O estado em que ficou o eurodeputado Paulo Rangel depois desta minha intervenção no Porto Canal:
"Ora, como consequência directa e necessária das expressões proferidas pelo demandado a seu respeito, o demandante sentiu-se vexado e humilhado publicamente, com alteração de humor, que passou a ser triste em alguns períodos, irritabilidade, desgosto, a par de natural revolta, o que teve interferência no seu quotidiano e no seu descanso, atentas as imputações e as qualificações insultuosas efectuadas".
Ai que florzinha...
(...)
"Nestes termos, deve o demandado ser condenado a pagar ao demandante a quantia de 50.000,00 euros acrescida de juros de mora à taxa legal, actualmente de 4%, desde a data de notificação deste pedido civil, até integral pagamento".
E que florzinha tão preciosa...
20 abril 2017
17 abril 2017
Turquia
O referendo da Turquia vai aproximar o país do regime de governação da Igreja Católica.
Diz-se, por vezes, que Cristo não se pronunciou sobre política. Certamente que não sobre política partidária porque ele não gostava de partidos. Havia muitos na sua época e ele não aderiu a nenhum. Na realidade, houve até um que foi o alvo preferencial das suas críticas.
O centro da pregação de Cristo é o de que todos os homens se unam em comunidade, e não que se dividam em partidos ou seitas em lutas uns com os outros. É verdade que Cristo não recomendou nenhum regime político em particular e deixou isso à liberdade dos homens. Mas, quando se tratou de organizar a sua comunidade, ele deixou um sinal bem claro.
Nomeou um homem com poderes absolutos para a comandar. A Igreja, ao longo dos séculos, aperfeiçoou o sistema de organização política da comunidade cristã. Não o impõe a ninguém, mas ele permanece lá como exemplo. A mensagem que a Igreja, a este propósito, transmite à humanidade parece-me clara:
"Escolham lá o sistema político que quiserem. Mas quando se virem em situações de crise ou de aflição, este é o que tem melhores hipóteses de funcionar. Ao longo de dois mil anos, já passou por tudo. É só copiarem".
Aquela famosa tirada do Churchill acerca do regime de democracia parlamentar era apenas isso - uma tirada.
Diz-se, por vezes, que Cristo não se pronunciou sobre política. Certamente que não sobre política partidária porque ele não gostava de partidos. Havia muitos na sua época e ele não aderiu a nenhum. Na realidade, houve até um que foi o alvo preferencial das suas críticas.
O centro da pregação de Cristo é o de que todos os homens se unam em comunidade, e não que se dividam em partidos ou seitas em lutas uns com os outros. É verdade que Cristo não recomendou nenhum regime político em particular e deixou isso à liberdade dos homens. Mas, quando se tratou de organizar a sua comunidade, ele deixou um sinal bem claro.
Nomeou um homem com poderes absolutos para a comandar. A Igreja, ao longo dos séculos, aperfeiçoou o sistema de organização política da comunidade cristã. Não o impõe a ninguém, mas ele permanece lá como exemplo. A mensagem que a Igreja, a este propósito, transmite à humanidade parece-me clara:
"Escolham lá o sistema político que quiserem. Mas quando se virem em situações de crise ou de aflição, este é o que tem melhores hipóteses de funcionar. Ao longo de dois mil anos, já passou por tudo. É só copiarem".
Aquela famosa tirada do Churchill acerca do regime de democracia parlamentar era apenas isso - uma tirada.
16 abril 2017
a crise dos refugiados
Para além do seu significado teológico, o franciscanismo teve um significado sociológico importante revelando a Igreja Católica no seu papel de instituição moderadora, ao ponto de fazer conviver todo o tipo de pessoas numa mesma comunidade, sem excluir ninguém.
Este carácter inclusivo do catolicismo, e, principalmente, o carácter exclusivo do seu oposto - o protestantismo -, está aí hoje à vista na crise dos refugiados.
Aquilo que o franciscanismo veio mostrar é que a felicidade não se encontra necessariamente na riqueza, e que um homem pode ser feliz na mais extrema pobreza. E fê-lo, não por argumento intelectual, mas através de exemplos concretos porque esses não enganam ninguém.
Pois se até pessoas ricas - como Francisco e Clara de Assis - podiam encontrar a felicidade na pobreza, como é que o homem vulgar, que nasceu pobre, e nunca conheceu outra condição senão a pobreza, não a poderia encontrar também? O exemplo do franciscanismo, bem como das outras ordens mendicantes, placou o ressentimento dos pobres em relação aos ricos, e permitiu que eles convivessem lado a lado na mesma comunidade.
A Igreja Católica exibia aqui, no seu melhor, uma das suas principais características sociológicas, que é o seu papel de moderadora de conflitos sociais. E fazia-o através de um meio que não ocorreria a ninguém, que era o da institucionalização da pobreza - e de uma pobreza ainda por cima voluntária - representada pelas ordens mendicantes.
Assim que o movimento do protestantismo foi desencadeado na Prússia, a primeira coisa que os protestantes fizeram foi expulsar as ordens mendicantes julgando que, ao fazê-lo, erradicavam os pobres do seu meio. Para os países tocados pela influência protestante ser pobre passou a ser um estigma pessoal e social.
Daqui resultaram, pelo menos, duas consequências não previstas.
A primeira é que, sem o papel moderador da Igreja, se reavivou aquele que deve ser o mais antigo ressentimento da vida em sociedade - o ressentimento dos pobres contra os ricos. E não passaram muitos séculos para que na mesma Prússia - onde haveria de ser? - Marx desse voz a esse ressentimento com o seu conceito de luta de classes que, na sua essência, é a oposição dos pobres contra os ricos, pela violência, se fôr necessário. As consequências são bem conhecidas.
Em segundo lugar, os países católicos, com a pobreza institucionalizada, ganharam a reputação de serem países pobres - e até Salazar, que era um homem inteligente, não se cansava de repetir este cliché em relação a Portugal (porque é de um cliché que se trata). Pelo contrário, os países protestantes, sem pobreza institucionalizada, passaram a gozar da reputação de serem "países ricos".
Precisamente por isso, são hoje os países de influência protestante que atraem os pobres de todo o mundo. Julgaram que os tinham erradicado, mas enganaram-se. Eles entram-lhes agora pelas portas dentro sem controlo.
Os refugiados entram na Europa frequentemente por países católicos - como a Itália, Espanha, Portugal - ou pela ortodoxa Grécia. Mas não é aí que eles querem ficar. Eles querem ir para a Alemanha ou até, a partir daí, dar o salto para os EUA. E sem a moderação activa do catolicismo, os pobres são aí um potencial enorme de violência.
Como se tem visto.
Este carácter inclusivo do catolicismo, e, principalmente, o carácter exclusivo do seu oposto - o protestantismo -, está aí hoje à vista na crise dos refugiados.
Aquilo que o franciscanismo veio mostrar é que a felicidade não se encontra necessariamente na riqueza, e que um homem pode ser feliz na mais extrema pobreza. E fê-lo, não por argumento intelectual, mas através de exemplos concretos porque esses não enganam ninguém.
