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21 agosto 2007

dei de caras com Adam Smith

Em relação aos homens que se propuseram vir dizer à humanidade a maneira como ela havia de viver, a minha primeira reacção é a de aplicar a eles próprios a receita que eles prescreveram à humanidade e, em seguida, observar se eles permanecem de pé. Não são muitos os que conseguem.

Rousseau, o grande teórico moderno da educação (Émile), nunca educou os seus cinco filhos - abandonando-os um a um, à medida que foram nascendo, à porta de um infantário que cuidava de crianças pobres. Karl Marx, o grande defensor do proletariado, teve toda a vida em sua casa uma proletária - a empregada doméstica - a quem nunca pagou um cêntimo. Bertrand Russell, o grande pacifista moderno, oferecia frequentemente pancada a quem discordava dele. Ludwig von Mises, o grande defensor da economia do mercado, nunca conseguiu vender os seus serviços no mercado e viveu a maior parte da sua vida à custa do altruísmo da Volcker Foundation - ele, que via no altruísmo, apenas uma forma de egoísmo.

Eu gostaria hoje, por isso, de explicar o método que segui para estabelecer a tese de que David Hume era gay. Primeiro, apliquei o seu princípio do cepticismo radical à sua própria afirmação, segundo a qual "(...) and as I took a particular pleasure in the company of modest women, I had no reason to be displeased with the reception I met with from them" (1) para estabelecer a proposição: "Hume nunca teve mulher".

A impossibilidade de fazer inferências racionais é outro dos princípios centrais da filosofia de David Hume. Aplicando-lhe o seu próprio princípio do cepticismo radical eu estabeleci a proposição de que as inferências racionais são possíveis, a qual, aliada à proposição anterior de que ele nunca teve mulher, me conduziu à tese de que David Hume era gay.

Em seguida, no sentido de falsificar esta conjectura, utilizei todas as fontes históricas a que tive acesso e fui à procura de uma mulher na vida privada ou íntima de David Hume. E, neste processo de procura, em lugar de encontrar uma mulher, dei de caras com Adam Smith.

David Hume viveu obcecado com a sua reputação, não apenas perante os seus contemporâneos, mas, sobretudo perante a posteridade. Chegou mesmo a escrever o texto que pretendia ver inscrito na sua estátua. Se a fonte histórica desta obsessão fosse apenas o próprio Hume, eu ter-lhe-ia aplicado também o princípio do cepticismo radical. Mas não. Os seus contemporâneos e os historiadores são unânimes nesta matéria. Hume era também um homem imensamente inteligente e alguns - que não ele, caso contrário eu ter-lhe-ia aplicado ainda o princípio do cepticismo radical - chegaram mesmo a escrever que ele possuía uma inteligência Olímpica (2).

A filosofia de David Hume destronou Deus, e o próprio Hume ambicionou substituir-se a Deus - um resultado que, em parte, conseguiu, e logo após a sua morte, altura em que o filósofo idealista britânico James Hutchison Stirling escreveu: "Hume é a nossa política, Hume é o nosso comércio, Hume é a nossa filosofia, Hume é a nossa religião". Mais recentemente, a estátua que lhe foi erigida em 1997 em Edimburgo possui três metros de altura - uma dimensão que geralmente era reservada somente às estátuas erigidas a Deus - e nela os crentes veneram-no como um Deus, chupando-lhe o dedo grande do pé.

No tempo de Hume, a homossexualidade não era generalizadamente aceite à luz da moralidade tradicional prevalecente, e dava somente então os primeiros passos no sentido da sua expressão pública. Ambicionando substituir Deus, Hume tinha agora de reconciliar a sua (conjecturada) homossexualidade com a moralidade - e esta tinha de ser, obviamente, uma nova moralidade. Possuindo uma inteligência Olímpica, foi isso que ele fez na sua filosofia moral, criando um novo critério de moralidade que efectuava essa reconciliação, e a cujo lema já aludi em post anterior: "If you feel good about it, it is moral".

(1) David Hume, My Own Life, op. cit.

(2) David Blackburn, The Oxford Dictionary of Philosophy, Oxford: Oxford University Press, 1994, p. 180.

14 agosto 2007

lobby gay

Conheceram-se em 1750, David Hume tinha então 39 anos e Adam Smith 27, e permaneceram amigos íntimos até ao final da vida - Hume faleceu em 1776, Smith em 1790. Permaneceram ambos solteiros para sempre.

É natural que estes dois homens, que se tornaram famosos no seu tempo e frequentaram os salões de Edimburgo, Londres e Paris, tivessem tido, cada um deles, uma mulher que marcasse as suas vidas, ainda que por um período restrito. Mas não. Por mais que se procure, não existe uma mulher na vida de cada um destes homens.

Adam Smith viveu sempre com a mãe. Sobre David Hume existiam rumores na Grã-Bretanha de assédio feminino - na minha opinião, lançados pelo próprio Hume -, por exemplo, aqueles que vieram de Paris aquando da sua estadia entre 1763 e 1765, e a Wikipedia chega mesmo a dizer que ele era lionized pelas damas de salão. Curiosamente, nessa altura, Adam Smith também esteve em Paris com Hume e de Paris chegou à Grã-Bretanha o rumor de uma paixão sem consequências entre Smith e uma dama francesa. Na minha opinião, tudo obra de Hume.

