31 março 2019

à Pessoa

A nossa missão (cf. aqui)








"A Casa de Saúde da Boavista é uma Instituição Católica que se preocupa e dedica a prestar  especial atenção à Pessoa e em particular a esta enquanto Doente. É em torno deste que se  centram todos os nossos esforços, no sentido de lhe assegurar um serviço de cuidados médicos de excelência e um atendimento, tratamento e acompanhamento totalmente personalizados e humanizados, respeitando de forma integral a sua dignidade enquanto Pessoa, em todas as suas necessidades".
(sublinhados meus)

Conforme notei em baixo, a diferença para o Hospital de S. José é que este último não se dedica a prestar especial atenção à Pessoa. Dedica-se a prestar especial atenção ao Público.

diferença fatal

O ex-secretário de Estado João Vasconcelos morreu esta semana vítima de ataque cardíaco (enfarte do miocárdio). Tinha 43 anos.

Eu tinha uma coisa em comum com o João Vasconcelos - doença das artérias coronárias, uma doença silenciosa e que possui uma grande carga hereditária -  e estive em risco de me acontecer o mesmo que lhe aconteceu a ele.

Dias antes, o João Vasconcelos tinha ido aos serviços de urgência do Hospital de S. José. Fizeram-lhe um electrocardiograma e mandaram-no para casa (cf. aqui).

É aqui que a minha história começa a divergir da do João Vasconcelos, com um happy ending a meu favor.

Depois de um episódio de dôr no peito (angina de peito, que terá sido o que levou também o João Vasconcelos ao S. José), eu dirigi-me, por indicação do meu amigo Joaquim, directamente a um cardiologista - Dr. Vasco Gama do Porto Heart Centre da Casa de Saúde da Boavista, que é especializado em cardiologia de intervenção (cf. aqui).

O Dr. Vasco Gama também me fez um electrocardiograma. Só que o electrocardiograma não é suficiente para detectar a doença coronária. O Dr. Vasco Gama disse-me então para ir a casa buscar a roupa porque tinha de ficar internado durante um dia para fazer um cateterismo (cf. aqui). Este, sim, é o exame que revela conclusivamente a doença coronária, caso ela exista.

Era um terça-feira. Voltei à tarde para o cateterismo. Foi no final do exame que o Dr. Vasco Gama me informou que a minha  vida estava em grande risco (como já estaria a do João Vasconcelos quando foi ao Hospital de S. José) e tinha de ser operado imediatamente.

Já não saí da Casa de Saúde da Boavista. Fui operado quinta-feira de manhã (14 de Março) e domingo estava em casa.

Qual a diferença que eu vejo entre a experiência do João Vasconcelos e a minha própria experiência para além de eu estar vivo e ele não?

Eu fui tratado de forma pessoalizada na Casa de Saúde da Boavista ao passo que, na urgência do Hospital de S. José, o João Vasconcelos só pode ter sido tratado como "mais um".

Esta diferença foi-lhe fatal.

30 março 2019

Entrevista

Entrevista do candidato da Iniciativa Liberal ao jornal Vida Económica (cf. aqui)

27 março 2019

criminalidade legal

O caso do Arlindo Marques é um caso paradigmático e que pode fazer escola.

Uma grande sociedade de advogados - a Cuatrecasas - a vender os seus serviços de criminalidade legal a um grande cliente, tendo como alvo o Arlindo Marques.

Acusava-se, intimidava-se, coagia-se, chantageava-se e procurava-se extorquir uma pessoa inocente. Tudo isto é crime se perpetrado por qualquer pessoa, excepto por advogados que gozam de um regime de imunidade.

Desta vez a coisa saiu-lhes mal. O grande risco envolvido na venda de serviços de criminalidade legal como faz a Cuatrecasas é a possibilidade de o caso vir a público.

E este veio com toda a força. Ameaçava desabar sobre a Cuatrecasas e o seu cliente. Uma e outro fugiram enquanto era tempo.

A debandada foi ridícula e humilhante. Tiveram o que mereciam.

26 março 2019

escangalhar a rir

Diz um leitor do PC numa caixa de comentários em baixo (cf. aqui):

"Ao ler o comunicado no jornal, quem não conhece a história fica abananado: então o Arlindo persistente no crime e para o castigar tiramos a queixa? Isto é de um tipo se escangalhar a rir. É não há um jornaleiro que pegue no tema? Que pergunte ?"

De facto, segundo a Cuatrecasas, o Arlindo Marques para além de difamar a Celtejo, ainda cometeu mais uma série de crimes e malfeitorias recentes (cf. aqui).

Mas, como retribuição, a Cuatrecasas, em lugar de lhe pôr mais uns quantos processos judiciais em cima, decide retirar-lhe o único que lhe tinha posto.

Ahahahahah!

Que trapalhões!... Que patifórios!... Que saloios!...

É para dizerem este tipo de baboseiras e fazerem esta figura de palermas que o Estado português atribui a eito à Cuatrecasas contratos por adjudicação directa que, no caso do Banco de Portugal, podem chegar ao milhão de euros (cf. aqui)?


A derrota total!...

Eu, se fosse à Celtejo - e ao grupo Cofina em geral - arranjava outros advogados, porque os da Cuatrecasas claramente não prestam.

Que vergonha!... Que falhanço!... Que humilhação!... A derrota total!...

já seria grave

De acordo com a mandatária da empresa [que é a Cuatrecasas], Arlindo Marques não se pronunciou nesta audiência mas "não se coibiu de trazer para o domínio público o documento de trabalho em discussão entre advogados, o que só por si já seria grave, mas mais grave se afigura porque o fez de forma absolutamente distorcida e descontextualizada", sustenta.(cf. aqui).

Quer dizer, o Arlindo Marques trouxe a público as palhaçadas jurídicas escritas pelos advogados da Cuatrecasas... eles ficaram muito tristes...e desistiram do processo...

