08 dezembro 2013

a liberdade de morrer

Aquele peso que saiu de cima dos meus ombros em Glasgow ganhou um novo significado três semanas depois já em Portugal.

Nesse dia de muito mau tempo, um filho meu tinha ido em trabalho a Lisboa. A meio do dia telefonaram-me da Editora, em Lisboa,  a dizer-me que tinham acabado de receber da Gráfica o livro da "F." Eu informei o editor que ia pedir ao meu filho para passar por lá para mo trazer.

Eram cerca das dez da noite e estava um imenso temporal quando recebi do meu filho um telefonema a dizer-me que estava na Mealhada e que em cerca de uma hora passaria por minha casa para me deixar o livro:

-Mas tu não foste de comboio?

-Não. Vim de carro.

-De carro na estrada com este temporal, depois de um dia inteiro de trabalho?

-(...)

-... Não te esqueças que tens filhos pequenos...

Passada uma hora ele tocou à campainha da minha casa no Porto, e eu desci para receber os primeiros exemplares do livro da "F.". Ele passou-me o saco com os livros para a mão mas nem falou neles. Estava muito impressionado. A cerca de trinta quilómetros do Porto tinha passado por um acidente horrível, muito provavelmente motivado por essa combinação fatal que é a chuva e a velocidade, e provavelmente também pelo cansaço de um dia de trabalho e a pressa de chegar a casa.

No dia seguinte, encontrámo-nos de novo, e ele continuava a falar do acidente, de tão impressionado que estava. Eu ouvi-o outra vez com atenção. Até que lhe disse:

-Olha, tu estás assim impressionado porque te viste a ti próprio naquela situação ... No fim de contas tu também andavas naquela estrada àquela hora e com aquele temporal ... Podia ter-te acontecido a ti... Foi um sinal de Deus.

E acrescentei:

-Ouve o que te digo: nos próximos vinte anos, pelo menos, tu não podes morrer.

E foi então que, apontando o dedo indicador para mim próprio disse com a maior espontaneidade:

-Eu é que já posso, eu é que já tenho a liberdade de morrer.

Foi uma descoberta extraordinária e que me deixou imensamente feliz, ter sentido, pela primeira vez,  essa liberdade que eu desconhecia existir, e que é uma liberdade maravilhosa - a liberdade de morrer.

Agora, quando calha na conversa, eu digo a quem me ouve: "Eu já sou livre de morrer".

Morrer passou a ser para mim uma festa,  o culminar de uma grande aventura.

18 comentários:

marina disse...

chegou à meta livre que nem um passarinho :) grande percurso.

zazie disse...

Está maluquito. Aos 60 não se pensa nisso.

zazie disse...

A essa idade andava o meu pai a fazer mais filhos a uma garina da minha idade

ehehehe

marina disse...

acho que não percebeste , Zazie. o PA perdeu o medo de morrer , não está a pensar em morrer :) e qualquer idade é boa para isso , para perder o medo . há é idades e situações em que se morrermos deixaremos pessoas que ainda precisam muito de nós. não só perdeu o medo de morrer , como já não precisa de temer pelos seus.

zazie disse...

Marina: ninguém perde o medo de morrer.

Nem os que vão para a guerra.

Pode é achar que já não está agarrado à vida por a ter passado aos descendentes.

Mas ninguém perde o medo de morrer, a menos que fique inconsciente.

zazie disse...

Mas v.s são malucos; vivem de palavras, acreditam em qualqeur patranha que inventem.

O PA não é nenhum místico para perder o medo à morte aos 60 anos.

Eu acho é que ele está a retirar-se, o que é outra coisa.

Já não pensa tanto no aeroporto com o nome dele. Está numa de pater familias.

zazie disse...

E os filhos precisam de nós até ao fim.

E mais ainda em adultos que em crianças.

Para tudo. Porque a vida não se resume a curriculo académico, emprego e carteira cheia.

A roda da vida está sempre a girar e o PA sabe disso. Foi a Fátima por ser preciso.

marina disse...

eu não tenho. nem me servia de nada ter. penso que há mais pessoas assim. medo da dor e da doença ou da forma de morrer , é outra conversa.

zazie disse...

