03 setembro 2019

Opus Dei

A teologia franciscana da pobreza é dominante na doutrina católica. Mas não é única.

Se a Igreja Católica (uma palavra que significa universal) é verdadeiramente universal, então, ela também há-de conter outras teologias da pobreza, como a calvinista (que é, propriamente falando, uma teologia da riqueza).

E, na realidade, a teologia calvinista da riqueza aparece dispersa no Catecismo da Igreja Católica, embora sem o ênfase da teologia franciscana. Por exemplo, no artigo 2461 que diz assim: "O verdadeiro desenvolvimento é o do homem integral. Trata-se de fazer crescer a capacidade de cada pessoa para responder à sua vocação e, portanto, ao apelo de Deus". Dificilmente se poderia exprimir de forma mais clara a ideia calvinista de "chamada" (calling).

Não apenas a doutrina católica contém a teologia calvinista da riqueza - embora, não é de mais insistir, sem lhe dar o ênfase que dá à teologia franciscana -, como existe, dentro da Igreja Católica uma corrente teológica que a desenvolve plenamente.

Trata-se do Opus Dei.

O Opus Dei é o calvinismo catolicizado (como os jesuítas são o luteranismo catolicizado), isto é, com sentido de comunidade e obediência ao Papa.

O Opus Dei procura celebrar a vida laica de Cristo, aquele período da sua vida até à revelação. Até aos 30 anos, Cristo era um homem como os outros que vivia do seu trabalho de carpinteiro.

O Opus Dei visa a santificação do homem pelo trabalho (e, mais geralmente, pelos actos da vida corrente). A maior graça que Deus concede ao homem é a sua vocação, diz S. Josemaría Escrivá (Caminho: 913). E o homem agrada a Deus exercitando as capacidades e os talentos que Deus lhe deu para responder à chamada em que consiste essa vocação.

É a mesma mensagem do calvinismo.

O liberalismo económico, que é uma doutrina de origem anglo-saxónica e calvinista, encontra a sua melhor expressão doutrinal, e os seus melhores aderentes, nos países de cultura católica, como Portugal, entre os membros do Opus Dei (da mesma forma que o socialismo, que é germânico e luterano, encontra a sua melhor expressão nos países de cultura católica nos Jesuítas. O Papa Francisco é o exemplo acabado).

02 setembro 2019

S. Cristiano

O protestantismo, ao contrário do catolicismo, não acredita em santos.

Mas tem os seus heróis.

O paradigma do herói, aos olhos do Deus calvinista, é a figura de homens como o Cristiano Ronaldo.

Nasceu pobre e tornou-se rico, utilizando os talentos que Deus lhe deu, trabalhando intensamente sobre eles e respondendo perfeitamente à sua chamada (calling).

Pelo caminho fez feliz milhões de pessoas, que pagaram para o ver, e que o tornaram rico.

Um grande profissional, um herói. Seria S. Cristiano, se o calvinismo venerasse os santos.

Vejamos agora o que é que o Catecismo da Igreja Católica tem a dizer sobre ele, que pertence à classe dos ricos: "(…) ó ricos, prestai-me atenção. Chorai em altos brados devido às desgraças que vão cair sobre vós. (…)" (cf. aqui)

ao Deus dará

Existem certas passagens no Catecismo da Igreja Católica acerca da pobreza que são verdadeiramente desconcertantes. Não apenas valorizam e beatificam a pobreza como, noutros casos, são verdadeiras receitas para a pobreza.

Por exemplo, esta, que ocorre no parágrafo 2547 onde a certa altura se afirma: "O abandono à providência do Pai do Céu liberta da preocupação do amanhã" (cf. aqui).

É o que se chama "viver ao Deus dará". Não pense no amanhã. Quem viver assim vai ficar pobre de certeza.

o sonho americano



O muro que o presidente Trump pretende construir na fronteira entre os EUA e o México é mais do que uma fronteira vulgar entre dois países.

