01 outubro 2014

batota

A principal instituição económica da cultura católica é a família. Pelo contrário, nas duas principais variantes da cultura protestante que tenho vindo a considerar - a socialista ou luterana e a liberal ou calvinista -, as principais instituições económicas são o Estado e o indivíduo desligado da comunidade, respectivamente.

Existe aqui uma diferença que começo por contrastar entre a cultura católica e a socialista, e que é a seguinte. Aquilo que o Estado faz é objecto de escrutínio público - quanto gasta e com quem gasta, quanto dá e a quem dá, e quanto recebe e de quem recebe. A cultura socialista ou luterana, porque assenta no Estado como instituição principal de afectação dos recursos, é uma cultura pública. Pelo contrário, o catolicismo, assentando na família para o mesmo fim, é uma cultura privada. Aquilo que se passa dentro da família é do conhecimento dos seus membros mas não do público em geral.

Por exemplo, um velho na Noruega vive, em regra, só. Recebe uma pensão do Estado e é o Estado que frequentemente lhe paga o alojamento, a alimentação, os cuidados de saúde e geriátricos - e tudo isto é informação pública e contabilizável no PIB. Em Portugal, o mais provável é que o velho viva no seio da família. Provavelmente, receberá uma pensão de reforma do Estado, mas menor do que o velho norueguês, porque a família dá-lhe o resto, na realidade o principal: alojamento, alimentação e cuidados geriátricos - mas agora tudo isto é informação privada que escapa ao escrutínio público e à contabilização no PIB.

Em média, o Estado norueguês gasta mais dinheiro com os velhos do que o Estado português - e isto é capturado pelas estatísticas. Em Portugal é a família que gasta, em média, mais recursos (dinheiro e outros) com os velhos do que a família norueguesa - mas nada disto é capturado pelas estatísticas.

Quem olhar só para as estatísticas vai concluir que os velhos são mais bem tratados na Noruega do que em Portugal. Puro erro. Aquilo que não é gasto pelo Estado em favor dos velhos em Portugal é gasto pelas famílias, que ainda por cima dão aos velhos um bem que o Estado nunca pode dar - amor, calor humano, o sentimento de pertença e de importância na comunidade que eles próprios contribuíram para criar.

Ainda na Noruega, apenas 7% das pessoas com idade inferior a 35 anos vivem com os pais. Em Portugal, a percentagem é de 50%. Considere-se as pessoas que constituem a diferença percentual de 43%. Na Noruega, essas pessoas estão no mercado de trabalho, auferem um rendimento e daí pagam as suas despesas de alimentação, habitação, etc. - e tudo isto constitui informação pública que é contabilizável no PIB.  Em Portugal, vivem em casa dos pais e não pagam habitação, frequentemente não pagam sequer alimentação,  e nalguns casos até recebem uma mesada dos pais - mas agora tudo isto é informação que não entra no PIB.

Será de admirar que o PIB per capita norueguês seja maior que o PIB per capita português, e que a Noruega seja considerado um país rico e Portugal um país comparativamente pobre? Não é de admirar. Mas a qualidade de vida dos jovens até aos 35 anos em Portugal é bem capaz de ser muito melhor do que a dos noruegueses, porque vivem em casa dos pais, com os cuidados, os carinhos e a comida da mãe, enquanto os noruegueses são atirados sós para o mundo a partir dos 18 anos, onde só dispõem da protecção do Estado.

A cultura socialista, assente no Estado, é uma cultura essencialmente pública, ao passo que a cultura católica, assente na família, é uma cultura essencialmente privada. A cultura liberal fica a meio-caminho entre estas duas - o indivíduo desligado da comunidade precisa de se relacionar com outros, designadamente para ganhar a vida (arranjar um emprego, formar uma empresa) e esta informação é pública.

