27 julho 2017

A despersonalização

Portugal não tem ainda, como a Oceania, um Ministério da Verdade. Mas tem um Ministério da Justiça e, lá dentro, um Ministério Público. Por este andar, e se nada fôr feito, terá um dia um Ministério do Bem, um Ministério do Amor e até um Ministério de Deus.

Para que a casta possa prevalecer sobre o povo, e dominar o povo, não basta suprimir certas palavras do uso comum, esvaziando o sentido que elas contêm, e reservá-las como um monopólio ao Estado, de tal maneira que só a casta lhes pode atribuir significado, que será sempre arbitrário, e favorável à promoção dos seus próprios interesses.

É necessário que as pessoas aguentem o abuso, que deixem de ser pessoas, que sejam despersonalizadas, ao ponto de se sentirem meras coisas - objectos que a casta manipulará então a seu bel-prazer

À parte uma metralhadora apontada à cabeça, são ainda as palavras o instrumento principal da despersonalização, precisamente porque são um instrumento pacífico. Já referi aqui alguns dos abusos de que qualquer cidadão é vítima quando entra no sistema judicial português.

Gostaria agora de me referir às palavras.

Desde que se iniciou este processo com a apresentação de uma queixa-crime contra mim já fui tratado por demandado, denunciado, arguido, suspeito, acusado e, agora, também vou ser réu - e a procissão ainda vai no adro, porque o processo ainda só agora completou a fase de instrução (segue-se o julgamento e eventuais recursos que podem ir até ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem).

Alguns deste nomes são estranhos (v.g., demandado); outros têm um significado difuso ("arguido" é o paradigma) e alguns deles têm significados que, em parte, se sobrepõem.

Quando se atribuem vários nomes ao mesmo sujeito - seja uma pessoa seja uma coisa -, não são só os nomes que perdem significado, é o sujeito que deixa de poder ser identificado.

Neste processo eu sou, afinal, o quê?

Já me atribuíram tantos nomes que não sei responder.

Sou muitas coisas, e outras ainda estão para vir (*), o que significa não ser nada.

Sou um mero objecto na posse do poder judicial. Uma coisa nas mãos da casta.

Ou assim a casta julga.


(*) condenado, recluso, recorrente...

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