02 dezembro 2012

amor


É sabido que tenho grande admiração intelectual pelo Pedro Arroja, e que sigo, com enorme interesse, esta sua recente conversão ao cristianismo e ao catolicismo, iniciada há algum tempo, e que ele nos tem vindo a expor, quase diariamente, no Portugal Contemporâneo. Sentindo-me, por várias razões, em boa medida responsável por o Pedro ter iniciado este caminho, julgo que agora lhe poderei ser útil no seu aprofundamento, chamando-lhe a atenção para certas coisas em que ele não tem reparado. Espero, assim, que ele leve este post a essa conta.

Como já anteriormente aqui escrevi, o Pedro Arroja, antes de ser outra coisa qualquer, é hoje, como o foi no passado (no essencial, as pessoas não mudam...), um racionalista extremado, que aplica a sua considerável inteligência e as suas muitas capacidades intelectuais a descobrir «a verdade» nos assuntos que lhe interessam e aos quais ele se dedica com minúcia: no passado, o liberalismo, nos dias de hoje, o cristianismo e o catolicismo. A abordagem que faz agora do catolicismo é, como anteriormente fez com o liberalismo, inteiramente racional e, por consequência, totalitária, porque o Pedro explica toda a realidade com a sua interpretação da «verdade» católica, como no passado nos explicou a mesmíssima realidade pela «verdade» liberal, que hoje ele arruma, esta última, numa prateleira de coisas nefastas, genericamente designadas de «protestantes», logo, anti-católicas. Também como todos os racionalistas que descobrem a «verdade», o Pedro exclui e condena todas as outras «verdades» que não estão contidas na sua. Hoje, como no passado, o Pedro Arroja continua a ser um digno herdeiro do racionalismo das luzes, e, por isso mesmo, um discípulo acalorado do objectivismo (racionalista) de Ayn Rand: a «verdade» está aí, perante o nosso olhar, bastando-nos a razão humana para a descobrirmos. O que eu pretendo com o post de hoje é chamar-lhe a atenção para o cerne do que julgo ser a mensagem cristã, do qual ele se tem involuntariamente afastado, distraído como anda com a descoberta das suas muitas «verdades» que compõem a grande «Verdade» que lhe tem sido revelada pela inteligência da sua razão. Esse ponto essencial do cristianismo é o amor.

O «amor» é uma palavra de que o racionalismo foge, porque ultrapassa os limites da razão e que, por isso, não consegue objectivar, nem explicar. Mas o amor é o núcleo fundamental de todo o cristianismo e do catolicismo, porque, desde que Deus nos fez, por amor, à sua imagem e semelhança, até ao momento em que, por amor ao Homem, lhe deu o seu Filho, humanizando-o pelo sofrimento da morte, toda a mensagem cristã se subsume a um preceito fundamental: «o amor ao próximo», que Cristo estabelece como o «Seu mandamento», em Jo 15, 09-17: «Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena. Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei».

É este «amor ao próximo», verdadeiramente, o amor incondicional e indeterminado ao género humano, porque obra de Deus, e a cada um de todos os homens, porque seus filhos, que faz do cristianismo uma religião verdadeiramente universal e a que mais se aproximou da nossa humanidade, isto é, das nossas fraquezas e misérias. É dele que resultam os valores cristãos fundamentais que devem ditar o nosso comportamento para com o outro: a bondade, a tolerância, a piedade e o perdão. Valores que, sendo religiosos e, por isso mesmo, singulares, íntimos e intransmissíveis pela força, encontram a sua transposição para a cidade dos homens nos valores da liberdade individual (a única que poderá responder perante Deus), da igualdade entre os homens e deles face aos ditames da autoridade, e da tolerância pelas nossas imperfeições (à qual a Revolução Francesa chamou, no entusiasmo do romantismo da época, de «fraternidade»). Esses valores são, meu caro Pedro, nem mais nem menos do que os pilares essenciais da nossa civilização ocidental, reinterpretada pela sua refundação liberal moderna, da qual nós dizemos, não por acaso, que bebeu o que lhe é essencial na mensagem de Cristo.

Ora, sendo o Pedro um verdadeiro «homem das luzes», os textos que tem escrito sobre Deus, Cristo e a Igreja Católica são omissos sobre o amor. Dos últimos que li, aquele que andou mais próximo de o referir foi este, embora, nesse mesmo, o Pedro tenha fugido inconscientemente à Palavra: é que não é o «gosto de ti» que cimenta uma comunidade, mas o amor. O amor por um modo de vida comum e similar, pelas raízes, pela história, pelas tradições, pelos antepassados, pela família, pelo espaço e pela geografia, por aqueles com quem diariamente partilhamos a nossa vida, e pelos símbolos que representam tudo isso (na comunidade católica, pelo Papa, que não sendo somente um símbolo, é um símbolo também), uma bandeira, um acontecimento, um livro, uma data, uma pessoa. De sorte que, sabendo eu, por testemunho próprio e inequívoco, que o Pedro sabe bem o que o amor é, tendo disso dado mais do que provas suficientes, deixo-lhe aqui a sugestão de que deve procurar Deus mais pelo coração do que pela razão.