Ahahahaha...coitadinhos...

(Nota: o comunicado que serve de base à notícia, embora em nome da Celtejo, é escrito pela Cuatrecasas).

o rabo entre as pernas

A Cuatrecasas, em nome da Celtejo, desistiu do processo contra o Arlindo Marques.

Ahahahah. Que valentões, os advogados da Cuatrecasas!

A notícia, veiculada pelo Jornal de Negócios (um jornal do grupo ao qual pertence a Celtejo) é de morrer a rir e o comunicado que lhe serve de base foi obviamente redigido pelos mauzões da Cuatrecasas (cf. aqui).

É do género, em relação ao Arlindo Marques: "Agarrem-nos senão ainda lhe batemos mais!"

No fim, o pior que se pode fazer aos advogados da Cuatrecasas num assunto destes é trazer o caso a público. Mostrar à saciedade aquilo que, na realidade, eles são - uma associação de malfeitores. Em seguida, eles metem o rabo entre as pernas, e desaparecem.

São uns cobardes, que é também aquilo que geralmente são os malfeitores.

Enfim, uns advogados de vão-de-escada, metem processos que depois retiram!...

Ahahahahahah... não sabem o que é que andam a fazer...

Pela minha parte, fico com muita pena de não ter conhecido o mauzão dos mauzões que eles lá têm, aquele de quem a própria ex-mulher diz que é um advogado do diabo...deve ser cá uma fera!...(cf. aqui).

23 março 2019

Só uma

Quando, num dia da semana passada, o médico cardiologista, após fazer-me um exame às artérias coronárias, estando eu ainda deitado na marquesa, me pegou no braço e disse, calma mas firmemente: "O senhor teve muita sorte. A sua vida tem estado em grande perigo. O senhor já não pode sair daqui. Vai ter de ser operado imediatamente", eu reagi com calma.

Era um caso muito interessante. Eu já poderia ter morrido de ataque cardíaco e teria ido para a cova muito convencido de que era uma pessoa perfeitamente saudável.

Excepto, talvez, por umas dores no peito que vinha a sentir nos últimos dias sempre que fazia exercício físico (nos dias mais recentes, bastava caminhar), às quais não atribuí grande importância, sempre convencido que era uma espécie de atleta olímpico.

Mas a minha mulher atribuiu. E falou a um dos filhos que é médico e ao Joaquim, que também é. Foram eles que me pressionaram para ser examinado imediatamente e foi o Joaquim que me indicou o cardiologista.

Por isso, quando o Dr. Vasco Gama, que é assim que ele se chama, me transmitiu aquela mensagem, acrescentou: "Pode agradecer ao Dr. Sá Couto e ao seu filho por estar vivo". E eu pensei: "E à minha mulher também..." porque estamos em tempo de não se poder discriminar contra as mulheres e as meninas do Bloco de Esquerda às vezes andam por aqui à procura de um homem que possam meter na prisão.

Nessa tarde, já deitado numa cama da Casa de Saúde da Boavista, eu continuava a meditar sobre a ironia da situação, que era a de que eu já poderia estar morto, tendo ido para o outro mundo convencido que era um homem perfeitamente saudável.

Ora, quem morre assim de surpresa, e aparentemente saudável, deixa certamente muitas coisas por dizer. E, no meu caso, deixaria eu muitas coisas por dizer?

Não, surpreendentemente, não. Só consegui encontrar uma. A seguinte.

"Eu tenho uma grande convicção - adquirida durante o meu julgamento do ano passado - que a Cuatrecasas mexe fortes influências no Ministério Público do Porto e que, portanto, e pelo menos neste aspecto, o nosso sistema de Justiça não é um sistema limpo".

Era isto que eu teria levado comigo e que gostaria de ter exprimido. Não era muito nem era importante. Quanto ao resto, teria dito em vida tudo aquilo que tinha para dizer.

22 março 2019

Ooops

Ooops, descobri agora que, sem o pretender, revelei no post anterior que na família também se salvam vidas.

É que eu estava convencido que na família era só homens a bater em mulheres.

20 março 2019

Traquinices do Joãozinho (X)

Oh Papá...espera aí, espera aí, espera aí!... Não vás já!... Telefonaram-me da Cuatrecasas a perguntar se lá no céu os sacos também são azuis... E o Dr. Juncker pergunta se há lá Cartaxeiro...

Traquinices do Joãozinho (IX)

Pois é, Papá...o juiz de Matosinhos não devia ter decidido que tu és o meu Papá... Já não tens idade para isto... Estiveste quase a quinar e os médicos dizem que foi por minha causa... Oh Papá... e diz-me lá outra coisa...esse hospital onde estiveste é de freiras ou do Estado?... deve ser de freiras... senão tinham-te metido num contentor...

Perguntas do Joãozinho (XIX)


Oh Papá ... como é que vais entregar o terreno ao Hospital de S. João... vais de carro, barco, avião, camião ou trotineta?...

as pessoas são de bem

Relativamente à tomada de posse da parcela de imóvel, José Artur Paiva disse que decorridos os três meses no início de março e não tendo havido entrega do terreno por parte da Associação Joãozinho, o hospital comunicou oficialmente na semana passada à associação Joãozinho que tem um prazo de 10 dias úteis em relação à emissão da carta para entregar o terreno.
“Estamos certos que o interesse de toda a gente, porque as pessoas são de bem, é a construção da ala pediátrica e estando assegurado o tripé [financiamento público, projeto de execução da obra e a posse da parcela de imóvel] não vemos razão para que o projeto não seja executado”, vincou (cf. aqui)

o produto acabado

O ponto mais importante que eu queria salientar da transcrição que fiz abaixo da Deliberação do Conselho de Administração do HSJ é uma referência à obra do teólogo Joseph Ratzinger.