É a fronteira entre as duas culturas cristãs que dividem o Novo Mundo. A norte, a América calvinista (EUA e Canadá). A sul, a América católica (México e restantes países da América Latina).

O muro pretende impedir que as pessoas votem com os pés, que se desloquem de sul para norte.

Porquê?

Porque a cultura católica leva consigo a santificação da pobreza e a destruição do sonho americano, que é o sonho de fugir à pobreza..

01 setembro 2019

boa sorte

O Hospital de Braga teve hoje o seu primeiro dia como hospital público (depois de uma PPP que durou dez anos com o Grupo Mello).

O novo presidente do Conselho de Administração do Hospital de Braga é o Dr. João Oliveira (cf. aqui).

Desejo muito boa sorte aos colaboradores do Hospital de Braga nesta sua nova fase institucional.

31 agosto 2019

contra os ricos

Os artigos 2544 a 2547 do Catecismo dão uma visão sucinta acerca de como, aos olhos da Igreja Católica, Deus vê os pobres e os ricos. Os pobres são uns coitadinhos, as vítimas, e quanto aos ricos é preciso ter olho neles (cf. aqui: 2544, 2545, 2546, 2547).

Mas os pobres são, afinal, vítimas de quem?

Os artigos 2443 a 2449 já tinham dado a resposta - dos ricos.

A Igreja Católica possui uma teoria económica muito curiosa (e, obviamente, falsa) acerca da pobreza e da riqueza. Deus é o Pai e o Criador de todos os bens existentes no mundo. Ora, este legado, Ele oferece-o a todos os seus filhos de maneira igual e sem excepção. Segue-se que, se um deles tem mais que o outro, é porque se apropriou indevidamente do quinhão que pertencia ao outro.

Conclusões. A riqueza é um roubo.  A causa da pobreza e dos pobres são os ricos. O mundo está dividido entre bons e maus, entre bem-aventurados (os pobres) e pecadores (os ricos).

(O artigo 2446 do Catecismo, citando S. João Crisóstomo, não podia ser mais explícito acerca da teoria da riqueza como um roubo, cf. aqui).

Não surpreende, por isso, que dias depois de ter reflectido sobre os pobres, com as conclusões que eram previsíveis (cf. aqui), a Comissão Nacional Justiça e Paz, presidida pelo juiz Pedro Vaz Patto, também tenha reflectido sobre os ricos, com as conclusões que também eram de prever.

Fê-lo na Nota "Ética e Criminalidade Económica e Financeira - Conclusões" (cf. aqui). Nela, a figura do rico é a figura do financeiro e, especialmente, a do banqueiro. Estão identificados os maus, como era de esperar. Nenhuma surpresa até aqui.

A verdadeira surpresa vem a seguir pela voz de Frei Tomás: "Olha para o que ele diz, não olhes para o que ele faz".

A Nota da Comissão Nacional Justiça e Paz,  como o seu título sugere, contém um apelo aos profissionais do sector financeiro para que cumpram o código de ética da sua profissão. E o apelo é devido porque, infelizmente, há profissionais deste sector que não o cumprem.

Mas os profissionais do sector financeiro não estão sós. Violações do código de ética acontecem em todas as profissões. Até na de juiz. (cf. aqui, aqui e aqui).


22 agosto 2019

Ao lado dos pobres

Quando se trata dos pobres, nós imaginamos o Deus calvinista em frente deles, a inquiri-los olhos nos olhos, por que é que faltaram à sua chamada (calling)

-Dei-vos inúmeras capacidades (inteligência, força física,...) e talentos (jeito para isto e para aquilo…) e vocês não os utilizam para se livrarem dos horrores da pobreza?

Já o Deus católico, quando se trata dos pobres, em lugar de aparecer à frente deles, inquirindo-os e recriminando-os por terem faltado à chamada (calling), e exortando-os a mudar de vida, aparece ao lado deles, protegendo-os, olhando-os como vítimas, confortando-os.

