HUMOR NEGRO
A minha anedota favorita pode bem servir para ilustrar o que é o humor negro:
Um casal nos seu oitenta anos procurou um advogado para tratar do divórcio. O causídico, surpreso com o pedido pela idade avançada do casal perguntou-lhes:
— Há quantos anos estão casados?
— Há 60 anos senhor doutor – respondeu-lhe a mulher.
— E porque é que aguardaram tanto tempo para pedir o divórcio?
— Estávamos à espera de que os filhos morressem.
Quando conto esta anedota constato que nem toda a gente acha piada. O assunto da morte de filhos é delicado e é possível que haja presentes que tiveram de lidar com essa perda e considerem a anedota ofensiva.
Por outro lado, é claro que os filhos são uma consideração delicada nos divórcios e muitos casais, que já não se toleram, evitam a separação para poupar os filhos ao choque emocional.
O que torna esta anedota divertida é que o casal de octogenários equacionou 2 males, a morte dos filhos e o choque emocional, e optou por considerar a morte dos filhos como o mais tolerável.
Outra ideia espelhada na anedota é que a morte tem um significado diferente ao longo da vida. A morte de uma criança destrói a vida dos pais, por exemplo, enquanto a morte do bisavô não comove o auditório.
Apesar de ser um apreciador do género, o humor negro nem sempre me agrada. Logo após a explosão dos pagers do Hezbollah, recebi no WhatsApp uma foto de um pager com a mensagem: “72 VIRGENS”.
Achei o “meme” grotesco, embora reconheça que possa ter piada. O alegado terrorista que que vai de carro com a família ou que está às compras num super e que vai pelos ares, literalmente, arrasta consigo vítimas inocentes que são consideradas carne para canhão ou danos colaterais.
Este “meme” banaliza a morte enquanto a história dos octogenários apenas ridiculariza uns velhotes, confrontados com os desafios da vida.
Talvez seja a banalização da morte, de Gaza ao Donbass, que leva tanta gente a vestir-se de preto.
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