Ratzinger afirma que aquilo que distingue um Estado de Direito de uma associação de malfeitores é precisamente a Justiça. E que, quando o Direito deixa de estar ancorado em Deus - representando Ele próprio o Bem, a Verdade e a Justiça - para passar a estar ancorado em interesses particulares - v.g., partidários, económicos - o Estado transforma-se interiormente numa associação de malfeitores e age como uma associação de malfeitores (cf. aqui).

Ora, é isto que a referida Deliberação ilustra. Assinada pelos administradores do HSJ, em representação do Estado, mas redigida, com toda a probabilidade, pelos advogados da Cuatrecasas, aquele documento é o produto acabado de uma associação de malfeitores.

Os pais das crianças

"Os pais das crianças estão ao lado da Associação Joãozinho..." (cf. aqui, min 0:56)

Deliberação

É o seguinte o texto da Deliberação que vem em anexo ao e-mail reproduzido em baixo:


Deliberação do Conselho de Administração

Tomada de Posse Administrativa de Parcela de um Imóvel

Considerando que:

A) O Centro Hospitalar Universitário de São João celebrou, a 17 de Junho de 2015, um Acordo de Cooperação com a Associação Humanitária "Um Lugar para  o Joãozinho", a Lúcio da Silva Azevedo e Filhos, SA  e a Somague Engenharia, SA;

B) Por força do referido Acordo o Centro Hospitalar cedeu a utilização de uma parcela de um imóvel ali devidamente identificada por um prazo de 3 anos a contar da data do início da vigência do Acordo;

C) Findo aquele prazo, não tendo a construção da obra registado nenhum progresso significativo e dispondo hoje o Centro Hospitalar das verbas necessárias para a construção da Ala Pediátrica, o Centro Hospitalar Universitário de São João notificou a Associação, no dia 6 de Dezembro de 2018, para, nos termos do nº 1 da Cláusula 7ª daquele Acordo proceder à devolução da parcela no prazo de 90 dias nos termos ali referidos (Cfr. Anexo 1);

D) Violando flagrantemente as suas obrigações (cfr. nºs. 1 e 2 da Cláusula 7ª do Acordo), a Associação Humanitária "Um Lugar para o Joãozinho" não entregou voluntariamente aquele espaço no prazo que tinha para o efeito, prazo esse que terminou no passado dia 5 de Março.

E) A devolução daquele espaço é imprescindível para a construção da nova Ala Pediátrica deste Centro Hospitalar;

F) Determina-se, nos termos do disposto no artº. 180º do Código do Procedimento Administrativo (CPA), aprovado pelo Decreto-Lei nº 442/91, de 15 de Novembro, a tomada de posse administrativa da parcela do imóvel cuja utilização foi cedida à Associação Humanitária "Um Lugar para o Joãozinho" pelo Acordo de Cooperação celebrado a 17 de Julho de 2015.

Notifique-se a Cessionária para, no prazo de 10 dias úteis, se pronunciar sobre o presente despacho.

Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário de São João, EPE
Reunião de 14 de Março de 2019

Presidente do Conselho de Administração               Enfermeira Directora
Prof. Dr. José Artur Paiva                                         Enfermeira Filomena Cardoso

Vogal Executivo                                                       Vogal Executivo
Dr. Renato Garrido Matos                                         Dr. Luís Porto Gomes


19 março 2019

um presente

Eu devo começar por dar uma explicação aos meus leitores do PC pelo meu silêncio dos últimos dias.

É que na passada Quinta-feira, dia 14, fui operado de urgência às artérias coronárias (by pass coronário). A operação durou 3 horas seguindo-se um período de 24 horas na unidade de cuidados intensivos pelo que só voltei a mim Sexta-feira à tarde.

Quando abri o computador tinha lá, como se fosse um presente, um e-mail da administração do HSJ datado da véspera (Quinta-feira, dia 14), cerca das 15 horas, precisamente uma altura em que eu dormia um longo sono na Casa de Saúde da Boavista.

Agora que já estou em casa, publico o e-mail. Amanhã juntarei a "Deliberação" que vem em anexo.


Exmo. Senhor
Prof. Doutor Pedro Arroja
Ilmo. Presidente da Direção da Associação Humanitária “Um lugar para o Joãozinho”

Tendo por referência o assunto em epígrafe, serve a presente para notificar V. Exa. que é intenção deste Centro Hospitalar proceder à tomada de posse administrativa da parcela do imóvel cuja utilização foi cedida ao abrigo do Acordo de Cooperação celebrado a 17 de Julho de 2015, conforme deliberação cuja cópia se anexa.
Fica V. Exa. notificado, nos termos e para os efeitos do artigo 121.º do Código do Procedimento Administrativo, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 4/2015, de 7/1, de que dispõe de um prazo de 10 (dez) dias úteis para se pronunciar sobre a deliberação que ordenou a tomada de posse administrativa.
Com os melhores cumprimentos,

Conselho de Administração
Administration Board

M: +351
T: +351 225 512 100
F: +351 225 025 766

cid:3621431052_1661880

13 março 2019

Teve de ser

Teve de ser (cf. aqui e aqui).

Foi um último recurso, mas já não havia mais nenhum.

A Associação Joãozinho pôs o HSJ em tribunal para que cumpra aquilo que assinou e a obra possa prosseguir imediatamente.

A mentira, a maldade, o incumprimento das promessas, a safadeza, as promessas vãs, a crueldade - tudo isto tem que ter limites.

timeline politics

O que deve ser um programa político no “tempo da peste” que eu chamei “reality show politics”?

Na minha opinião deve ser algo que rompa com as propostas tradicionais. Os programas políticos não vão ser lidos, nem debatidos por ninguém e, portanto, terão apenas o caixote do lixo como destino certo.

