16 abril 2025

A Decisão do TEDH (432)

(Continuação daqui)

Fonte: cf. aqui



432. Processo Cível (X)

 By-pass coronário


14 de Março: Cirurgia ao coração

Quando acordei da minha segunda noite numa cama de hospital eram oito horas da manhã. Uma enfermeira tinha acabado de entrar pelo quarto dentro com um comprimido numa mão e um copo de água na outra.  Ergui-me para tomar o comprido, voltei a colocar a cabeça na almofada, virei-me para o lado esquerdo, e só acordei vinte e duas horas depois, eram seis da manhã do dia seguinte.

A violência da anestesia é proporcional à violência da operação. A cirurgia de by-pass coronário é a chamada operação de coração aberto. O peito é aberto ao meio e, em seguida,  duas tenazes, uma de cada lado, mantêm o peito aberto durante horas, enquanto os médicos mexem lá dentro. 

A designação de by-pass tem origem no inglês, e significa desvio [de trânsito]. Aqui também se trata de um desvio, mas do desvio de uma veia que passa na parte superior do peito,  cujo curso normal é alterado para ser ligada ao coração. 

O coração (músculo cardíaco) funciona como uma bomba aspirante-premente, aspirando o sangue da circulação para depois o bombear de volta para o sistema circulatório. No movimento aspiratório, as veias através das quais o sangue é levado ao coração são chamadas artérias coronárias. Existem duas coronárias principais, uma que alimenta o lado esquerdo do coração e a outra o lado direito, cada uma delas possuindo muitas ramificações. 

Quando uma artéria coronária é obstruída, o sangue deixa de afluir em quantidade suficiente ao coração e dá-se o chamado ataque cardíaco ou  enfarte do miocárdio.  Os enfartes do miocárdio são causados pela acumulação de gordura (colesterol) nas paredes interiores das coronárias, formando placas. Metade dos enfartes do miocárdio são fatais [como aconteceu recentemente ao ex-ministro Miguel Macedo]. O enfarte do miocárdio é frequentemente o primeiro sintoma - em metade dos casos, mortal - da chamada doença coronária. Esta doença chamava-se antigamente angina de peito porque um dos seus sintomas característicos, frequentemente desvalorizado, é uma dôr (angina) recorrente no peito.

Quando entrei no Porto Heart Center da Casa de Saúde da Boavista, dois dias antes, o electrocardiograma revelou imediatamente a oclusão (enfarte) ou "entupimento" de uma artéria coronária que passa na base do coração, e o cateterismo a que fui submetido em seguida revelou que mais três estavam em risco de lhes acontecer o mesmo. Eu estava em risco de vida. Na situação em que me encontrava, já com um enfarte e na eminência de mais três, a probabilidade de morrer era elevadíssima. Deus - ou como alguns preferem chamar-lhe, a Sorte - esteve do meu lado.

A cirurgia consiste em pegar numa veia que passa na parte superior do peito, desviá-la do seu curso natural e ligá-la ao coração. Como as coronárias que abastecem o coração estão a funcionar deficientemente e algumas até bloqueadas, o abastecimento de sangue ao coração passa agora a ser feito principalmente através desta veia desviada.

No dia seguinte à operação, quando me veio ver, o cirurgião, Dr. João Carlos Mota, disse-me que e operação tinha corrido muito bem, durou "apenas" cerca de três horas, devido ao meu bom estado físico [eu era um jogger desde há quarenta anos]. Na verdade, o relatório médico à minha entrada na Casa de Saúde da Boavista refere um "Muito bom estado geral" (sic).

A Cuatrecasas (bem como o ministro Paulo Rangel) vai ter de pagar pela sua contribuição àquilo que me aconteceu, e não são os 15 mil euros que foi o custo da operação (quase tudo coberto por um seguro de saúde). Vai ser uma pequena percentagem da sua facturação anual de 430,1 milhões de euros. 

Eu nunca chegaria ao exagero de pedir à Cuatrecasas a percentagem de 1567% do seu rendimento anual (mil quinhentos e sessenta e sete por cento) que a Cuatrecasas pediu ao Guardião do Tejo (ele ganhava cerca de 15 mil euros ao ano e a Cuatrecasas exigiu-lhe 250 mil euros de indemnização), considerando, ainda por cima, tratar-se de um montante "equitativo e modesto" (cf. aqui e aqui).

Não. Eu serei muito mais modesto em termos de percentagem. Muito mais. No fim de contas, cada um por cento da facturação anual da Cuatrecasas vale 4,301 milhões de euros.

(Continua acolá)

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