa. Você admira Paris, admira as grandes cidades. Se você tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si'.

"O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção... Se alguma tendência têm os criadores da civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam... O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano.

"É na incapacidadec de ironia que reside o traço mais profundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz.
...
"Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam 'detachment' - o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele 'desenvolvimento da largueza de consciência' em que ... reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não ser provinciano.
...
"O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queiroz ...".

(in Fernando Pessoa, "O Provincianismo Português" (1928), em Richard Zenith et. al. (orgs.), Obra Essencial de Fernando Pessoa, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, vol. 3, pp. 374-5)

(PS. Curiosamente, no post anterior, o Joaquim veio expôr outro defeito português, o de desistir a meio da corrida, frequentemente por cansaço ou exaustão. E não é menos curioso que Salazar também se referiu a este defeito falando da falta de persistência que caracteriza o povo português. Os portugueses saltam facilmente de uma coisa para a outra sem terminarem a anterior)

(Continua acolá)

O MURO DO KM 30

O famoso quilómetro 30 da maratona: quando a mente grita “não consigo mais”

Quem já correu uma maratona ou acompanhou relatos de atletas sabe que existe um momento quase mítico: o quilómetro 30. É ali que surge o chamado “the wall” — o muro contra o qual o corpo e a mente parecem colidir.

Até esse ponto, o esforço é duro, mas controlado. A glicose circulante e as reservas de glicogénio nos músculos e no fígado vão sustentando cada passo. Mas, ao chegar ao Km 30, essas reservas esgotam-se. O organismo começa a recorrer a fontes mais profundas de energia — a gordura, o tecido muscular, mecanismos metabólicos de emergência.

O resultado é brutal: a fadiga instala-se, os músculos pesam toneladas, a respiração acelera e a mente grita que não há mais nada para dar. Muitos corredores descrevem esse momento como uma experiência quase existencial:

  • Grete Waitz, campeã olímpica norueguesa, dizia que “a maratona começa verdadeiramente no quilómetro 30”.

  • Bill Rodgers, lendário maratonista americano, resumiu: “No quilómetro 30, cada fibra do teu corpo diz para desistires. O resto da corrida é mental.”

O que a ciência demonstra sobre o “muro”

Durante décadas, acreditava-se que o muro do Km 30 era apenas psicológico. Mas a investigação em fisiologia do exercício mostrou que há uma base metabólica real:

  • As reservas de glicogénio caem drasticamente.

  • O corpo ativa hormonas de stress (adrenalina, cortisol) para mobilizar gordura e proteínas.

  • O cérebro, dependente de glicose, reduz a sensação de motivação e aumenta o de fadiga para “proteger” o organismo.

No entanto, estudos com calorimetria, medições de lactato e até biópsias musculares demonstraram algo surpreendente: mesmo quando o corredor sente que chegou ao limite, o corpo ainda guarda reservas energéticas substanciais. Não é o combustível que acaba — é a mente que, ao interpretar sinais metabólicos, levanta um travão protetor.

Em termos médicos, isto é chamado de modelo do governador central (central governor model, de Tim Noakes). O cérebro age como um “governador” que reduz a performance para evitar danos graves, mas não deixa o corpo atingir o verdadeiro esgotamento fisiológico.

O paralelo com o burnout

O burnout funciona de forma semelhante.

  • O stress crónico consome progressivamente as nossas reservas emocionais e metabólicas.

  • Chega um momento em que sentimos que não podemos mais: falta de energia, perda de motivação, sintomas físicos e cognitivos.

  • Mas a realidade é que, tal como na maratona, ainda existem reservas escondidas — tanto no corpo (adaptações metabólicas, neuroplasticidade) como na mente (resiliência, sentido de propósito, apoio social).

O problema é que, sem uma estratégia adequada, a pessoa não consegue aceder a essas reservas. É como o corredor que pára diante do muro, convencido de que não pode continuar.

O papel do Coaching: aprender a atravessar o Km 30

Tal como os maratonistas não correm sozinhos, também quem enfrenta o burnout precisa de orientação. É aqui que o Coaching entra:

  • Preparação: identificar padrões de stress e consumo energético antes de chegar ao muro.

  • Estratégia: aprender técnicas de gestão de energia, de foco mental e de recuperação ativa.

  • Motivação externa: quando a mente diz “não consigo mais”, o coach é a voz que lembra: “ainda tens reservas, dá mais um passo”.

  • Reorganização: ajustar o ritmo de vida, tal como o corredor aprende a gerir o pace da corrida para não esgotar cedo demais.

No fim, atravessar o Km 30 não é apenas completar uma maratona. É descobrir que somos muito mais fortes do que julgamos. E o burnout, tal como a maratona, pode transformar-se num momento de viragem — um convite para reencontrar energia, propósito e equilíbrio.