Os políticos da velha guarda já preferem as selfies e as beijocas das peixeiras, o arroz de atum ou a receita de uma cataplana, às declarações de princípio ou aos manifestos políticos.

Como o Estado acompanha os cidadãos do berço até à cova, penso que é nessa “timeline” da vidaque se devem inserir propostas concretas. Tendo em conta os marcos fundamentais: o nascimento, a escolaridade, o casamento, a parentalidade, a saúde, o envelhecimento, etc. E também a compra de habitação, de um veículo automóvel ou no planeamento de poupança.

Nesta “timeline politics” os partidos apresentariam propostas exequíveis (no máximo umas 6) dirigidas a marcos concretos. Respeitando a ideologia, claro está, mas focadas na “criação de valor” para os eleitores.

Vou dar um exemplo: Nascimento

1.    “Propomos que o Estado entregue a todas as parturientes o montante que gastariam com o parto no SNS e as deixem escolher o médico e a instituição onde pretendem que o nascimento ocorra”.

Esta proposta cria valor porque permite que a futura mãe se reúna de privacidade, do acompanhamento da família, do médico que já conhece e em quem confia e usufrua em pleno e nas melhores condições possíveis da experiência única da maternidade. Sem onerar o orçamento de Estado porque a despesa iria acontecer de qualquer modo.

Muitos outros exemplos me ocorrem, mas creio que já passei a ideia. Substituir programas intrincados por propostas concretas inseridas nos marcos da “timeline” da vida.


Chamei-lhe “Timeline politics”.

12 março 2019

reality show politics

A política tornou-se num “reality show” por onde vão passando figurantes à procura de protagonismo e de votos, com as posturas mais escaganifobéticas que se possa imaginar.

A ideologia morreu, a coerência vaporizou-se e até a lógica foi lapidada na praça pública por atentado à histeria pacóvia da populaça. O emocionalismo substituiu a razão (Rand) e regredimos, a nível intelectual, a uma verdadeira idade das trevas.

Os jovens não leem um jornal e muito menos livros. E até a nível universitário é raro passarem dos Power Points. ‹‹Quem não lê não tem qualquer vantagem competitiva sobre um analfabeto›› – e, portanto, é natural que nos sintamos arrastados por um tsunami de ignorância.

Como ‹‹em terra de cegos quem tem um olho é rei›› não é de espantar o aparecimento de celebridades na arena política. O tipo com mais desfaçatez, mais troca-tintas e mais jogo de cintura, ascende aos mais altos cargos e derrota, com facilidade, os políticos profissionais.

Quando o presidente dos EUA perguntou ao nosso Presidente da República sobre uma possível candidatura do CR7 à presidência não andava muito longe da realidade, ele próprio deve considerar-se uma espécie de CR7 da construção civil que teve sucesso na política.

Até há bem pouco tempo eu desconhecia a Sra. D. Cristina Ferreira, mas depois do célebre telefonema do PR e da cataplana do AC, a dama adquiriu um protagonismo político que a pode colocar na rampa para Belém. Por que não?

Ora é neste contexto, gostemos ou não, que está o “debate político” e é para este registo que os partidos devem preparar os seus programas e propostas.

No próximo post prometo deixar umas dicas que possam ser úteis aos novos partidos, isto porque os velhos já têm a ronha toda.

11 março 2019

PR e a Justiça

O Presidente da República e a Justiça na avaliação do candidato da Iniciativa Liberal (cf. aqui).

10 março 2019

"Ou te calas ou pagas!"

O abuso do sistema de justiça está exemplificado neste caso (cf. aqui e aqui).

Uma grande sociedade de advogados - a Cuatrecasas - representando uma grande empresa de celulose - a Celtejo - procura calar um cidadão, sob a ameaça de um processo em que lhe reclama uma indemnização de 250 mil euros.

"Ou te calas ou pagas!"

Para já o Arlindo Marques não aceitou calar-se. E também não vai pagar porque acabará absolvido - toda a jurisprudência diz isso (cf. aqui).

Então, para quê o processo judicial?

Para ameaçar, intimidar, coagir, chantagear, extorquir.

Há muita coisa mal no nosso sistema de Justiça. E não creio que os principais culpados sejam os juízes.

Para tratar do caso do Arlindo Marques no Tribunal de Santarém, a Cuatrecasas renunciou a enviar para lá os advogados do Porto (sabe-se lá porquê...), que eram os que estavam mandatados para o efeito, e decidiu enviar um mauzão de Lisboa - Paulo Sá e Cunha (ex-LPMJ e agora Cuatrecasas), um advogado aparentemente especializado em inocentar criminosos e em acusar inocentes (cf. aqui).

Um dia depois de ter proferido estas declarações ao Observador (cf. aqui) onde afirma que "eu posso criticar o que for" e que "a liberdade de expressão é amplíssima", foi a Santarém chantagear e ameaçar o Arlindo Marques para que este se cale.

Alguns dirão que, sendo advogado, está a fazer o seu trabalho.

Mas não está.

Acusar, chantagear, ameaçar e tentar extorquir uma pessoa inocente não é trabalho.

É crime.

Como se pode esperar ter um sistema de justiça decente se aos advogados - que são agentes da justiça - é dada a liberdade e a impunidade para cometerem crimes?



PS. O blogue Portugal Contemporâneo foi falado na Quinta-feira passada no Tribunal de Santarém entre os advogados da Cuatrecasas - eram quatro!, chefiados pelo mauzão - e o Arlindo Marques e seu advogado. Bom sinal. Eu irei comentar aqui o julgamento.

09 março 2019

Supremo

No seguimento do caso Neto de Moura, é a seguinte a nova composição do Supremo Tribunal de Justiça (cf. aqui).

silêncio absoluto

O juiz Neto de Moura cometeu hoje outro erro - dar uma entrevista ao Expresso (cf. aqui, reproduzida parcialmente aqui).

