21 outubro 2013

um destruidor

Casamento e Fusão Moral

Na vida conjugal, o casal só deve formar de certo modo uma única pessoa moral, animada e governada pelo gosto da mulher e pela inteligência do homem. Se as mulheres mostram mais liberdade e fineza no sentimento, em compensação os homens parecem mais ricos no discernimento que a experiência dá. Acrescentemos que quanto mais um carácter é sublime, mais ele tende a fazer todos os seus esforços para o contentamento do ser amado, e é característico de uma bela alma responder a isso com complacência. Sob essa relação, toda a pretensão à superioridade seria, portanto, inepta e reveladora de um gosto grosseiro ou de uma união mal sucedida. Tudo se perde quando se disputa o comando. Pois uma vez que a união repousa na inclinação, ela é meio rompida assim que o dever começa a se fazer entender.

Um tom duro e impiedoso é um dos mais detestáveis nas mulheres, um dos mais vis e desprezíveis nos homens. O sábio comando da natureza quer, além disso, que toda essa delicadeza, toda essa ternura de sentimento só tenha plena força no começo, em seguida a vida em comum e os afazeres domésticos vêm enfraquecê-la, pouco a pouco, e transformá-la em amizade familiar. A grande arte, enfim, consiste em salvaguardar do primeiro sentimento alguns vestígios, de modo que a indiferença e a saciedade não tirem todo o prazer que por si só justificava essa união.

Emmanuel Kant, in 'Observações sobre o Sentimento do Belo e do Sublime'

 

Eu pretendo agora utilizar este texto para ilustrar a mistura de verdades, falsidades, meias- verdades ou meias-falsidades, pequenas porções da verdade ou grandes porções de falsidade, e omissões  em que consiste a típica salada kantiana.

Na vida conjugal, o casal só deve formar de certo modo uma única pessoa moral...
(Verdade)

... animada e governada pelo gosto da mulher e pela inteligência do homem.
(Falso. Repare na depreciação que é feita da mulher: o homem aos comandos e a mulher com funções decorativas. Seria interessante ver a inteligência do homem a decidir  quantas vezes por dia, e a que horas, a mãe dá a maminha ao bebé. A verdade é praticamente ao contrário: animada e governada, em primeiro lugar pela mulher,  com a cooperação do homem, e, em segundo lugar, pelo homem, com a cooperação da mulher).

Sob essa relação, toda a pretensão à superioridade seria, portanto, inepta e reveladora de um gosto grosseiro ou de uma união mal sucedida
(Falso. O casamento é visto como uma relação entre iguais. A  verdade é ao contrário, trata-se de uma relação entre diferentes, um homem e uma mulher. Em consequência, gera-se espontaneamente uma hierarquia que acontece ser, no caso do casamento, a mulher ser mais importante do que o homem)

Tudo se perde quando se disputa o comando
(Meia-verdade e meia-falsidade. Se o comando é disputado, na verdade, tudo se perde. Mas a verdade é que o comando não é disputado, é repartido - a mulher comanda em certas áreas da vida conjugal e o homem comanda noutras, as primeiras mais numerosas e importantes que as segundas).

A grande arte, enfim, consiste em salvaguardar do primeiro sentimento alguns vestígios, de modo que a indiferença e a saciedade não tirem todo o prazer que por si só justificava essa união.
(Só uma muito pequena porção da verdade, e uma muito grande omissão. Supõe que o casamento assenta exclusivamente no amor romântico, de que o sexo também faz parte.  O casamento assente no amor romântico é, na verdade, um plano inclinado  que em pouco tempo chegará ao fim. A verdade, porém, é que, embora normalmente comece pelo amor romântico, não se esgota aí. Os esposos têm depois o potencial para criar uma infinidade de factores de união, e o principal, obviamente são os filhos).

Procure ajustar o seu casamento à descrição normativa  que dele faz o Kant e vai ver no que é que isso vai dar.

O Kant é, de facto, um destruidor. Se ele consegue destruir a família, que é a comunidade onde as relações pessoais são mais fortes, o que esperar de outras  comunidades mais alargadas - como a nação portuguesa - onde as relações entre as pessoas são, inevitavelmente, mais ténues?


12 comentários:

marina disse...

o pior de tudo é isto :

"Acrescentemos que quanto mais um carácter é sublime, mais ele tende a fazer todos os seus esforços para o contentamento do ser amado, e é característico de uma bela alma responder a isso com complacência "

muito romance de cavalaria deve ter lido o kant.

zazie disse...

marina:

Tens alguma ideia do significa a diferença entre Belo e Sublime.

Leste o Longino?

O u o Burke?

Aposto que não, tal como o PA.

Aqui fica um mini-resumo


http://hbarbas.tripod.com/Sublime_H_Barbas.pdf

zazie disse...

É impressionante a ignorância universitária.