Daí que os países sociais-democratas e luteranos do norte da Europa apareçam sempre como os campeões de tudo o que são estatísticas do rendimento e do bem-estar, com os países católicos a fazerem invariavelmente a figura dos coitadinhos - pobres e atrasados. E, não se dando conta do logro, não falta quem os queira imitar em Portugal (como o falecido Francisco Sá Carneiro, Mário Soares, o PS, o PSD e o CDS). (Em parte, conseguiram, o problema é que o Estado está falido, e  a família em parte destruída)

É preciso que se saiba de uma vez por todas que isto é falso. Existe batota nos dados estatísticos utilizados nas comparações, porque excluem (está sempre presente a característica dominante do protestantismo - a exclusão) aquilo que se passa na família, de longe a mais importante instituição económica da cultura católica.
 

12 comentários:

Neyhlup Josand disse...

"um velho na Noruega vive, em regra, só"

"Em Portugal, o mais provável é que o velho viva no seio da família."

O Pedro Arroja não conhece o país que tem mas pior ainda, não conhece a cidade onde mora.

Vá ali ao Bairro do Cerco, ao Bonfim, à zona oriental do Porto e Baixa, entre dentro das casas e diga-me a enorme família que as pessoas que lá vivem têm...

Depois faça uma coisa: vá a um dos milhentos Lares, especialmente aos das Misericórdias(dos legais são dos piorzinhos) e veja como eles estão lá contentes e felizes pela família bela que os colocou lá.

Abra os olhos homem, deixe lá essas fantasias!

Os filhos nem tempo têm de estar em casa e só quando desempregados é que cuidam dos pais, que aliás é a tendência actual nas mulheres na ordem dos 50 ou mais e que perderam o emprego. Visto por estes olhos e comprovado pela OCDE.

Naturalmente que lhe posso dar razão na tendência de valorização de indicadores, por parte dos países "estrangeiros" do Norte, que lhes faça transmitir uma imagem de superioridade cultural, no entanto Portugal não é esse romance que para aí está a transmitir, pelo menos nas duas maiores cidades portuguesas. Mesmo no interior, embora aí ainda haja uma rede de apoio dos vizinhos, isso da família é um conceito que fica separado por dezenas ou centenas de quilómetros.

Faça um estudo e compare a satisfação de clientes de lares por exemplo na Noruega ou em Portugal. Depois olhe com os seus próprios olhos e diga-me , caso nenhum dos seus filhos puder cuidar de si e não quiser morrer em casa, se preferia um Lar em Portugal ou na Noruega.

PS: É bom que tenha uma veia optimista mas ser em exagero retira-lhe credibilidade. Não confundir desejos com a realidade e essa é bem sombria para um velho que não seja independente, em Portugal.

zazie disse...

O Josand já disse tudo (para variar)

Rui Alves disse...

Ainda na Noruega, apenas 7% das pessoas com idade inferior a 35 anos vivem com os pais. Em Portugal, a percentagem é de 50%.

Dispenso valores do PIB. O abismo entre estas duas taxas diz logo qual dos países tem gente mais emancipada, produtiva e laboriosa.

E tal como o Josand, também proponho não perder de vista a realidade. Em Portugal sempre foi hábito os jovens permanecerem em casa dos pais até casarem. Mas ao contrário do que acontecia há uma ou duas gerações hoje muitos jovem casam lá depois dos 30 (quando o fazem), e também ao contrário de antigamente, pouco ou nada contribuem para o esforço económico familiar. Para agravar, uma parte significativa deles estão desempregados, em sub-emprego (basta ver as calamitosas taxas de desemprego jovem no Sul da Europa), ou em desemprego camuflado na forma de bolsas, formações, ou licenciaturas que se prolongam ad eternum. Portanto jovens dependentes dos pais, mesmo que muitos deles assim não queiram.

Acha mesmo que estes jovens no país de hoje, num cenário destes, produzem assim tanta riqueza oculta e informal que nos torne comparáveis a uma Noruega?

Ricciardi disse...