Pois se até pessoas ricas - como Francisco e Clara de Assis - podiam encontrar a felicidade na pobreza, como é que o homem vulgar, que nasceu pobre, e nunca conheceu outra condição senão a pobreza, não a poderia encontrar também? O exemplo do franciscanismo, bem como das outras ordens mendicantes, placou o ressentimento dos pobres em relação aos ricos, e permitiu que eles convivessem lado a lado na mesma comunidade.
A Igreja Católica exibia aqui, no seu melhor, uma das suas principais características sociológicas, que é o seu papel de moderadora de conflitos sociais. E fazia-o através de um meio que não ocorreria a ninguém, que era o da institucionalização da pobreza - e de uma pobreza ainda por cima voluntária - representada pelas ordens mendicantes.
Assim que o movimento do protestantismo foi desencadeado na Prússia, a primeira coisa que os protestantes fizeram foi expulsar as ordens mendicantes julgando que, ao fazê-lo, erradicavam os pobres do seu meio. Para os países tocados pela influência protestante ser pobre passou a ser um estigma pessoal e social.
Daqui resultaram, pelo menos, duas consequências não previstas.
A primeira é que, sem o papel moderador da Igreja, se reavivou aquele que deve ser o mais antigo ressentimento da vida em sociedade - o ressentimento dos pobres contra os ricos. E não passaram muitos séculos para que na mesma Prússia - onde haveria de ser? - Marx desse voz a esse ressentimento com o seu conceito de luta de classes que, na sua essência, é a oposição dos pobres contra os ricos, pela violência, se fôr necessário. As consequências são bem conhecidas.
Em segundo lugar, os países católicos, com a pobreza institucionalizada, ganharam a reputação de serem países pobres - e até Salazar, que era um homem inteligente, não se cansava de repetir este cliché em relação a Portugal (porque é de um cliché que se trata). Pelo contrário, os países protestantes, sem pobreza institucionalizada, passaram a gozar da reputação de serem "países ricos".
Precisamente por isso, são hoje os países de influência protestante que atraem os pobres de todo o mundo. Julgaram que os tinham erradicado, mas enganaram-se. Eles entram-lhes agora pelas portas dentro sem controlo.
Os refugiados entram na Europa frequentemente por países católicos - como a Itália, Espanha, Portugal - ou pela ortodoxa Grécia. Mas não é aí que eles querem ficar. Eles querem ir para a Alemanha ou até, a partir daí, dar o salto para os EUA. E sem a moderação activa do catolicismo, os pobres são aí um potencial enorme de violência.
Como se tem visto.
Monty Python
É, talvez, a única cultura em que aqueles que nascem nela são absolutamente livres - e possuem um forte incentivo cultural -, para dizer mal dela. Um homem que se sente mal no meio onde nasceu, que está de mal com tudo aquilo e todos aqueles que o rodeiam, é um candidato ideal a emigrar. E, portanto, a ir espalhar pelo mundo a cultura onde nasceu. É assim que ela se torna católica ou universal.
É um paradoxo, mas o catolicismo é feito de paradoxos, e daí a dificuldade em o racionalizar. Este paradoxo foi colocado da forma mais sucinta que conheço num episódio que me contaram e que teve lugar há uns anos no Bombarral.
Vários homens conversavam num pequeno grupo e, naturalmente, diziam mal de Portugal e dos portugueses. Entre eles, estava um homem de mais de oitenta anos, que tinha levado uma vida de empresário. Foi este que, depois de algum tempo a ouvir os outros, decidiu a certa altura falar.
Para dizer o seguinte: " Pois... mas eu viajei e conheci ao longo da minha vida todos os países do mundo... e, francamente,... nunca encontrei um país para viver tão bom como esta merda".
A conclusão não podia ser mais clara: a melhor coisa do mundo é, ao mesmo tempo, uma merda. E, na realidade, é, porque o catolicismo instila no espírito humano um padrão que as outras religiões não instilam, certamente que não no mesmo grau - a ideia de um mundo celestial que é perfeito. Talvez esteja aqui a explicação do paradoxo.
Entre os intelectuais, este paradoxo exprime-se frequentemente em eles falarem do catolicismo sem saberem daquilo de que estão a falar. Atribuem ao catolicismo coisas que ele não é nem diz, criam um espantalho, e depois dizem mal do espantalho.
Aconteceu recentemente à Maria Filomena Mónica, o que motivou uma resposta pronta e certeira do Padre Portocarrero de Almada. Ela reagiu.
Ora, as reacções dos intelectuais quando se vêem em terreno movediço acerca do catolicismo são também inteiramente previsíveis - Cruzadas, Inquisição (incluindo o episódio de Galileu) e expulsão dos judeus - e a Maria Filomena Mónica não fez excepção.
É claro que eu não vou dizer aqui que a Inquisição foi uma coisa boa. Mas vou dizer que foi a resposta menos desumana que se podia conceber às desumanidades que, na altura, se cometeram sobre a Igreja Católica e os povos de cultura católica.
Mas aquilo que mais me surpreendeu na argumentação da Filomena Mónica foi o facto de, após ter puxado pelos seus galões de socióloga, apresentar apenas, em abono da sua tese, um livro sobre o Cristianismo escrito aparentemente por um anglicano - o que não é propriamente prova de imparcialidade -, e um sketch dos Monty Python.
A Maria Filomena Mónica diz gostar de polémicas. Claro que gosta. Da verdade é que ela não gosta nada, porque a verdade não admite polémica.
É um paradoxo, mas o catolicismo é feito de paradoxos, e daí a dificuldade em o racionalizar. Este paradoxo foi colocado da forma mais sucinta que conheço num episódio que me contaram e que teve lugar há uns anos no Bombarral.
Vários homens conversavam num pequeno grupo e, naturalmente, diziam mal de Portugal e dos portugueses. Entre eles, estava um homem de mais de oitenta anos, que tinha levado uma vida de empresário. Foi este que, depois de algum tempo a ouvir os outros, decidiu a certa altura falar.
Para dizer o seguinte: " Pois... mas eu viajei e conheci ao longo da minha vida todos os países do mundo... e, francamente,... nunca encontrei um país para viver tão bom como esta merda".
A conclusão não podia ser mais clara: a melhor coisa do mundo é, ao mesmo tempo, uma merda. E, na realidade, é, porque o catolicismo instila no espírito humano um padrão que as outras religiões não instilam, certamente que não no mesmo grau - a ideia de um mundo celestial que é perfeito. Talvez esteja aqui a explicação do paradoxo.
Entre os intelectuais, este paradoxo exprime-se frequentemente em eles falarem do catolicismo sem saberem daquilo de que estão a falar. Atribuem ao catolicismo coisas que ele não é nem diz, criam um espantalho, e depois dizem mal do espantalho.
Aconteceu recentemente à Maria Filomena Mónica, o que motivou uma resposta pronta e certeira do Padre Portocarrero de Almada. Ela reagiu.
