13 fevereiro 2016

Propriedade e pertença

Eu sou proprietário daquilo que fiz por mim próprio, que adquiri ou que me deram. Se eu fiz um copo, eu sou proprietário desse copo; se eu comprei um copo, eu sou proprietário desse copo; se me deram um copo, eu sou ainda proprietário desse copo.

Mas do meu corpo eu não sou proprietário. Eu não o fiz, eu não o comprei, e ninguém mo deu. Entregaram-mo (e quem mo entregou um dia o levará). E constituíram-me fiel depositário dele. O mesmo para a minha personalidade. Eu não me fiz a mim próprio, na pessoa que eu hoje sou influíram imensas pessoas, os meus pais, os meus amigos, os meus professores, todos os portugueses que, por exemplo, me deram uma língua que condicionou a maneira de me exprimir, e até muita gente estrangeira (viva ou morta, como o Kant).

Eu não sou proprietário de mim próprio. Os meus pais referiam-se a mim como "o meu filho". Também sou deles. Os meus netos referem-se a mim como "o meu avô". Também sou deles. A minha mulher refere-se a mim como "o meu marido". Também sou dela. Os meus filhos referem-se a mim como "o meu pai", e os meus amigos como "o meu amigo PA". Também sou deles.

A relação que existe entre uma pessoa e as outras não é nunca uma relação de propriedade. Isso é próprio de culturas esclavagistas, que é o que o Rothbard tem no espírito quando proclama que os pais podem dispor livremente dos filhos. A relação é uma relação de pertença.

Eu pertenço aos meus pais, aos meus filhos, à minha mulher, aos meus netos, às minhas noras, aos meus irmãos, ao meu genro, aos meus empregados (que me tratam como "o meu patrão"), ao Joaquim que me trata como "o meu amigo PA", a todos os portugueses (alguns tratam-me simpaticamente por "o nosso PA"), e a toda a humanidade.

Mas se eu não sou proprietário de mim próprio, se eu pertenço a todas essas pessoas que se referem a mim como "o meu" ou "o nosso", eu não posso dispor de mim próprio por minha livre escolha e alta recriação.

A eutanásia poderá vir a ser aprovada em Portugal e, pelo ar dos tempos, acabará por ser aprovada (poderá agora o mundo ter uma coisa que nós em Portugal não temos...). Mas se é uma coisa racional, não é. Eu não sou dono de mim próprio. Eu pertenço a mim, mas também pertenço aos outros. Sendo assim, eu não posso dispor de mim sem dar cavaco aos outros.  

13 comentários:

Rui Alves disse...

"o que o Rothbard tem no espírito quando proclama que os pais podem dispor livremente dos filhos"

Essa do Rothbard não conhecia eu. Seria interessante traçar um perfil pessoal do fulano através dos contemporâneos que com ele privaram. Um tipo que fala assim só pode ser um narcisista, no sentido mais literal e psiquiátrico da palavra. Deve ter sido um sujeitinho bem execrável.

zazie disse...

Muito bem!

marina disse...

bem , suponho que poderei reclamar direitos de usucapião e fazer o que pensar ser melhor para a minha casca :)

Ricciardi disse...

Certo.
Mas o sofrimento continua a existir independentemente da propriedade do corpo.
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Nos casos de sofrimento físico extremo, sem cura ou possibilidade de reversão, considero um acto de misericórdia. Um acto de bem.
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Rb

Ricciardi disse...

Portanto, se a eutanásia for circunscrita aos casos de misericórdia, dada a irreversibilidade do sofrimento intolerável, devidamente atestada pela ciência (médicos), eu não só concordo como considero um acto divinal.
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E isto nada tem a ver com propriedade, definições e ideologias. Tem a ver com caridade e misericórdia.
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Não sei imaginar as dores dalguns doentes crónicos terminais. Sei que muitos conseguem tolerar a dor porque existem drogas q a ciência produz. E se as houver, enquanto as houver, a eutanásia não pode proceder.
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É como ver morrer alguem agoniado na fogueira de outros tempos ou alguém ser arrastado vivo atrelado a uma pick-up no Afeganistão. Então não seria um acto bondoso tirar-lhes o sofrimento?
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Cristo tinha o poder de curar os enfermos. Fazia-o por misericórdia divinal. Por caridade. E porque Podia. Nós não podemos. Mas temos misericordia. Não podemos curar, mas podemos aliviar sofrimento.
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Rb

PS. Desconheço o projecto de lei em discussão.

zazie disse...

Não sei se a marina sabe que o suicídio não é proibido nem paga multa.

Agora fazer dos médicos carrascos e despachar gente que nem a cuidados paliativos tem direito (porque pura e simplesmente nem existem) é outra coisa.

Como é outra coisa as comissões de "avaliação da qualidade de vida".

zazie disse...

Quem quer fazer caridade que a faça e tenha coragem para tal, olhos nos olhos- não se descarte para quem jurou ter como missão salvar vidas.

zazie disse...

Se esta merda já vai em cenas de filhos acompanharem as mães que se vão eutanizar pelo seu próprio pé. Ou de jovens com neura que passaram a exigir que os médicos os matem, eu não sei como pode haver gente de tal modo imbecil que se diz católica e acha bom que por cá a trampa da esquerda humanista imponha esta merda.

E imponha por lei, sem sequer haver referendo público.

O grande militante que avançou com isto também é um catolicozinho progressista- o ai Jesus dos bispos- o merdas do Pureza.

zazie disse...

Gente egoísta que espelha nos outros a misantropia própria. Fariseus, todos.

zazie disse...

É verdade, para os que andam sempre com o Papa Francisco na boca.
O que é que ele diz, a propósito? Também diz que é uma "misericórdia divinal" (de experts de bata branca)

Anónimo disse...

Muito bem!

Pedro Sá disse...

Por essa ordem de ideias ninguém pode fazer nada sem autorização geral...

zazie disse...

Falso- o que o PA disse é que ele não é produto dele próprio e o seu ser pertence a mais pessoas.

Quanto à eutanásia, não é escolha pessoal. Isso é suicídio. É exigir que um médico faça isso por si porque a comunidade passou a achar que também servem para isso.

Depois é plano inclinado e os abrangidos já vão nos jovens com neura, sendo que a maioria que o faz são pessoas mais velhas levadas a tal.