Em relação aos pobres, O Deus calvinista é um pai austero e exigente, que os chama à razão e os encoraja à acção. Pelo contrário, o Deus católico faz-se substituir pela Mãe - que é a Igreja, a figura de Maria - que se põe do lado deles, os apaparica e os desculpa, que nunca lhes exige nada, e certamente que nunca os chamará à razão.

"Ao lado dos pobres" é precisamente o título de uma Nota sobre a pobreza emitida recentemente pela Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), um organismo laico da Conferência Episcopal Portuguesa, presidido pelo juiz Pedro Vaz Patto (cf. aqui)

A Nota começa por contar os pobres existentes em Portugal, que são avaliados em 21,6% da população, para prosseguir dizendo que eles no mundo são ainda proporcionalmente mais numerosos.

E, na realidade, são. Falando apenas do mundo ocidental - isto é, dos países tocados pela influência cristã - os pobres são particularmente numerosos nos países de tradição católica, muito mais do que nos países de tradição calvinista ou luterana.

Tomando como referência o Novo Mundo - isto é, o continente americano, que permite ver com clareza o ponto que pretendo ilustrar -, os pobres são mesmo muito numerosos nos países da América latina, de cultura predominantemente católica, como o Brasil, a Venezuela, Salvador ou o México. Pelo contrário, são incomparavelmente mais escassos nos países da América do Norte (EUA e Canadá) tocados pela cultura calvinista e liberal.

A Nota da CNJP prossegue com uma enumeração dos males da pobreza, aos quais eu acrescentaria o maior de todos - a morte prematura. Nos países pobres, a esperança de vida à nascença é incomparavelmente mais baixa do que nos países ricos (nestes supera já os 80 anos, naqueles não chega aos 50), e a mortalidade infantil é astronómica (da ordem dos 200 por mil nascimentos), enquanto nos países ricos já foi praticamente debelada.

Segue-se a tradicional vitimização dos pobres que, segundo a Nota da CNJP, são marginalizados, e, mais adiante, não podem ser reduzidos a meros dados estatísticos.

No entretanto, lá aparece, de forma implícita,  a célebre "Opção preferencial" que o Deus católico tem pelos pobres. Como os pobres morrem mais cedo, esta "Opção preferencial" já me levou a ironizar que é por virtude dela que Deus chama os pobres mais cedo para junto de Si.

Aquilo que nunca aparece na Nota da Comissão Nacional Justiça e Paz sobre a pobreza é o mínimo indício de responsabilização dos próprios pobres sobre a situação em que se encontram. Não, eles não têm nada que ver com isso, nenhuma quota-parte de responsabilidade pela sua situação de pobreza lhes é assacada. Eles são as vítimas.

Como não existe na Nota da Comissão uma única sugestão que seja, uma única luz que dê aos pobres ao menos a esperança de um caminho que lhes permita, pelos seus próprios meios, sair da pobreza - mesmo se esse caminho existe e está descoberto há cerca de dois séculos e meio.

Séculos de hostilidade por parte da Igreja Católica à liberdade individual e à democracia, à limitação dos poderes do Estado, à literacia e à razão, e à economia de mercado - numa palavra, ao liberalismo e aos valores de uma sociedade moderna - não permitem à Comissão Nacional Justiça e Paz sequer mencionar a solução para acabar com a pobreza.

Nem talvez seja conveniente. Quando os pobres acabarem, que papel fica reservado à Comissão Nacional Justiça e Paz? Talvez nenhum. E muitas igrejas vão ter de fechar.

calling

-O que é que tencionas fazer na vida com as capacidades e os talentos que Eu te dei?

pergunta o  Deus calvinista a cada homem.

-Eu quero ser professor, responde um.

-Eu quero ser jogador de futebol, diz outro

-Eu quero ser cozinheiro, responde ainda outro.

-Pois bem - diz o Deus calvinista - Eu não permitirei que ninguém se ponha no vosso caminho e vos crie qualquer impedimento a que cada um de vós venha a ser aquilo que deseja.

