05 outubro 2013

Ninguém


Meu caro Carlos Guimarães Pinto,

Muito obrigado pelo seu post.

Ele permite-me finalmente articular um argumento que eu ando à procura de encontrar a melhor forma de apresentar desde há cerca de duas semanas. Foi quando escrevi um post a dizer que o protestantismo desancorou a razão do amor para a ancorar no interesse próprio, no caso do protestantismo liberal (ou anglo-saxónico ou calvinista).

Suponho que já suspeitou que os meus dois posts anteriores visavam servir de preparação para este.

Gostaria, em primeiro lugar, de lhe perguntar, se considera irracional o argumento que apresentei no post anterior, segundo o qual eu sou contra o divórcio pelo amor aos meus netos que, nessa circunstância, eu ponho acima do amor que tenho aos meus próprios filhos e noras.

Se considera racional o meu argumento (eu considero), temos então aqui um verdadeiro conundrum: dois homens, eu e você, ambos argumentando de forma racional, chegam a conclusões diametralmente opostas, eu a  favor da dificultação do divórcio, você a favor da sua liberalização.

Onde é que está a raiz da nossa divergência?

É na idade.

Eu não o conheço pessoalmente, mas imagino-o um jovem adulto com cerca de 35 anos, possivelmente já pai, mas com certeza não avô, inteligente, educado, e um homem honestamente à procura da verdade.

Eu, como deve saber porque eu o tenho dito,  vou fazer 60 anos, pai de dois homens e de duas mulheres, avô de três netos.

Quando eu tinha a sua idade, a ideia que eu fazia do que era ser avô era uma ideia muito difusa e extraordinariamente incompleta, nalguns casos errada. Suponho que a ideia que você tem do que é ser avô não difira muito daquela que eu possuía quando tinha a sua idade.

Mas agora eu sou avô. Ser avô para mim não é mais uma mera ideia. É uma realidade.

E sabe que só recentemente eu descobri, porque só há pouco mais de quatro anos fui avô, que a principal função do avô é proteger a sua família e, em particular, os mais desprotegidos da sua família? É isso que me levará um dia, em caso de divórcio na minha família, a voltar-me contra os meus próprios filhos e filhas (e noras e genros) e em defesa dos meus netos.

A minha razão está ancorada no amor, aos meus netos em primeiro lugar, e só em segundo lugar aos meus filhos e filhas, noras e genros.

A  sua não. A sua razão está desancorada do amor aos seus netos pelo facto de você ainda não ser avô de crianças concretas como eu sou, e para si avô e netos serem meras abstracções. Por isso, a sua razão esquece os netos e fica desancorada do amor (quem é que pode ter amor a meras abstracções?). A minha não, está ancorada no amor - e que amor, só lhe digo, ainda por cima retribuído -  a crianças concretas, a F., o T. e a C. e pelas quais, e por cada uma delas, eu estaria disposto a dar a minha própria vida. Acredite porque é verdade. A dar a minha própria vida.

Abstraindo os netos, desancorando a razão do amor, a sua razão concentra-se nos pais, e no mal dos pais   - o mal que resulta para cada um dos pais de viverem um casamento onde, por qualquer motivo ou motivos, já não gostam um do outro. (Voltarei a este tema de a sua razão, que é a razão protestante,  não apenas abstrair do amor, mas também se concentrar no mal).

E dando-se os pais mal, a solução mais óbvia para remover esse mal, e no interesse próprio de cada um dos pais,  é o divórcio.

Chegamos ao ponto final e decisivo. Qual é a verdadeira razão, a minha que está ancorada no amor, ou a sua que está ancorada no interesse próprio?

Já imaginou o que teria sido feito de si se a razão da sua mãe (e de muitas outras pessoas que contribuíram para fazer de si o que você é hoje) estivesse ancorada no seu respectivo interesse próprio e não no amor que tinha por si? Você não estaria cá a esta hora. Nem eu. Nem os meus filhos e filhas, noras e genros. E certamente que não os meus netos. Ninguém.

