12 agosto 2026

Um País de ciência

 


Portugal, um país de ciência

Há quem diga, com a maledicência própria das almas angustiadas, que o ensino em Portugal se tem deteriorado. Falam de jovens que chegam ao fim do liceu sem compreenderem inteiramente o que leem, que tropeçam numa regra de três e que encaram uma percentagem como quem contempla uma inscrição cuneiforme. Calúnias! Bastou anunciar um eclipse solar para a verdade vir ao de cima: Portugal é um país de ciência.

Os óculos próprios para observar o fenómeno esgotaram-se. O português, que até ontem não distinguia a órbita da Lua da rotunda do Marquês, descobriu dentro de si um astrónomo. Quer contemplar o cosmos e assistir a esse magnífico bailado entre o Sol, a Lua e a Terra. Se Galileu cá estivesse, teria dificuldade em arranjar óculos.

Não é novidade. A grande explosão científica portuguesa deu-se durante a pandemia. Foi então que descobrimos que vivíamos entre epidemiologistas, virologistas e imunologistas. Taxas de incidência, imunidade de grupo, variantes, anticorpos, ARN mensageiro e tratamentos genéticos entraram naturalmente na conversa de café. O homem que momentos antes discutia se o Benfica devia jogar em 4-3-3 explicava, com notável segurança, a dinâmica de transmissão dos vírus respiratórios.

Sublinhemos, também, que esta paixão pelo conhecimento não afastou o português dos grandes problemas do mundo. A mesma população que de manhã fala do eclipse, à tarde discute vacinas e à noite reorganiza a frente ucraniana. Portugal dispõe hoje de milhões de generais de reserva, profundos conhecedores de drones, mísseis, defesa aérea e estratégia nuclear. Ultimamente acrescentou-se o Irão, alargando a especialização ao enriquecimento de urânio e ao equilíbrio de forças no Médio Oriente.

Persistem, é certo, algumas almas conservadoras a lamentar o ensino de antigamente, quando os alunos tinham de decorar a tabuada, escrever sem erros e localizar rios num mapa. Não compreenderam Abril nem a extraordinária democratização do conhecimento que se lhe seguiu.

Que importa tropeçar numa percentagem quando se domina uma pandemia? Para quê estudar astronomia durante anos quando bastam uns óculos de cartão e olhar para o céu?

Portugal pode ter perdido alguns lugares nos testes internacionais, mas ganhou milhões de cientistas e generais. Só há neste momento uma verdadeira emergência nacional: esgotaram os óculos para o eclipse.

Não se preocupem - vai ficar tudo bem.

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