14 fevereiro 2016

em público

Aquilo que de mais irritante existe num ambiente cultural dominado pela política partidária, como é actualmente Portugal, é aparecer alguém a falar em público de Deus. Os políticos e militantes partidários detestam que se fale em público de Deus que, na nossa cultura, é falar de uma pessoa histórica e bem concreta - Cristo.

O mensageiro deve preparar-se para o pior: ser visto como um lunático, ser insultado, caluniado e vilipendiado de todas as formas possíveis e imaginárias. Mas não deve estranhar nem deixar-se desencorajar ou intimidar, porque Cristo também foi objecto de tudo isso.

No livro do Paulo Rangel a que me referi no post anterior aquilo que se pretende, afinal, é tirar Cristo do espaço público. Cristo, segundo o autor, não tem nada a dizer sobre política, portanto é irrelevante para a política. Segue-se que o debate público deve prosseguir sem fazer caso de Cristo, isto é,  como se Deus não existisse (etsi Deus non daretur).

Antes de prosseguir, devo dizer que não se deve falar de Deus (Cristo) gratuitamente. Eu admiro Cristo genuinamente, era um homem extraordinário, a tal ponto extraordinário que acredito piamente que ele, além de homem, também era Deus. Ele era o homem que todos os homens gostariam de ser e que todas as mulheres gostaria de ter.

Mas, então, porque é que os políticos partidários não o querem por perto e desejam vê-lo excluído do espaço público? Porque Ele representa um padrão, um termo de comparação, e os faz parecer mal. É essa a razão para a laicidade do Estado de Direito Democrático em Portugal, mesmo se a população portuguesa é católica - o que, curiosamente, torna o Estado democrático nada representativo do povo.

Já imaginou um político partidário a morrer pelo povo como fez Cristo?

Cristo fez vários milagres em favor de pessoas do povo e frequentemente pedia segredo ou discrição. Já imaginou um político partidário a fazer alguma coisa pelo povo sem chamar as câmaras de televisão?

Cristo punha os interesse e o bem-estar dos outros à frente dos seus. Já imaginou um político partidário a fazê-lo?

Cristo dizia a verdade e morreu pelas verdades em que acreditava, era um homem genuíno. Já imaginou um político partidário a falar verdade, a ser um homem genuíno?

Cristo prometia e cumpria as suas promessas. Já imaginou um político partidário a cumprir as suas promessas?

Cristo pregava o amor aos outros. Conhece algum político partidário que o faça?

Cristo detestava o poder  ("O meu reino não é deste mundo"). Conhece algum político partidário que deteste o poder?

Cristo nunca se aproveitou, em benefício próprio, da influência que tinha sobre o povo. Conhece algum político partidário que não o tenha feito?

Cristo detestava leis e cuidou de eliminar muitas delas. Conhece algum político partidário que não esteja desejoso de fazer mais uma lei para além daquelas que já existem?

Cristo não cuidava de ser popular, porque a verdade nem sempre é popular. Conhece algum político partidário que não ponha a popularidade acima de tudo?

Cristo enfrentou sozinho, como homem  valente que era, os seus adversários, e acabou por morrer. Conhece algum político partidário que enfrente sozinho os seus adversários?

Cristo assumiu pessoalmente a responsabilidade por todos os pecados da humanidade. Conhece algum político partidário  disposto a assumir a responsabilidade sequer pelos seus próprios actos?


Uma última questão: deve-se falar de Cristo em público, só para irritar os políticos partidários? Não, não se deve fazê-lo por essa razão. Deve-se falar de Cristo em público porque a mensagem de Cristo é uma mensagem do bem-comum, Ele próprio pregou em público e era uma figura pública, e encorajou os seus discípulos a pregar em público. Aquilo que devemos também fazer - e que Ele certamente aprovaria - é lutar contra aqueles que pretendem que não falemos dele em público.



16 comentários:

José Lopes da Silva disse...

Salazar e Cunhal.

José Lopes da Silva disse...

Não é por acaso que foram os 2 mais votados como os maiores portugueses de sempre.

