23 agosto 2017

em espécie

Lisboa é a única e verdadeira cidade cosmopolita do país, talvez só aproximada, mas a uma dimensão muito menor, pelo Funchal. Tal significa, em primeiro lugar, uma cidade aberta e largamente impessoal. Em Lisboa desaguam todos os portugueses - e, nos anos mais recentes, também muitos imigrantes -, oriundos das mais diversas regiões do país, à procura de emprego e de oportunidades na vida. Em Lisboa, fora dos ambientes restritos do trabalho e da política, praticamente ninguém se conhece.

É muito diferente o Porto. Permanece a cidade burguesa por excelência do país, cheia de barreiras à entrada, de que o rio Douro não é, nem de longe, a principal. Não é fácil entrar na vida do Porto mas, uma vez lá dentro, a vida torna-se incrivelmente fácil. No Porto, toda a gente se conhece. Se uma centena de pessoas se puserem de acordo acerca de uma certa obra, essa obra vai fazer-se de certeza.

São duas excelentes cidades, cada uma ao seu estilo. Mas eu hoje não trocaria o Porto por Lisboa porque não teria em Lisboa, nem de longe, a qualidade de vida que tenho no Porto. O clima é até melhor em Lisboa e a oferta cultural nem se compara. Mas, num dia normal, eu conduzo quarenta quilómetros no Porto e arredores e raramente perco um minuto em filas de trânsito.

Durante todo o ano, aos dias de semana, pela hora do almoço, poiso num bar de praia em Francelos, quinze quilómetros ao sul da cidade, onde vou fazer jogging no passadiço, sobre  a areia e a vinte metros do mar. O espaço que serve de enfermaria de apoio aos banhistas é todo meu para eu me mudar, e tenho duche quente no Inverno. Não é raro sair dali perfeitamente engravatado para uma reunião de trabalho no Porto ou mesmo em Lisboa. Quando a minha mulher às vezes me pergunta por onde é que andei durante o dia, eu respondo: "Estive no paraíso".

Vivo na cidade, mas tenho praia a novecentos metros de casa. No Porto é raro ver um imigrante e os arredores do Porto não têm nada que ver, em termos de integração social e segurança, com os arredores de Lisboa. E, acima de tudo, existe uma pessoalidade no Porto que não se encontra em Lisboa. Há muitos anos que não saio de casa para comprar um fato ou uma camisa nem para levar o carro à revisão.

Por vezes, eu perdia muito tempo a explicar em Lisboa por que é que a obra do Joãozinho era viável  no Porto, mas nunca seria viável em Lisboa. Creio que nem sempre as minhas explicações foram compreendidas. De resto, o Hospital de S. Maria tinha um Projecto equivalente ao Joãozinho - chamado Maria Raposa -  que nunca levantou os pés do chão, ao passo que eu estava agora a poucos meses de começar a construção da nova ala pediátrica do Hospital de S. João.

Os trabalhos de construção estavam divididos técnica e economicamente em duas fases. A primeira - dita de estruturas -, tinha uma duração de nove meses e um custo aproximado de cinco milhões de euros. A segunda - chamada de acabamentos - durava quinze meses e tinha uma custo de cerca de quinze milhões de euros.

A fase de estruturas, no meu fraco entendimento de engenharia, correspondia à abertura dos caboucos da obra e à colocação das estruturas metálicas que iriam sustentar o edifício. A fase de acabamentos correspondia ao levantamento do edifício propriamente dito. Era nesta segunda fase, também a mais cara, que iriam ser necessários a maior parte dos materiais.

Eu estava ainda muito longe desta fase - a obra nem sequer tinha ainda começado - e sem mexer um dedo já tinha recebido das Tintas Barbot a oferta das tintas para pintar o edifício.

A Dra. Luísa Marques da Cifial - filha do Eng. Ludgero Marques, o fundador da empresa e durante muito tempo presidente da AIP, agora AEP - telefonou-me para me dizer que tudo o que fosse necessário para a obra e fosse produzido pela empresa, seria oferecido. Isso incluía torneiras, louças sanitárias, ferragens electrónicas (fechaduras, dobradiças), etc.

Através do F. C. Porto, que viria a revelar-se um dos maiores mecenas do Joãozinho, recebi a informação de que a Revigrés - durante muitos anos patrocinadora de publicidade nas camisolas do clube - ofereceria todos os pavimentos necessários ao edifício.

Aproveitei para ir visitar o Dr. Paulo Nunes de Almeida, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP, antiga Associação Industrial Portuense) o qual, é claro,  conhecia muito bem a obra do Joãozinho.

Ficou combinado que quando se iniciasse a fase de acabamentos - estaríamos na altura a mais de um ano de distância -, a AEP organizaria uma campanha de angariação de materiais para a obra - segundo as especificações da própria obra - junto das empresas suas associadas, que eram praticamente todas as empresas industriais do norte e também algumas de outras partes do país.

Naturalmente, classifiquei a reunião como "Excelente". Quando de lá saí estimei que, dos vinte milhões de euros que a obra custava, entre quatro a cinco milhões viriam através de contribuições em espécie - e a minha estimativa era conservadora.

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