01 maio 2024

O MONUMENTO

O MONUMENTO (1º capítulo de um livro que iniciei sobre o nascimento do homem-massa português)

 

1.

 

O soldado português não tem igual

Porque “o povo unido jamais será vencido”

E o exército é o povo de Portugal.

Nada no mundo que seja parecido!

(Anónimo 1974)

 

Na base do monumento que se desmoronou no Largo do Carmo, em Lisboa (1976), podia ler-se este singelo enaltecimento do povo português às suas forças armadas; uma quadra de autor anónimo que surgiu nos manjericos das festas populares de 1974.

 

O Largo do Carmo foi o epicentro do golpe de estado de 25/4/1974 porque foi lá, no aquartelamento da GNR, que se refugiou o então primeiro-ministro Marcelo Caetano, logo cercado pelo exército, comandado pelo excelso capitão Salgueiro Maia. A rendição do Marcelo Caetano selou então a vitória do pronunciamento do Movimento das Forças Armadas – MFA – e entregou o poder ao General Spínola e à Junta de Salvação Nacional.

 

Tinha terminado um regime político execrável que esmagou o povo português com punho de ferro, sob o lema: “Deus, Pátria e Família”. Um regime bolorento que perpetuou o colonialismo, amordaçou a liberdade e sufocou a cultura.

 

Salazar perdurou a miséria e o analfabetismo da população, em benefício das corporações, que exploravam todos os recursos e escravizavam os trabalhadores. Os intelectuais tinham emigrado e os que ficaram retinham (alegadamente) as suas obras na gaveta, com receio de ir parar ao Tarrafal.

 

Esta era, pelo menos, a narrativa oficial. O País, porém, durante os 41 anos do Salazarismo, cresceu a uma média anual de 5,7% e o analfabetismo foi energicamente combatido e minorado. Por fim, a repressão política era quase simbólica; no dia 25 de Abril restavam 88 presos políticos nas cadeias portuguesas.

 

As massas sentiam-se abafadas pela autoridade que as elites sobre elas exerciam. Os padres, os professores, os médicos, os gestores e os empresários, tinham em pouca conta as sensibilidades da populaça e até as ridicularizavam no cinema e no teatro de revista.

 

A cultura popular resumia-se aos três ff: Fado, Futebol e Fátima. E o regime explorava estas paixões para manter a população encabrestada e mansa.

 

O 25 de Abril, porém, veio pôr fim a este constrangimento salazarento, em menos de 1 semana, quando no dia 1.º de Maio de 1974 milhões de pessoas saíram à rua para celebrar a queda do regime.

 

O golpe de Estado “destapou uma panela de pressão” e libertou as massas, que aspiravam a derrubar as elites que as subjugavam. Sem o levantamento militar do 25 de Abril de 1974, teríamos tido uma verdadeira revolução, mais tarde ou mais cedo. Nesta perspetiva, o golpe susteve uma eclosão que não se adivinhava.



 

No 1º de Maio de 1974 a Junta de Salvação Nacional apresentou ao País os novos cabecilhas, que residiam no estrangeiro e que foram rapidamente transladados para Portugal, como se o golpe tivesse sido planeado ao detalhe numa estância Alpina de alto luxo. A missão destes novos chefes seria entregar as colónias à exploração das grandes multinacionais e diluir a nacionalidade portuguesa no “sonho Europeu”.

 

Tinha nascido o homem massa português, não de cópula passional, mas de sedição e de clonagem política – iríamos copiar o modelo político europeu e passar de colonizadores a colonizados em menos de um instante.

 

 

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