10 abril 2026

O cartoonista (2)

 (Continuação daqui)



2. O advogado José de Freitas


Dificilmente o cartoonista Fernando Arroja voltará a fazer cartoons.  De todos os que fez, o meu preferido é o que está em cima.

A cena passa-se no Tribunal da Senhora da Hora (Lady of the Hour, em americano) em Matosinhos, na primavera de 2018.

O protagonista é o advogado José de Freitas, sócio fundador do escritório da sociedade de advogados Cuatrecasas no Porto, que depunha contra o réu.

O depoimento teve lugar depois do almoço. 

A voz entaramelada, a tez rosada, as pálpebras ligeiramente descaídas, o advogado José de Freitas começou por informar o juiz que o réu se passeava de Porsche na cidade do Porto, tinha um palacete na Foz e passava férias na Grécia, tudo informações altamente relevantes para o processo de difamação em julgamento.

Em seguida, descreveu uma cenário catastrófico na Cuatrecasas em resultado do comentário televisivo que o  réu fez sobre a Cuatrecasas na Fox News (Notícias Raposa, em português), perante uma audiência de milhões de telespectadores, perdão, no Oporto Channel perante uma audiência de meia dúzia de milhares de pessoas.

O comentário teve repercussões internacionais, chegou à sede da Cuatrecasas em Barcelona, e quase deitou abaixo a sociedade. O presidente Emílio Cuatrecasas, acabado de ser condenado a dois anos de prisão por fuga ao fisco, deitou as mãos à cabeça (cf. aqui). Os traficantes de droga na Colômbia entraram em pânico, quem é que agora lhes iria lavar o dinheiro na Europa. A máfia russa regressou a casa por falta de quem a defendesse em Espanha (cf. aqui). O futebolista Leonel Messi teve uma apoplexia, quem é que agora lhe iria fazer os esquemas para fugir ao fisco, enquanto as crianças respiravam de alívio (cf. aqui). O escritor português José Saramago deu voltas na cova pela mesma razão (cf. aqui).

O cartoon descreve o momento em que o advogado José de Freitas tira a mão do bolso esquerdo do casaco para explicar ao juiz, com as duas mãos, como é que o réu conduziu o seu Porsche contra o edifício da Cuatrecasas, deitando abaixo a sociedade,  numa espécie de 11 de Setembro de Lady of the Hour.


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