14 maio 2011

Olha, Portugália ...




A história da Portugália nos últimos 25 anos é a história de uma rapariga da aldeia, nascida à beira-mar, e que se casou com um homem do norte da Europa - um alemão -, cosmopolita e rico. Conheceram-se quando ele passou férias lá na praia. Ela era bonita e morena, a pele tisnada pelo sol.

Casaram com separação de bens, por imposição dela, embora ela não tivesse nada. Ele deu-lhe aquilo que ela precisava - cosmopolitismo e dinheiro. Ela passou a viajar por todas as capitais da Europa e a comprar tudo do melhor - vestidos, sapatos, automóveis, jóias, criados e chauffeurs.

Ele continuou a trabalhar na Alemanha e só vinha a casa de férias e em períodos ocasionais. Mandava-lhe o dinheiro de lá. Ela permaneceu na aldeia, numa grande casa comprada por ele, muito bem decorada, rodeada de muitos criados. Ele até lhe deu dinheiro para ela construír estradas e pontes lá na aldeia. Ultimamente ela estava mesmo a pensar mandar construír um aeroporto.

Todo o dinheiro que ele lhe mandava, ela gastava. Quando vinha de férias, e, às vezes, aos fins-de-semana, a sua cultura luterana e poupada fazia-lhe sentir que tudo aquilo era um exagero e um desperdício. Mas ele lá foi aguentando.

A certa altura, a mesada que ele lhe mandava já não chegava para as despesas. Ele recusou aumentar-lhe mais uma vez a mesada, mas ela convenceu-o a emprestar-lhe dinheiro, um tanto ao mês. Era para umas obras lá na aldeia que tinham um retorno esperado extraordinário, explicou ela. E assim foi. Só que o dinheiro foi sendo gasto, o dado e o emprestado, e nenhum retorno saía alguma vez dali. Era puro consumismo e desperdício.

Até ao dia em que ele viajou expressamente da Alemanha para pôr as coisas na ordem, talvez um pouco tarde de mais, e quando as coisas já estavam fora do controlo. Tirou-lhe os livros de cheques, rasgou-lhe os cartões de crédito, pediu-lhe a lista das despesas dos últimos meses, e disse-lhe: "Olha, a partir de agora, não gastas nem mais um tostão sem a minha autorização. Vestidos, só um de três em três meses e já é um luxo. Sapatos, a mesma coisa. Jóias, já tens as suficientes para o resto da tua vida. Despedes todos os criados imediatamente, excepto a Maria, e tens muita sorte porque lá no meu país ninguém tem criados. Só vais ao cabeleireiro uma vez por mês, as outras arranjas o cabelo em casa. Todo o dinheiro que ganho vai agora para pagar as tuas dívidas e só sobra para a casa e a comida. Nem mais um tostão mal gasto!".

E regressou à Alemanha, zangado. Ela ficou chorosa e triste na aldeia. Queixou-se à amiga Grécia, que também tinha casado com um alemão e estava nas mesmas circunstância. Que o marido era um bruto, cheio de dinheiro, e que ela agora nem sequer podia comprar uma blusa nova, nem ter criados. Não tinha dinheiro nem sequer para comprar um frasco de verniz. A culpa era dele, porque ela estava ali na aldeia à beira-mar muito sossegada e ele é que a foi desencaminhar. Ela nem queria casar, ele é que insistiu. Mas foi ela que impôs condições, só com separação de bens.

"Olha, Portugália, fazes como eu - disse-lhe a amiga Grécia. Ameaças saír de casa e vais ver que ele vem logo a correr para te dar mais dinheiro". A Portugália, achou boa a ideia, nada como uma pequena chantagem para vergar um homem. E foi, então, que pela primeira vez na vida que lhe ocorreu ao espírito uma questão de longo prazo: o que fazer no dia em que o marido estivesse arruinado e sem mais dinheiro para lhe dar? "Olha, filha, não tem nada que saber - respondeu a amiga Grécia. Põe-lo fora de casa, mudas as fechaduras à porta, e casas outra vez com o teu amigo inglês. Não foi ele que te sustentou por mais de um século, quando tu também andavas permanentemente falida, até te aparecer o Salazar?

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