08 novembro 2008

almoçarada


Eu gostaria neste post de descrever as reacções da cultura católica e da cultura protestante às ofensas pessoais. Suponho ao longo de todo o post que as ofensas são verbais.

Começo pela cultura católica. Um homem ofende outro por palavras. A reacção do ofendido é geralmente pronta e intempestiva reciprocando as ofensas. Se a cena ocorre em lugar público, o povo acorre para assistir ao espectáculo. A pose serena do povo, homens de mãos atrás das costas, mulheres atraídas pela curiosidade, sugere desde logo uma tempestade num copo de água e que tudo irá acabar bem.

Na realidade, passadas umas semanas, ocasionalmente uns meses, um amigo comum dos intervenientes arranja uma almoçarada. Quando a almoçarada termina, ofensor e ofendido abraçam-se fazendo as pazes, numa cena emocional que envolve abraços, frequentemente beijinhos, e uma inevitável choradeira.

Por detrás deste aparente happy ending esconde-se um grave custo social. O ofensor vai seguir pela vida fora a ofender facilmente quem lhe aparece pela frente porque sabe que, daqui por uns meses, tudo vai acabar em bem, numa grande almoçarada, e em abraços, em beijinhos e na inevitável choradeira. A ofensa pessoal converte-se num traço dominante e permanente desta cultura.

Passo agora à cultura protestante. A primeira diferença é a de que o ofendido, em geral, não reage imediatamente. Pelo contrário, fica por vezes longos meses, até anos, a suportar o abuso do ofensor just to make sure he means it. É somente ao cabo de muito tempo, depois de se certificar que o abuso é pretendido, certo e continuado que o ofendido decide reagir. Ao contrário da cultura católica, a reacção não tem agora nada de emocional. Pelo contrário, é cerebral e planeada, e traduz-se em acção decisiva, frequentemente violenta e às vezes fatal, e que só termina quando o ofensor é aniquilado ou mostra arrependimento e pede perdão.

Não surpreende que a ofensa pessoal não faça parte do quotidiano das sociedades de cultura predominantemente protestante.

Gostaria de ilustrar com dois exemplos, ambos do domínio público. No início dos anos 80, vivendo na Amériva do Norte, pude assistir em directo pelos media a um espectáculo inusitado. Kadaffi, o Presidente da Líbia, quase todos os meses, ou mesmo semanas, vinha a público provocar os EUA. Era Presidente Jimmy Carter. As provocações incluiam ameaças como as de colocar bombas nas ruas de Nova Iorque. Este estado de coisas prolongou-se por cerca de dois anos. Perante as ameaças de actos de terrorismo, era patente a apreensão das pessoas.

Entretanto, Reagan sucedeu a Carter. Kadaffi ainda teve tempo para fazer mais duas ou três provocações, mas já não teve tempo para a seguinte. Um belo dia, no mais completo segredo, Reagan deu ordem à força aérea para fazer um raid sobre Tripoli tendo como alvo preferencial o palácio presidencial. Morreram várias pessoas, incluindo uma filha de Kadaffi. Foi remédio santo. Kaddafi nunca mais provocou.

Sorte diferente não teve Saddam Hussein. No final dos anos 80 as provocações aos americanos eram permanentes e reiteradas. A reacção americana ocorreu finalmente quando ele decidiu invadir o Kuwait. As tropas americanas libertaram primeiro o Kuwait e, naturalmente - of course -, encaminharam-se para Bagdad para acabar o serviço. Foi o Presidente Bush (pai) que se opôs, ordenando o regresso imediato das tropas, numa decisão que gerou grande constestação dentro da própria administração e do partido republicano. Mas foi uma questão de tempo. Anos mais tarde seria o Presidente Bush (filho) a concluir o serviço deixado incompleto pelo pai.

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