15 comentários:

Anónimo disse...

Rui,
Isto sim, isto é obra.
Vou-lhe responder mas, como habitualmente, à medida que as ideias (ou os amores) forem surgindo.
Mas você foi omisso. Esqueceu-se da F. Mas a F. é o quê? É o amor, o amor universal, incluindo o amor de um homem por uma mulher.
Abraços.
PA

simon disse...

Porque não é isto e aquilo... "mas o amor. O amor por um modo de vida comum e similar, pelas raízes, pela história, pelas tradições, pelos antepassados, pela família, pelo espaço e pela geografia, por aqueles com quem diariamente partilhamos a nossa vida, e pelos símbolos que representam tudo isso (na comunidade católica, pelo Papa, que não sendo somente um símbolo, é um símbolo também), uma bandeira, um acontecimento, um livro, uma data, uma pessoa."
E porém lá pensará Arroja, pois sim, como a mesma máfia, reforçada na maçonaria apregoa entre nós tudo isso, que, vai-se a ver serve perfeitamente aos negócios da fina flor político-financeira que se governa à nossa custa, por entre os amigos e boys que é que alevam bem, enquanto os pobres e trabalhadores estranhos à seita desde alguma jota se lixam, pior que gentios, ou lá vá perguntá-lo ao passos e o gaspar e portas, com o álvaro e os outros, cambada de enredados à banca de cá e de lá, bando de ladrões.
Ai, e fala-me você de Amor .

Luís Lopes Cardoso disse...

Talvez procurar tanto com o coração como com a razão...

fec disse...

o melhor post do rui a. que alguma vez li

e, pelas respostas do PA que já li nos posts que o PA escreveu, podem tirar-se duas ilacções:

1) que o caminho que o PA tem de percorrer no catolicismo ainda é muito longo e não sei se alguma vez chegará ao destino (algo que há muito tempo suspeito)

2) que quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita (e este provérbio que vai na linha do pensamento de muito do que aqui se escreve neste blogue, é uma lamentável cedência da minha parte a um ditado que está muito longe do amor cristão)

fec disse...

aliás, as respostas do PA vão num caminho muito mais grave:

penso que o PA sabe há muito tempo, consciente ou inconscientementeque, que o que o rui a. diz é verdade sobre o amor enquanto mandamento supremo do cristianismo e a sua "conversão ao catolicismo" parece de facto apenas uma cruzada mais ou menos velada que o PA trava contra o cristianismo de modo a desnaturá-lo completamente, um berloque de pechisbeque que o PA possa pendurar nas suas orelhas

Anónimo disse...

Amor, Jesus, Cristo...
Cristo-Jesús nos ilumine e aconchegue um momento tao só.
Esto parece como viaxar para os tempos idos ,voltar e recovrar o pasado aquele em que os sacerdotes tentavam conducirnos (na melhor forma possivel claro, da forma que eles melhor consideravam e conheciam) nos assuntos tocantes ao sexo...Enfim. Peanuts.

zazie disse...

Lá tinha de vir o faroleiro com o barómetro do controle da fé.

Não podia deixar de escapar esta tradição estalinista de detectar a linha negra.

zazie disse...

Quanto ao post (o principal) está mesmo muito bom.

zazie disse...

E o medo que o "verdadeiro Cristianismo" possa ser deturpado por um "revisionista" numa cruzada contra ele.

E o faroleiro no lugar de guardião do "verdadeiro cristianismo"; a denunciar estas linhas negras e estes infiltrados.

A tudo isto também se poderia aplicar o mesmo ditado- aquilo que nasce ideologia, tarde ou nunca deixa de o ser.

Para um comunista até o cristianismo serve

zazie disse...

A propósito disto (e sem nada de pessoal- gosto muito do faroleiro) gostava que o Duarte Meira se pronunciasse.

Como é? há padres assim, a controlarem e a duvidarem da fé dos outros?

Se alguém se quiser aproximar da Igreja tem de apanhar com crentinhos destes de comité central?

É por estas e por outras que eu não me aproximo. Porque online é assim- sempre estas castas a medirem a fé do próximo a detectarem falsas crenças nos outros.

zazie disse...

E ele não é padre, faria se o fosse...

São os crentinhos escardalhos. Usam a religião para continuarem o comité central da utopia.

muja disse...

”crentinhos (...) de comité central”

ehehe

joshua disse...

Bravo! Nunca é de mais reciclar-relevar o básico da nossa Fé.

Joao Moreira disse...

Parabéns. Bem haja.

Duarte Meira disse...

« ... gostava que o Duarte Meira se pronunciasse.
Como é? »

Prezada Zazie:

É tal qual diz: « Quanto ao post (o principal) está mesmo muito bom.»