Na Igreja Católica, a interpretação não é um processo aberto baseado em leituras individuais das Escrituras. É mediada pela doutrina, e hoje essa doutrina encontra-se sintetizada, de forma autorizada, no Catecismo.
A referência actual é o Catecismo da Igreja Católica, promulgado pelo Papa John Paul II e coordenado por Joseph Ratzinger, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Isto é relevante porque reflecte uma epistemologia muito específica: o ensinamento católico não deriva apenas da Escritura, mas do tríptico Escritura, Tradição e Magistério.
Assim, quando algumas pessoas criticam o Papa citando passagens bíblicas isoladas — frequentemente num estilo protestante ou evangélico — estão, de certo modo, a utilizar um enquadramento que a Igreja Católica não reconhece como suficiente. A doutrina católica é cumulativa, historicamente estratificada e interpretada institucionalmente. O Catecismo destina-se precisamente a evitar a fragmentação que resulta de uma exegese puramente individual.
É por isso que, por exemplo, questões como a guerra, a justiça social ou a responsabilidade moral não são tratadas por simples citações da Bíblia, mas através de doutrinas desenvolvidas — como a tradição da guerra justa enraizada em Agostinho e Tomás de Aquino — e posteriormente codificadas no Catecismo.
Existe também aqui uma tensão estrutural mais profunda. Os críticos operam frequentemente sob uma suposição implícita de soberania interpretativa: a de que qualquer leitor instruído pode determinar a verdade teológica directamente a partir da Bíblia. O catolicismo, pelo contrário, assenta na ideia de que a autoridade e a continuidade são determinantes — a doutrina evolui, mas fá-lo no interior de uma linhagem institucional, e não por meio de reinterpretações espontâneas.
Isto não significa que o Papa esteja acima de crítica. Mas significa que criticá-lo como se fosse um comentador bíblico independente falha o essencial. Ele é o chefe de um sistema doutrinal com coerência interna, e o Catecismo é o seu mapa actual.
Em suma: muitas críticas não estão erradas por discordarem — estão desalinhadas porque seguem um conjunto diferente de regras teológicas.
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