REFUNDAÇÃO E FMI
A “refundação” agora lançada à discussão destina-se, pelo que dizem, ao estudo, prioritário
e urgente, do que serão as funções do Estado
que queremos.
Trata-se, pois, de definir o núcleo essencial de um programa político que
eu julgava em estudo adiantado e pronto a entrar em execução, controlada que
fosse a crise das finanças.
Para isso, como venho dizendo há muito, é que as crises devem ser
aproveitadas: o que então se estuda e projecta é a luz ao fundo do túnel.
Foi em plena 2ª Guerra que a Grã Bretanha estudou e projectou o NHS e o
“Welfare State”, foi em 45 que a França, destroçada, humilhada e vencida,
lançou o “État social”, foi, agora, que Barack Obama, em plena crise
financeira, com duas ou mais guerras
entre mãos e um desemprego enorme, mete ombros à criação de um Sistema de Saúde
para todos os americanos.
Em Portugal, esta decisão só peca por tardia e pela recusa, qual virgem
ofendida, do Partido Socialista, que não vai ao baile e já disse que não aceita
que a nossa política social seja minimamente tocada!
Afundou o país e quer enterrá-lo, afirmando que foi o atual governo que o
matou, típico comportamento irresponsável, comum na democracia partidária que
nos pastoreia em que o partido é mais que o país.
Mas também não entendo bem, e espero melhores explicações a breve trecho, o
que é isto do apoio técnico do FMI.
Somos nós, portugueses e só nós, que temos que definir que política
queremos, que regimes consente, que programa vamos seguir sufragado pelo
eleitorado.
Os nossos compromissos internacionais são com os Estados, definidos pelos acordos
assinados, pelas deliberações conjuntas que assinamos, pelos princípios e
comportamentos que publicamente anunciamos, subscrevemos e praticamos.
E é sobre este conjunto de factos políticos que se vão estruturar as
funções e responsabilidades dos Governos e se definem em Constituição os grandes princípios políticos
e morais que decidimos respeitar.
Que é que faz aqui o FMI?
O que é o seu apoio técnico?
Será que é ele que vai dizer ao Governo, a Portugal, que não podemos gastar
mais do que 1, ou 5, ou 10 % do PIB com a Saúde, ou que devemos autorizar a
eutanásia?
Por favor expliquem-se.
Para já, arrepiei-me ao ler que uma das medidas de “refundação “poderá ser
a privatização dos” Centros de Saúde”
Será isto baseado num parecer “técnico” do FMI?
Portugal é invejado e louvado pela organização em carreiras e especialidade
de Medicina Familiar da rede de ambulatório do S N S ( Serviço Nacional de Saúde).
São os (CS) Centros de Saúde e as USF ( Unidades de Saúde Familiar) que as populações defendem e exigem e onde
médicos e enfermeiros especializados, trabalhando em equipa com os outros
profissionais de saúde (administrativos, técnicos, etc.) atendem em milhares de
zonas de atendimento toda a população beneficiária do SNS que é, como sabemos,
toda a população portuguesa e imigrada.
Nem a Grã-Bretanha que nos serviu de modelo, nem os serviços de saúde
franceses ( os mais caros da Europa) têm organizados em carreiras de Estado os
seus serviços de ambulatório.
É a esta rede e às suas equipas que Portugal deve os índices sanitários
superiores à media da Europa, gastando, no entanto, na Saúde menos que os
países seus parceiros na U.E.!
E mais uma vez saúdo o Ministro da Saúde, Dr Paulo Macedo, porque vindo de
fora da área da saúde, convidado para ajustar as contas e o financiamento,
cortar gorduras e aumentar receitas, tem sabido proteger o mais possível os
doentes, procurando em fornecedores, laboratórios farmacêuticos e gestão
controlada dos serviços, o essencial das
poupanças possíveis.
Tornou a vida muito difícil às Farmácias, à indústria, aos fornecedores,
mas tudo fez para poupar o doente, não perdendo de vista que este é o centro e
razão de ser do sistema.
