23 julho 2007

culturas


Quando, desde o início da minha colaboração na blogosfera, eu coloquei o ênfase na cultura de um povo e, em particular, na principal determinante dessa cultura - a religião - para analisar as suas ideias, as suas instituições, os seus sucessos e os seus fracassos, eu sabia o efeito que iria produzir, sobretudo quando chegasse àquela que é a mais controversa de todas as culturas - a cultura judaica.

O ponto essencial a que eu pretendia chegar é o de que a razão humana é um produto relativo da cultura, e que cada cultura possui a sua racionalidade. A um nível mais restrito até, cada homem possui a sua cultura - aquela que adquiriu na sua família, a mais culturalizante de todas as instituições - e existe uma racionalidade em cada homem que é distinta de todos os outros homens.

O Iluminismo pretendeu susbtituír a fé pela razão e Deus pelo homem e, em parte, conseguiu, conduzindo a uma certa absolutização da razão e a uma certa idolatria do homem, que alguns sucessos da ciência e da técnica serviram para suportar. Porém, se é certo que a racionalidade científica contribuiu nos últimos dois séculos para melhorar o nível de vida da humanidade, não é menos certo que a humanidade não teria sido capaz de sobreviver durante os milénios anteriores sem a fé religiosa.

Quando, num post sob o título Dupla Precaução, originalmente publicado no Blasfémias, depois reproduzido no Portugal Contemporâneo, eu afirmei que usava de dupla precaução para interpretar todos os movimentos filosóficos ou científicos - como o neoliberalismo, o libertarianismo e a o neoconservadorismo -, que tivessem origem judaica, eu pretendia significar que a racionalidade inerente a essas ideias não seria facilmente transportável para um país que possuísse uma cultura diferente, como é o caso de Portugal que é um país de cultura católica.

Na altura, a única objecção significativa à minha tese veio do João Miranda no Blasfémias, que me pediu que explicasse como é que os critérios da ciência - falamos das ciências sociais, para já - podiam estar dependentes da cultura dos cientistas, e de eles serem judeus, católicos, protestantes ou muçulmanos. É isso que tenho vindo a procurar fazer e que pretendo continuar a fazer - e julgo que tenho conseguido alguns progressos.

Entre todas as culturas, a mais fascinante, do ponto de vista da minha curiosidade, é a cultura judaica. De entre todas as que me interessam considerar, é a mais antiga, e aquela que tem a história mais extraordinária de sobrevivência e, em parte, também de sucesso. A cultura judaica, provavelmente por virtude da sua experiência histórica, é a mais dualista de todas as culturas que a humanidade já conheceu. Por dualista, eu significo a sua faceta de os valores que os judeus possuem e praticam dentro da sua própria comunidade serem, em geral, muito diferentes - e frequentemente opostos - àqueles que praticam em relação às comunidades exteriores, no seio das quais sempre viveram.

Assim, por exemplo, os judeus ganharam ao longo da história, aos olhos das comunidades exteriores que os acolheram, a reputação de serem agarrados ao dinheiro, insensíveis à sorte dos outros e radicalmente egoístas. Entre eles, porém, não existe provavelmente povo no mundo que seja mais generoso, mais solidário e mais altruísta.

Falar de culturas num país católico como Portugal, nem sempre é fácil, excepto se fôr para dizer mal da própria cultura católica e bem de qualquer outra, por mais primitiva que seja. Falar dos judeus é muito mais difícil, em Portugal ou em qualquer outro país. Frequentemente acusados ao longo da sua história pelos mais diversos motivos, muitas vezes de forma injusta, os judeus desenvolveram um mecanismo cultural de reacção que é um mecanismo de defesa, e que consiste em acusar primeiro, antes que eles próprios sejam acusados - uma espécie de lema segundo o qual a melhor defesa é o ataque.

Provavelmente nenhuma cultura no mundo acusa alguém que seja exterior a ela com tanta facilidade como a judaica. Quem ouse falar de judeus - a mera pronúncia da palavra é, em geral, suficiente - arrisca-se a ver recaír sobre si, vindas dos mais inesperados lugares, acusações de toda a espécie, as mais correntes das quais são as de anti-semitismo, desonestidade intelectual e incentivo ao ódio, que outro objectivo não visam que o assassínio de carácter e impedir o acesso à verdade. Em contraste, a cultura cristã desenvolveu um fascínio - às vezes, um fascínio quixotesco - pela verdade, a tal ponto que o seu fundador deu a sua própria vida por ela.

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