21 outubro 2011

catarse

Em baixo, outro texto do baú das recordações. Publicado em Junho de 2010, também no jornal "Vida Económica", e que reflecte a necessidade de uma catarse que, infelizmente, tardamos em fazer...

(...) o euro trouxe muitas vantagens para muitos países membros, mas trouxe também responsabilidades. E enquanto a Alemanha mantinha, por exemplo, os custos unitários do trabalho sob controlo, outros países – como a Grécia, Portugal e Espanha – entraram numa espiral de descontrolo e euforia, perdendo, apenas aí, cerca de vinte por cento da sua competitividade face aos germânicos.


A análise que faço dos desequilíbrios que se foram estabelecendo na última década leva-me a concluir que o problema, mais do que macro económico, é essencialmente cultural. No sul da Europa, a falta de credibilidade das instituições democráticas e a forma como estas são manipuladas ao sabor de jogos e simpatias políticas conduzem ao desrespeito generalizado e à desresponsabilização da sociedade. É, por isso, que nestes países do sul da Europa a contestação pública às medidas de austeridade é tão maciça – ninguém reconhece autoridade moral aos políticos que as tentam impor. Deste modo, na Grécia, em Espanha e em Portugal, cabe às respectivas populações e políticos lidarem com a verdade e com as consequências de algumas das políticas desastrosas do passado. Cabe a estes países zelar por uma cultura de seriedade, de confronto com a realidade, que passa por chamar mentira àquilo que não é verdade – em vez dessa inovação linguística designada por “inverdade”"
("Alemanha", Vida Económica, 11 de Junho de 2010)

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