
No seguimento do meu post anterior, quem reflectir, ainda que levemente, sobre aquilo que aconteceu em Portugal no período imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 1974, não pode deixar de ficar boquiaberto. Portugal era um país sujeito à censura e onde a discussão de temas políticos, excepto para dizer bem do regime, estava para todos os efeitos proibida. A sociedade portuguesa, como não podia deixar de ser, era uma sociedade fortemente despolitizada.
Porém, um ano depois apresentaram-se às eleições cartoze partidos políticos desde a extrema-esquerda até à extrema-direita, partidos que afirmavam diferir uns dos outros às vezes num detalhe que não era visível para ninguém. Como apareceram tantos ideólogos assim de um momento para o outro, e como é que o povo português discutia política tão convictamente, e defendia tão encarniçadamente as suas escolhas partidárias?
Trata-se de um milagre que ainda hoje está por esclarecer.
Aquilo que todos os que assistiram a este milagre podem testemunhar é que, de um momento para o outro, aquela que era uma população unida e sem fracturas dignas de nota, se dividiu profundamente. E as divisões não ocorreram apenas na esfera pública ou da política propriamente dita. Rapidamente invadiram os empregos, as paróquias, as vizinhanças, os grupos de amigos, até as famílias. Houve pais que se zangaram com os filhos, irmãos que cortaram relações com irmãos, tudo por causa dos partidos - feridas que, na maior parte dos casos, ainda hoje não sararam.
Mas de onde é que vinha a formação política tão sólida, a convicção partidária tão firme destas pessoas que as levava a fracturar relações pessoais duradouras, e até de família? Até hoje ainda não se encontrou a resposta. So pode ter sido um milagre. Veja dois exemplos aqui, um de um ideólogo que fez carreira, outro de um ideólogo que terá ficado pelo caminho.
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