Ora, as reacções dos intelectuais quando se vêem em terreno movediço acerca do catolicismo são também inteiramente previsíveis - Cruzadas, Inquisição (incluindo o episódio de Galileu) e expulsão dos judeus - e a Maria Filomena Mónica não fez excepção.
É claro que eu não vou dizer aqui que a Inquisição foi uma coisa boa. Mas vou dizer que foi a resposta menos desumana que se podia conceber às desumanidades que, na altura, se cometeram sobre a Igreja Católica e os povos de cultura católica.
Mas aquilo que mais me surpreendeu na argumentação da Filomena Mónica foi o facto de, após ter puxado pelos seus galões de socióloga, apresentar apenas, em abono da sua tese, um livro sobre o Cristianismo escrito aparentemente por um anglicano - o que não é propriamente prova de imparcialidade -, e um sketch dos Monty Python.
A Maria Filomena Mónica diz gostar de polémicas. Claro que gosta. Da verdade é que ela não gosta nada, porque a verdade não admite polémica.
11 abril 2017
O principal milagre
-Se Cristo era homem e fazia milagres, eu, que sou homem como ele, também os posso fazer, não?
-Sim, mas Cristo, além de homem, também era Deus, e tu não és...
(Segundo a doutrina católica Cristo é plenamente homem e plenamente Deus)
-Mas posso ser!... Como?... Imitando-O.
Eu não sei se foi exactamente este o diálogo íntimo que teve lugar no espírito de S. Francisco. Mas, se não foi, há-de ter sido muito parecido.
Só a capacidade para colocar a primeira questão alargou o espírito humano a latitutes nunca antes conhecidas. E a capacidade para responder à segunda elevou-o até altitudes a que ele nunca antes tinha chegado.
S. Francisco acabou a fazer milagres como Cristo e, na sua vida de pobreza, até Cristo, pelos padrões dele, teria parecido um mau franciscano. O século de S. Francisco viria a produzir grandes santos, como ele próprio e S. Domingos, grandes teólogos, como S. Boaventura e S. Tomás de Aquino, grandes pintores como Giotto, grandes poetas como Dante, grandes cientistas, como Roger Bacon - considerado o pai da ciência moderna.
Chesterton na sua biografia de S. Francisco diz que ele foi uma nova luz que chegou ao mundo, algo que, antes dele, Dante já tinha escrito - uma luz que deixou atrás de si a Idade das Trevas e iluminou novos horizontes à humanidade cristã.
Mas em que consistia precisamente essa luz, que se manteve apagada nos séculos anteriores ainda dominados pelo paganismo com os seus ídolos e o seus deuses da natureza?
No facto de Deus ser homem.
Se Cristo é homem e faz milagres, eu, que sou igualmente homem, também os posso fazer. Mas se, para fazer milagres, além de homem, eu também tenho de ser Deus como Cristo, então a solução está mesmo à vista. Só tenho que O imitar.
O principal milagre de S. Francisco foi o de ter ensinado ao homem como é que o homem pode fazer milagres.
Esta foi a revolução espiritual operada por S. Francisco, o Alter Christus, como tem sido chamado. Ele abriu e elevou o espírito humano a uma dimensão nunca antes conhecida. Nunca o homem contemplou horizontes tão vastos e tão elevados. Depois da revolução franciscana, qualquer homem podia passar a sentir-se como se fosse um super-homem.
É uma revolução espiritual deste género - embora não necessariamente nos termos em que S. Francisco a fez - que nós estamos a precisar. O meu sentimento é que essa nova revolução espiritual será centrada na figura de Maria e não na de Cristo, como aconteceu com a revolução franciscana.
-Sim, mas Cristo, além de homem, também era Deus, e tu não és...
(Segundo a doutrina católica Cristo é plenamente homem e plenamente Deus)
-Mas posso ser!... Como?... Imitando-O.
Eu não sei se foi exactamente este o diálogo íntimo que teve lugar no espírito de S. Francisco. Mas, se não foi, há-de ter sido muito parecido.
Só a capacidade para colocar a primeira questão alargou o espírito humano a latitutes nunca antes conhecidas. E a capacidade para responder à segunda elevou-o até altitudes a que ele nunca antes tinha chegado.
S. Francisco acabou a fazer milagres como Cristo e, na sua vida de pobreza, até Cristo, pelos padrões dele, teria parecido um mau franciscano. O século de S. Francisco viria a produzir grandes santos, como ele próprio e S. Domingos, grandes teólogos, como S. Boaventura e S. Tomás de Aquino, grandes pintores como Giotto, grandes poetas como Dante, grandes cientistas, como Roger Bacon - considerado o pai da ciência moderna.
Chesterton na sua biografia de S. Francisco diz que ele foi uma nova luz que chegou ao mundo, algo que, antes dele, Dante já tinha escrito - uma luz que deixou atrás de si a Idade das Trevas e iluminou novos horizontes à humanidade cristã.
Mas em que consistia precisamente essa luz, que se manteve apagada nos séculos anteriores ainda dominados pelo paganismo com os seus ídolos e o seus deuses da natureza?
No facto de Deus ser homem.
Se Cristo é homem e faz milagres, eu, que sou igualmente homem, também os posso fazer. Mas se, para fazer milagres, além de homem, eu também tenho de ser Deus como Cristo, então a solução está mesmo à vista. Só tenho que O imitar.
O principal milagre de S. Francisco foi o de ter ensinado ao homem como é que o homem pode fazer milagres.
Esta foi a revolução espiritual operada por S. Francisco, o Alter Christus, como tem sido chamado. Ele abriu e elevou o espírito humano a uma dimensão nunca antes conhecida. Nunca o homem contemplou horizontes tão vastos e tão elevados. Depois da revolução franciscana, qualquer homem podia passar a sentir-se como se fosse um super-homem.
É uma revolução espiritual deste género - embora não necessariamente nos termos em que S. Francisco a fez - que nós estamos a precisar. O meu sentimento é que essa nova revolução espiritual será centrada na figura de Maria e não na de Cristo, como aconteceu com a revolução franciscana.
09 abril 2017
D. Laura
Eu acredito muito nos resultados deste estudo, a que já fiz referência anterior (sem discutir ao detalhe os números que lá são citados).
A ciência, afinal, vem confirmar uma antiga verdade da fé, a saber, que a duração da vida humana é, em primeiro lugar, determinada por Deus, embora Ele tenha concedido ao homem uma certa liberdade para influenciar o resultado (o estudo fala em dois terços para Deus e um terço para o homem).
Esta liberdade manifesta-se não apenas no estilo de vida que cada um decide adoptar, mas também na liberdade - e no encorajamento, acrescentaria eu - que Deus concedeu ao homem para, através dos progressos da ciência, aumentar a duração da vida humana. Mas esta liberdade será sempre limitada em comparação com a liberdade absoluta que só pertence a Deus.
Mas, se é Deus, mais do que o homem, que determina a duração da vida humana, qual é o comportamento racional por parte daquele que, perante uma situação de morte previsível ou iminente, já esgotou, ou está em vias de esgotar, todos os recursos da ciência?
