Este é um casamento turbulento, o casamento entre um homem novo, à volta de trinta anos, e uma mulher madura, com cerca de cinquenta - é um casamento entre um Jesuíta (doravante identificado por J. que é também a inicial de Jorge) e a Igreja.
Esta é a mais difícil e a mais extremada de todas as relações conjugais, entre um homem novo, ainda por cima um intelectual, e uma mulher madura. Tão depressa, uma noite, podem viver a maior paixão, como no dia seguinte, logo de manhã, estarem a insultar-se um ao outro, ela desprezando-o como um miúdo imaturo, ele desconsiderando-a como uma velha chata.
O casamento já passou por várias crises, e o divórcio até esteve iminente. Foi quando ela o pôs fora de casa. Ele andava envolvido com uma mulher mais nova, da idade dele - a Igreja luterana. A aventura não durou muito tempo, ele não se deu bem, e veio bater de novo à porta de Maria. Ela recebeu-o, mas as cicatrizes deste episódio ainda vivem no espírito de ambos. E ela desconfia sempre que ele lhe sej infiel.
O que é que mantém este casal junto, o que é que Maria vê em J. e J. vê em Maria?
Maria aprecia-lhe a fogosidade, o brilhantismo intelectual, mas desconta-lhe a imaturidade. J. aprendeu com a outra mulher por que é que não pode passar sem Maria. Ele é um intelectual, ele sabe que é dado a fazer asneiras, a deitar tudo abaixo para depois fazer tudo de novo. Neste aspecto, quando viveu com a outra mulher - uma alemã, que também era intelectual -, foi um fartote, juntou-se a fome com a vontade de comer. Deitaram tudo abaixo, incluindo a sua própria relação. Maria, pelo contrário, dá-lhe o equilíbrio que ele sabe que a sua impetuosidade precisa. Dá-lhe maturidade.
Ela conhece-o como as mãos dela, já tem filhos da idade dele. Conhece-lhe os gostos filosóficos e literários, já não pode ouvir falar no Kant e conhece o "Crime e Castigo" quase de cor de tanto ouvir falar nele. Aconteceu um dia que o J. estava a ler em voz alta uma passagem particularmente tortuosa do Kant, que iria citar numa conferência no dia seguinte, enquando a Maria estava distraída. Foi quando, de repente, ela lhe perguntou:
-Oh J., não me digas que foste tu que escreveste isso...
-Não... foi o Kant...
-Ah... estava a ver ... o que é que as pessoas iam pensar de ti...
O J. sai frequentemente à rua, já não consegue mais estar em casa a aturar aquela chata, Maria. E não se coíbe de dizer cá fora os ressentimentos que alimenta em relação à mulher. Às vezes, dá-lhe vontade de ir a casa, partir aquilo tudo e substituir a velha por uma mulher da idade dele. Ainda por cima a velha tem a mania de guardar tudo, aquela casa parece um museu, ela guarda até recordações de uma época em que ele próprio ainda não era nascido.
E quanto aos amigos de Maria, que têm a idade dela? Ele não pode com eles, são uma cambada de velhos interesseiros, ainda por cima ele sabe muito bem que eles dizem mal dele à mulher, que é uma pena uma mulher como a Maria estar casada com um puto como ele.
J. adora falar em público. Ele é um intelectual brilhantíssimo capaz de convencer multidões. É nestas alturas, ao ouvi-lo, que Maria o contempla com mais amor, um amor quase maternal, e desconta a sua imaturidade, aquela sua extraordinária capacidade para falar sobre coisas de que não sabe e para misturar verdades com mentiras sem se dar conta disso.
Sim, às vezes, esta relação torna-se uma relação quase maternal. É nestas alturas que Maria é capaz, não já de influenciar, mas literalmente de manipular e pôr inteiramente ao seu serviço a juventude, a fogosidade, todas as qualidades intelectuais do J. E levá-lo a fazer coisas mais extraordinárias em nome dela, ainda que cheias de riscos.
Nestes momentos, Maria não pode deixar de o contemplar com um sorriso maternal: "Não há missionário como o J... ninguém é tão capaz de morrer por mim como ele...".
12 comentários:
Outra coisa ninguém tira ao PA, é o jeito para analogias com piada.
Analogias contorcionistas, em boa verdadr.
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Rb
Em suma, os solteiros podem nao estar verdadeiramente solteiros. Os padres, por exemplo. Casam-se com a igreja.
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É um casamento, digamos, espiritual. Mas aquelas caracteristicas primeiras q o Pedro salientava tem a ver com a figura do homem pai de familia. Com filhos e tudo. Eu sei, os padres tem filhos espirituais q somos todos nós, mas caramba, nao tem aquela responsabilidadezinha de prover o sustentozinho. Muito menos aquelas noites acordado qdo as crias tem febre.
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E no entanto, nao tendo q passar por essas coisinhas todas mundaninhas, os padres podem ser bons pensadores.
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Os poetas solteiros, tambem eles, deduzo, sao casados tambem. Com as musas. Silienciosas, mas influentes.
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Rb
eu vejo a Maria como rainha , o bento rabiando por ser o seu richelieu , o paco contente por ser seu soldado :)
Rb,
até o Kant era casado, veja lá. Chamava-se Sofia (peço desde já desculpa pela pinderiquice da analogia, mas eu não tenho os dotes do PA).
ah , está explicado o Kant ! metido num casamento poliândrico devia andar sempre muito confuso :)
Pois, a Sofia.
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E qdo se fartava da grega Sofia, q dizem q era assim pró frigida, parece q ia ao bordel mais próximo a ver se encontrava a Minerva, uma italiana q o tranquilizava.
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Rb
O grande problema da Sofia é que é estéril e portanto não pode dar descendência de sangue ao Kant, mas nada disso impediu o casal de adoptar um montão de filhos. Ainda hoje anda por aí a sua descendência, eu não conheço muitos mas o PA jura que eles andam por todo o lado e não são de confiança.
a Sofia não é frigida... lá pró oriente até é muy caliente e ensina que homem que nunca entrou no feminino não tem acesso à Unidade e então só pensa parcial ,
como o Kant :)
Bem, mas a descendencia de sangue é menos importante do que descendencia de espirito. Ha pessoas q deixam um legado fantastico para a humanidade. Aristoteles por exmplo.
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Um gajo quer lá saber dos aristotelezinhos.
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Ele eternizou-se pelo o que ele foi e nao pelo sangue.
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Rb
Do mesmo modo que os arrojinhas podem nao ser a continuidade do arroja. Na volta eterniza-se pelos maus motivos. Daqui a 200 anos ele pode ter um descendente marado. Um mass murder arrojado. Um pauliteiro de miranda. Um kantiano. Gay. Eu sei lá. Ou pode ter um economista que pense exactamente o oposto do ascendente arroja.
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Portanto, o q o arroja pode deixar de interessante nao é filhos nem netos nem bisnetos, porque isso deixa toda a gente, mas sim as ideias e o espirito.
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Ah mas a minha descendencia vai ser a minha continuidade e aquilo q eu sou é aquilo q eles vao ser.. E eu digo, nao vai nada. A influencia de um pai vai para o filho q depois a reparte com a influencia com os avós da parte da mae e assim sucessivamente pelas geracoes fora.
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Rb
Parabéns pelo Blog.
Muito bacana o texto e deixa uma margem gigante para belíssimos comentários.
Muito bacana a idéia.
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