05 abril 2010

a direita que era de esquerda

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Todas as revoluções começam por ser sucessões desordenadas de actos e de reacções contra um poder estabelecido, até que um grupo consiga assumir o seu controlo e imprimir-lhe uma orientação e uma finalidade determinada. Isso mesmo aconteceu na Revolução Francesa até ao momento em que os jacobinos de Robespierre claramente a dominaram, a partir da entrada do Incorruptível para o órgão executivo da estrutura de poder, o célebre Comité de Salvação Pública, em 27 de Julho de 1793.

Até então, a Revolução percorreu uma sequência de ciclos, cuja evolução seria a radicalização revolucionária à esquerda, corporizada na ideia da República democrática e popular. O primeiro deles, iniciado com os acontecimentos da transformação dos Estados Gerais (5 de Maio de 1789) em Assembleia Nacional (17 de Junho do mesmo ano), primeiro, e em Assembleia Nacional Constituinte (9 de Julho), depois, juntou todos os adversários do Ancien Régime em torno da ideia da criação de uma monarquia constitucional à inglesa, fundada numa legitimidade política nacional assente na representação igualitária da Nação, com um monarca com poderes limitados por uma Constituição política. Neste período da Revolução predominaram os homens que, ligados à nobreza descontente com o anterior regime e à burguesia emergente, admiravam os princípios constitucionais da monarquia inglesa e se reviam na nova ordem política instituída nos Estados Unidos da América. Alguns deles, como La Fayette, tinham estado no continente americano e ajudado na guerra pela independência das antigas colónias inglesas. Outros, como Mirebeau e Sieyès, pertenciam às elites letradas de Paris, embora, por uma ou outra razão, estivessem distanciados do exercício do poder.

O segundo ciclo da Revolução é marcado por um antimonarquismo claro, e inicia-se com o episódio da fuga da família real e a sua detenção em Varennes (20-21 de Junho de 1791). A este acto desesperado do Rei não foi estranha a morte de Mirebeau, a 2 de Abril do mesmo ano e, por consequência, a radicalização do processo revolucionário. Na verdade, Mirebeau era talvez o único dirigente da Revolução capaz de salvar o rei e a Monarquia. A sua morte provocou um vazio de poder que seria temporariamente preenchido por um governo girondino, a partir de 15 de Março de 92, até à subida ao poder de Robespierre.

Os girondinos deviam o seu nome à origem geográfica do seu chefe, Jacques-Pierre Brissot, e de boa parte dos seus deputados, oriundos do departamento da Gironda. Entre eles estavam Vergniaud, um eloquente advogado de Limoges, Pétion, outro advogado que fora íntimo amigo de Robespierre e que, em 1791, é feito Maire de Paris, e, sobretudo, Manon Phlipon, a célebre Mme. Roland por casamento com Jean-Marie Roland de La Platière, este último um burocrata cinzento e apagado que é feito Ministro do Interior no gabinete girondino. Mme. Roland era quem verdadeiramente orquestrava a estratégia da gironda. A sua casa era, de facto, a sede do partido girondino, e foi graças a ela e ao confronto que manteve com Danton que os girondinos se perderam.

Na célebre divisão “esquerda-direita” que a Revolução Francesa legou à cultura política contemporânea, a gironda era a “direita” da revolução. Todavia, pouco, ou quase nada, os separava dos jacobinos. Na verdade, como estes últimos, os girondinos eram revolucionários e tinham participado nos principais eventos da Revolução, sempre nas posições mais extremas. Muitos deles tinham sido originariamente jacobinos e até compagnons de route de Robespierre, como o já referido Pétion. Defendiam o fim da monarquia e a instauração da república. No processo do Rei votaram quase todos pela condenação à morte do “tirano”. Queriam a guerra contra a Áustria como forma de unir a Nação, no que, aliás, sentiram pela primeira vez a oposição firme de Robespierre, que defendeu tacticamente a paz (“Só poderemos estar tranqüilos quando a Europa, e toda a Europa, estiver em fogo”, diria Brissot à Convenção, num discurso proferido a 26 de Novembro de 92). Muitos dos seus principais protagonistas apoiaram alegremente a Constituição Civil do Clero (12 de Julho de 1790), e aprovaram, em 20 e Setembro de 92, as leis sobre a laicidade do estado e o divórcio. Eram, pois, adeptos fervorosos das “causas fracturantes” do seu tempo. Ideologicamente, pouco os separava dos jacobinos de Robespierre: uma vaga defesa do federalismo (o que os levaria à acusação de “divisionistas” e “facciosos”) e uma reforçada defesa da propriedade, esta última mais em contraponto aos extremistas do bando de Hébert e de Marat, do que propriamente a Robespierre e aos seus.

Quando pressentiram, nos Massacres de Setembro de 92, que o fogo lhes poderia chegar perto, viraram-se estupidamente contra Danton, que lhes propôs uma aliança e que era o único que os poderia salvar. Acusando Danton de todos os crimes revolucionários cometidos, sobretudo dos Massacres de Setembro, e, até mesmo, da intenção de restaurar a monarquia, rejeitaram a aliança que ele lhes propôs na Convenção. Ouviram, então, da sua boca a sentença final: “Desejais a guerra? Então, tereis a morte.” A partir do começo do ano de 93, os girondinos são frontalmente atacados. Em Março, os jornais que lhes são próximos saqueados por grupos de sans-coulottes. Em Abril é preso Sillery, um dos seus deputados, juntamente com Philippe Égalité. A 15 desse mês, a Comuna de Paris exige a demissão de 22 deputados girondinos da Convenção. Entre 31 de Maio e 2 de Junho, são presos 29 dos seus deputados. A 31 de Outubro são executados os girondinos que estavam presos. Dos que tinham conseguido fugir, Pétion e Buzot suicidam-se num campo de trigo próximo de Bordeaux, quando tentava fugir provavelmente para o estrangeiro.

Nos primeiros dias de Novembro, quando descansava na sua casa provinciana de Arcis, onde frequentemente se refugiava para temperar forças, um amigo trouxe-lhe a notícia da execução dos girondinos. Perante a euforia do amigo, que achava tratar-se de uma “boa notícia” que condenara “facciosos” inimigos da República, ter-lhe-á dito Danton: “Facciosos! Facciosos? Qual de nós está isento de ser chamado faccioso? Todos mereceríamos, bem mais do que eles, ser guilhotinados. Todos, um após o outro, teremos o mesmo destino. Esses homens de Paris desejam guilhotinar toda a República”. Danton, que apesar das ameaças nada teve a ver com a sentença final dos girondinos, subiria poucos meses mais tarde ao cadafalso, cumprindo os seus vaticínios. Menos de quatro meses depois seria a vez de Robespierre.

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