Mas não só se tem mostrado hábil gestor económico e corajoso negociador, como
tem sabido arbitrar os erros de alguns responsáveis, repondo o SNS, as suas
carreiras e as perspetivas futuras do sistema público de saúde, no caminho que
vinha a ser traçado há trinta anos e que os governos dos últimos dez anos
estavam a destruir.
Por isso vale a pena, pelo problema em si e pela existência de um bom Ministro que sabe ouvir, debruçarmo-nos um pouco mais
profundamente sobre o problema da saúde no
Portugal contemporâneo.
Até para o ajudarmos nas difíceis conversações em que vai participar.
10 comentários:
Caro Dr. Paulo Mendo,
Parabéns.
Está em grande forma.
E agora já está tudo perfeito. Parabéns também por ter conseguido pôr o título.
Abçs.
PA
Encómios à parte à classe do partido a que pertence e que nos vai desgovernando, toca em dois pontos fulcrais:
1 - A falta de legitimidade política e democrática do actual governo para, a mando do FMI, e sem consulta popular, desmantelar o Estado Social e o serviço social de saúde.
2 - A defesa dos (CS) Centros de Saúde e as USF ( Unidades de Saúde Familiar) como eixoe strutural do SNS e cuha privatização não faz sentido.
3 - A visão economicista na saúde conduzirá á eutanásia institucionalizada de velhos e doentes com doenças graves ou altamente dependentes. Se a base de um SS passar a ser os lucros (apetecíveis) dos privados no mercado da saúde, há muitos doentes não dão lucro , só prejuízo.
Sabendo da ciganice tuga, é mesmo de arrepiar essa da privatização dos centros de saúde.
Caro Dr. Paulo Mendo,
Excelente contributo.
ABÇ
Onde está o título?... Où est le title?... E o PA? Diz que já há título! E onde está? No texto. É onde está! -- JRF
O que faz aqui o FMI... Faz aquilo que os portugueses não puderam, quiseram ou souberam fazer... parece-me tarde para perguntas retóricas... Ainda no tempo Sócrates se devia ter perguntado isso, a crise já grassava e de um modo lesivo eles continuaram... E algumas pessoas perguntaram e avisaram, mas ninguém quis saber... Os mais escandalizados de hoje, foram os que menos quiseram saber... -- JRF
Não. A questão não é o que faz o FMI para emprestar dinheiro. É o que faz na dita reforma do Estado que parece vir a ser coisa que nem a Tatcher fez.
“… Sendo assim, não é sem fundamento o facto de as pessoas se perguntarem umas às outras, antes de qualquer coisa, pelo estado de saúde e desejarem mutuamente o bem-estar. Pois realmente a saúde é, de longe, o elemento principal para a felicidade humana. Por conta disso, resulta que a maior de todas as tolices é sacrificá-la, seja pelo que for: ganho, promoção, erudição, fama, sem falar da volúpia e dos gozos fugazes. Na verdade, deve-se pospor tudo à saúde.”
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'
O mínimo que se pode dizer do Dr. Paulo Macedo, é que Portugal precisava de homens desta categoria à frente de cada um dos seus Ministérios.
ligando com o preço justo : um alemão quando vai a uma consulta de especialidade no privado larga que percentagem do ordenado mínimo nacional alemão ? gostava mesmo de saber se larga entre um quarto ou um quinto como o português. quanto custa uma consulta no privado na Alemanha ? alguém sabe?
Marina:
Boa questão. Na alemnha não sei, mas ainda este mês paguei uma consulta no privado em França (medicina geral) e paguei VINTE EUROS.Ah e o preço dos medicamentos é muito mais baixo que em Portugal.
O salário mínimo em França é de 1.425,67 euros.
Ainda ontem em conversa com um amigo médico de clínica geral num CS da zona de Lisboa ele me dizia que a maior partde dos seus doentes não tem dinheiro para pagar medicamentos. Alguns, nem para comer.
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