Meu caro CGP, o divórcio tem o seu lugar na vida de uma comunidade, mas tem de ser dificultado, não pode ser facilitado.



23 comentários:

Vivendi disse...

O objetivo do casamento é lutar e sobreviver ao instante em que a incompatibilidade mostra-se incontestável. Pois um homem e uma mulher, como tais, são incompatíveis."

- Chesterton

João Pereira da Silva disse...

"Q: What about the human instinct to breed?

Humans, like all creatures, have urges which lead to reproduction. Our biological urge is to have sex, not to make babies. Our “instinct to breed” is the same as a squirrel’s instinct to plant trees: the urge is to store food, trees are a natural result. If sex is an urge to procreate, then hunger’s an urge to defecate.

Culturally-induced desires can be so strong that they seem to be biological, but no evolutionary mechanism for an instinct to breed exists. Why do we stop breeding after we’ve had as many as we want? If the instinct is to reproduce, how are so many of us able to over ride it? There are too many who have never felt that urge: mutations don’t occur in this high a percentage of a population.

Looking to our evolutionary roots, imagine Homo erectus feeling the urge to create a new human. He then has to understand that a cavewoman is needed, sexual intercourse must be engaged in, and they will have to wait nine months.
Considering how often our species has the urge for sex, it’s likely human sexuality serves primarily a pair-bonding function rather than procreative. Human infants are vulnerable for so long that their survival, in prehistoric times, may have depended on a strong pair bond between parents. Bonobos, perhaps our closest biological relative, are reported to engage in sex for social reasons more than for reproductive reasons."

Daqui:http://www.vhemt.org/biobreed.htm

O casamento monogâmico, estável e dedicado ao desenvolvimento futuros dos filhos é uma nossa criação cultural que procura ajudar à manutenção e sucesso da espécie em particular da nossa civilização ocidental. O emparelhamento ou "mating" é de origem puramente animal, sexual e dominado por razões físico-químicas. A "escolha" do marido ou mulher é determinada (nos casamentos por amor, regra da nossa sociedade) por razões que não são da razão. Os filhos são uma consequência dessa escolha irracional e não são comummente entendidos como o centro de manutenção da escolha e resistência às dificuldades quando estas se agravam. Talvez por isto o casamento arranjado seja mais estável. A decisão racional imperou sobre a dos sentidos.

O avõ, na gestão do clã, está liberto do império dos sentidos e o instinto de preservação da linhagem impera sobre as dificuldades de equilíbrio no casal. Claro na posição de Pedro Arroja.

E, no geral dos casamentos, o primeiro comentário citando Chesterton, parece-me estar muito próximo da realidade.

Mas enfim, não será um dos objectivos da cultura humana, a superação das imperfeições biológicas?

Anónimo disse...

A experiencia individual do avô PA nao é necessariamente útil à experiencia de outros avos por esse mundo fora.
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O que me parece importante, no q à felicidade dos filhos e netos diz respeito, é eles sentirem-se bem e felizes na sua familia.
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Se os pais se dao mal, por qualquer motivo, e se o avô PA constacta a infelicidade do neto por causa disso, nao vejo como pode em nome do amor q lhe tem dificultar o divorcio dos pais.
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O divircio nao pode deixar de ser uma opcao estrictamente individual, apenas circunstanciada aos interesses das crias no momentum a toma-la.
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Rb

Anónimo disse...

O que caberia ao avô PA seria usar a experiencia de vida q terá para aconselhar os pais dos seus netos a nao tomar decisoes importantes para a vida de todos de forma leviana.
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Muitas vezzes o divorcio faz-se com a mesma ligeireza com q se fazem abortos. Pensasse no curto prazo e com a cabeça a quente por causa dos problemas do momento. E aqui sim, a palavra do avô pode ser importante para fazer perceber aos filhos q um relacionamento tem altos e baixos.
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Ora, isto nada tem a ver com dificultar o divorcio. É a razao da experiencia que abre os olhinhos ao casal, eventualmente.
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Rb

Anónimo disse...