Pedir a Deus.
A conclusão é que o homem que, perante uma situação de morte previsível ou iminente, vai a Fátima (ou a outro local) pedir a Deus é um homem perfeitamente racional. Irracional é quem, nas mesmas circunstâncias, lá não vai.
A fé e a razão, a religião e a ciência, não são incompatíveis. A razão é um subproduto da fé e a ciência um subproduto da religião (em linguagem dos conjuntos, a ciência é um subconjunto da religião). Às vezes, a filha quer tanto demarcar-se da Mãe que se torna ridícula, ao ponto de chamar acaso ao Pai, como é patente no artigo que tenho vindo a referir.
Aquele que, por vezes, é considerado o primeiro cientista da modernidade, Roger Bacon, era um filho da Igreja Católica, um frade franciscano. Ficou apropriadamente conhecido por "Doutor Miraculoso" porque a sua tarefa - a tarefa da ciência - era vista como a de desvendar os mistérios que Deus colocou na Natureza. Bacon mostra na perfeição como a ciência moderna é filha da Igreja.
Com o advento do protestantismo, e principalmente sob a influência de Kant - que é justamente considerado o filósofo do protestantismo - a ciência ficou proibida de falar do Pai, entre outras coisas passando a chamar-lhe acaso, e procurou demarcar-se da Mãe, tornando-a mesmo sua inimiga.
Em vão. Ninguém consegue libertar-se da Mãe, como a própria ciência agora vem provar. Parece o conflito entre a Laurinha e a D. Laura. A Laurinha acabará tão D. Laura como a mãe.
A ciência, afinal, vem confirmar uma antiga verdade da fé, a saber, que a duração da vida humana é, em primeiro lugar, determinada por Deus, embora Ele tenha concedido ao homem uma certa liberdade para influenciar o resultado (o estudo fala em dois terços para Deus e um terço para o homem).
Esta liberdade manifesta-se não apenas no estilo de vida que cada um decide adoptar, mas também na liberdade - e no encorajamento, acrescentaria eu - que Deus concedeu ao homem para, através dos progressos da ciência, aumentar a duração da vida humana. Mas esta liberdade será sempre limitada em comparação com a liberdade absoluta que só pertence a Deus.
Mas, se é Deus, mais do que o homem, que determina a duração da vida humana, qual é o comportamento racional por parte daquele que, perante uma situação de morte previsível ou iminente, já esgotou, ou está em vias de esgotar, todos os recursos da ciência?
Pedir a Deus.
A conclusão é que o homem que, perante uma situação de morte previsível ou iminente, vai a Fátima (ou a outro local) pedir a Deus é um homem perfeitamente racional. Irracional é quem, nas mesmas circunstâncias, lá não vai.
A fé e a razão, a religião e a ciência, não são incompatíveis. A razão é um subproduto da fé e a ciência um subproduto da religião (em linguagem dos conjuntos, a ciência é um subconjunto da religião). Às vezes, a filha quer tanto demarcar-se da Mãe que se torna ridícula, ao ponto de chamar acaso ao Pai, como é patente no artigo que tenho vindo a referir.
Aquele que, por vezes, é considerado o primeiro cientista da modernidade, Roger Bacon, era um filho da Igreja Católica, um frade franciscano. Ficou apropriadamente conhecido por "Doutor Miraculoso" porque a sua tarefa - a tarefa da ciência - era vista como a de desvendar os mistérios que Deus colocou na Natureza. Bacon mostra na perfeição como a ciência moderna é filha da Igreja.
Com o advento do protestantismo, e principalmente sob a influência de Kant - que é justamente considerado o filósofo do protestantismo - a ciência ficou proibida de falar do Pai, entre outras coisas passando a chamar-lhe acaso, e procurou demarcar-se da Mãe, tornando-a mesmo sua inimiga.
Em vão. Ninguém consegue libertar-se da Mãe, como a própria ciência agora vem provar. Parece o conflito entre a Laurinha e a D. Laura. A Laurinha acabará tão D. Laura como a mãe.
Não precisei de mais
Afinal, onde é que está aqui o milagre?
Há dois milagres.
Dois? Sim, o próprio pai da criança julgou que me estava a falar de um só milagre e, enquanto ele falava, eu estava a ver dois milagres, um milagre que aconteceu ao filho e outro que aconteceu ao pai.
E o milagre que aconteceu ao pai foi o da conversão - ele, que era ateu.
Um milagre é um acontecimento quase-impossível e cuja ocorrência nos deixa maravilhados. A própria palavra milagre deriva do latim miraculus que significa "maravilhar-se". São dois, portanto, os elementos de um milagre, a sua inverosimilhança e a alegria que produz.
Eu também fiquei convencido, tão convencido como estava o pai, de que o sucesso da operação da criança tinha sido um milagre. Não, não perguntei que tipo de problema tinha a criança no cérebro e muito menos quais eram as soluções técnicas e as probabilidades. Tenho alguma competência em probabilidades mas nenhuma em cirurgia. E o pai da criança parecia não a ter nem numa nem noutra.
Acreditei pela maneira como tudo aquilo se desenrolou. Eu já entrei em muitos Cafés ao longo da minha vida. Mas, em nenhum, mal tivesse assomado à porta, o patrão saltou de trás do balcão, como se tivesse uma mola, para me vir receber com todas aquelas atenções, ao ponto de abandonar o serviço e vir sentar-se a conversar comigo.
O homem estava perfeitamente convencido que a cura do filho se ficou a dever a intercessão divina, sem que, em algum momento, tivesse desvalorizado o trabalho do cirurgião. Acerca do trabalho do cirurgião, eu teria muito a dizer sobre o milagre que é os cirurgiões disporem hoje de técnicas e talentos que lhes permitem fazer delicadas operações ao cérebro, mas estaria a desviar-me do meu tema principal.
Para aquele homem, a questão que, na altura, lhe ia no espírito, transcendia em muito a competência do cirurgião e o sucesso imediato da operação. A questão que o preocupava era se aquela criança, que tinha nascido com um problema no cérebro, se iria tornar um adulto normal. E tornou, estava agora ali à vista de todos.
A mãe e a avó da criança também estavam igualmente convencidas de que foi um milagre, a tal ponto que a avó duplicou as suas idas anuais a Fátima. E, com a minha adesão, passaram a ser quatro, pelo menos, as pessoas que acreditam que foi um milagre.
Não são precisos mais para validar um milagre. Porque aquilo que caracteriza um milagre é o facto de serem muito poucas as pessoas que acreditam nele. Os cépticos excedem largamente os crentes. E isto é assim porque a principal consequência de um milagre, que seja um verdadeiro milagre, é produzir outro milagre - o da conversão. E para que a conversão possa existir é necessário, em primeiro lugar, que existam cépticos.
Como não havia eu de acreditar na história daquele homem, se eu ia a Fátima por um motivo semelhante? E convenci-me do milagre pouco depois de sair do Café e me fazer ao caminho, meditando sobre o significado daquele inesperado encontro.
