1755 — 2026
Depois da Catástrofe, o Terror
A vida do povo português entre 1755 e 2026
A história oficial conta reis, ministros, tratados e datas. Em baixo, nas aldeias, nas ilhas de Lisboa, nas lezírias e nas fábricas, o que se viveu foi outra coisa: fome, medo, emigração forçada, casas sem água, filhos que partiam e não voltavam. Esta lista não pretende ser completa. Pretende lembrar o que a cronologia costuma aflorar.
O Terramoto e o Terror Pombalino (1755–1777)
Na manhã de Todos-os-Santos, Lisboa tremeu, ardeu e foi invadida pelo mar. Dezenas de milhares morreram debaixo das igrejas onde ouviam missa. Os sobreviventes ficaram sem teto, sem pão e sem os mortos que não davam para enterrar. A reconstrução da Baixa veio depois; primeiro veio a ordem implacável de Carvalho e Melo. Enforcamentos públicos, o processo dos Távoras, a expulsão dos jesuítas, a censura e a polícia política anteciparam o Estado moderno à custa do medo. Voltaire resumiu o que o povo sentiu: depois da catástrofe veio o terror. Quem ficou de pé reconstruiu a cidade com as mãos, enquanto o poder usava o desastre para concentrar autoridade.
Lisboa, 1 de novembro de 1755: tremor, fogo e mar. Gravura de época.
As Invasões Francesas e a Terra Queimada (1807–1811)
A corte fugiu para o Brasil. Quem ficou enfrentou três invasões. A terceira, a de Masséna, foi a mais cruel para os civis. Por ordem dos aliados ingleses, aldeias inteiras tiveram de queimar searas, moinhos e casas para não alimentar o inimigo. Depois chegou o exército francês esfomeado: saques, violações, torturas a camponeses para revelarem esconderijos de milho. Só na diocese de Coimbra estimam-se milhares de assassinatos e dezenas de milhares de mortos por epidemia. Nunca mais a população portuguesa sofreu tanto num período tão curto. Campos desertos, famílias na serra, Misericórdias a enterrar gente sem nome.
A Guerra Civil dos Dois Irmãos (1828–1834)
Depois das invasões, o país partiu-se entre miguelistas e liberais. No campo, o povo pobre apoiou muitas vezes D. Miguel: a Igreja, a rotina, o medo da novidade. Nas cidades, a burguesia e parte do operariado apostaram na Carta. O resultado para quem não tinha partido foi o mesmo de sempre: recrutamento forçado, aldeias saqueadas pelos dois lados, conventos incendiados, cólera a matar mais do que as balas. Quando a guerra acabou em Évora Monte, os mosteiros tinham sido confiscados e muita terra mudara de dono — mas o jornaleiro continuava a trabalhar de sol a sol por um salário que mal dava para o pão.
O Ultimato Inglês e a Agonia da Monarquia (1890–1910)
A humilhação de 1890 — Londres a obrigar Portugal a recuar em África — não se sentiu só nos palácios. Sentiu-se nas falências, no desemprego, na carestia e no ódio que encheu as ruas. A crise financeira mundial chegou a um país já endividado e dependente das remessas dos que tinham emigrado para o Brasil. Operários viram o salário comer-se pela inflação; pequenos comerciantes afogaram-se em impostos. A monarquia parecia incapaz de defender sequer a honra nacional. O Partido Republicano cresceu exatamente nesse ressentimento popular, prometendo o que depois não conseguiu cumprir.
A República Instável, a Guerra e a Gripe (1910–1926)
Caiu a monarquia. Em dezasseis anos houve dezenas de governos. Para o povo, a República trouxe leis de trabalho que os patrões não aplicavam, laicização que feriu o campo católico, e sobretudo fome. A Grande Guerra fechou portos, disparou preços e mandou milhares para Flandres. Em 1917 o povo assaltava padarias. Em 1918–19 a gripe pneumónica matou dezenas de milhares — num país onde a esperança de vida andava pelos 40 anos e a maior parte da população era analfabeta. O custo de vida multiplicou-se por trinta entre 1914 e 1925. Quem tinha salário fixo empobreceu; quem especulava no mercado negro enriqueceu. A «Noite Sangrenta» e o 28 de Maio de 1926 chegaram a um país exausto de instabilidade.