Pedro Sá disse...

O Estado para ser representativo do povo não tem que ser laico nem deixar de o ser, isso não tem nada a ver.

Rui Alves disse...

"Ele era o homem que todos os homens gostariam de ser e que todas as mulheres gostaria de ter"

Eheheheh! Acha mesmo? Estou a imaginar...

"Ontem passaste o dia a rezar e a fazer milagres. Afinal quando é que me matas os frangos?"
"Não acredito! Vais sair outra vez para pregar? A que horas voltas?"
"O quê? A Jerusalém!? Fazer o quê? Com quem? Quanto tempo?"
"Derretes-te todo por aquela Maria Madalena..."

Anónimo disse...

Pedro Arroja: Muito bom!

Harry Lime disse...

Mas, então, porque é que os políticos partidários não o querem por perto e desejam vê-lo excluído do espaço público?

Porque há quem acredite na sua divindade e quem não acredite. Porque essa crença é algo da esfera privada do individuo.

Desse ponto de vista, poderei fazer outra pergunta: porque havemos de trazer para a esfera publica e não, suponhamos, Maomé? Estou certo de que Maomé também era um um padrão, um termo de comparação, e [que] os faz parecer mal.

Aliás, há aqui um equivoco no PA: não é nas sociedades catolicas e personalistas que se fala abertamente e sem pudor de Cristo: é nas sociedades protestantes (vejamos o exemplo das Igrejas Evangelicas nos paises protestantes).

Nos paises catolicos do sul da Europa, a forma tradicional de demonstrar a crença é pela pratica concreta: os crentes vão à missa, os crentes seguem os preceitos da Igreja (os seus Sacramentos e as suas praticas) e respeitam a instituição mas raramente são vistos "a invocar o nome de Deus em vão". Mesmo no Salazarismo havia presença da instituição da Igreja em muitos actos oficiais mas o proprio Salazar raramente falava em Cristo ou em Deus e na Igreja apenas falava nos termos de uma instituição que deveria ser respeitada.

Nos paises protestantes (e já agora, só nos paises anglo-saxonicos... porque na alemanha ou na Suecia ou na Dinamarca não se vê nada disso) é que se fala de Deus e de Cristo a toda a hora: os presidentes do EUA juram sobra uma Biblia, a Rainha de Inglaterra é a lider da Igreja Anglicana, os ateus passam o tempo a barafustar, os evnagelicos passa o tempo a barafustrar... toda a gente fala de Deus a toda a hora!

No pais catolico a sério (e não na idealização imaginada pelo PA) estas coisas não acontecem e são consideradas de mau gosto. Mesmo por não-crentes, como eu.

Rui Silva

Ricciardi disse...

Bem, há semi verdades misturadas com verdades e uma pitadas de inverdades.
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Cristo não é contra as leis, nem contra as regras. Foi contra, isso sim, quem as interpreta mal. Aliás Ele diz que não veio para mudar a Lei. Veio para acrescentar mais uma dimensão à Lei.
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Para que não se prendam à formalidade da lei, mas que a interpretem no seu conjunto.
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Por exemplo, ele não diz para não guardar o Sábado. Ele diz que as boas obras podem ser feitas em qualquer dia.
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Ele não diz para faltar à missa. Ele diz para, antes de ir à missa, ir fazer as pazes com o adversário.
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Os Fariseus representam a formalidade sobre a substância. A letra morta.
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Rb

Antonio Cristovao disse...

A crença ẃ um assunto sério intimo e reservado. Fazer o que o articulista faz é vergonhoso e ofensivo.

zazie disse...

As procissões e festas sacras populares também devem ser uma vergonha que devia ficar fechada em casa.

Cambada de jacobinos de merda a quem não incomoda a trampa partidária em sessões de esclarecimento

zazie disse...

Privada devia ser a vossa estupidez mas nem é. Expõe-na publicamente na net.

Ricciardi disse...