Hume foi um dos primeiros pensadores modernos a aperceber-se da importância da opinião para influenciar a política e construir reputações - em primeiro lugar, a sua - e ele era um mestre na arte da manipulação. É verdade que, em 1763 em Paris, ele foi próximo da Condessa de Boufflers - na minha opinião, mais por interesse da sua reputação literária do que por amor romântico - mas ela não lhe deu saída, aparentemente, segundo Diderot, porque ele parecia por essa altura "un gros Bernardin bien nourrit".

Não deixa contudo de ser curioso que as ocasiões da sua alegada proximidade com mulheres - e a única vez em que tal aconteceu com Adam Smith - ocorressem sempre em Paris, deixando pouca margem de confirmação aos seus contemporâneos britânicos. De qualquer forma, o episódio da Condessa deita por terra a ideia que o próprio Hume pretendeu deixar no seu obituário de que a sua preferência era para as "modest women". (cf. meu post anterior).

A maior parte dos meus leitores já compreendeu onde vai desembocar a minha tese e, na verdade, é naquele parágrafo do obituário em que Hume se refere às mulheres que as minhas suspeitas se avolumaram (embora tivessem sido desencadeadas sobretudo pela carta que Adam Smith escreveu a William Strahan sobre Hume, após a morte deste, e a que me refiro abaixo.)

David Hume frequentava os mais altos círculos da sociedade britânica do seu tempo, e, nesses círculos, aparentemente, não havia nenhuma mulher que tivesse tido uma relação com ele. À boa maneira humeana, daí não se poderia inferir que ele não tivesse tido mulheres. Ele teve, só que eram dum extracto mais baixo - modest women - e, portanto, nos círculos em que ele se movia e procurava impressionar, ninguém as conhecia.
Mas não apenas isto. Que necessidade tem um homem de 65 anos de idade, a poucos meses da morte, de deixar aquela afirmação genérica no seu próprio obituário - a de que teve várias mulheres e que obteve uma excelente receptividade da parte delas, sem ser capaz, no entanto, de designar uma só? Será que eram todas clandestinas? Pouco provável, num homem que pretendia ficar para a história como um símbolo da perfeição humana.

Durante os 26 anos que conviveram desde 1750 até à morte de Hume em 1776, Hume e Smith frequentaram os mesmos círculos literários, viajaram juntos e, sobretudo, moveram continuamente influências um em favor do outro, quer com o objectivo de favorecerem as suas respectivas reputações literárias, quer com o objectivo de conseguirem posições públicas de relevo. Quando Smith publicou o seu primeiro livro, A Teoria dos Sentimentos Morais, foi Hume que preparou o terreno e assegurou a boa receptividade da obra, escrevendo depois a Smith orgulhoso do seu trabalho. A carta denota uma cumplicidade entre ambos que não seria de esperar nos padrões formais da época.

Numa das ocasiões em que Smith se ausentou para o estrangeiro, deixou Hume como seu executor testamentário, no caso de morrer durante a viagem. E quando Hume morreu em 1776, tinha nomeado Smith seu executor testamentário, e deixou-lhe uma parte da herança. Adam Smith acompanhou Hume na sua casa em Edimburgo nos últimos dias da sua doença, e foi por insistência de Hume que regressou a casa da mãe, que era também a sua casa, em Kircaldy, a poucos quilómetros de distância, "upon condition that he would send for me whenever he wished to see me."

Três meses depois da morte de Hume, numa carta a William Strahan, Adam Smith continuava a cuidar da reputação de Hume, e agora em termos totalmente invulgares num homem geralmente parco em elogios pessoais. A carta é um elogio que surpreenderia por certo os mais cépticos - como era Hume - e termina assim: "(...) I have always considered him, both in his lifetime and his death, as approaching as nearly to the idea of a perfectly wise and virtuous man, as perhaps the nature of human frailty will permit".

A minha tese é a de que Hume e Smith eram gays. Apesar da informação anterior, eu não me sinto ainda capaz de confirmar - e muito menos infirmar - esta tese. Porém, se a tese vier a ser confirmada, eles podem bem ter estado no centro do primeiro lobby gay da era moderna.

20 novembro 2016

Jesus

Transcript of the Conversation between President-elect Donald Trump and Peter Throw, Part XI


Donald Trump (DT) - It is amazing the things that I can learn when I pick up my daily copy of Public... Plato's dream of the Philosopher-Prime-Minister is made true in Portugal... in the person of his own predecessor...Socrates...

Peter Throw (PT) - Yeaahhh...he has just published a new book... The Profane Gift: Charisma...where he predicted that you would win the election...

DT - Peter... please tell Joe  that I will buy one million copies of his book...no need to ask other friends...And that I want him to head the Philosophy Section of the American Public...

PT- Philosophy Section, Don...?