A Ditadura, a «Pobreza Honrada» e a Emigração (1926–1974)
Salazar vendeu estabilidade e contas certas. Para milhões, isso significou salários baixos, analfabetismo persistente, casas sem água nem sanitários, e o lema «ser pobre, mas honrado». Em 1960 Portugal tinha a menor renda per capita da Europa Ocidental e uma das piores mortalidades infantis. A válvula de escape foi a emigração: só entre 1957 e 1974 saíram cerca de milhão e meio de pessoas, muitos a saltar a fronteira de noite para França. As remessas sustentavam aldeias inteiras; os que ficavam envelheciam sozinhos. A PIDE vigiava, a censura tapava a miséria, e o Estado Novo tratava a pobreza como virtude nacional.
A Guerra Colonial Dentro de Casa (1961–1974)
Enquanto o regime falava de «províncias ultramarinas», um em cada quatro jovens em idade militar ia para Angola, Guiné ou Moçambique. O serviço durava anos. Mães e namoradas recebiam telegramas. Os que voltavam traziam feridas, silêncio ou ódio ao regime. Os que não voltavam deixavam famílias sem pai e sem pensão digna. A guerra comia o Orçamento que faltava às escolas e aos hospitais. Foi o ressentimento dessa «bucha de canhão» — e não só o ideal democrático — que fez os capitães virarem as armas em Abril.
O 25 de Abril e o PREC: Esperança e Convulsão (1974–1976)
Pela primeira vez em décadas, o povo saiu à rua sem medo. Ocuparam-se casas, terras no Alentejo, fábricas. Salários rurais subiram, o emprego agrícola foi garantido por uns meses, os analfabetos viram escolas abrir. Mas o PREC também foi medo: nacionalizações em cadeia, fuga de capitais e de técnicos, confrontos no Norte, bombas, o Verão Quente, meio milhão de retornados a chegar de África sem casa nem emprego. A reforma agrária deu terra a quem a trabalhava e depois começou a ser desfeita. A democracia nasceu no meio do caos, não no lugar dele.
Os Resgates do FMI e a Austeridade Recorrente (1977–1985 e 2011–2014)
A democracia herdou um país pobre, descolonizado de um dia para o outro e com contas rotas. O FMI veio em 1977–78 e outra vez em 1983. Cortes, desvalorização do escudo, desemprego. Em 2011 a Troika repetiu o ritual com o euro: salários e pensões cortados, IRS a subir, SNS e escolas a apertar, desemprego a 17,7%, desemprego jovem acima dos 40%. Centenas de milhares voltaram a emigrar — desta vez licenciados. A austeridade não foi um acidente: foi o preço repetido de um Estado que gasta mais do que produz e de uma economia que cresce pouco.
A Adesão à Europa e o País que Melhorou sem Chegar (1986–2008)
A CEE trouxe estradas, saneamento, fundos, turismo e uma classe média que os avós não tinham conhecido. A mortalidade infantil desabou, a esperança de vida passou dos 80, o analfabetismo quase desapareceu, as barracas diminuíram. Isso é verdade e importa. Mas o crescimento dos anos 90 assente em crédito e construção deixou o país endividado, pouco produtivo e com salários europeus de segunda. Quando a crise de 2008 chegou, descobriu-se que a convergência tinha sido mais frágil do que as autoestradas sugeriam.
A Pandemia, a Habitação e o País que se Esvazia e se Enche (2020–2026)
A covid fechou quem vivia do dia a dia: restaurantes, comércio, trabalho precário. Depois veio a inflação, a explosão das rendas e o turismo a transformar centros históricos em quartos de hóspedes. Jovens portugueses continuam a sair; ao mesmo tempo o país recebeu uma vaga migratória sem precedente, que segura a agricultura, a construção e o SNS, mas pressiona bairros e salários baixos. Nascem metade dos bebés de 1974. Há mais idosos do que crianças. O país é materialmente mais rico do que em qualquer momento desde 1755 — e mesmo assim muitos sentem que o chão foge: casa inacessível, trabalho instável, filhos que só se veem por videochamada.
O fio que liga estes 271 anos não é só a desgraça. É a repetição de um padrão: a catástrofe (sismo, invasão, guerra, bancarrota, pandemia) chega; as elites negociam a reconstrução; o povo paga em fome, em medo ou em passagem de fronteira. Houve progresso real depois de 1974 e de 1986. Houve também a persistência de uma economia que exporta gente quando não consegue pagar-lhe para ficar. Essa é a história que as datas sozinhas não contam.
Sem comentários:
Enviar um comentário