Vai continuar a alimentar manchetes.

Já tinha cometido dois - nomear um advogado para lidar com o assunto e dar-lhe carta branca.

Vê-se que não tem experiência a lidar com a comunicação social e com as promotoras da campanha contra ele.

Nas circunstâncias actuais do caso, a regra de ouro é o silêncio absoluto.

A coisa passa com a mesma velocidade com que chegou. É uma característica do espírito feminino não se concentrar muito tempo no mesmo assunto.

07 março 2019

nada a esconder

Instalar una persiana es una postura existencial frente al mundo y la posibilidad de cerrarla a nuestro antojo nos protege, a la larga, de la locura. En las casas de la Europa protestante, en particular en los países calvinistas, la ausencia de persianas y cortinas servía para demostrar al resto del vecindario que sus habitantes estaban en posesión de la virtud y, por tanto, no tenían nada que esconder. En aquella época había que comportarse de igual modo en público que en la intimidad y, además, demostrarlo. La vida privada era, pues, sospechosa y los solitarios, pecadores.

Ver artigo aqui

os artigos da fé

Decidi repescar um post que escrevi há 9 anos e que dedico aos novos liberais portugueses (cf. aqui).

O que é que Hayek via nos "artigos da fé"?

O mesmo que Chesterton via na ortodoxia.

E que se pode resumir assim:

"Olha, o caminho é este. Se quiseres afastar-te dele ou transgredi-lo tens toda a liberdade de o fazer. Sujeitas-te é às consequências". 

Penso que esta é a essência da liberdade católica - que é a da nossa cultura portuguesa -, por oposição à liberdade protestante - que é aquela que nós, às vezes, procuramos importar.

A liberdade católica indica um caminho que é válido (bom) para todos, ao passo que a liberdade protestante deixa o caminho à escolha de cada um (como se "cada um" soubesse escolher um caminho - uns sabem outros não).

A liberdade católica assenta num conhecimento que é feito de experiência (tradição), ao passo que a liberdade protestante assenta num conhecimento que é um produto do intelecto (opinião).

Uma analogia, com as imperfeições que as analogias sempre têm, mas foi a melhor que encontrei.

Quem viaja de Lisboa para o Porto escolhe normalmente a A1. Tem duas faixas, às vezes três, separadas ora por traços contínuos, ora descontínuos, existindo um traço contínuo do lado direito e outro do lado esquerdo da via, este último reforçado por rails (que, em certos pontos, têm aberturas).

A liberdade católica diz-me que posso viajar à vontade para o Porto no sentido sul-norte. E posso mudar de faixa com traço contínuo? Claro que posso, sujeito-me é às consequências. Até posso conduzir pela faixa de apoio à direita e, se quiser, sair para as terras lavradas. Sujeito-me é às consequências.

E quanto a conduzir na A1 a 200 à hora? Também posso. Sujeito-me é às consequências. E mudar para a via norte-sul? Também posso, logo que encontre uma aberta nos rails. Escusado será dizer que fico é sujeito às consequências.

A liberdade protestante, pelo contrário, põe cada um a descobrir qual é o melhor caminho de Lisboa para o Porto. E a certa altura, decide por maioria. Se a maioria está numa de ecologia, e quer que a poluição vá tanto quanto possível para o mar, e não para terra, decide que o melhor caminho é pela beira-mar: Cruz-Quebrada, Cascais, Ericeira, Peniche, Foz do Arelho, S. Martinho do Porto, ...

E se estiver numa de montanhismo e decidir que o melhor caminho é pelas serras?...

Na Bíblia - cito-a aqui, entre nós, às escondidas das meninas do BE - a liberdade protestante, e os riscos que ela comporta, é exemplificada pelo episódio do filho pródigo.

Ele sabia lá escolher o caminho...

ao patrão

O caso Neto de Moura pode ter trazido pelo menos um benefício duradouro - o de chamar a atenção da opinião pública portuguesa para o seu sistema de justiça.

O país mudou de regime político há quarenta e cinco anos, houve alterações significativas nos poderes legislativo e executivo. Mas o poder judicial, pelo contrário, nunca se democratizou e continua a funcionar, em certos aspectos, como se estivéssemos ainda na Idade Média.

Talvez seja a hora de mudar. A mudança necessária não é uma daquelas mudanças radicais de deitar tudo abaixo e construir de novo. São pequenas mudanças, embora numerosas, que são necessárias para o tornar um sistema de justiça moderno e democrático e, sobretudo, justo.

Uma delas, talvez a mais importante, não tem custo nenhum. Seria a de proibir de forma absoluta a mentira em tribunal. (Mentir em tribunal é, neste momento, um privilégio de advogados e magistrados do MP). Esta pequena mudança melhoraria enormemente o funcionamento dos tribunais e da justiça, e  da sociedade portuguesa em geral. 

Existe uma outra que o caso Neto de Moura veio, mais uma vez, exibir. O poder judicial em Portugal não é independente do poder político, ao contrário daquilo que mandam as regras da democracia. Trata-se de uma velha tradição portuguesa que remonta à Monarquia Absoluta em que o poder judicial tinha como função, entre outras, eliminar os dissidentes.

Ora, a democracia, pelo contrário, estimula os dissidentes porque é deles em geral que vem a inovação. O que o episódio Neto de Moura veio revelar é que esta tradição continua intocável no país. O poder político, liderado pelas deputadas do BE, pressionou os juízes e estes submeteram-se, penalizando o seu colega e afastando-o das funções que exercia.

O poder político exigiu a cabeça do juiz Neto de Mora e o poder judicial fez-lhe o obséquio. Que melhor prova da submissão do poder judicial ao poder político? 

Na realidade, existe uma ainda melhor, e é recente e recorrente - a greve dos juízes. Ora uma greve de juízes aquilo que revela são  empregados a exigirem aumento ao patrão. 