Que estranho... tinha tantos Cafés no caminho e logo entrei naquele. E a forma como o homem me recebeu, adivinhando logo para onde eu ia? E não é que, ainda por cima, tinha uma história para me contar que, nas circunstâncias, tinha um imenso significado para mim?
Eram acasos a mais, uma conjugação assim de acasos tem probabilidade zero. Não existe aqui acaso nenhum. Foi Deus. Foi Deus que me quis pôr um sinal no caminho e planeou este encontro.
E que tinha Deus para me dizer?
O seguinte: "Estás a fazer a coisa certa. Continua o teu caminho, não desanimes nem abandones. Vais obter o resultado que pretendes. Acabei de te pôr na frente dos olhos um exemplo vivo - ou precisas de mais?".
Não precisei de mais. (Na realidade, já tinha recebido alguns sinais pelo caminho e ainda viria a receber outros).
Há dois milagres.
Dois? Sim, o próprio pai da criança julgou que me estava a falar de um só milagre e, enquanto ele falava, eu estava a ver dois milagres, um milagre que aconteceu ao filho e outro que aconteceu ao pai.
E o milagre que aconteceu ao pai foi o da conversão - ele, que era ateu.
Um milagre é um acontecimento quase-impossível e cuja ocorrência nos deixa maravilhados. A própria palavra milagre deriva do latim miraculus que significa "maravilhar-se". São dois, portanto, os elementos de um milagre, a sua inverosimilhança e a alegria que produz.
Eu também fiquei convencido, tão convencido como estava o pai, de que o sucesso da operação da criança tinha sido um milagre. Não, não perguntei que tipo de problema tinha a criança no cérebro e muito menos quais eram as soluções técnicas e as probabilidades. Tenho alguma competência em probabilidades mas nenhuma em cirurgia. E o pai da criança parecia não a ter nem numa nem noutra.
Acreditei pela maneira como tudo aquilo se desenrolou. Eu já entrei em muitos Cafés ao longo da minha vida. Mas, em nenhum, mal tivesse assomado à porta, o patrão saltou de trás do balcão, como se tivesse uma mola, para me vir receber com todas aquelas atenções, ao ponto de abandonar o serviço e vir sentar-se a conversar comigo.
O homem estava perfeitamente convencido que a cura do filho se ficou a dever a intercessão divina, sem que, em algum momento, tivesse desvalorizado o trabalho do cirurgião. Acerca do trabalho do cirurgião, eu teria muito a dizer sobre o milagre que é os cirurgiões disporem hoje de técnicas e talentos que lhes permitem fazer delicadas operações ao cérebro, mas estaria a desviar-me do meu tema principal.
Para aquele homem, a questão que, na altura, lhe ia no espírito, transcendia em muito a competência do cirurgião e o sucesso imediato da operação. A questão que o preocupava era se aquela criança, que tinha nascido com um problema no cérebro, se iria tornar um adulto normal. E tornou, estava agora ali à vista de todos.
A mãe e a avó da criança também estavam igualmente convencidas de que foi um milagre, a tal ponto que a avó duplicou as suas idas anuais a Fátima. E, com a minha adesão, passaram a ser quatro, pelo menos, as pessoas que acreditam que foi um milagre.
Não são precisos mais para validar um milagre. Porque aquilo que caracteriza um milagre é o facto de serem muito poucas as pessoas que acreditam nele. Os cépticos excedem largamente os crentes. E isto é assim porque a principal consequência de um milagre, que seja um verdadeiro milagre, é produzir outro milagre - o da conversão. E para que a conversão possa existir é necessário, em primeiro lugar, que existam cépticos.
Como não havia eu de acreditar na história daquele homem, se eu ia a Fátima por um motivo semelhante? E convenci-me do milagre pouco depois de sair do Café e me fazer ao caminho, meditando sobre o significado daquele inesperado encontro.
Que estranho... tinha tantos Cafés no caminho e logo entrei naquele. E a forma como o homem me recebeu, adivinhando logo para onde eu ia? E não é que, ainda por cima, tinha uma história para me contar que, nas circunstâncias, tinha um imenso significado para mim?
Eram acasos a mais, uma conjugação assim de acasos tem probabilidade zero. Não existe aqui acaso nenhum. Foi Deus. Foi Deus que me quis pôr um sinal no caminho e planeou este encontro.
E que tinha Deus para me dizer?
O seguinte: "Estás a fazer a coisa certa. Continua o teu caminho, não desanimes nem abandones. Vais obter o resultado que pretendes. Acabei de te pôr na frente dos olhos um exemplo vivo - ou precisas de mais?".
Não precisei de mais. (Na realidade, já tinha recebido alguns sinais pelo caminho e ainda viria a receber outros).
08 abril 2017
as ameaças do mercado livre
A família
Zequinha tinha um problema dos diabos, a casa estava infestada por ratos.
Tantos que era difícil controlar tal peste.
O pai Zecão e a
mãe Zecona lamentavam-se amarguradamente
do dinheiro que gastavam em ratoeiras e pesticidas, que bem fazia falta para
outra coisas. O menino Zequinha ouvia estas lamúrias e pensava em soluções
mirabolantes, “a better mousetrap” – por assim dizer. Tudo hiperbolizado por aquela
esperteza tuga das anedotas :-).
A brincar, a
brincar, o menino Zequinha encontrou, porém, uma solução. Tão simples que era
um verdadeiro ovo de Colombo. A família só tinha de comprar uma jiboia, como
pet, e deixá-la jiboiar pela casa, a fazer o que as jiboias adoram fazer que é
caçar e comer roedores.
O Zecão e Zecona não estavam muito de acordo
porque depositavam pouca confiança nos répteis, mas perante a capacidade
persuasiva do Zequinha, alinharam. Compraram uma jiboia ainda pequerrucha, logo
batizada de Zecoia, e largaram-na pela casa.
O menino Zequinha
tinha convencido os pais de que a parceria com a jiboia traria beneficio mútuo
para a família e para o animal. Era uma espécie de troca de serviços num
mercado livre interespécies. A caça aos ratos era uma especialização laboral da
jibóia que, por troca, libertava recursos da família Zequinha para outras
actividades. Em vez de gastar em ratoeiras e pesticidas, a família passaria a
investir no pomar e os dividendos daí obtidos mais do que dariam para os gastos
com a Zecoia.
Fantástico,
pensaram todos. O menino Zequinha é um génio, pese embora ter-se inspirado nas
ideias de outro génio do passado chamado Zicardo. O mercado não é um jogo de
soma zero!
Os anos passaram
e tu do corria de feição. Os ratos desapareceram, a família prosperou com a
exploração do pomar e a jibóia engordou, e engordou, e engordou. Até atingir os
100 quilos de peso. Minha nossa, era um luxo aquela jibóia e o olhar agradecido
do bichano derretia o coração de todos.
Um dia, porém,
uma calamidade aconteceu. Quando chegaram a casa, o Zecão e a Zecona aperceberam-se
do pior, a Zicoia tinha esmagado e engolido o menino Zequinha. Como tinha sido possível?