É esta a ideia de liberdade individual, ninguém se pode pôr no caminho de cada homem impedindo ou dificultando que ele atinja os fins que ele próprio se propõe na vida. É assim que a Liberdade tritura a pobreza.

E é esta ideia de que cada homem é chamado  a desempenhar uma função útil na vida, utilizando as capacidades e os talentos que Deus lhe deu que inspira religiosamente o liberalismo. É a ideia calvinista de calling.

O Deus calvinista não tem paciência para um homem saudável e que permanece pobre. Inquire-o com severidade e uma óbvia desconsideração:

-Então, dei-te múltiplas capacidades (força física, inteligência, etc.) e múltiplos talentos (beleza física, jeito para o desenho, gosto pela cozinha,...) e tu não os utilizaste para te livrares, e aos teus, dos horrores da pobreza!?

O homem que nasceu pobre - principalmente este - e que se torna rico, utilizando as capacidades e os talentos que Deus lhe deu (v.g., tornando-se um grande empresário, um grande profissional, um grande jogador de futebol) é o maior orgulho do Deus calvinista.

O pobre é a Sua  grande decepção.

E aos olhos do Deus católico, como é que Ele vê o pobre e o rico e, especialmente, o pobre que se torna rico, às vezes chamado depreciativamente novo-rico?

Aos olhos do Deus católico, o pobre é um coitadinho e o novo-rico é de certeza um pecador, senão mesmo um criminoso (pode lá ser que neste mundo católico um pobre possa enriquecer sem ser por meios desonestos…)


Give me your tired, your poor

                                                                                     "Give me your tired, your poor…"


Para que é que a América, simbolizada na Estátua da Liberdade, quererá receber os pobres? (A Estátua está voltada para a Europa)

Para os transformar em ricos. É esse o grande sonho americano. E é esse o grande milagre do liberalismo.

É isso que se depreende do soneto The New Colossus, de Emma Lazarus, que está gravado no pedestal (ênfases meus):

O NOVO COLOSSO
Não como o gigante bronzeado de grega fama,
Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra
Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; Os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gêmeas.
“Mantenham antigas terras sua pompa histórica!” grita ela
Com lábios silenciosos “Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado.

21 agosto 2019

A Riqueza


Enquanto em Portugal se continuava a santificar e a glorificar a pobreza, foi num país que se tinha revoltado contra o catolicismo - a Escócia - que em 1776 foi publicado o primeiro tratado de liberalismo económico.

O seu tema era a riqueza e visava ensinar aos povos e às nações como fugir da pobreza e aceder à riqueza. O título não deixava margem para dúvidas acerca do seu propósito: "A Riqueza das Nações". E o subtítulo esclarecia: "Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações".

O autor era um professor de filosofia moral da Universidade de Glasgow, Adam Smith. Era um homem muito religioso pertencente a uma denominação da família do calvinismo - o presbiterianismo.

No mesmo ano de 1776, numa extraordinária manifestação do acaso, ocorreu a revolução americana que viria a dar origem aos primeiro país nascido liberal - os EUA. (Os pais fundadores americanos que escreveram a Constituição  de 1789 eram conhecedores da filosofia liberal de Adam Smith e David Hume. Entre eles, apenas um era católico).

Por essa altura, as ordens religiosas do catolicismo estavam proibidas no Reino Unido, e consequentemente, também na sua colónia americana que viria a dar origem aos EUA.

De facto, não teria sido fácil criar no novo país uma cultura virada para a riqueza no meio de uma cultura religiosa, como a católica, que santifica a pobreza.

Em pouco mais de um século, os EUA tornar-se-iam o país mais rico e poderoso do mundo.

Os EUA permanecem ainda hoje como o maior exemplo do poder das ideias liberais e também do seu profundo significado religioso. Os EUA vieram mostrar ao mundo, pela primeira vez na história da humanidade, que era possível tirar, em massa, o homem da miséria.

A tecnologia social para conseguir este objectivo estava descrita no livro de Adam Smith. Era a economia de mercado.