👉 Conclusão: o muro não é o fim, é o início de uma nova etapa.
A maratona mostra que a mente pode gritar “acabou”, mas a ciência prova que o corpo ainda tem reservas. O Coaching é a ponte que ajuda a atravessar esse muro — no desporto, na vida e no combate ao burnout.

Miguel Milhão (3)

 (Continuação daqui)



3. Um Deus que também é homem


Também se falou sobre o facto de a civilização cristã ser a mais próspera de todas as civilizações, aquela que mais melhorias trouxe para a humanidade. Os medicamentos e as técnicas da medicina que prolongam a vida, as vacinas, o avião, o automóvel, o frigorífico, a televisão, a internet, o telemóvel, a lista é sem fim, são praticamente todas criações da civilização cristã.

Porquê?

Porque a religião cristã é a única em que Deus também é homem. Cristo é ao mesmo tempo Deus e homem, divino (pelo lado do Pai) e humano (pelo lado da Mãe).

Se Cristo que (também) é homem fazia milagres, qualquer um que seja homem como ele também os pode fazer. Esta é a mais importante mensagem que o cristianismo passa a cada homem e mulher.

A ideia de um Deus que também é homem, abriu à humanidade (homens e mulheres) horizontes infinitos. Nunca uma religião tinha dado ao mais vulgar homem ou mulher uma auto-confiança tão grande nas suas próprias capacidades como a religião cristã.

Aquilo que há uns séculos parecia um milagre (v.g., pôr um avião a voar, curar a tuberculose, transplantar um coração) tudo isso acabaria por se tornar uma banalidade sob a civilização cristã. 

Foi ainda a civilização cristã que realizou outro milagre, o de ensinar ao mundo como tirar, em massa, o homem da miséria - através do liberalismo económico de que os EUA são o principal exemplo.

(Continua acolá)

Milguel Milhão (2)

 (Continuação daqui)




2. Deus

No podcast do Miguel Milhão falámos de Deus.

Deus é a ideia mais importante da humanidade, sem a qual a própria humanidade não seria possível.

Não existe, nem nunca existiu, uma nação, uma cultura, uma civilização sem a ideia de Deus. Algumas tiveram vários deuses, outras um só, mas todas tiveram um Deus.

A civilização judaico-cristã só tem um. 

(Continua acolá)

22 agosto 2025

Miguel Milhão (1)

 


1. Podcast

Ontem estive a gravar um podcast com o Miguel Milhão, que será publicado em Setembro no Youtube, na série CdK.

Gostei muito de falar com ele, um iconoclasta. Cheguei mesmo a dizer-lhe que ele era uma "alma gémea".

Num acesso de saudosismo, ofereci-lhe um exemplar do meu livro "Cataláxia", e disse-lhe: "Você é o tipo de empresário que eu sempre imaginei para Portugal".

E, depois, num acesso de paternalismo, avisei-o: "Olhe que eles virão atrás de si".


(Continua acolá)

13 agosto 2025

O paradoxo

 

"Países moldados pela Reforma Protestante, como a Suíça, a Holanda, o Reino Unido, a Alemanha, os países nórdicos, os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia, estão entre as nações com maiores índices de liberdade civil, escolaridade, democracia estável e desenvolvimento económico. Max Weber, na sua famosa análise sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo, observou que a mentalidade reformada, com a valorização do trabalho, da poupança, da honestidade e da responsabilidade pessoal, criou uma base cultural para prosperidade e instituições sólidas.

"Essa herança foi transmitida por comunidades que viam a administração responsável dos recursos como um dever diante de Deus, e não apenas como uma estratégia económica.

"O paradoxo é que, em Portugal, esse mesmo movimento que historicamente defendeu a liberdade de consciência e contribuiu para avanços sociais globais, continua a ser tratado como um corpo estranho. Desde Martinho Lutero, que questionou a fusão do poder político com o poder eclesiástico, até aos batistas e puritanos, que foram pioneiros na defesa da separação entre Igreja e Estado, a tradição protestante tem insistido que a fé não pode ser imposta nem controlada pelo Estado. Essa visão influenciou constituições e inspirou movimentos democráticos em todo o mundo".

Fonte: cf. aqui


Comentário: O artigo é excelente e o paradoxo tem uma explicação simples. A democracia é uma criação do protestantismo, ao passo que a tradição católica, dominante em Portugal, é anti-democrática. Portugal e a Espanha foram os países que mais resistiram aos avanços do protestantismo e da democracia.

10 agosto 2025

A extinção do Tribunal Constitucional

 



O recente acórdão do Tribunal Constitucional sobre a Lei da Imigração (cf. aqui) é uma excelente oportunidade para retomar uma proposta que já foi defendida no seio do Chega (cf. aqui) e do PSD (cf. aqui) - a extinção do Tribunal Constitucional. 

Não serve para nada, excepto para corromper a justiça e a política. Faz política disfarçada de justiça.