Acho-a mil vezes mais grave que o analfabetismo campestre

":O))))

Anónimo disse...


Num post anterior (Maria Ratzinger):
"ela admira nele o poderoso intelecto".

Admirar a capacidade mental de alguém é uma coisa, compreender essa mesma capacidade mental é outra realidade.
Da mesma forma que uma mãe ama um filho pelo facto de ser SEU, independentemente das suas capacidades ou acções.

A matéria é bastante complexa e de certa maneira creio ser errado tentar criar uma epistemologia sobre o assunto. Não há, simplesmente e filosoficamente, qualquer epistemologia possível sobre o tema (como por exemplo a relação amorosa entre homem e mulher).

Se considerarmos a realidade moral dos nossos tempos e essa coisa absurda chamada o "dever de verdade", apenas uma coisa podemos confirmar:
ao longo da história o tema da mulher sempre foi tratado pelos filósofos de uma forma "piedosa",
para evitarem serem acusados de deselegância.

julgo que o texto de Kant é mais uma confirmação disso mesmo.

D. Costa






marina disse...

desculpa lá Zazie , mas o kant parece o don quixote a falar da dulcinea , não tem nada de sublime , é só tótó. estamos a falar da vida real , não da imaginária. é isso e a sagrada familia como modelo , ospois suicidam-se aos magotes e andam todos deprimidos no natal , oq as familias não corresponedem ao ideal mítico.
Perdes a cabeça com o Kant , Zazie :) estarás apaixonada ?

marina disse...

toma lá uma história para te rires. é deliciosa. roubei ao vitor ruas

UMA PERGUNTA DIFÍCIL...

...o Jorge Lima Barreto foi o licenciado mais novo de Portugal, naquele tempo, e começou cedo a dar aulas de história de arte no Porto; as suas aulas tinham imensos alunos; dava aulas num anfiteatro e este ficava sempre cheio; a sua fama académica teria começado quando apareceu de pijama e cabelos compridos para defender uma tese; um dia, no exame final da sua disciplina, disse aos alunos que podiam trazer os livros que quisessem no dia do exame; os alunos nem queriam acreditar na sorte deles; aquilo a que hoje chamamos de "exames com consulta" não era habitual naquele tempo; chegou o dia do exame; os alunos entram e o Jorge em vez de distribuir os exames, tirou um pano preto do quadro, e lá podia-se ler: "Faça uma pergunta a si próprio"; este era o exame do Jorge; lá começaram, e o Jorge disse: "Têm duas horas"; passados uns quinze minutos, o Jorge ouve uma miúda a chorar; vai até ao pé dela, e ela soluçava abundantemente; o Jorge vira-se para ela e pergunta-lhe: "Você fez uma pergunta difícil, foi?"...

zazie disse...

marina:

Não sejas palerminha.

Eu pura e simplesmente detesto kant na proporção directa em que admiro o Nietzsche.

E apenos perco um bocadinho a paciência com o atrevimento da ignorância.

o Kant está a aplicar as categorias estéticas de Belo e Sublime.

E essas categorias não se traduzem em linguagem comum, como tu imaginas.

Deixei o pdf para dares conta.

zazie disse...

Eh, tem piada essa do Lima Barreto.

Conheço outra dele que também é verídica.

Foi convidado para dar um curso e limitou-se a tentar vender um livro dele.

No final do ano não tinha um único aluno.

Quando o responsável pelo convite lhe perguntou como tinha sido a experiência ele respondeu, com sotaque do Porto:

"Foi muito coole".

marina disse...

é muito gira a história , deve ser passado de todo.

então vamos lá ver se percebi: o kant está a fazer um juízo estético do casamento , pensa-se um artista ,um génio , do casamento e vai daí propõe um modelo a seguir pelos simples mortais , como se depreende daqui :

" As ideias do artista despertam no discípulo ideias semelhantes, se a natureza dotou este de faculdades equivalentes. Os modelos da arte são, pois, os únicos guias que
podem perpetuá-los "

não me batas , que está-me a dar para brinca

zazie disse...

O texto tem muita bacoquice.

Mas a ideia é diferenciar a noção de Belo de Sublime.

A dada altura faz uma boa caracterizaçãodo patético, relacionando-o com outra categoria- a do pitoresco.

É um tema que está presente desde o séc. III ao XIX. O romantismo quer dar voz ao Sublime.

Claro que os exemplos não podem ser descontextualizados.

zazie disse...

Devias gostar mais de Petronius que também trata do assunto no Satyricon.

O Flaubert recordou-o.

Olha aqui:
http://www.thefreelibrary.com/The+sublime+and+the+bovine%3A+Petronius'+Satyricon+and+Gustave...-a0192689056

zazie disse...

O bovino e o sublime.

Tinha mais piada se o PA conseguisse brincar com estas coisas.

Mas, para isso, é preciso conhecer um pouco mais que literatura de cordel e conversas de dona-de-casa.