Uma das maiores surpresas que eu tive nos EUA foi constatar que muitos dos vícios mediterrânicos também por lá verdejavam. Esta surpresa surgiu do facto de eu ter uma imagem preconcebida da América que resultava apenas de conversas de café. Para vos dar um exemplo, considerem apenas a inveja.Pensava eu (há 30 anos) que os portugueses eram mais invejosos do que os norte-americanos e até contava aquela velha anedota dos tipos que vêem o patrão passar num Rolls-Royce e o português dizia com os seus botões: Hei-de lhe furar os pneus; enquanto o americano dizia, daqui a uns anos hei-de ter um melhor.
Na realidade, constatei que as manifestações de inveja eram similares na Europa e nos EUA. E se alguma diferença existe é que talvez seja mais aguda nos EUA, o que se compreende talvez pela maior desigualdade. Enquanto em Portugal a inveja se dirige mais a bens de consumo, nos EUA engloba também o aspecto físico, talentos particulares, etc.
Registei com surpresa que nos EUA se chega a associar, por exemplo, um QI elevado a tendências anti-sociais. He is soooo smart, he must be a crook! Ele é tãoooo inteligente que deve um vigarista! Surpreendidos? Também eu.
Esta ingenuidade devia-se ao meu desconhecimento da natureza humana. Depois de exercer medicina nos EUA durante muitos anos, desenvolvi um entendimento sobre a natureza humana que é um denominador comum das minhas experiências em dois continentes.
A única diferença que consigo detectar é o modo como as duas populações lidam com a inveja. Em Portugal muitos ignoram a existência da inveja e pensam que vivem num mundo ideal, sem sentimentos negativos. Na América, quase todos conhecem os sentimentos negativos e lidam com eles com mais realismo.
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