29 setembro 2007

o dono do laranjal

O PSD de Menezes poderá ter algumas expectativas no futuro, ou está irremediavelmente condenado, como pretende o mainstream mediático e opinativo, tratando o novo líder como um inconsciente «populista» de quem só pode vir a desgraça? O assunto merece uma análise em dois planos distintos: Menezes como líder do principal partido da oposição e Menezes como eventual chefe de um governo do seu partido.

No primeiro caso, tem-se dito que Marques Mendes tinha «princípios», «coerência» e um «projecto político», e que, por isso, o seu partido era uma alternativa séria ao PS. Se os tinha, francamente, nunca os revelou. A sua oposição ao governo, onde devia contrapor o tal «projecto», praticamente não se sentiu durante estes quase três anos. Uma ou outra opinião de circunstância, quase sempre a reboque do que fazia o governo de Sócrates. Posições próprias, ideias e posições alternativas, não se viram. Por outro lado, são históricas as suas derrotas nos debates parlamentares com o primeiro-ministro, palco por excelência onde se exigia que brilhasse – pelo menos nos momentos de impopularidade, que foram muitos, do governo - e demonstrasse uma alternativa, ao ponto dos seus mais íntimos, como o próprio Marcelo Rebelo de Sousa, referirem publicamente esses fracassos. De Mendes, em conclusão, não se esperava qualquer vitória eleitoral e, por conseguinte, é absurdo referir os seus «princípios políticos» e o seu «projecto coerente». Ainda que os tivesse, não lhe seriam úteis, por manifesta incapacidade de levar o partido para o governo. Neste aspecto, a liderança de Menezes, por pior que venha a ser, dificilmente colocará o PSD num patamar ainda mais baixo do que aquele que ele está. Não parece, por isso, que dela resulte grande drama.

Quanto a um eventual governo chefiado por Menezes, ainda que não seja possível fazer quaisquer previsões, tal e qual sucedia, de resto, com Mendes, há, porém, dois aspectos importantes a ter em conta. Primeiro, Menezes demonstrou ser um excelente gestor público na presidência da Câmara de Gaia, onde – onde, sejam quais forem as causas – tem obra e obra de excelente qualidade. Poderá dizer-se que gastou nela muito dinheiro, mas a verdade é que gastar muito dinheiro é o que todos os governantes fazem, quase sempre sem obra que o justifique. Segundo, há a ter em conta que, se Menezes não se apresenta publicamente com uma equipa de luxo donde possa sair a base de um futuro governo, há que dizer que a equipa de Mendes, ao fim destes dois anos e meio, é péssima. Nesta medida, se Menezes poderá vir a demonstrar-se incapaz de juntar gente de qualidade política para formar um governo capaz, Mendes já provara essa incapacidade.

Foi por estas razões que Menezes ganhou e Mendes perdeu. O PSD é um partido de poder, com aguçada intuição política. Já tinha percebido que com Mendes não ia lá. Vai agora experimentar Menezes. À partida, e ao invés do que por aí se diz, não se vê nada que possa condenar Menezes a um líder fracassado e transformar Mendes naquilo que ele nunca foi – um líder credível.

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