Esfola!

As meninas do BE apitam e o director do Público vai atrás.

Elas dizem: "Mata!" (cf. aqui) e ele, no dia seguinte: "Esfola!" (cf. aqui).

Já tinha acontecido na véspera (cf. aqui).

a sete pés

O Rangel a debater? (cf. aqui).

Só de ouvir o nome foge a sete pés.

O Rangel é muito sensível, uma florzinha (cf. aqui).

E o chefe dele é igual. Chamaram-lhe inegrume e ficou todo amofinado (cf. aqui).

Fala-se-lhes com voz grossa e um e outro vão a correr para o tribunal: "Ai, ai, ai ... ai, ai, ai ... que me ofenderam..."

Más notícias

Más notícias. Está proibido o anúncio de obras durante o período eleitoral (cf. aqui).

Como é que o Governo e a maioria parlamentar que o apoia vão agora continuar a prometer aos cidadãos a ala pediátrica do HSJ (que não tencionam fazer)?

06 março 2019

um inegrume

Como é possivel que um inegrume como este fascista e reacionario tenha tempo de antena... convencido e arrogante da m----. Devia morder a lingua, de certeza morria envenenado. Que pessoa tão repugnante...é mais um milagre de alguma diarreia...(cf. aqui)

É  por  estas e por outras que me derreto a rir com os assassinatos ao meu próprio carácter. Naquela altura, já me tinham chamado muitas coisas na vida. Agora, inegrume era a primeira vez... 



o charme dos 60

Em complemento deste post (cf. aqui), parece-me descortinar uma outra característica, que é uma certa fixação em homens na casa dos 60: o juiz Neto de Moura, eu próprio (cf. aqui), o presidente do Montepio (cf. aqui), o governador do BP (cf. aqui),...

Não consegui apurar a idade do autarca António Fonseca (cf. aqui), mas também deve andar por lá. Mas quanto ao Nuno Crato, esse consegui apurar: tinha 62 anos quando elas pediram a sua demissão (cf. aqui).

E é sempre para os tirar do sítio onde estão.

Para onde é que elas os quererão levar?

Aqui há gato.

já estão noutra

Elas já estão noutra (cf. aqui).

(Aliás, noutro).

Não se fixam muito tempo em ninguém.

convulsivamente

O Bloco de Esquerda é especialista em organizar campanhas de assassínio de carácter.

O juiz Neto de Moura, talvez por falta de experiência da situação e pelo lugar institucional que ocupa, está a sofrer com o assunto (cf. aqui).

Creio que cometeu um erro ao anunciar que vai processar os críticos. Eterniza a campanha e sabe que os processos não vão dar em nada (cf. aqui).

Eu, se fosse a ele, mandava calar o advogado e abandonava a ideia dos processos.

Elas acabam por se calar.

Eu tive sorte da última vez que fui alvo de uma coisa dessas. A campanha estava a atingir o auge, e produziram-se os atentados em Paris. Foi remédio santo. A manada mudou de alvo.

Quanto ao resto, a mim, em lugar de sofrer, dá-me para rir. Às vezes, convulsivamente.

Aconteceu assim quando, por altura do caso das "Shrill Girls",  o assunto estava ao rubro nas redes sociais, recebi um e-mail de um amigo com quem frequentemente me correspondo em inglês, que tinha como assunto "the cock!". Reproduzo a seguir:

"O meu cunhado está a jantar na Ribeira e ao lado está um casal a comentar o caso das Shrill Girls.
E o homem está a dizer à mulher:
 - He should take Marcelo's place in TVI. Apologize the cock to those shrill girls!"

Recebi o e-mail cerca das dez da noite. Fui para a cama à uma da manhã e não conseguia adormecer com ataques de riso, somente de imaginar a cena.

sobre a opinião da maioria

"(...) um Estado (...) que funde o Direito apenas sobre a opinião da maioria tende a reduzir-se interiormente ao nível de uma associação de malfeitores".
(Joseph Ratzinger)

05 março 2019

Ainda não cheguei lá

Tendo eu também sido o alvo, de forma recorrente, deste jornalismo de causas, cuja onda se abate agora sobre o juiz Neto de Moura, decidi interrogar-me sobre as características deste jornalismo.

Encontrei três:

1. É sempre um jornalismo liderado e promovido por mulheres.

2. O alvo é sempre um homem.

3. O tema envolve sempre sexo, de forma directa ou indirecta.

O que é que tantas mulheres vêem ao mesmo tempo num só homem e que lhes inspira sexo?

Pois, isso eu não sei. Ainda não cheguei lá.

inteiramente

"Os juízes não se sentem inteiramente livres para decidir" (cf. aqui)

politicamente correcta

O caso Neto de Moura, mostra como o poder político - usando o BE como ponta de lança e a cumplicidade silenciosa dos outros partidos - submeteu o poder judicial.

O juiz acabou sancionado pelo CSM por falta de "correcção". A mensagem é clara para todos os juízes: "Ou se comportam de maneira politicamente correcta, ou já sabem o que vos acontece".

A submissão do poder judicial ao poder político não é própria de uma democracia. É própria de uma ditadura - uma ditadura dos partidos, neste caso.

posição pública

A Iniciativa Liberal (cf. aqui), que é defensora da liberdade de expressão, deveria tomar posição pública em defesa do juiz Neto de Moura (cf. aqui) e do seu direito à liberdade de expressão, já que nenhum outro partido teve a coragem de o fazer.

(Ao fazê-lo, não tem que subscrever as opiniões do juiz sobre a Bíblia ou outros assuntos, tem apenas que defender a liberdade do juiz a emiti-las).

Tratando-se de um juiz que já deu provas de ser um defensor da liberdade de expressão (cf. aqui), não se trata apenas de uma questão de justiça. Trata-se também de uma questão de gratidão.