Interpretar a mensagem de Cristo, ou como Ele faria e reagiria, não é tarefa que a Igreja deixe ao criterio dos leigos. São matérias cuja interpretação só pode ser feita pela Igreja. Caso contrário entramos no protestantismo. Não é bom nem mau. É o que é.
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De certa forma, a própria Igreja, pode estar a incorrer nos mesmos vícios farisaicos.
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Como é que podemos avaliar, então, se aquilo que a Igreja interpreta, ou aquilo que os fariseus de outrora interpretavam, é coisa boa ou má à luz dos ensinamentos de Cristo? A resposta é o proprio Jesus que a dá: Pelos frutos.
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Nem sempre os frutos produzidos pela Igreja foram bons. Há bons e abundantes exemplos pela historia, evidentes, do afastamento da Igreja das lições de Cristo. Às vezes até dá a sensação que foi tomada por demónios.
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O que é que Cristo me ensinou, então. A desconfiar e nunca aceitar como verdade as determinações de quem quer que seja. Até alertou bastante para os falsos profetas e aquilo que em seu nome iriam fazer.
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Pelos frutos.
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Rb

marina disse...

o PA está falando fazendo referencia a um livro de Rangel em que este afirma que Cristo é apolitico ; o PA tenta demonstrar o contrário. onde está a vergonha ?
e aliás , esconder Cristo , retirá-lo da esfera pública , é que tem sido vergonhoso.

arriba Putin :)

Euro2cent disse...

> Privada devia ser a vossa estupidez mas nem é. Expõe-na publicamente na net.

O camarada H.L.Mencken, há cerca de um século, quando o governo federal americano era bem mais barato, fez as contas ao que custava cada "member of Congress", e escreveu "onde é que se é tão bem entretido por tão pouco dinheiro?"

Agora, entre a TV e a internet, já sabemos. Ainda bem, porque os deputedos estão caríssimos e não topam peva de retórica, mal conseguem alinhavar um insulto soez com três assessores, dois motoristas e uma lanterna.

> arriba Putin :)

A ala feminina ainda vai deixar as desalmas bem pensantes à beira de um ataque de nervos. Olhe que esse é contra a liberdade, cruzes, canhoto, arrenego Satanás. Tem de ser esconjurado rodando três vezes à volta de um candeeiro em sentido contrário ao ponteiros do relógio.

É quase a única coisa racional e iluminada a fazer nestes casos. Mas o blog dos Chicos Fininhos também publica regularmente objurgações, recite-as em voz alta, que ajuda muito.

;-)




zazie disse...

";O)

Anónimo disse...

Não sabia que o Professor Pedro Arroja estava de volta ao blogue.
É bom vê-lo por aqui novamente.

Será bom voltar a ouvir a sua opinião sobre as mais importantes questões.
Sou ateu, mas o PA sabe disso e tolera-me.

Numa coisa acho que concordamos: Os portugueses - Portugal - terão de voltar à pobreza para fugir da miséria.
Ao longo dos séculos foi essa a história da nossa nação. Foi essa virtude que nos fez crescer e sobreviver.

Cumprimentos calorosos de um fiel leitor seu.
E como sempre pobre...

D. Costa´

Harry Lime disse...

As procissões e festas sacras populares também devem ser uma vergonha que devia ficar fechada em casa.

Cambada de jacobinos de merda a quem não incomoda a trampa partidária em sessões de esclarecimento


zazie,

Não se trata de jacobinaria (sempre a mesma cassette mesmo sem ler o que as pessoas escrevem).

Nos paises catolicos o exercicio da religiao faz-se no contexto definido pela Igreja (que às vezes está certa e outras não, mas isso é outra discussão). E as procissões e as festas sacras fazem parte deste contexto.

Por isso, falar de Deus fora do contexto definido pela Igreja, no contexto do debate politico, por exemplo, é uma pratica não catolica e avessa à nossa tradição (nem mesmo Salazar o fazia)

Por isso desconfio que o catolicismo do PA é uma especie de "protestantismo": uma interpretação individual da palavra de Deus que, por acaso, coincide com a da Igreja Catolica.

Rui Silva