31 julho 2007

dos quatro costados

Quando Descartes declarou que a partir daquele momento ele não iria acreditar em nada que não pudesse ser demonstrado pela sua própria razão, tornando-se o pai do racionalismo, dos philosophes e da ciência moderna, foi um grande momento na história da civilização cristã. Pela primeira vez, uma grande civilização na história da humanidade tinha habilitado o homem comum a pensar pela sua própria cabeça.

A humanidade cristã entrou, então, numa idade da qual, na sua maioria, nunca mais se libertou, e uma idade de perpétua criancice - a idade dos porquês: "Mãe, porque é que os pássaros têm asas?", "Pai, porque é que usas gravata?". As primeiras vítimas do racionalismo cartesiano foram a religião, a cultura e mais geralmente o passado. Descartes, que foi um homem viajado, apercebeu-se que os costumes, a religião, enfim, a cultura de um povo influenciavam decisivamente a forma como as pessoas pensavam. Na sua ânsia de chegar a uma razão universal, a cultura e o passado tornaram-se os principais inimigos a abater.

Descartes é o primeiro construtivista e o pai de todos os construtivistas, o homem pronto a deitar abaixo tudo aquilo que é herdado do passado e a construir de novo o homem e a sociedade a golpes da razão humana. Porém, este racionalista dos quatro costados, nunca se questionou como é que a humanidade passada, que ele tanto desprezava, tinha conseguido chegar até ele em condições razoáveis de sobrevivência e até de prosperidade. Se o tivesse feito, talvez ele tivesse descoberto que as crenças que ele considerava irracionais eram, em muitos casos, perfeitamente racionais, e sem elas, não apenas ele nunca teria existido, mas a humanidade, ela mesma, há muito que se teria extinguido.

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