14 fevereiro 2008

Banca em Portugal (*)


(*) : Publicado no semanário "Vida Económica" a 26 de Outubro 2007. Para facilitar a leitura, eliminei alguns parágrafos. Mas a tese final mantém-se.

A Associação Portuguesa de Bancos (APB), liderada por João Salgueiro, publica semestralmente uma síntese consolidada do sector. O último boletim, compilado com dados de Dezembro de 2006 e editado em Julho de 2007, está disponível no seu sítio oficial (http://www.apb.pt/). Neste documento constata-se que, no total, operam em Portugal cerca de 40 bancos portugueses e estrangeiros. O activo líquido do conjunto dos bancos analisados é de cerca de 350 mil milhões de euros – pouco mais de duas vezes o PIB português. Contudo, quando comparado com o crescimento médio da economia nacional, o sector bancário é um segmento em rápida expansão. Em 2006, o activo líquido do sector bancário em Portugal cresceu 8%.

Da análise do documento da APB conclui-se também que, no último ano, os responsáveis pela gestão dos bancos fizeram, em geral, um excelente trabalho. Mantiveram inalterado o peso dos custos operativos no volume global de activos sob gestão. Abriram novos balcões – cerca de 250. Aumentaram o resultado bruto de exploração em mais de 20%. Incrementaram os resultados do exercício em 34%. Tudo isto num país cujo PIB cresce a pouco mais de 1%. Em Portugal, a rendibilidade dos capitais próprios dos bancos é hoje de quase 15%. Significa que esta taxa, a manter-se estável, permitirá ao accionista duplicar o valor da sua participação em cada 5 anos (graças ao poder da capitalização, vulgo, juros de juro).

A grande vertente estratégica da banca no nosso país continua a ser o mercado do crédito a particulares – cerca de 55% de total de crédito concedido. No último ano, este tipo de crédito cresceu em média 15%. É aqui que reside o maior foco de risco e a maior incerteza no sector bancário. O fenómeno de endividamento que existe hoje, a nível global, é insustentável. Os salários reais em Portugal não crescem desde o início do novo milénio. Há até quem argumente que, ajustado pela inflação, o rendimento disponível de muitas famílias terá regredido nos últimos anos. Contudo, o crédito a particulares cresce a 15% ao ano. Fortemente impulsionado pelo crédito à habitação que representa quatro quintos de todo o crédito concedido nesta categoria.

Apesar das incertezas, o sector da banca é altamente atractivo do ponto de vista do accionista de longo prazo. As movimentações que neste momento pendem sobre o BCP alimentam especulações de todo o género. Há a possibilidade do BBVA lançar uma OPA ao BCP. Mas a alternativa politicamente correcta parece ser a criação de um consórcio de bancos, com maioria de capital português, que juntos adquiram o BCP. E, por fim, há também a terceira possibilidade: o ressuscitar da liderança de Jardim Gonçalves. Inclino-me para a segunda hipótese. A CGD como alma do negócio. O BES como cérebro. E o BPI como especulador.

Ps: depois de ter escrito o artigo, aconteceram três coisas: 1) o BPI tentou a aquisição (mascarada de fusão) do BCP; 2) o Estado promoveu a transição da administração da CGD para os comandos do BCP e; 3) o BES permaneceu mudo em todo o processo.

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