A jiboia
aproveitou-se dos benefícios da vantagem competitiva que lhe advinha da sua especialização
laboral, cresceu, engordou, e, por assim dizer, comeu o menino que a trouxe
para a família. Triste sina a do Zequinha, uma ideia que parecia tão boa.
um acaso especial
Esta notícia interessou-me logo no dia em que saiu em vários jornais. Afinal, é o acaso que determina o cancro, e não o estilo de vida. A ciência parece estar a lançar uma nova moda, em substituição da anterior, mas eu devo afirmar que prefiro a nova.
Começo a descrer de muito daquilo que a ciência diz. É de modas, hoje é uma coisa, amanhã é outra.
Eu estava convencido que a principal causa do cancro era o tabaco, o álcool, os enchidos, o açúcar, etc. Afinal, não é nada disto. A principal causa do cancro é o acaso.
Cito a notícia a partir do DN por causa de um comentário que lá aparece de um leitor que se chama Jorge Martins Silva. E cito-a porque, no essencial, concordo com o comentário, que diz que é o acaso que nos dá vida, que nos arranja uma profissão, até um clube de futebol, e o acaso é também casamenteiro.
Tenho apenas duas observações a fazer.
A primeira é que, podendo reclamar alguma competência em Teoria das Probabilidades, que é a ciência do acaso, a minha experiência é a de que o acaso é aleatório, tanto lhe dá para o bem como para o mal, e com igual probabilidade.
Ora, o acaso de que fala o leitor é um acaso especial, só lhe dá para o bem. Este acaso é, literalmente, e na linguagem popular, um gajo porreiro.
A segunda é para dizer que, nas situações que o leitor invoca, o acaso chegou-me sempre através de pessoas (embora ele possa também chegar através de outras obras suas, como as da natureza).
Quanto à vida, por acaso foi o meu pai e a minha mãe que me a transmitiram.
Quanto ao clube de futebol, por acaso foi o meu pai que, aos cinco anos, me inscreveu como sócio do Benfica e desde essa idade passou a levar-me todas as semanas ao Estádio da Luz.
Quanto à profissão de economista, por acaso foi ainda o meu pai a pessoa determinante, embora outras tenham participado. Assim que completei a instrução primária, por acaso foi o meu pai que decidiu que eu iria frequentar o ensino técnico comercial, o qual, por acaso, só tinha uma saída para o ensino superior - Economia.
Então e não é que, no decurso dessa decisão do meu pai, às tantas fui frequentar o Instituto Comercial de Lisboa e, por acaso, encontrei lá uma menina bonita, a qual é minha mulher desde há quarenta anos?
Um dia, quando o acaso considerar que eu estou cansado e a minha missão está cumprida, é bem capaz de me arranjar um cancro, ou qualquer outra coisa do género, e põe-me a descansar eternamente.
Por acaso hoje esteve um lindo dia de sol e eu passei um dia fantástico junto ao mar. Que também lá estava por acaso.
Sinto uma imensa gratidão pelo acaso. É mesmo um gajo porreiro. Talvez devêssemos criar uma ciência da gratidão e dedicá-la ao acaso.
Começo a descrer de muito daquilo que a ciência diz. É de modas, hoje é uma coisa, amanhã é outra.
Eu estava convencido que a principal causa do cancro era o tabaco, o álcool, os enchidos, o açúcar, etc. Afinal, não é nada disto. A principal causa do cancro é o acaso.
Cito a notícia a partir do DN por causa de um comentário que lá aparece de um leitor que se chama Jorge Martins Silva. E cito-a porque, no essencial, concordo com o comentário, que diz que é o acaso que nos dá vida, que nos arranja uma profissão, até um clube de futebol, e o acaso é também casamenteiro.
Tenho apenas duas observações a fazer.
A primeira é que, podendo reclamar alguma competência em Teoria das Probabilidades, que é a ciência do acaso, a minha experiência é a de que o acaso é aleatório, tanto lhe dá para o bem como para o mal, e com igual probabilidade.
Ora, o acaso de que fala o leitor é um acaso especial, só lhe dá para o bem. Este acaso é, literalmente, e na linguagem popular, um gajo porreiro.
A segunda é para dizer que, nas situações que o leitor invoca, o acaso chegou-me sempre através de pessoas (embora ele possa também chegar através de outras obras suas, como as da natureza).
Quanto à vida, por acaso foi o meu pai e a minha mãe que me a transmitiram.
Quanto ao clube de futebol, por acaso foi o meu pai que, aos cinco anos, me inscreveu como sócio do Benfica e desde essa idade passou a levar-me todas as semanas ao Estádio da Luz.
Quanto à profissão de economista, por acaso foi ainda o meu pai a pessoa determinante, embora outras tenham participado. Assim que completei a instrução primária, por acaso foi o meu pai que decidiu que eu iria frequentar o ensino técnico comercial, o qual, por acaso, só tinha uma saída para o ensino superior - Economia.
Então e não é que, no decurso dessa decisão do meu pai, às tantas fui frequentar o Instituto Comercial de Lisboa e, por acaso, encontrei lá uma menina bonita, a qual é minha mulher desde há quarenta anos?
Um dia, quando o acaso considerar que eu estou cansado e a minha missão está cumprida, é bem capaz de me arranjar um cancro, ou qualquer outra coisa do género, e põe-me a descansar eternamente.
Por acaso hoje esteve um lindo dia de sol e eu passei um dia fantástico junto ao mar. Que também lá estava por acaso.
Sinto uma imensa gratidão pelo acaso. É mesmo um gajo porreiro. Talvez devêssemos criar uma ciência da gratidão e dedicá-la ao acaso.
07 abril 2017
um homem feliz
Mau... Falo das Clarissas e o Jornal Oficial faz um artigo sobre as Clarissas.
Falo de S. Francisco e o Jornal Oficial faz um artigo sobre o Convento de S. Francisco.
Começo a pensar que são acasos a mais, ao ritmo de um por semana.
Mas eu também já expliquei o que são para mim os acasos.
Bom...independentemente das politiquices, a renovação do Convento parece muito boa. Parabéns a quem a fez, e não lamento um cêntimo dos meus impostos que tenham ido para ali porque isto agora, a propósito de tudo e de nada, é chique falar dos impostos.
Dentro de alguns anos, o Covento vai ser necessário outra vez. Não para alojar artistas, mas franciscanos versão século XXI.
Como assim?
"E podemos afirmar, quase com a mesma profunda certeza, que as estrelas que lá do alto olhavam para aquele cadáver lúgubre e consumido, já hirto sobre o solo rochoso, contemplavam pela primeira vez - no decurso dos longos ciclos percorridos em torno da laboriosa humanidade - um homem feliz".
(G. K. Chesterton, São Francisco de Assis, Lisboa: Aletheia, 2013, p. 107)
Que milagre, um homem feliz na mais extrema pobreza.
Falo de S. Francisco e o Jornal Oficial faz um artigo sobre o Convento de S. Francisco.
Começo a pensar que são acasos a mais, ao ritmo de um por semana.
Mas eu também já expliquei o que são para mim os acasos.
