11 julho 2014

O Economista Insurgente e a saúde


Ontem a I. estava desiludida com “um dado importante” que um Economista Insurgente citou para explicar a existência de listas de espera em Portugal: o facto de 95% das cirurgias efectuadas implicarem internamento (enquanto a média europeia é de cerca de 70%).
A questão tornou-se quase pessoal porque a I. é diretora de uma unidade de cirurgia ambulatória e portanto conhece bem a nossa realidade. Em Portugal, mais de 50% das cirurgias são realizadas em ambulatório. Não 5, mas 50!
Fui ver se seria um erro tipográfico, mas não. Todo o raciocínio partia de dados errados.
Passei então os olhos pelos restantes capítulos relacionados com a saúde e confesso que fiquei desiludido. Os problemas são analisados a um nível micro quando, na realidade, são de natureza estratégica, isto é: macro.
·      Por que é que há falta de médicos em Portugal?
·      Por que é que não há médicos desempregados?
·      Por que é que faltam médicos?
·      Por que é que existem listas de espera?
·      Por que é que não há mais enfermeiros?
·      Por que é que tantas crianças nascem de cesariana em Portugal?
·      Por que é que os médicos não gostas de genéricos e os farmacêuticos gostam?
·      Por que é que as farmácias aceitam que o Estado acumule tanta dívida?
Perguntam os insurgentes.
Eu explico: por causa da m”#$a do Estado estar metido onde não deve; ponto final.
-       Já viste algum economista desempregado? ‹‹perguntei à I››.
-       Realmente...
-       Porque vivem de criar narrativas para explicar o óbvio. Inventam os problemas e as respectivas soluções.
Os problemas da saúde não se resolvem com melhor gestão, melhor alocação de recursos, melhor sistema de incentivos ou melhor gestão de recursos humanos. Só se resolvem quando acabarmos com o sovietismo.
·      Por que é não há falta de padarias?
·      Por que é que não há listas de espera para o pão?
·      Por que é que não há falta de farinha?
·      Por que é que não há falta de fermento?
Pergunto eu.
Não há mas já houve, nos países que produziam o pão como nós produzimos os serviços de saúde. Será preciso explicar mais?

10 comentários:

Anónimo disse...

Sovietismo? Há falta de médicos em Portugal? Listas de espera? O joaquim está enganado:

http://www.guianet.pt/pt/cat/listar/6638/clinicas-e-hospitais-privados

Havia tanta variedade na União Soviética? Há por cá mais médicos e clinicas do que padarias. O problema é que os portugueses juntam-se todos no mesmo sítio, vá lá saber-se porquê, e assim é que se formam as filas e listas de espera. Deve ser falta de informação, organização, sei lá eu.

Rui Alves disse...

"Não há mas já houve, nos países que produziam o pão como nós produzimos os serviços de saúde."

Tem a certeza? Olhe que os venezuelanos devem ter uma opinião diferente da sua. Claro que qualquer semelhança entre a Venezuela e os países que mencionou é claramente pura coincidência.

http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2014-05/falta-de-farinha-de-trigo-leva-ao-fechamento-de-padarias-na-venezuela

Luís Lavoura disse...

Essa de misturar medicina com economia e com panificação é uma mistura insana.

A medicina nada tem a ver com a panificação, porque a saúde é um bem com caraterísticas muito peculiares. Por exemplo, emquanto que uma pessoa sabe perfeitamente quanto e que pão quer comer, as pessoas em geral não sabem de que tratamentos médicos necessitam - precisam que um médico lhes diga. Ou seja, em matéria de saúde o consumidor (paciente) está em larga medida nas mãos do fornecedor (médico).

zazie disse...

Os médicos são os maiores devoristas.

Sovietismo é com eles. Porque é assim que sustentam as suas clínicas "privadas".

zazie disse...

Porque é que não há médicos desempregados?

Boa pergunta- porque é a maior mama da função pública.

MBM disse...

Caro Joaquim,

Os dados são públicos. Embora admita que possam estar eventualmente errados, entre a informação oficial disponibilizada e a informação da sua colega I. (que parece levar o assunto como pessoal), terei de continuar a dar mais crédito à oficial. Possivalmente a diferença está na definição de "intervenção cirurgica" ou de "internamento". Mas quando confrontados com dados que o PORDATA fez o esforço de reunir para comparação, parece-me razoável tomá-los como certos.

Há, além disso, vários equívocos no seu comentário:

1) O raciocínio não "parte" destes dados. Parte da observação inequívoca de que a produtividade médica em Portugal é baixíssima. Vai depois à procura de possíveis explicações, nomeadamente a utilização dos blocos operatórios e porque serão estes subutilizados.
2) A abordagem micro é deliberada e transversal a todos os capítulos do livro. O nosso objetivo é explicar a realidade, não desenhar ou propor modelos alternativos. Se começassemos por explicar abstrações estratégicas, rapidamente nos contraporiam que o assunto é complexo, e que não pode ser sobresimplificado, etc.
3) Como seguramente imaginará, não precisa de explicar a nenhum Insurgente onde o estado deve ou não estar metido. Nem nos avisar sobre os problemas do "sovietismo".

Cumps,
MBM

Anónimo disse...

Caro MBM,

Obrigado pelo seu esclarecimento. Fico contente por estarmos de acordo sobre a causa das causas. Não tinha ficado com essa impressão da leitura dos capítulos sobre a saúde.

A taxa de cirurgias ambulatórias em Portugal, definidas como tendo uma permanência hospitalar inferior a 24 h é superior a 50%. Diga a Pordata o que disser.

ABÇ
Joaquim

Anónimo disse...

Caro MBM,

A I. pede-me para lhe deixar este link:

http://portal.arsnorte.min-saude.pt/portal/page/portal/ARSNorte/Conte%C3%BAdos/Not%C3%ADcias/CNADCA_Julho2009.pdf

A taxa de 50% já foi atingida em 2009

Segundo dados do Ministério da Saúde

Mas não nos vamos perder com pormenores, o importante é que estamos de acordo no essencial.

ABÇ
Joaquim & I.

Anónimo disse...

Porque é que não há médicos desempregados?

Boa pergunta- porque é a maior mama da função pública.

A segunda são os professores.

zazie disse...

Pois são, acredite. Depois de médicos a grande mama são os profs.

À frente desses todos estão os gestores.