Mas já agora, dizer que me parece que o raciocinio do PA segue uma lógica deformada pelas habilitacoes academica concretas q tem. Quer dizer, vc extrapola dados como fazem os economistas para assuntos de natureza humana.
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Refiro-me à questao das diferencas de idades. Nao tem cabimento lógico dizer-se q um tipo com sessenta nao pode falar asuntos serios com um de 35, para justificar o facto de um tipo de 35 nao poder fazer o mesmo com uma crinaca de 4 anos.
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Nao tem nada a ver uma coisa com a outra. É que por essa lógica um tipo com 90 anos nao pode falar assuntos serios com outro de 75 anos.
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Está a ver? A maturidade nao tem a ver com a idade e nem sempre a experiencia de vida tem a ver com a idade. Se assim fosse nao eramos pessoas.
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Rb

zé manel disse...

PA começa a mostrar tiques de quem, para além de querer governar a sua família, quer governar a família dos outros

zazie disse...

Concordo com a última frase: o divórcio deve ser dificultado e não facilitado.

Acho que o problema é esse. Há quem defenda que deve ser facilitado por dá cá aquela palha.

Quanto ao amor.. bem, as pessoas divorciam-se porque deixam de se respeitar.

Penso que o maior problema é esse- falta de respeito e uma ideia geral de leviandade- tudo pode ser começado de novo.

zazie disse...

O morgadinho diz aí uma coisa que não faz sentido. É um bordão muito usado em que nem se pensa:

"se os seus pais se dão mal por qualquer motivo"

Mas quem casou não se dá mal por qualquer motivo. Se desse nem se teria casado.

Ele emenda isto no post a seguir onde fala em conselhos por decisões levianas.

Claro que a questão é essa.

Ricciardi disse...

Pois, mas olha, eu acho q dificultar só pode ter a ver com questoes do foro material, no sentido de criar leis onde a comunidade assenta certos principios. Mas em questoes de ordem sentimental ninguem pode dificultar o divorcios.
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Quer dizer, os casais divorciam-se com papel passado ou sem ele. Se o papel for dificultado as pessoas separam-se na mesma.
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Se a opcao de juntar os trapos é livre e pessoal, a opcao de desjuntar tambem deve ser opcao individual.
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Nada disso obsta ao papel da familia ou do avô no conselho q pode e deve dar.
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É engracado em termos religiosos. Moises liderou os judeus por uns 40 anos. E criou regras e Leis. Uma delas era q o homem podia apresentar carta de divorcio em certas e muito determinadas situacoes. No caso de adulterio, por exemplo.
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Mas quando perguntaram a. Cristo o que Ele achava acerca do assunto Ele disse duas coisas:
- a primeira q nao vinha mudar as leis de Moises.
- a segunda que um casal é um só corpo e uma só carne unida por Deus, e nao separe o homem aquilo q Deus uniu.
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Ficou aqui um problema. Por um lado nao vem mudar a Lei mosaica, por outro lado diz q o homem nao pode separar o que Deus uniu.
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A Igreja interpretou isto como uma proibicao de divorcio. Mas, Apesar de tudo tambem na igreja é possivel o divorcio em certas circunstancias, permitindo q se separe aquilo q Deus terá unido.
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Para mim, o divorcio deve ser livre e regulado por leis por causa dos bens comunse interesses dos filhos.
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As questoes de consciencia é assunto da familia e dos casais e nao do vizinho.
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Rb

zazie disse...

Mas ninguém defendeu que o divórcio deve ser proibido.

O PA defende que não deve ser facilitado.
Não facilitar é isso que escreveste. Por lei e por conselhos.

zazie disse...

A lei dantes dificultava. Era preciso haver razões.