Na verdade, um dos motivos pelo qual os idosos vivem sozinhos ou em lares é o facto das familias serem cada vez de menos dimensão. Um casal não pode esperar que com apenas um filho, este venha a cuidar deles no futuro. è que um casal pode ter dois casais de idosos para cuidar: do lado do marido e da esposa.
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Qdo haviam mais filhos a coisa era repartida por vários e lá ia.
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Anyway, eu penso que o pessoal comentadeiro não percebeu. Cerca de 80% dos idosos vivem sozinhos ou com os filhos. Só 20% vivem em lares. Isto quer dizer que só 20% podem ser incluidos no PiB.
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Na Noruega parece que 55% dos idosos vive em lares onde é contabilizada a renda (que normalmente é o valor da pensão) e consequentemente registo estatistico no PiB.
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Se em Portugal se contabilizasse a diferença - dos 20% para os 55% da noruega, isto é mais 730 mil idosos em lares - o PiB subiria bastante.
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Se cada idoso ganha em média uma pensão de 700 euros e os entregasse a um lar o PiB cresceria cerca de, xacaver, mais de 8 mil milhoes de euros.
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Portanto, o PA tem razão. O nosso PiB potencial relativamente à Noruega (no que a lares e idosos diz respeito)é superior naquele valor... e todos os indicadores de despesa do estdo em função do PiB baixariam bastante.
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Rb

Ricciardi disse...

A ordem natural das coisas é os filhos desapararem a loja e os velhos regressem à casa dos filhos.
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A coisa anda, pois, de patas para o ar. Os filhos não desamparam a loja, nem os velhos regressam à casa dos filhos para serem cuidados e protegidos.
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Os filhos não desamparam porque a remuneração do trabalho que têm (aqueles que têm) não paga um semana de renda de uma casa.
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Os velhos não regressam a casa dos filhos por que não há Tempo.
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1ºCom massa e Sem tempo, os velhos vão para os lares, como na Noruega.
2ºSem Massa e Com tempo, é possivel, mas com esforço, receber os mais velhos e cuidar deles.
3º Sem massa e Sem tempo é missão impossivel.
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É na 3º situação que Portugal está. As familias Sem Massa e Sem Tempo e ainda levam com os filhos até mais tarde.
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Resolver isto pressupõe alteração radical na forma como a familia opera no mundo laboral. Os governos deviam dar o impulso, porque sem ele a coisa é para piorar.
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Rb

Anónimo disse...


"Existe batota nos dados estatísticos..." - PA

"Será que eles (Smith e David Hume eram homossexuais?...eu atribuía uma probabilidade de 75 a 80% a que a minha tese fosse verdadeira" - PA


É simples: a estatística, quando usada por luteranos ou calvinistas, é batota. Apenas é verdadeira se for utilizada por um católico.

Não sei o que pensam os outros comentadores, mas agradeço que o PA seja um pouco mais consequente na lógica dos seus argumentos.
(Por respeito e delicadeza nem sequer discuto a má-fé argumentativa subjacente).

Apenas uma observação:
"teses" com argumentos ad hominem não têm tido grande adesão nos breves comentários que por aqui vejo.
Os católicos podem ser estúpidos... but not that stupid.

D. Costa






Anónimo disse...

Caro D. Costa,

Como se trata de você vou responder:

1) Não existe qualquer consideração de preciativa da minha parte acerca da homossexualidade do Adam Smith. O meu interesse nesta matéria está explicado no texto, e tem a ver com a sua teoria moral.
2) Eu não escrevo para a populaça aprovar ou não aprovar. Se alguma coisa, quanto mais a populaça reprova mais eu fico convicto de estar certo.
Cumps.
PA

zazie disse...

A panca da igualdade chega ao ponto de nem perceberem que as características psicológicas e forma de vida se alteram.

zazie disse...

Ainda para mais naquele tempo onde não havia casório e choco gay.

Zwei disse...

«Ainda na Noruega, apenas 7% das pessoas com idade inferior a 35 anos vivem com os pais.»

Não será "idade superior"?

Zwei disse...

Não é "casorio gay", é cusamento.

Euro2cent disse...

Ora aqui está um desenvolvimento interessante da conversa que tivemos acerca de "indicadores" há tempos.

Note-se que falta ainda provar que mais dinheiro e alfabetização sejam uma medida de superioridade moral. Por exemplo, os espartanos eram deliberadamente pobres e não particularmente literatos.

Se calhar o camarada Frederico poderia parar de roer o lençol uns momentos para resmorder algo acerca de "will to power", ou lá como se cospe isso em alemão. (Confundo sempre Wille zur Macht
com Drang nach Osten, em qualquer dos casos dá mau resultado.)