Como é que sabes?

Isso é da boca para fora.

Até os suicidas têm.

Só se sabe em situação limite quando a morte pode rondar.

Agora com saúde, é galga.

zazie disse...

Pode-se é não ter medo. Por maluqueira, por inconsciência, pode-se temporariamente perder a noção de medo.

Creio que em muito jovem cheguei a esse ponto.
Mas era puro aventureirismo. Agora até tenho medo de atravessar ruas.

zazie disse...

Há fases na vida que dão ideias e enganos diferentes de outras fases.

Pode-se viver em paz e ir ficando desapegado.
Mas se houver ameaça de doença toda a gente procura tratar-se.

Não ter medo da morte seria em situação de doença deixar ir.

Ou por velhice consciente.

Mas os velhos quando enquanto estão conscientes ainda se agarram mais à vida.

Como tendem a ficar marados, depois nem se lembram da morte e contentam-se com qualquer pequeno nada.

Agora 60 anos não é idade para nada disso.

Há-de ser para outras coisas, como carreira e outras que variam- nalguns ainda lhes dá mais forte a zoneira

":OP

zazie disse...

"Medo da forma de morrer".

Toda a gente diz isso em nova.

É boutade. Ninguém sabe nem pode alterar forma nenhuma.

É como quem jura a pés juntos que nunca pintará os cabelos brancos ou outros que garantem que se ficassem dependentes de terceiro preferiam morrer.

Tretas- preferem é que tomem conta deles e geralmente pintam os cabelos até se deixarem de ver ao espelho.

zazie disse...

Eu gosto do instinto de vida.

Nunca conheci ninguém que não tivesse medo de morrer porque isso é mentira.

Mas conheço quem se retire da vida antes de tempo- os que ficam taciturnos e se vãop fechando para o mundo, por acédia.

Acho uma cretinice gigantesca.

Prefiro ver um velho marado a querer sair da cama mal acorda- por instinto de vida- e a querer comer e tudo o mais, mesmo que nem tenha consciência do que se passa à volta- mesmo que nem oiça ou quase nem veja.

Porque a vida é uma dádiva. A morte só tem sentido para os que acreditam que vão estar face a face com os deuses.

E mesmo esses... bem que preferiam adiar o encontro.

Anónimo disse...

Zazie, pelos escritos eu confio que Vexa tem medo de morrer. Como eu. Eu se "souber" que vou morrer, borro-me de medo. Mas, se conseguir pensar, mando o medo às malvas porque tenho Deus comigo, à minha espera. Dizem os Santos e os Sábios que a maior felicicidade é ver a Deus, "olhos nos olhos".
Ámen.
Com muito apreço por si,
eao

Anónimo disse...

Depois da parte séria vem outra, séria à mesma mas mais ligeira. Ando há uns 5 anos (já vou no 71o ano da minha vida) a pensar em quem darei 5.000 euros (1.000 contos) para pagar um jantar (UM SENHOR JANTAR) para comemorar, como o Povo diz, "ir desta para melhor".
eao

Vivendi disse...

Quem tem experiências fortes perto da morte ou até de pessoas próximas esse medo vai esmorecendo e passa a ser algo de aceitação natural. Mas é verdade que no fundo interior esse medo nunca desaparece pois o ser humano vive em estado de alerta pois são imensos os perigos que enfrenta no mais simples dia-a-dia.

zazie disse...

Pois, se calhar reagiria assim.

Sei que sou cool porque já estive em situação de perigo e não fiquei histérica.

Mas tenho bruto gosto pela vida e tenho quem precise de mim bem vivinha da silva.

O que eu queria dizer é que detesto a acedia.

E não sou assim mística como a marina para "estar preparada"

(também nãop charro ahahahahahah)

zazie disse...

Quanto aos santos e assim, depois da morte, não sei. Por isso é que eu digo que nem sei muito bem o que é fé porque acredito sem esses êxtases de certezas.

O que sei é que faço por aceitar o meu dever cá em baixo. E cumpro isso sem lamurias.