Portugal também é referido no livro, mas como contra-exemplo, como o exemplo acabado da tecnologia social que conduz à pobreza - nenhuma iniciativa económica era permitida sem ser submetida à tutela do Estado (isto é, do Rei, na altura representado pelo Marquês de Pombal).

O liberalismo nasceu no mundo britânico numa altura em que em Portugal vingava o mais cruel dos absolutismos - o do Marquês.

19 agosto 2019

um betinho

Favela, Rio de Janeiro

Existem muitas figuras paradigmáticas da santificação da pobreza na Igreja Católica. Mas a principal é, talvez, a de S. Francisco, a quem o actual Papa foi buscar o nome.

Francisco de Assis (cf. aqui) era certamente uma personalidade muito interessante, mas é preciso reconhecer que ele foi pobre por opção, porque, na realidade, era filho de uma família abastada.

Santificar a pobreza na figura de um betinho produziu os efeitos que se vêem na fotografia nos países de cultura católica.

a pobreza

O liberalismo considera morais várias situações da vida que a direita considera imorais, como a prostituição, o aborto e a homossexualidade.

E ao contrário, existe alguma situação da vida que o liberalismo (que é herdeiro do protestantismo calvinista) considere imoral e que seja perfeitamente moral aos olhos da direita, isto é, do catolicismo?

Sim, existe - e a principal é pobreza.

A pobreza é a maior causa dos piores males que sempre afectaram a humanidade - a violência, o crime, a promiscuidade e a doença,  a morte prematura.

Aos olhos de um liberal, a complacência - senão mesmo o carinho e a veneração - que a direita (católica) demonstra pela pobreza é uma verdadeira calamidade.

Se existe algum desígnio moral no liberalismo, esse desígnio é, em primeiro lugar, o de acabar com a pobreza porque, acabando com ela, acabam-se com os principais males que afligem a humanidade.

"Deem-nos alguma coisa..."

No post anterior fiz referência irónica a um homem - Francisco Sá Carneiro - que morreu com a reputação de ser um liberal quando na realidade era um socialista, e que é tido como o fundador de um partido de direita (PSD), quando na realidade o partido é da esquerda socialista (cf. aqui).

Existe um caso semelhante, mas mais recente. É o do jornalista João Miguel Tavares, que se tornou uma referência nacional depois do seu discurso do 10 de Junho proferido em Portalegre, e que entretanto já manifestou a sua simpatia pela Iniciativa Liberal (cf. aqui).

A frase mais citada do discurso foi um apelo aos políticos: "Deem-nos alguma coisa em que acreditar" (cf. aqui).

Ora, quem se dirige aos políticos - que são os agentes do Estado - a pedir inspiração para viver, não é um liberal, é um socialista.

Um liberal procura a inspiração em si próprio.

Se a Iniciativa Liberal se começa a encher de socialistas como o João Miguel Tavares e a Zita Seabra, como figuras de referência, corre o risco de ainda morrer à nascença.

O grande "liberal"

O grande "liberal" Francisco Sá Carneiro num dos momentos fundadores desse grande partido de "direita" que é o PSD (cf. aqui)  - o qual, naturalmente, está agora em derrocada porque, do ponto de vista ideológico, nunca soube aquilo que era.

18 agosto 2019

um ícone da direita

Numa série de posts anteriores (um, dois, três, quatro) procurei ilustrar a diferença entre o liberalismo (esquerda) e o catolicismo (direita), usando como tema a prostituição e um artigo do juiz Pedro Vaz Patto publicado no Observador (cf. aqui).

O meu propósito é o de contribuir para ajudar a distinguir a esquerda da direita; as duas versões que existem da esquerda (liberalismo e socialismo); a evitar que se chamem de direita partidos que são claramente da esquerda socialista (como o PSD e o CDS, embora ambos com franjas da direita); a evitar que se diga que existe uma crise da direita, quando, na realidade, Portugal não tem partidos de direita e a crise é da esquerda social-democrata; a evitar que se chamem de direita políticos que são claramente de esquerda, como é o caso, por exemplo,  do Presidente da República.