Aquilo que o Bloco de Esquerda conseguiu, levando o CSM a sancionar o juiz por "falta de correcção", foi cercear a liberdade de expressão ao juiz e, por implicação, a todos os juízes.

A partir de agora, os juízes, que são os guardiões das liberdades democráticas - a liberdade de expressão à cabeça -, não são, eles próprios, livres de se exprimirem.

Depois de tudo isto, não é apenas a liberdade dos juízes que fica em causa. É a de todos nós.

Neto de Moura e a Liberdade (IV)


(Continuação daqui)

IV. Liberdade de Expressão



Passei o Verão inteiro a hesitar se havia ou não de comentar a sentença do juiz de Matosinhos que me condenou por ofensas à sociedade de advogados Cuatrecasas em Junho.

Evidentemente que se pode criticar as decisões dos juízes, em democracia faz parte do direito à liberdade de expressão. Mas não se deve. Hoje é uma pessoa inocente que critica legitimamente uma decisão injusta que o condenou, aliás num crime de lana-caprina. Mas amanhã aparece em público um hábil burlão qualificado a criticar a sentença de um juiz que justamente o mandou dez anos para a prisão.

A prazo, a crítica pública às decisões dos juízes põe em causa a confiança no sistema de justiça. E quando a confiança no sistema de justiça acaba é a democracia que acaba a seguir. Portugal tem também experiência nesta matéria. A Revolução de 28 de Maio de 1926 que pôs fim à democracia então vigente no país, foi precedida de uma enorme quebra de confiança no sistema de justiça. As democracias morrem pelo sistema de justiça da mesma maneira que o peixe morre pela boca.

Acabei por comentar a sentença do juiz em Setembro (cf. aqui), mas é uma decisão que ainda hoje me pesa na consciência.

Os deputados do Bloco de Esquerda não são conhecidos por terem currículos profissionais impressionantes, e alguns não têm mesmo currículo nenhum. Pelo contrário, um homem que chega a juiz desembargador não é um mero diletante político-partidário, tipo deputado Moisés (cf. aqui). É um homem que estudou, trabalhou e provou o suficiente durante uma vida inteira para atingir o segundo patamar mais elevado da magistratura do país.

Neste ponto, comparando a credibilidade dos deputados do Bloco de Esquerda com a de um juiz desembargador para julgar uma referência à Bíblia contida numa sua sentença, não resisto a contar uma história verídica que me foi relatada por um amigo médico numa consulta a um padre.

A certa altura da consulta, o médico resolveu meter-se com o padre, acerca da liberdade de interpretação da Bíblia que é concedida aos crentes nas religiões cristãs-protestantes, comparada com a obediência que é devida no catolicismo à interpretação oficial da Igreja.

O padre ponderou por uns momentos e com um certo ar de comiseração respondeu:

-Oh doutor, mas o senhor já imaginou o que é a Bíblia a ser interpretada por um matarruano?... 

Mas a verdade é que, à semelhança da liberdade de interpretação da Bíblia que vigora no protestantismo, do qual deriva a democracia, também a democracia concede a qualquer matarruano a liberdade de interpretar as decisões de um juiz.

Criticar as expressões utilizadas por um juiz é uma liberdade que cai dentro da jurisprudência do TEDH, que é uma jurisprudência imensamente liberal. E o juiz deve até estar preparado para ser ofendido no processo, sem que isso constitua trespasse do direito à liberdade de expressão.

Os deputados do Bloco de Esquerda e os seus apaniguados têm todo o direito a ofender o juiz. A questão torna-se mais problemática, porém, quando se pergunta se os deputados do Bloco de Esquerda e seus apaniguados reconhecem aos outros o direito a ofendê-los a eles.

A julgar pela evidência disponível, a resposta é um conclusivo não (cf. aqui) e é neste momento que entramos num terreno movediço onde por detrás da aparente justiça que pretendem fazer sobre o juiz Neto de Moura, aquilo que na realidade fazem é construir um mundo que proclamam ser bom para todos, mas em que a única certeza que existe é que é bastante melhor para eles.

Liberdade de expressão, sim, mas só para eles, e para quem eles autorizarem.

O caso do juiz Neto de Moura põe em evidência um processo que está em curso em que o direito à liberdade de expressão deixará de ser decidido por juízes qualificados - como o juiz Neto de Moura e os seus pares - e passará a ser decidido por um grupo de donzelas ofendidas e de matarruanos ociosos, como parece ser claramente o caso do deputado Moisés (cf. aqui).

Adeus liberdade de expressão.


04 março 2019

Neto de Moura e a Liberdade (III)

(Continuação daqui)

III. Voltaire


Quando nas suas alegações finais, o magistrado do Ministério Público - o meu saudoso magistrado X -, dirigindo-se ao juiz, afirmou "O réu está, desde o início, convencido que será absolvido...", eu tive uns dos momentos de maior prazer naquele julgamento, porque era verdade, embora a frase tivesse sido pronunciada com a intenção de induzir o juiz a condenar-me.

Das duas vezes em que tive oportunidade de falar, a primeira respondendo às perguntas do juiz e dos advogados, na segunda, cinco meses depois, nas alegações finais, eu falei com a convicção e firmeza próprias de quem estava certo da sua inocência e a ser alvo de uma farsa judicial. E, se o que me tinha levado ali, eram ofensas aos advogados da Cuatrecasas, nas alegações finais juntei pelo menos mais uma e de forma reiterada: "São uns incompetentes!"

Antes do julgamento, anunciei à minha advogada que, assim que me fosse dada a palavra, iria expor a jurisprudência do TEDH, adoptada pelo Tribunal da Relação do Porto, para mostrar que aquele julgamento não tinha razão de ser, que eu estava absolvido ab initio. Ela levou as mãos à cabeça, e disse-me que isso poderia parecer ofensivo para o juiz e para o magistrado do Ministério Público.

