A ideia de AGI — Artificial General Intelligence — é frequentemente apresentada como o próximo passo da inteligência artificial: uma máquina capaz de desempenhar qualquer tarefa cognitiva a nível humano. Uma inteligência geral, versátil, aplicável a qualquer domínio. Um canivete suíço in silico.
Mas esta formulação, bastante sugestiva, esconde uma fragilidade fundamental. Não é a inteligência que está mal definida. É a generalidade que se pretende alcançar que necessita de ser qualificada.
No texto anterior, vimos que a inteligência, ao longo da tradição filosófica, foi entendida como a capacidade de conhecer e agir no mundo. Uma forma de compreensão, no sentido forte do termo: interpretar, escolher, decidir. Não apenas computar/ calcular.
Ora, quando falamos de AGI, pressupomos que esta capacidade pode ser capturada numa função única, abstracta, transferível entre domínios. Como se a inteligência fosse uma ferramenta universal, aplicável indiferentemente a qualquer problema.
Mas esta imagem não resiste a uma análise mais aprofundada.
A inteligência humana não é um instrumento unitário. É um ecossistema. Um conjunto de processos interdependentes — percepção, memória, linguagem, intuição, julgamento — profundamente enraizados no corpo e na experiência. E, como mostrou António Damásio, as emoções e os sentimentos não são um ruído a eliminar, mas uma condição da própria racionalidade. Não decidimos apesar das emoções, mas através delas.
Isto levanta uma questão simples, mas decisiva.
Pode uma AGI decidir, por exemplo, se alguém deve casar? Ou ter filhos?
Não se trata aqui de capacidade de cálculo. Uma máquina pode, em princípio, integrar milhares de variáveis: idade, contexto económico, compatibilidade psicológica, probabilidades estatísticas de sucesso. Pode optimizar cenários, prever consequências, gerar recomendações.
Mas decidir não é optimizar.
Decidir implica:
– atribuir significado
– assumir risco
– incorporar valores
– aceitar consequências irreversíveis
E, sobretudo, implica estar situado no mundo — ter uma vida, um corpo, uma história.
Sem isto, o que chamamos “decisão” reduz-se a selecção entre opções segundo critérios definidos externamente. Não é escolha, é execução.
É aqui que a noção de AGI revela a sua fragilidade. Antes de perguntar se é possível construir uma inteligência geral artificial, seria necessário definir o que essa significa o G. Generalidade de quê? De tarefas? De domínios? De contextos? De compreensão?
Enquanto esta questão não for clarificada, AGI não é um conceito científico no sentido exigente do termo. É uma ideia, sustentada por analogias com a inteligência humana e que não foi devidamente examinada.
A ambição pode ser legítima, mas o conceito não tem fundações.
Talvez a inteligência artificial continue a expandir-se, integrando capacidades cada vez mais diversas. Talvez atinja níveis de desempenho impressionantes em múltiplos domínios. Mas isso não implica que se torne “geral” no sentido humano.
Se a inteligência humana é um ecossistema, a tentativa de a reduzir a um canivete suíço pode ser mais uma simplificação do que um avanço.
E talvez o verdadeiro desafio não seja construir uma AGI, mas compreender porque insistimos em imaginá-la.
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