Bom...independentemente das politiquices, a renovação do Convento parece muito boa. Parabéns a quem a fez, e não lamento um cêntimo dos meus impostos que tenham ido para ali porque isto agora, a propósito de tudo e de nada, é chique falar dos impostos.
Dentro de alguns anos, o Covento vai ser necessário outra vez. Não para alojar artistas, mas franciscanos versão século XXI.
Como assim?
"E podemos afirmar, quase com a mesma profunda certeza, que as estrelas que lá do alto olhavam para aquele cadáver lúgubre e consumido, já hirto sobre o solo rochoso, contemplavam pela primeira vez - no decurso dos longos ciclos percorridos em torno da laboriosa humanidade - um homem feliz".
(G. K. Chesterton, São Francisco de Assis, Lisboa: Aletheia, 2013, p. 107)
Que milagre, um homem feliz na mais extrema pobreza.
04 abril 2017
Até ao dia
Quando, em Novembro de 2010, fui a Fátima, ao terceiro dia, pela hora do almoço, entrei num café em Mira, para comer alguma coisa e descansar um pouco.
Mal assomei à porta, um homem, que aparentava quarenta e tal anos e estava por detrás do balcão, com ar de patrão, deu a volta, veio depressa ter comigo, tirou-me a mochila das costas e, enquanto puxava uma cadeira para eu me sentar, perguntou-me:
-O senhor vai a Fátima, não vai?
Respondi que sim. Ele serviu-me e veio sentar-se ao pé de mim a conversar, enquanto um rapaz que aparentava cerca de dezoito anos o substituía a servir às mesas.
E contou-me a história dele.
Que nunca tinha acreditado em nada daquilo. A mãe sim, sempre acreditou, e agora até ia duas vezes por ano a Fátima. A mulher também. Mas ele não.
Até ao dia em que lhe nasceu um filho com um grave problema no cérebro. O bebé necessitava de uma intervenção cirúrgica delicada e de grande risco. A operação teve lugar no dia 13 de Maio. A partir daí passou a ir todos os anos a Fátima.
-Olhe ... agora está ali...
Mal assomei à porta, um homem, que aparentava quarenta e tal anos e estava por detrás do balcão, com ar de patrão, deu a volta, veio depressa ter comigo, tirou-me a mochila das costas e, enquanto puxava uma cadeira para eu me sentar, perguntou-me:
-O senhor vai a Fátima, não vai?
Respondi que sim. Ele serviu-me e veio sentar-se ao pé de mim a conversar, enquanto um rapaz que aparentava cerca de dezoito anos o substituía a servir às mesas.
E contou-me a história dele.
Que nunca tinha acreditado em nada daquilo. A mãe sim, sempre acreditou, e agora até ia duas vezes por ano a Fátima. A mulher também. Mas ele não.
Até ao dia em que lhe nasceu um filho com um grave problema no cérebro. O bebé necessitava de uma intervenção cirúrgica delicada e de grande risco. A operação teve lugar no dia 13 de Maio. A partir daí passou a ir todos os anos a Fátima.
-Olhe ... agora está ali...
disse-me, apontando para o calmeirão que andava a servir às mesas.
(Resta-me acrescentar que o milagre que nesse Outono de 2010 eu fui pedir a Fátima também foi atendido)
(Resta-me acrescentar que o milagre que nesse Outono de 2010 eu fui pedir a Fátima também foi atendido)
espírito de iniciativa
Eu tenho estado a assistir às peripécias recentes envolvendo os bancos e o sistema financeiro português com o seguinte sentimento: "É o falhanço simultâneo e conjunto do Mercado, enquanto sistema de afectação dos recursos, e do Estado, enquanto actor e regulador desse sistema".
Ao mesmo tempo que reflicto sobre as múltiplas dimensões da mensagem de S. Francisco de Assis, o Alter Christus, o Santo acerca de quem Dante, ele próprio um franciscano, escreveu na Divina Comédia: "Nasceu um sol para o mundo".
Há uns anos passei acidentalmente por uma escola primária perto de Entre-os-Rios, nos arredores do Porto, que tinha a seguinte mensagem gravada a pedra na frontaria (cito de memória): "Esta escola foi contruída em 1932 com a ajuda do Estado".
Fiquei a pensar a quem pertenceria aquela escola na altura em que foi construída. Certamente que não a algum capitalista que nela tivesse investido o seu dinheiro para depois o recuperar em propinas cobradas aos pais dos alunos, numa localidade que era visivelmente pobre. Certamente que não também ao Estado, que tinha ajudado, mas não tinha feito a escola.
A quem pertenceria aquela escola, então?
À comunidade local.
O momento decisivo na vida de S. Francisco aconteceu quando Cristo lhe apareceu e pediu para ele restaurar a Igreja de S. Damião, em Assis, que estava ao abandono e em ruínas. Francisco começou por vender à socapa e a baixo preço tecidos que eram o negócio do pai, e que acabaram por o levar à ruptura com ele; depois, andou pelas ruas a pedir materiais e dinheiro e a congregar pessoas (pedreiros, carpinteiros, pintores, etc.) e, todos juntos - a comunidade de Assis -, sob a liderança de Francisco, acabaram por reconstruir a Igreja.
Convém acrescentar que Francisco, e a sua comunidade, não reconstruiu apenas a casa de Cristo. Construiu também ao lado uma casa para Clara - o Convento de S. Damião - que foi a primeira sede das Clarissas.
Entre as muitas mensagens da vida do Santo há pelo menos uma que possui um profundo significado económico ainda hoje - e, talvez, até, sobretudo hoje. Refere-se ao espírito de iniciativa económica que caracteriza o catolicismo e que Francisco tão bem interpretou.
É um espírito de iniciativa económica que se distingue daqueles que evoluíram das duas grandes heresias modernas - o calvinismo e o luteranismo - e que se exprimem no capitalismo e no socialismo. No capitalismo, o espírito de iniciativa é individual e centrado no indivíduo. No socialismo é colectivo e centrado no Estado.
No catolicismo, é comunitário.
Ao mesmo tempo que reflicto sobre as múltiplas dimensões da mensagem de S. Francisco de Assis, o Alter Christus, o Santo acerca de quem Dante, ele próprio um franciscano, escreveu na Divina Comédia: "Nasceu um sol para o mundo".
Há uns anos passei acidentalmente por uma escola primária perto de Entre-os-Rios, nos arredores do Porto, que tinha a seguinte mensagem gravada a pedra na frontaria (cito de memória): "Esta escola foi contruída em 1932 com a ajuda do Estado".
Fiquei a pensar a quem pertenceria aquela escola na altura em que foi construída. Certamente que não a algum capitalista que nela tivesse investido o seu dinheiro para depois o recuperar em propinas cobradas aos pais dos alunos, numa localidade que era visivelmente pobre. Certamente que não também ao Estado, que tinha ajudado, mas não tinha feito a escola.
A quem pertenceria aquela escola, então?
À comunidade local.