Agora qualquer um pode ir à conservatória e divorciar-se sem que o outro tenha que concordar com o que quer que seja.

Uma perfeita anormalidade.

zazie disse...

Olha aqui: fim da culpa

http://www.inverbis.pt/2007-2011/tribunais/divorcio-culpa-nova-lei.html

Ricciardi disse...

Não sei Zazie. Esse link diz que 70% dos divórcios são por mutuo acordo.
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E que a lei nova não fez aumentar o nº de divórcios.
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Genericamente eu acho boa a lei para aquelas 30% de pessoas que não se divorciam por mutuo acordo.
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Ela possibilita que apenas um deles possa requerer a separação em vez de estar naquela situação hibrida em que já nem moram juntos e um deles para meter nojo não dava o divorcio.
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Assim acaba-se de vez com essas situações nefastas para a normalidade de quem quer recomeçar outra vida.
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Rb

zazie disse...

Esta lei foi como mudar a lei das rendas de um dia para o outro.

Pedro Sá disse...

Eu continuo sem perceber por que razão é que o amor aos netos há-de ter prioridade sobre o amor aos filhos. Isso o que me parece à primeira vista é aquela lógica tão portuguesa e tão idiota de "as criancinhas sempre em primeiro lugar". Que depois tem as belas consequências que vemos, como o comportamento completamente selvagem e julgado impune de quem tem um carrinho de bebé nas mãos.

Luís Lavoura disse...

o divórcio tem o seu lugar na vida de uma comunidade, mas tem de ser dificultado, não pode ser facilitado

Esse é, precisamente, o ponto de vista do judaísmo. "Os céus e a terra choram quando uma mulher e um homem decidem separar-se", parece que diz o Talmude.

Lamentavelmente, o catolicismo não tem o mesmo ponto de vista tolerante e compassivo.

zazie disse...

O Pedro Sá foi atropelado por um carrinho de bebé

":OP

Pedro Sá disse...

Não. Mas para além de ver a perfeita selvajaria que referi tenho uns belos riscos no carro feitos por alguém a querer fazer passar à força um carrinho de bebé entre o meu carro e outro.

Luís Lavoura disse...

tenho uns belos riscos no carro feitos por alguém a querer fazer passar à força um carrinho de bebé entre o meu carro e outro

Tendo em conta a selvajaria com que boa parte dos automobilistas portugueses estaciona as suas viaturas, nomeadamente impedindo o passo a quem se desloca em cadeira de rodas ou com carrinhos de bebé, não tenho pena nenhuma sua.

Se os automobilistas estacionassem de forma civilizada, mão estacionando sobre passadeiras de peões, em cima dos passeios, nem nos cruzamentos de ruas, certamente que não teriam tantos problemas com riscos nas auas amadas viaturas.

Anónimo disse...

Muito bem.

Pedro Sá disse...

Eu estava regularmente estacionado. Curiosamente no estacionamento da entretanto tão famosa Praia da Coelha.

Luís Lavoura disse...

Pedro Sá,

você podia estar regularmente estacionado mas, no entanto, estarem ao lado, perto, outros carros mal estacionados, de tal forma que a pessoa com o carrinho de bebé não tinha por onde passar.

Eu já andei muito pela cidade com carrinhos de bebé e, pode crer, foi muito a contragosto que, muitas vezes, tive que passar com eles apertadinhos entre dois carros. Se o fiz, aliás por repetidas vezes, é porque não tinha facilmente alhures por onde passar. Ninguém passa com um carrinho de bebé apertadinho se tiver ao lado por onde passar à larga.

Pedro Sá disse...

Não era o caso. E se o LL se comporta decentemente, olhe à sua volta e verá. Ainda me falaram no outro dia em alguém atravessar temerariamente uma rua metendo o carro de bebé à frente tipo imposição sob pena de responsabilidade de qualquer carro..fora de uma passadeira é claro.