Acabei por adoptar uma solução intermédia, mas, quando estava no melhor da minha exposição, o juiz parou-me. Não convinha que o réu fosse juiz. De qualquer forma, em retrospectiva, não tenho hoje dúvida em proclamar que, de todos os intervenientes no julgamento, aquele que sabia mais sobre a jurisprudência do caso era precisamente o réu.

Foi essa certeza da minha inocência que me fez comentar o julgamento neste blogue à medida que ele se foi desenrolando, e também então tive momentos de prazer, desconcentrando por completo a acusação que, durante várias sessões consecutivas se queixava ao juiz que eu andava a comentar o julgamento em público, como se isso fosse crime.

E, num momento em que, devido provavelmente à pressão e à extensão que o julgamento tinha tomado, a minha advogada pareceu fraquejar, fui eu próprio que a confortei dizendo: "Não se preocupe, se fôr condenado aqui, serei absolvido na Relação". (cf. aqui).

Aquilo que me dava a certeza da minha absolvição, e até uma certa sobranceria, era evidentemente a jurisprudência do TEDH, mas mais proximamente ainda os acórdãos que eu tinha estudado da Relação do Porto, para onde o caso seguiria se eu fosse condenado em primeira instância. À luz dessa jurisprudência e desses acórdãos, o meu caso era um caso de escola.

Foi nessa altura que soube da existência do juiz Neto de Moura, quando estudei um dos seus acórdãos, que já citei anteriormente (cf. aqui). O juiz Neto de Moura estava do lado da liberdade e da justiça, e contra a opressão e a injustiça. Fiquei feliz por saber da existência do juiz Neto de Moura, mesmo sem o conhecer pessoalmente, situação que, como é óbvio, ainda hoje se mantém.

Mas o juiz Neto de Moura não estava sozinho. Os seus pares na Relação do Porto partilhavam os mesmos princípios. E se eu estava a ser violentado pelo Paulo Rangel e seus amigos do partido foi um outro acórdão da Relação do Porto, onde a figura central era agora o seu compagnon de route Rui Rio, que me fez abrir os olhos de admiração.

Até hoje é o mais grandioso acórdão de todos quantos li sobre o assunto. Foi escrito no Porto, não em Lisboa nem sequer em Estrasburgo. Talvez por ser um acórdão que cita Voltaire e uma das suas frases mais famosas em defesa da liberdade de expressão: "Posso discordar do que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo" (cf. aqui).

Neto de Moura e a Liberdade (II)

(Continuação daqui)

II. A Relação do Porto


Quando soube que iria a julgamento por ofensas à Cuatrecasas e ao seu director  procurei documentar-me sobre a jurisprudência do caso. Era uma caso de conflito de direitos - entre o direito ao bom nome (ou direito à honra) e o direito à liberdade de expressão.

O direito à liberdade de expressão tem que se lhe diga. É o direito fundacional da democracia. A democracia partidária, tal como a conhecemos hoje, nasceu do protesto público, inicialmente contra as autoridades religiosas (Igreja Católica), mais tarde contra as autoridades civis. É um produto da cultura protestante do norte da Europa, cujas seitas religiosas viriam a inspirar a criação dos modernos partidos políticos.

A jurisprudência daquele conflito de direitos - direito à honra vs. direito à liberdade de expressão - é fixada pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem em torno do artigo 10º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Portugal subscreveu a Convenção em 1976.

Em Portugal a palavra jurisprudência significa normalmente um amontoado de acórdãos dos tribunais superiores, geralmente ordenados por ordem cronológica. Nos países com tradição democrática, a palavra tem um conteúdo diferente. É um conjunto de regras simples, resultantes das decisões dos tribunais superiores, que os juízes estão vinculados a seguir nas suas sentenças. Nestes países, as regras são claras e acessíveis a todos, e o cidadão sabe as linhas com que se cose.

Em breve, encontrei as regras formuladas em português (cf. aqui), por uma professora do Centro de Estudos Judiciários (CEJ), que também é juiz. O CEJ é a instituição onde se formam os juízes e os magistrados do Ministério Público. A regra que considerei mais importante foi a regra nº 2: "A liberdade de expressão vale não somente para as informações ou ideias favoráveis, inofensivas ou indiferentes, mas também para aquelas que ofendem, chocam ou inquietam".

Porém, uma coisa eram as regras claras que vinham do Tribunal de Estrasburgo e outra era a sua aplicação em Portugal - um país com uma profunda tradição antidemocrática e avessa à liberdade de expressão. Não era preciso recuar até à Inquisição. Bastava invocar o Estado Novo, que era liberal na esfera económica, mas anti-liberal na esfera política. A censura estava institucionalizada.

Na tradição portuguesa, o conflito entre o direito à honra e o direito à liberdade de expressão resolvia-se sempre em favor do primeiro.  A tradição democrática vinda do TEDH e do norte da Europa exigia agora que se fizesse ao contrário. Ora, uma mudança cultural assim radical exige tempo.

Quando comecei a estudar os acórdãos das Relações de Lisboa e Porto e do Supremo sobre esta matéria, dei-me conta que, embora Portugal tivesse aderido à CEDH em 1976, só há cerca de quinze ou vinte anos é que os nossos tribunais superiores começaram a aplicar a jurisprudência do TEDH - e, dos três, aquele onde essa tendência foi mais cedo discernível foi no Tribunal da Relação do Porto.

Não fiquei surpreendido. O Porto possui uma antiga tradição liberal de irreverência, que raia às vezes o desprezo, perante o poder político. Por isso, Portugal pode agradecer, em boa parte, aos juízes da Relação do Porto o triunfo institucional do direito à liberdade de expressão sobre o direito à honra que é, ao mesmo tempo, o triunfo da democracia sobre a ditadura.

O juiz Neto de Moura é um desses juízes.