04 novembro 2020

Um juiz à solta (IV)

 (Continuação daqui)

"A política é o amor dos amores"


IV. O amor dos amores


"Muitos sentem a urgência de "reabilitar" a política", escreve o juiz Pedro Vaz Patto. E acrescenta:  "Ficou célebre a definição de Pio XI da política como "forma de caridade".(...) E Chiara Lubich designou, numa ocasião, a política como "o amor dos amores", isto é, uma forma de serviço que ajuda cada um dos cidadãos a concretizar os seus projectos de realização pessoal, os quais se traduzem sempre numa forma de viver o amor" (cf. aqui).

E, de facto, foi assim que Chiara Lubich, a fundadora do Movimento dos Focolares, definiu a política: "A política é o amor dos amores" (cf. aqui).  Por isso, não seria talvez necessário elaborar mais para justificar o subtítulo que dei ao meu post anterior, sugerindo que o juiz Vaz Patto é um político disfarçado de juiz. Como membro do Movimento dos Focolares, a política é, para ele, o amor dos amores, e a vida de Chiara Lubich, uma divina aventura, como ela própria a descrevia sem cuidar da modéstia (cf. aqui).

Se assim é, se o juiz Vaz Patto é um político infiltrado no sistema de justiça e que utiliza o sistema de justiça e a sua condição de juiz para prosseguir uma agenda política, a questão que imediatamente ocorre é a seguinte: "Qual é a agenda política do juiz Vaz Patto e do Movimento dos Focolares?"

O Movimento dos Focolares ou Obra de Maria é uma movimento laico da Igreja Católica que surgiu em Itália pela mão de Chiara Lubich, uma professora primária, na década de 1940. À semelhança de outros movimentos laicos nascidos dentro de Igreja nas últimas décadas (v.g., Neocatecumenais, Comunhão e Libertação), ele tem sido frequentemente descrito pelos seus críticos como uma "seita", e a Igreja criticada por tolerar estas "derivas sectárias" (cf. aqui).

A este propósito, uma explicação é devida. A cultura católica (uma palavra que significa universal) é uma cultura de tudo, ela tem de ter tudo aquilo que existe no mundo, caso contrário deixa de ser católica ou universal. Em consequência, ela também tem de ter seitas religiosas, à semelhança das seitas protestantes que nasceram e prosperaram no mundo cristão a partir do século XVI em oposição à corrupção que grassava na própria Igreja Católica.

Ora, o Movimento dos Focolares, como os outros movimentos laicais dentro da Igreja, representam a catolicização das seitas protestantes. Estes movimentos possuem todas as características das seitas protestantes, e mais uma, que os distingue das seitas protestantes, e os catoliciza - a obediência ao Papa. As seitas protestantes, pelo contrário, não obedecem a nenhuma autoridade superior que lhes confira sentido de comunidade.

O Movimento dos Focolares visa realizar no mundo a unidade entre os homens tendo como lema o preceito cristão  "Que todos sejam um só" (Jo: 17:21). Embora esteja aberto a homens e mulheres, é um Movimento predominantemente feminino, cuja presidência é obrigatoriamente ocupada por uma mulher. O Movimento estende-se hoje a muitos países, incluindo Portugal (cf. aqui). 

A grande questão que se põe é a de saber como é possível, e por que processo, transformar seres humanos diferentes - sobretudo mulheres, cujas personalidades diferem ainda mais entre si do que as dos homens - num só, isto é, numa personalidade única. E quem será o detentor ou detentora dessa personalidade única, à qual são supostas reduzir-se todas as outras personalidades do Movimento?

Começando pela segunda questão, presume-se que a personalidade única seria a de Cristo, mas Chiara Lubich, num assomo de misticismo, usurpou esse lugar e declarou ser ela própria: "Toda a alma dos focolares tem de ser uma expressão da minha e nada mais. A minha Palavra contém a de todos os focolares e focolarinas. Eu resumo-os a todos. Quando eu apareço, todos eles devem deixar levar-se por mim e comungar comigo. Tal como Jesus, eu digo-lhes: "E aquele que comer da minha carne..."" (cf. aqui

Segundo alguns dos seus biógrafos,  Chiara Lubich esteve internada num hospital psiquiátrico na Suíça, em segredo, em certa altura da sua vida (c. 1993). Tinha então 73 anos. Viria a morrer 15 anos depois, aos 88 de idade (cf. aqui).

(Continua)

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