(Continuação daqui)
29. O assassínio de carácter
O processo de aterrorização do Arlindo Marques perpetrado pela sociedade de advogados Cuatrecasas através do processo judicial desenvolvia-se ao longo de duas vertentes, uma de natureza económico-financeira, outra de natureza psicológica.
A vertente económico-financeira possuía duas componentes. Uma eram os custos em que o Arlindo Marques teria de incorrer para se defender do processo, o qual - sobretudo havendo recursos, como é normal - poderia prolongar-se por vários anos. Outra era a incerteza em que passaria a viver durante todos esses anos de vir a ter de pagar a indemnização de 250 mil euros que a Cuatrecasas, em nome da Celtejo, lhe reclamava, e que lhe arruinaria a vida.
A vertente psicológica também possuía duas componentes. A primeira era a humilhação pública de o fazer sentar no banco dos réus. A outra era uma estratégia de destruição psicológica conhecida vulgarmente por "assassínio de carácter". É desta que tratarei agora.
Quem lesse a queixa contra o Arlindo Marques concentrando-se nos traços que iam sendo pintados sobre o seu carácter ao longo de todo o texto, e no final se perguntasse "Que tipo de homem é este?", a conclusão a que iria chegar acerca da pessoa e do carácter do Arlindo Marques era a de um louco sem cura ou a de um irreformável maníaco.
Aquilo que saltava à vista imediatamente era que o Arlindo Marques era um mentiroso. Mas não um mentiroso qualquer. Ele era um mentiroso compulsivo que mentia sem remorso uma vez, outra e ainda mais outra sem nunca parar.
Poderia pensar-se que o Arlindo Marques era um daqueles mentirosos compulsivos cujas mentiras não faziam mossa a ninguém, como aquele mentiroso que diz a um amigo que ontem esteve em Cacilhas quando, na realidade, esteve no Barreiro. Mas não. Ele era um mentiroso maldoso que mentia com a intenção deliberada de causar mal aos outros.
O Arlindo Marques era também um homem solitário e um cruzado obsessivo, uma espécie de D. Quixote sem Sancho, que um dia, a partir do Entroncamento, onde residia, decidira mudar o mundo e sair à espadeirada contra uma empresa de celulose usando como arma simplesmente um rio.Quando abria a boca era sempre sem fundamento e para dizer aquilo que lhe vinha à cabeça, e parecia sentir-se bem neste papel de herói de adolescentes e inspirador de movimentos sociais radicais.
Era um vaidoso irreformável que mentia com o propósito adicional de aparecer nas televisões e nos jornais para que os vizinhos, ao passarem por ele na rua, a caminho do trabalho, lhe pudessem dizer "Oh Arlindo, ontem vimos-te na televisão...", um sinal da importância social que a si próprio se atribuía e sem a qual não conseguia viver.
Nada disto teria importância se o Arlindo Marques não fosse um agitador de massas e um perigo público iminente que fazia mover a comunicação social e estremecer o Parlamento. Por causa dos seus delírios, não têm conta as empresas que já tinham ido à falência e aquelas que estavam para ir. Para não falar nos milhares de pessoas que as suas alucinações já tinham levado ao desemprego e à miséria.
Que credibilidade poderia merecer um homem assim?
Eu fui tratado da mesma maneira na queixa-crime que a Cuatrecasas apresentou contra mim e nas primeiras sessões do julgamento, um loner que um dia decidiu contratar duas construtoras e entrar pelos terrenos do Hospital de São João para fazer a uma ala pediátrica sem pedir licença a ninguém.
Mas, já nos meses que antecederam o julgamento, a Cuatrecasas plantava notícias nos jornais para me denegrir e preparar o ambiente para o julgamento. Aconteceu assim com um artigo de página inteira do Público, em 22 de Outubro de 2016, da autoria da jornalista Margarida Gomes, com chamada de primeira página, que titulava “Joãozinho tenta fazer negócio com terrenos do Estado” em que eu era apresentado, literalmente, como um traficante de terrenos públicos.
Antes de sumariar o artigo, convém descrever a realidade. O Hospital de S. João tinha cedido pelo Protocolo que viria a estar na origem do processo judicial, uma parcela de terreno para que a Associação Joãozinho aí construísse a nova ala pediátrica através de um contrato firmado com o consórcio de construtoras Lúcios-Somague.
Meses depois, foi negociado entre a administração do HSJ, a administração do Continente e a direcção da Associação Joãozinho a cedência de uma outra parcela de terreno que permitiria ao Continente aí instalar um pequeno supermercado no formato “Continente Bom Dia” em troca de um pagamento anual destinado a contribuir para a obra da ala pediátrica.
Esta negociação - que envolveu a administração do HSJ e era semelhante a outras já existentes envolvendo terrenos do HSJ e instituições mecenáticas, como a Fundação Ronald MacDonald -, levaria o Continente a pagar cerca de metade do valor da obra (o contrato descontado na banca renderia cerca de 11 milhões de euros).
Esta era a realidade. E o que sugeria o artigo do Público? Sugeria que eu tinha pegado na primeira parcela de terreno que me foi cedida pelo HSJ para construir a ala pediátrica e a tinha ido negociar com o Continente para aí instalar um supermercado!
Se aquilo que o artigo dizia fosse verdade, eu ficava com um grande dilema por resolver, que era o de decidir como colocar um hospital pediátrico e um supermercado na mesma parcela de terreno, se o hospital por cima do supermercado ou o supermercado por cima do hospital. Eu talvez preferisse o hospital por cima do supermercado (a miudagem gosta de vistas altas).
O artigo citava anonimamente “um especialista em contratos públicos e Professor de Direito Administrativo” (na realidade, um mero Assistente). Tratava-se do advogado Vasco Moura Ramos da Cuatrecasas, um dos advogados que, meses antes, tinha subscrito a queixa-crime contra mim. E quanto à sociedade de advogados que era mencionada no artigo, sem nunca precisar o seu nome, e que dava suporte á ideia de que eu era um traficante de terrenos públicos, nem vale a pena tentar adivinhar o seu nome.
(Continua acolá)

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