O artigo do juiz Vaz Patto exprime a posição da Igreja Católica sobre a prostituição (cf. aqui). Na realidade, o juiz Vaz Patto tem sido nos últimos anos uma voz activa na expressão das ideias da verdadeira direita - e, portanto, do catolicismo - na sociedade portuguesa, designadamente na sua condição de presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz (cf. aqui).

E fá-lo com a aprovação das autoridades da Igreja. No Prefácio a um  seu livro  recentemente publicado (Crónicas Ainda Actuais, Lisboa: Cáritas, 2018) escreve o Cardeal Patriarca, D. Manuel Clemente:

"Desde há muito que nos habituou ao seu discurso claro e fundamentado (…). A formação e prática jurídica treinaram-lhe o rigor na análise dos casos e o acerto nas conclusões (…)
A actualidade dos assuntos que versa é outro motivo de agradecimento pela presente edição. Questões muitas vezes f"racturantes", como são chamadas e com alguma razão. De facto, incidem sobre bases fundamentais da vida e da convivência, pessoal e pública, que até há pouco contavam com o consenso geral. Hoje são frequentemente postas em causa pelo subjectivismo reinante e incidem no campo legal pelo mero positivismo jurídico. Do "é assim porque eu quero ou acho" ao "cumpra-se porque está formulado", assim e sem mais nem antes, a névoa é muita e o piso fragmenta-se, fratura-se.
Periga a sociedade como mútua companhia, quando deixamos partilhar o chão e o rumo. Mais facilmente ainda quando desistimos de nos encontrar nos fundamentos e nos objectivos, nos direitos e deveres (…)
Como o leitor terá ocasião de verificar, a reflexão do Dr. Vaz Patto ajuda muito a ultrapassar tais escolhos (…)." (op. cit., p. 9) 

O livro é uma colectânea de crónicas incidindo sobre temas como o aborto, as drogas, a gestação de substituição, a adopção por casais homossexuais, a mudança de sexo, etc., que são invariavelmente apresentados e discutidos com clarividência à luz da fé católica do seu autor.

Para quem anda à procura da direita, e para quem pretende distinguir o liberalismo da direita, eu recomendo, do ponto de vista doutrinal,  o juiz Pedro Vaz Patto como um ícone da direita, embora existam manifestos indícios nos seus escritos de que ele provém da extrema-esquerda.

Chegado a este ponto, é altura de perguntar: na questão da prostituição, como em muitas outras questões fracturantes, o que é que, em última instância, distingue um liberal de um intérprete da direita, como o juiz Vaz Patto?

É a questão de saber quem comanda o destino de cada homem (ou mulher) e quem lhe traça o caminho na vida.

Para o liberalismo é o próprio.

Para a direita é a Igreja (uma palavra que significa comunidade) e as tradições que, ao longo dos séculos, se desenvolveram na comunidade (Igreja) onde nasceu - Igreja que, para um português, é obviamente a Igreja Católica.

É o conflito entre o indivíduo e a comunidade. O liberalismo dá primazia ao indivíduo, a direita dá primazia à comunidade (Igreja).

o Jornal da Corte

Foi o Expresso que deu parangonas à Zita Seabra, e à sua transferência do PSD para a Iniciativa Liberal (cf. aqui).

Como mero simpatizante, eu não estou nada certo que estas parangonas sejam boas para a Iniciativa Liberal, que criou a imagem de ser uma partido feito com caras novas e com uma geração nova (na casa dos trinta e tal, quarenta anos).

As parangonas do Expresso parecem-me um presente envenenado. A Iniciativa Liberal nunca deve esquecer que o Expresso é um jornal socialista, e o Jornal da Corte socialista.

trabalhadores do sector privado

O grande mérito da greve organizada pelo sindicato dos motoristas de matérias perigosas, qualquer que venha a ser o seu desfecho final, foi o de chamar a atenção da opinião pública portuguesa para algo de que ela já não se lembrava.