O momento decisivo na vida de S. Francisco aconteceu quando Cristo lhe apareceu e pediu para ele restaurar a Igreja de S. Damião, em Assis, que estava ao abandono e em ruínas. Francisco começou por vender à socapa e a baixo preço tecidos que eram o negócio do pai, e que acabaram por o levar à ruptura com ele; depois, andou pelas ruas a pedir materiais e dinheiro e a congregar pessoas (pedreiros, carpinteiros, pintores, etc.) e, todos juntos - a comunidade de Assis -, sob a liderança de Francisco, acabaram por reconstruir a Igreja.
Convém acrescentar que Francisco, e a sua comunidade, não reconstruiu apenas a casa de Cristo. Construiu também ao lado uma casa para Clara - o Convento de S. Damião - que foi a primeira sede das Clarissas.
Entre as muitas mensagens da vida do Santo há pelo menos uma que possui um profundo significado económico ainda hoje - e, talvez, até, sobretudo hoje. Refere-se ao espírito de iniciativa económica que caracteriza o catolicismo e que Francisco tão bem interpretou.
É um espírito de iniciativa económica que se distingue daqueles que evoluíram das duas grandes heresias modernas - o calvinismo e o luteranismo - e que se exprimem no capitalismo e no socialismo. No capitalismo, o espírito de iniciativa é individual e centrado no indivíduo. No socialismo é colectivo e centrado no Estado.
No catolicismo, é comunitário.
03 abril 2017
um milagre em Fátima
Há um milagre em Fátima que é reportado hoje pelo Jornal Oficial:
“Durante décadas, o país fez de Fátima um tabu, uma coisa proibida. Como se fosse uma espécie de campânula, e isto durou até há pouco tempo. A verdade é que foi ‘a geringonça’ o primeiro Governo que deu reconhecimento a Fátima”.
Quais três pastorinhos, os três partidos que apoiam o Governo - todos anti-católicos, todos anti-mulher e que, se fosse por eles, Fátima não existia - são os autores da afluência record de pessoas este ano ao Santuário de Fátima.
São tão interessantes e inovadores os milagres reportados pelo Jornal Oficial.
São milagres do diabo.
“Durante décadas, o país fez de Fátima um tabu, uma coisa proibida. Como se fosse uma espécie de campânula, e isto durou até há pouco tempo. A verdade é que foi ‘a geringonça’ o primeiro Governo que deu reconhecimento a Fátima”.
Quais três pastorinhos, os três partidos que apoiam o Governo - todos anti-católicos, todos anti-mulher e que, se fosse por eles, Fátima não existia - são os autores da afluência record de pessoas este ano ao Santuário de Fátima.
São tão interessantes e inovadores os milagres reportados pelo Jornal Oficial.
São milagres do diabo.
02 abril 2017
clarissa
O Jornal Oficial foi entrevistar uma clarissa.
Bom trabalho da jornalista Carolina Azevedo Ferreira.
Pode ter sido um mero acaso esta coincidência entre a iniciativa da Carolina Ferreira e aquilo que escrevi recentemente neste blogue.
Não importa. O acaso é a vontade de Deus.
Gostaria de salientar mais dois "acasos":
i) Existe uma certa semelhança entre o início do século XIII da Idade Média cristã e a contemporaneidade das últimas décadas. Trata-se, em ambos os casos, de períodos de grande progresso material.
É no século XIII que surgem os primeiros bancos de reserva fraccionada, permitindo a expansão da actividade económica através do crédito e um aumento considerável da riqueza (o PIB, um conceito que não existia nessa altura, devia crescer à taxa de dois dígitos ao ano)
Assiste-se também nesse período a um grande movimento das populações dos campos para as cidades.
É uma época caracterizada por um certo materialismo e um certo cosmopolitismo.
É neste contexto social que surgem S. Francisco e Santa Clara que representam o exacto oposto de tudo isto.
ii) A televisão é, talvez, o mais potente meio de exposição pública que a humanidade já conheceu. Ora, acontece que Santa Clara é precisamente a Padroeira da Televisão (assim declarada pelo Papa Pio XII).
Mas não apenas isso. Acontece também, por acaso, diriam uns - por vontade de Deus, diria eu - que as clarissas vivem no exacto oposto da exposição pública - vivem em perfeita clausura.
O que é que Deus terá querido significar com estes sinais?
Talvez que o Plano de Deus para os homens é uma estrada muito larga e que inclui os opostos (numa altura em que o rebanho estava a ir todo numa só direcção).
Para o meio do materialismo enviou S. Francisco que não queria saber de nada disso e, pelo contrário, era um homem de uma espiritualidade marcante, que falava com as aves e fazia cânticos ao sol.
Para o meio do cosmopolitismo enviou Santa Clara que não queria saber disso para nada e viveu toda a vida fechada na Igreja de S. Damião, em Assis.
Francisco e Clara, cada um por si e entre os dois, eram perfeitamente felizes. E eram perfeitamente felizes sem necessitarem de felicidade do mundo para nada.
Bom trabalho da jornalista Carolina Azevedo Ferreira.
Pode ter sido um mero acaso esta coincidência entre a iniciativa da Carolina Ferreira e aquilo que escrevi recentemente neste blogue.
Não importa. O acaso é a vontade de Deus.
Gostaria de salientar mais dois "acasos":
i) Existe uma certa semelhança entre o início do século XIII da Idade Média cristã e a contemporaneidade das últimas décadas. Trata-se, em ambos os casos, de períodos de grande progresso material.
É no século XIII que surgem os primeiros bancos de reserva fraccionada, permitindo a expansão da actividade económica através do crédito e um aumento considerável da riqueza (o PIB, um conceito que não existia nessa altura, devia crescer à taxa de dois dígitos ao ano)
Assiste-se também nesse período a um grande movimento das populações dos campos para as cidades.
É uma época caracterizada por um certo materialismo e um certo cosmopolitismo.
É neste contexto social que surgem S. Francisco e Santa Clara que representam o exacto oposto de tudo isto.
ii) A televisão é, talvez, o mais potente meio de exposição pública que a humanidade já conheceu. Ora, acontece que Santa Clara é precisamente a Padroeira da Televisão (assim declarada pelo Papa Pio XII).
Mas não apenas isso. Acontece também, por acaso, diriam uns - por vontade de Deus, diria eu - que as clarissas vivem no exacto oposto da exposição pública - vivem em perfeita clausura.
O que é que Deus terá querido significar com estes sinais?
Talvez que o Plano de Deus para os homens é uma estrada muito larga e que inclui os opostos (numa altura em que o rebanho estava a ir todo numa só direcção).
Para o meio do materialismo enviou S. Francisco que não queria saber de nada disso e, pelo contrário, era um homem de uma espiritualidade marcante, que falava com as aves e fazia cânticos ao sol.
Para o meio do cosmopolitismo enviou Santa Clara que não queria saber disso para nada e viveu toda a vida fechada na Igreja de S. Damião, em Assis.
Francisco e Clara, cada um por si e entre os dois, eram perfeitamente felizes. E eram perfeitamente felizes sem necessitarem de felicidade do mundo para nada.
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