DT - Yes, Peter... Our Founding Fathers were conversant with the great philosophers of their time... such as David Hume and Adam Smith...I want to be the James Madison of the 21st century... and I need Joe Socrates to guide me...

PT - By the way, Don, ...Did you know that Hume and Smith were gay... they had a long-time, intimate relationship which lasted until the death of David Hume?...

DT - Is that true, Peter!?...Are you sure about that?!... Are you really sure!?

PT - Yes, Don...it is the first known gay relationship between two  modern philosophers...

DT - How come that Public never taught me that?... I am ashamed, Peter!...Two of the inspirational philosophers of the American Dream were gay!?...I cannot believe it!...

PT - They were both presbyterians like you, Don ...even though Hume ended up as an atheist...both belonged to the so called Scottish School of Moral Philosophy...

DT - And what does that School say about Morals, Peter?

PT - Basically, they say that it is Moral whatever pleases you...It is Moral à la carte ...You see the implication, Don...If a gay relationship pleases you, then homosexuality is Moral...

DT - How could they say that, Peter!?... How come that Public never told me!?...I can now understand why the LGBT community first came to the open in the United States of America...

PT - It is more than that, Don...This is the consequence of encouraging the common people to read the Bible... that mania of presbyterians and other protestant sects alike... These people end up interpreting the Bible as they please...

DT - Peter...just a little question... this is an intimate question which should remain between the two of us only ...is there a way for me to become  catholic?...

PT - Yes, Don... just ask a priest at the first catholic church near you...

DT - Actually, Melania has been insisting with me for years to convert...you know, she comes from Slovenia...a tiny, fiercely catholic country...

PT - Just follow her advice...

DT - Do you think that Jesus can still save me after being for so long with the presbyterian heresy...?

PT - For sure, he will...

DT - Is he still coaching Benfica?... The last time I heard of him was in The Ball  when Benfica became champion for a second time in a row... a true miracle of Jesus...

PT- No, he is not there anymore...Are you a fan of Benfica, Don?

DT - Yes, Peter... Red! ... I love Red!...it's the colour of the Republican Party...I long for the day that all of the electoral map of the United States is painted in red...I count on the American Public to achieve that...

PT - You almost got it this time, Don...

DT - Yeaahhh, Peter...By the way, tell my friend Chick of the Coast that the Blue Era has come to an end...and that a new era has begun, The Red Era... thanks to a miracle of Jesus...

PT - I certainly will do so...

DT - Now, Peter, tell me ... Is Jesus as good at writing as he is at coaching?...If so, I will hire him as the Head of the Sports Section of the American Public...

PT - No, Don, Jesus never wrote anything...except on sand...

DT- What about talking...is he good at talking? I can offer him a position as Director of Communications at the American Public...

PT - Well, Don ... let's change subjects...

DT - Peter... I am amazed by how many important, historical people choose Portugal for a living...Socrates... Jesus... Have you been lately with Pythagoras?

PT - No Don... I haven't.

19 agosto 2007

if you feel good...

David Hume é o pai do relativismo moral moderno, a ideia de que certos comportamentos e os seus opostos podem - e, nalguns casos, devem - ser aceites numa base de igualdade moral. É em Hume que a homossexualidade recebe, pela primeira vez na história da filosofia moderna, a benção da moralidade.

A contestação da moral tradicional estava em curso no seu tempo, especialmente nos salões de Paris. Quando em 1763, aos 52 anos de idade, recebeu o convite para acompanhar o Conde de Hertford como secretário da embaixada britânica em Paris, Hume, primeiro, considerou declinar "because I was afraid that the civilities and gay company of Paris would prove disagreeable to a person of my age and humour (...)". Acabou por aceitar e o balanço da estadia foi memorável: "There is (...) a real satisfaction in living at Paris from the great number of sensible, knowing and polite company with which that city abounds above all places in the universe". (1)

Para Hume, nem a razão, e menos ainda a religião, são as fontes da moral. As fontes da moralidade são os sentimentos, as paixões, as inclinações humanas - numa palavra, os feelings. Na filosofia de Hume, é moral todo o comportamento que receba o acordo das partes envolvidas e acerca do qual elas se sintam bem. "If you feel good about it, it is moral" é o lema da moralidade humeana.

No domínio da sexualidade, esta filosofia coloca no mesmo plano moral a homossexualidade e a heterossexualidade. Em termos mais gerais, ela tende a reconhecer legitimidade moral a todos os comportamentos que a moralidade tradicional condenava - provided you feel good about it - como o aborto, a eutanásia ou o ateísmo.

Na realidade, se, nas últimas décadas, com origem nos EUA - onde o pensamento de Hume foi imensamente influente através dos founding fathers, em especial James Madison - e, depois, propagando-se à Europa, a comunidade homossexual conseguiu, primeiro, saír do gueto moral em que se encontrava e, depois, reclamar activa e publicamente os seus direitos em condições de igualdade com a comunidade heterossexual, ela bem pode agradecer a David Hume que é, inquestionavelmente, o seu patrono moderno.

(1) Cf. My Own Life, op. cit. (bold meu)