12 fevereiro 2019

pessoa

Muito do pensamento liberal moderno é de origem anglo-saxónica. O liberalismo moderno foi desenvolvido na Grã-Bretanha e, no último século, sobretudo nos EUA.

Porém, o liberalismo anglo-saxónico não é directamente transplantável para Portugal. Exige adaptações, e algumas são até muito subtis.

Exemplifico com a palavra indivíduo que é utilizada de forma recorrente no Programa da Iniciativa Liberal (cf. aqui) e também nesta Declaração de Princípios (cf. aqui).

Não existe nada de particularmente pejorativo nesta palavra em inglês (individual). Mas existe uma certa conotação negativa em português ("Aquele indivíduo...", como quem diz "Aquele tipo...").

Um indivíduo é simplesmente "mais um...", que nada distingue dos outros. É próprio de uma cultura de massas, onde todos são iguais. Se num país de 10 milhões de indivíduos desaparecer um, não faz falta nenhuma porque ainda cá ficam 9,999999 milhões de outros iguais a ele.

E é aqui que se estabelece a diferença com a palavra que é apropriada na cultura portuguesa, que é uma cultura personalista - pessoa.

A palavra tem origem no grego e o seu significado original é o de personagem (de uma peça de teatro). Ela faz apelo ao papel que cada um desempenha na vida e ao facto de não existirem dois personagens iguais numa peça de teatro.

Uma pessoa é dotada de personalidade e, portanto, é única e irrepetível. É este carácter único e irrepetível que confere um valor infinito à sua vida. Não é preciso ser um génio ou um santo para que seja insubstituível, e a peça de teatro fique amputada.

A palavra indivíduo faz apelo aquilo que é igual entre os seres humanos. Pelo contrário, a palavra pessoa apela aquilo que é diferente. É porque nós somos todos diferentes uns dos outros que a vida de cada um de nós tem valor. Porque, se fôssemos todos iguais, poderíamos perfeitamente prescindir de metade porque ainda cá ficaria a outra metade para ilustrar a espécie.

Pessoa, em lugar de indivíduo, e estaremos mais próximos de um liberalismo português.

1 comentário:

Por Agora disse...

Dávila, Nicolás Gómez: A liberdade é o direito a ser diferente; e a igualdade é a proibição de o ser.

Abraço