30 abril 2011

a relação com o dinheiro



Os estudiosos ou meros observadores dos países de cultura católica, como Portugal, têm notado a dificuldade que os povos desta cultura têm na sua relação com o dinheiro, sem que eles próprios - frequentemente economistas e outros cientistas sociais oriundos de países protestantes - consigam deslindar esta relação.

Para o economista típico americano ou inglês, esta relação dos católicos com o dinheiro é um mistério difícil de desvendar. Primeiro, porque a cultura católica é uma cultura complexa na aparência (embora muito simples na realidade). É uma cultura onde nada daquilo que parece é. É uma cultura de aparências, uma cultura muito diferente da cultura protestante donde eles vêm, em que a aparência e a realidade são em geral coincidentes (o valor protestante da transparência).

Segundo, porque a cultura católica é uma cultura onde as pessoas são muito diferentes umas das outras (o valor católico do personalismo), ao contrário da cultura protestante onde elas tendem a ser todas iguais. É claro que, por virtude disto, fica muito mais difícil fazer ciência social e formular leis da sociedade, numa sociedade de cultura católica do que numa sociedade de cultura protestante. A generalização, que é essencial à lei social, corre o risco de não ser válida numa sociedade de cultura católica.

Tendo no espírito estas duas dificuldades, qual é então a relação dos católicos com o dinheiro? O assunto é vasto e eu só posso neste post tocar num aspecto, deixando outros aspectos para tratamento posterior.

Primeira observação: há de tudo. Numa sociedade de cultura católica - Portugal pode ser tomado como exemplo -, há de tudo, desde pessoas que não vivem absolutamente pelo dinheiro, que não querem saber do dinheiro, até ao outro extremo de pessoas que fazem tudo por dinheiro, ou que não fazem nada a não ser por dinheiro. Entre estes dois extremos, encontra-se depois todo o tipo de pessoas, pessoas representando cada um dos pontos do espectro.

Levar uma vida independentemente do dinheiro e sem ser pelo dinheiro, trabalhar sem ser por dinheiro, mas por vocação, por gosto, pelo sentimento do dever, por devoção, seja porque motivo fôr - desde que não seja pelo dinheiro - é uma característica da elite, e que encontra o seu paradigma na figura do padre católico.

Pelo contrário, trabalhar pelo dinheiro, não fazer nada a não ser pelo dinheiro, viver a vida pelo dinheiro, é uma característica do povo e que se exprime no povo com vários graus de intensidade. Não existe num país de cultura católica nada que não se venda e não se compre. Basta consultar a secção de anúncios de um jornal popular num país desta cultura, incluindo a secção de Relax, para ver que assim é. Mas não se pense que as coisas ficam por aí. Se alguém quiser comprar uma mãe, deve procurar num país de cultura católica porque acabará por encontrar alguém que esteja disposto a vender a sua.

Aqui surge o primeiro paradoxo para os cientistas sociais que estudam a cultura católica, que é o paradoxo de que a Igreja é rica nesses países enquanto o povo é, geralmente, pobre. Na realidade, a Igreja Católica, com o seu vastíssimo património imobiliário, é a instituição mais rica do mundo, e no entanto, os homens que a compõem não podem viver pelo dinheiro. Esta é uma cultura em que a corporação feita por homens que não trabalham por dinheiro é rica, enquanto o povo, que, em vários graus, não mexe uma palha a não ser por dinheiro, é geralmente pobre. O paradoxo, porém, é fácil de desvendar. Parece complexo mas é simples, como tudo na cultura católica.

Existe um livro de um autor americano ("Rich Dad, Poor Dad"), que está traduzido em português ("Pai Rico, Pai Pobre") em que o autor conta como o seu pai natural o educou a nunca fazer nada a não ser por dinheiro - e, não obstante, o seu pai (o pai pobre) nunca conseguiu enriquecer. Pelo contrário, o pai de um amigo, ensinou-lhe que nunca devia fazer nada na vida por dinheiro, devia fazer por gosto, por vocação, por se sentir bem consigo próprio e com os outros, porque o dinheiro depois vinha atrás. Este homem, (o pai rico) tinha enriquecido.

Ora, esta é precisamente a lição que a Igreja Católica tem dado ao longo de séculos, mas que o povo católico nunca aprendeu. Quem quiser enriquecer deve fazer como os padres, trabalhar sem ser pelo dinheiro, por gosto, por vocação, por entrega aos outros, porque o dinheiro depois vem atrás. Pelo contrário, quem trabalhar por dinheiro e só por dinheiro, como o povo faz, nunca vai enriquecer.



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