13 novembro 2008

"Continua, pá, que estavas a fazer bem!"


As maneiras como a cultura portuguesa mata a discussão de ideias são variadas e, às vezes, subtis. Na minha visão laboratorial da blogosfera, observei nos últimos dias aqui no Portugal Contemporâneo o desenrolar de uma experiência espontânea que eu julgo valer a pena percorrer no sentido de lhe extrair um fio condutor e assentar algumas conclusões.

Tudo começou no Sábado quando, a propósito da manifestação dos professores, o Ricardo levantou o tema da avaliação dos docentes do ensino secundário. O post era provocatório e até ofensivo. Na discussão que se seguiu era clara a impossibilidade de gerar consensos acerca da avaliação, menos ainda acerca de algum modelo de avaliação. Nessa altura, o Ricardo possuía ainda a energia e o entusiasmo suficiente para prosseguir, e elaborou um novo post em que, pedindo desculpa pela ofensa anterior, explicitamente formulou uma proposta de avaliação dos professores. Os comentários, esses, permaneceram, na sua generalidade, críticos - o que, em Portugal, significa, destrutivos -, humorísticos, desfocados ou simplesmente disparatados. Passado algum tempo, o Ricardo, exausto, desistiu, concluindo pela inutilidade e pela futilidade do debate.

Foi no momento em que o Ricardo se declarou nas cordas, vencido pelo cansaço e pela frustração que imediatamente apareceram dois comentadores a dar-lhe a mão, umas palmadas nas costas, e uma palavra implícita de encorajamento: "Continua, pá, que estavas a fazer bem!". O encorajamento à discussão das ideias apareceu somente no momento em que o autor, vencido pelo desgaste, já não tinha vontade de discutir coisa nenhuma.

(Nota: Parte II da experiência no próximo post)

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