(Continuação daqui)
24. Uma cultura de aristocratas falidos
À data da independência dos EUA (1776) o catolicismo estava proibido no Reino Unido e, portanto, também na sua colónia americana. Entre os pais fundadores americanos existia apenas um católico - naturalmente, um aristocrata (Charles Carroll of Carrollton) porque a cultura católica é uma cultura de aristocratas (hoje em dia bastante falidos, como se vê pelo Muro da Vergonha).
Nos anos que se seguiram à revolução americana, praticamente todas as colónias europeias nas Américas conquistaram a sua independência, como a Argentina, o México, o Brasil, o Uruguai, a Venezuela. Na sua maior parte, a independência ocorreu sob a inspiração de um revolucionário, nascido em Caracas, mas de origem galega que, naturalmente, era um aristocrata católico (Simón Bolívar) porque - não é de mais insistir -, a cultura católica é uma cultura de aristocratas (hoje em dia, bastante falidos, diga-se em abono da verdade, olhando para o Muro da Vergonha).
Ao contrário das colónias inglesas da América do Norte - EUA e Canadá (este, um caso singular, que nunca se tornou independente e que ainda hoje é um Domínio britânico cujo chefe de Estado é o Rei Carlos III) -, as colónias espanholas e portuguesas da América Latina foram cristianizadas por padres católicos, na sua maioria missionários jesuítas.
A revolta protestante do século XVI teve origem na Prússia sob a influência de Lutero. Da Prússia sairiam mais tarde, sob a influência da cultura protestante, os principais inspiradores do socialismo (v.g. Kant, chamado o filósofo do protestantismo) e os seus teorizadores, seja na versão extrema de comunismo (v.g., Karl Marx), seja na versão mais moderada da social-democracia ou socialismo democrático (v.g., August Bebel, Ferdinand Lassalle). O próprio Estado-Providência que caracteriza o socialismo moderno foi criado na Prússia por Bismarck, um anti-católico convicto que, depois de proibir a Igreja Católica (kulturkampf), pôs o Estado a desempenhar as funções que antes eram desempenhadas pela Igreja (v.g., educação, saúde, assistência aos pobres).
Para responder à ofensiva luterana a Igreja Católica criou a Companhia de Jesus. A educação dos jesuítas obedecia a um princípio muito curioso, a saber, que para melhor combater os luteranos, a primeira coisa a fazer era tornarem-se iguais a eles. Kant e Dostoievski, por exemplo, são talvez os dois autores mais reverenciados por luteranos e jesuítas.
Desde o seu início, os jesuítas são os luteranos dentro da Igreja Católica que só diferem dos luteranos genuínos pela sua promessa (nem sempre cumprida) de obediência ao Papa. Politicamente, eles são também os intérpretes católicos da cultura luterana, que se exprime no socialismo nas suas diferentes variantes, desde o comunismo à social-democracia. Naturalmente, tudo isto com o toque aristocrático que é próprio do catolicismo, uma certa arrogância elitista face ao clero tradicional, e que é claramente expressa pelo Papa Francisco (cf. aqui).
Para exprimir a cultura socialista que os jesuítas deixaram na América Latina, talvez valha a pena citar Paul Lafargue, genro de Karl Marx, que foi um dos primeiros divulgadores do marxismo. Convém dizer que Lafargue não nasceu na cultura luterana, que possui uma forte ética do trabalho, a famosa ética protestante. Ele nasceu na cultura católica da América Latina (Cuba, 1842) e, talvez por isso, o seu livro mais conhecido tem o título sugestivo de "O Elogio da Preguiça".
Mas sobre os jesuítas e o socialismo, Lafargue tem uma opinião interessante e bastante credível, sendo genro de quem era e divulgador de quem era. Segundo ele, as chamadas Reduções que os jesuítas fundaram no Uruguai constituem o primeiro Estado socialista da história da humanidade (cf. aqui). Quer dizer, antes do sogro já havia comunistas no mundo - eram os jesuítas.
É esta herança jesuítica que permite compreender por que existe hoje o Muro da Vergonha.
(Continua acolá)

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