É a de que há trabalhadores do sector privado no país.

Não há memória, desde há muitos anos, de uma greve de trabalhadores do sector privado com este impacto público.

Greves do sector público - dos professores, dos magistrados do MP, dos trabalhadores da CP, dos enfermeiros, dos funcionários judiciais, etc. - são correntes no país e os portugueses já se habituaram rotineiramente a elas.

São também as greves em que os próprios governantes e os boys dos partidos têm um interesse próprio envolvido, porque eles próprios são funcionários públicos.

Agora, uma greve do sector privado, isso é que tem sido verdadeiramente perturbador para o Governo e para a geringonça. É que muita gente já tinha interiorizado que os trabalhadores do sector privado não existiam, tal é a ganância dos do sector público em ocupar a comunicação social com as suas reivindicações quase em exclusivo.

Esta greve veio lembrar, por exemplo, que enquanto os funcionários públicos ganham em média 1500 euros ao mês, os do sector privado não chegam a mil.

Veio lembrar também, na semana em que os advogados do Estado (pomposamente chamados magistrados do MP) foram aumentados em 700 euros ao mês (e passam a poder ganhar acima do primeiro-ministro), os motoristas de matérias perigosas nem 700 euros ganham ao mês.

Os trabalhadores do sector privado em Portugal, que são cerca de 4 milhões, em comparação com os do sector público, que são 700 mil, devem estar imensamente gratos ao Pedro Pardal Henriques e ao Francisco São Bento.

MP arquiva inquérito à Yupido, após 2 anos e centenas de páginas


17 agosto 2019

Zita Seabra

"Zita Seabra deixa PSD e  torna-se mandatária da Iniciativa Liberal" (cf. aqui e aqui)

Uma homenagem

(Continuação daqui)


Prostituição e Abolicionismo


IV. Uma homenagem



Eu gostaria  de prestar uma homenagem às prostitutas,  que o juiz Vaz Patto lhes recusa  neste seu artigo (cf. aqui).

É a de de presumir que as prostitutas possuem um cérebro e uma razão como todas as outras mulheres e todos os outros seres humanos. E que, em consequência,  decidem optar pela prostituição por um processo de decisão que é tão racional quanto aquele que é seguido por outra mulher (ou homem) qualquer que decide tornar-se caixa de supermercado, médica pediatra ou motorista de táxi.

Este processo é o seguinte. Sendo dada a sua escala de preferências, largamente determinada pela sua personalidade, e o leque de opções que, em cada momento, pode dispor na vida, cada pessoa escolhe aquela opção de vida que maximiza a relação entre benefícios e custos esperados. Por outras palavras, sendo dados os seus gostos e as restrições do momento, cada pessoa escolhe aquilo que considera ser o melhor para si.

Certas pessoas decidem ser prostitutas, outras empregadas de supermercado, outras estudar medicina, outras ainda aceitar a oferta de um pretendente para casar e ter filhos. Se uma mulher decide ser prostituta é porque, nesse momento, essa é a actividade que melhor promove a sua felicidade pessoal, tal como ela própria a vê. Caso contrário, ela teria decidido ser outra coisa qualquer.

E se ela aceita ter relações sexuais com um homem a troco de dinheiro é porque, nesse momento, e considerando todas as alternativas disponíveis para ela e para ele (v.g., ela ir apanhar sol na praia, ele ir ao cinema), essa é a actividade que mais feliz torna um e outro (caso contrário, ela estaria deitada na praia e ele sentado  no cinema a ver um filme).

Tudo isto pressupõe, evidentemente, uma sociedade liberal onde cada um é livre de prosseguir os seus próprios fins na vida, e a maneira de ser feliz, e exclui a sociedade autoritária que está implícita no argumento proibicionista do juiz Pedro Vaz Patto - uma sociedade onde seria ele a mandar no corpo das prostitutas e sabe-se lá de quem mais.